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segunda-feira, 6 de julho de 2009

missão: personagens III


Pela rua estreitinha, de casinhas branquinhas e baixinhas, de janelinhas com rendinhas e vasinhos de florinhas amarelinhas, vinha subindo eu, serena e orgulhosa, com a pauta de notas da Beatriz nas mãos.
Eis que ele me surge na sua janela aberta de par em par e espreguiçando-se num impudico cumprimento, abraçando todo o planeta terra, emite um sonoro aiiiiiiiiii e saúda a vida.
Talvez perturbado, por ter dado pela minha repentina presença,
numa altura íntima da sua rotina matinal, diz-me atrapalhado, bom dia! E eu, que nunca fui rapariga de virar a cara a cumprimentos, nem nada que se pareça e apesar de nunca ter visto o Adérito na minha vida, também me saiu pela boca, bom dia, isso é que foi dormir, ah!
Corou, claro está. Também, quem me manda a mim ter sempre a resposta pronta na ponta da língua?
Exibia para a vizinhança um visual ensonado de olhos estremunhados, cabelo sem pente, agudos vincos vermelhões na face direita, deixados por uma almofada engelhada.
Com o meu carro estacionado a dois metros, deixo-me ficar por ali numa vontade súbita de dar um jeito no porta-bagagens, no porta-luvas, fazer uma selecção aos cd e até sacudir os tapetes, porque não?
Por detrás dos meus óculos escuros, admiro-lhe a camisola de alças donde emergia uma intensa e conturbada cabelagem negra, cuja monotonia cromática era quebrada subtilmente, pelo brilho do crucifixo que trazia na correntinha ao pescoço. Do tempo em que havia madrinhas...
Oh homem, ainda 'tás nesses trajes? Não me queres dar uma ajuda aqui com o estendal?
Era a Alzirinha; a mulher laboriosa com quem casou, que já andava a pé desde o arrebol do crepúsculo e tinha lavado e estendido duas máquinas de roupa e engomado outras tantas; coseu cinco pares de meias, no calcanhar e no dedo grande; fez as camas dos filhos de lavado; limpou o pó a preceito; regou os vasos do quintal; assistiu ao programa da dona Fátima; lamentou-se mais uma vez da telefonia já não dar nada de jeito, como no tempo do senhor Sala e da dona Olga Cardoso; cortou as couves para o caldo verde; chorou de saudades das netinhas emigradas na Venezuela, disse olá à velhota do lado e que, num tarda nada já lhe levo as sopinhas de leite; ajeitou a roupa para o seu Adérito vestir; amanhou as pescadinhas de rabo na boca para o almoço e maravilha das maravilhas: cortou os coentros fininhos, fininhos para juntar ao arroz de feijão, que já apurava no fogão.
E é quando o cheirinho do tacho da Alzira fluindo pela janela, esquecida escancarada pelo meu amigo Adérito, que o descalabro se dá, e a minha imaginação inicia o seu verdadeiro processo criativo.
No meio do meu turbilhão de imagens gastronómicas em 3D, onde abundavam suculentas pataniscas de bacalhau, arrozinho de tomate, peixinhos da horta (oh meu Deus, o que eu tenho em consideração os peixinhos da horta!), jaquinzinhos fritos, costeletinhas de borrego grelhadas, batata albardada; salada de pimentos; morcela de arroz; linguiça frita; broa de milho; azeitonas com orégãos; queijo seco amantizado no colorau; papos-de-anjo; trouxa-de-ovos; pudim de Abade de Priscos; toucinho-do-céu e glaciais copos de sangria tinta, ainda consegui ouvia-la exclamar, oh filho, tu corre-me lá dentro e baixa o lume, que ainda se nos queima o almocinho.
Oh menina, oh menina, sente-se bem? Era a Alzira, coitada; aflita com o escancarar das minhas narinas na direcção da sua janelinha, com vidraça de rendinhas, enfeitada com vasinhos de florinhas amarelinhas.
Solícita, levou a mão ao bolso da bata de axadrezado miudinho e retirou de lá um lencinho de um branco impoluto, com que limpou a saliva que ainda me escorria da boca e gritou para dentro de casa, Adérito filho, traz um copo de água com açúcar e avia-te homem, que aqui a menina 'tá sem cor!
Acabei sentada na salinha da família, a recompor-me do fanico gastronómico. Observei a colecção de elefantes de porcelana azul e branca, que num crescendo de seis peças, enfeitavam o topo do televisor (ao terceiro e ao quinto, faltavam-lhes a tromba, e o primeiro e o último tinham uma pata lascada), passei as mãos pelos naperons de croché, enroscados com amor nos braços do meu sofá de veludo verde, elogiei para dentro, a inexistência de um único grão de pó nas camélias de plástico, deleitei-me pela segunda vez e agora mais calma, com o cheirinho emanado da cozinha da Alzirinha, aceitando desde logo o convite para o almoço, devia comer qualquer coisinha menina, está tão pálidazinha ... olhe que lhe fazia bem.
Mas principalmente, renovei um princípio e uma ideia antiga de admiração, de muito respeito e alguma comoção perante a genuína simplicidade dos outros.

Só recusei a bebida incolor servida num cálice riscado, que o Adérito cognominou de cheirinho.

personagens I e I I