Maria Apolónia nasceu do outro lado do mundo, em Melbourne. Filha de emigrantes portugueses na Austrália que para lá partiram atrás da vã fortuna, mas deixando em Lisboa o coração.
Quando o marido morreu, a mãe resolveu pegar na trouxa e nos filhos, regressando à pátria no primeiro barco.
Maria Apolónia tinha somente a instrução primária, mas como dominava a língua inglesa, arranjou facilmente emprego como mulher a dias na casa de um poeta, que vivera muitos anos na África do Sul e que engraçou com o sotaque dela.
Gostava muito do seu novo trabalho, o patrão pouco mais lhe exigia do que manter a casa limpa e a roupa devidamente tratada. Com as refeições não se preocupasse, pois ele comia quase sempre fora de casa. Só lhe impunha uma rigorosa e única condição; que não tocasse nunca nas centenas de papéis que tinha espalhados pela casa. Era uma espécie de biografia dele, e de um tal de Bernardo e não podia perder nem uma folha.
Credo Sr. Pessoa, Deus que me livre tocar nessa papelada toda cheia de letrinhas inclinadas! Nem eu saberia dar ordem a tanta folha e depois, ainda ficava para aqui com o coração num Desassossego!
Maria Apolónia tinha o patrão como um homem muito educado e calado, tímido até, mas quando recebia os amigos e se fechavam todos no escritório, aquilo eram discussões de meia-noite, vozes alteradas, discursos inflamados, declamações poéticas, enfim, um ror de conversas exaltadas. Como é que um homem tão pacato, se identificava com amigos tão barulhentos e contraditórios?
Muitas vezes diziam palavras e frases que ela não entendia, pois nunca as tinha ouvido na vida, como metafísica, filosofia, engrenagem, via láctea, infausta esfinge, embalsamar ou subjectividade objectiva. Mas noutras alturas, Maria Apolónia compreendia tudinho e até apontava na lista de compras de tão bonitas que eram as expressões que escutava; querer mais é perder isto, Tejo e tudo, todos os sonhos do mundo, verdes campos, os paquetes que entram de manhã na barra, coroai-me de rosas e de folhas breves, a natureza é partes sem um todo e o menino Jesus adormece nos meus braços.
Nunca vira os amigos do senhor Pessoa, quando ela pegava ao serviço eles já lá estavam trancados no escritório com o patrão. Mas sabia identificar cada um deles com todos os pormenores, como se lhes tivesse posto a vista em cima, com os dois que a terra haveria de lhe comer.
O senhor Álvaro era o mais exaltado e parecia-lhe que nunca se sentia bem em lado nenhum, tanta era a refilice. No entanto, achava-lhe alguma piada porque ele dizia muitas palavras em inglês que mexiam com as suas memórias. Passeava-se bastante pela capital, Lisboa Revisited, como ele gostava de repetir sem se cansar e fregueses como ele, também devia haver muito poucos, pois gastava sempre, sempre na mesma Tabacaria.
Era um pouco cínico e até houve aquela vez, que troçou das cartas de amor que o senhor Pessoa escrevia à sua amada, a menina Ofélia, chamando-lhes de Ridículas! Mas se o patrão não se ralava, também não era ela que se ia incomodar com o assunto.
Ao médico, o senhor Ricardo, achava-o muito gentil e tinha a certeza que ele sentia uma enorme paixão pela botânica, pois falava muito de flores, grinaldas, folhas, primavera, magnólias e a sua voz enchia-se sempre que falava de rosas. Ou se calhar, arranjara um namorico com alguma vendedeira da ribeira. Fosse o que fosse, os outros chamavam-lhe de bucólico e quem era ela para os contradizer.
Mudou-se para o Brasil, que aquilo de repúblicas não era nada com ele. Nunca, mas nunca mais soube nada do senhor doutor, nem sequer quando morreu.
E o senhor Alberto?
Ai o senhor Alberto... que criatura encantadora! O que Maria Apolónia o venerava.
Via-se logo que era um homem simples, mas todos lhe tinham grande respeito, ah pois! Mal ele começava com aquelas poesias sobre os pastorinhos e os rebanhos, fazia-se um silêncio profundo naquela casa e as suas palavras ecoavam por todo o bairro. Maria Apolónia é que não era mulher dada a ocultismos e astrologias como o senhor Pessoa, senão, até podia jurar que aqueles versos iriam voar através dos tempos.
Conseguia imaginar a cara de espanto daqueles amigos, fechados no escritório e deliciados a escutar tamanha beleza.
Era um Mestre o senhor Alberto, oh se era!
Maria Apolónia tinha somente a instrução primária, mas como dominava a língua inglesa, arranjou facilmente emprego como mulher a dias na casa de um poeta, que vivera muitos anos na África do Sul e que engraçou com o sotaque dela.
Gostava muito do seu novo trabalho, o patrão pouco mais lhe exigia do que manter a casa limpa e a roupa devidamente tratada. Com as refeições não se preocupasse, pois ele comia quase sempre fora de casa. Só lhe impunha uma rigorosa e única condição; que não tocasse nunca nas centenas de papéis que tinha espalhados pela casa. Era uma espécie de biografia dele, e de um tal de Bernardo e não podia perder nem uma folha.
Credo Sr. Pessoa, Deus que me livre tocar nessa papelada toda cheia de letrinhas inclinadas! Nem eu saberia dar ordem a tanta folha e depois, ainda ficava para aqui com o coração num Desassossego!
Maria Apolónia tinha o patrão como um homem muito educado e calado, tímido até, mas quando recebia os amigos e se fechavam todos no escritório, aquilo eram discussões de meia-noite, vozes alteradas, discursos inflamados, declamações poéticas, enfim, um ror de conversas exaltadas. Como é que um homem tão pacato, se identificava com amigos tão barulhentos e contraditórios?
Muitas vezes diziam palavras e frases que ela não entendia, pois nunca as tinha ouvido na vida, como metafísica, filosofia, engrenagem, via láctea, infausta esfinge, embalsamar ou subjectividade objectiva. Mas noutras alturas, Maria Apolónia compreendia tudinho e até apontava na lista de compras de tão bonitas que eram as expressões que escutava; querer mais é perder isto, Tejo e tudo, todos os sonhos do mundo, verdes campos, os paquetes que entram de manhã na barra, coroai-me de rosas e de folhas breves, a natureza é partes sem um todo e o menino Jesus adormece nos meus braços.
Nunca vira os amigos do senhor Pessoa, quando ela pegava ao serviço eles já lá estavam trancados no escritório com o patrão. Mas sabia identificar cada um deles com todos os pormenores, como se lhes tivesse posto a vista em cima, com os dois que a terra haveria de lhe comer.
O senhor Álvaro era o mais exaltado e parecia-lhe que nunca se sentia bem em lado nenhum, tanta era a refilice. No entanto, achava-lhe alguma piada porque ele dizia muitas palavras em inglês que mexiam com as suas memórias. Passeava-se bastante pela capital, Lisboa Revisited, como ele gostava de repetir sem se cansar e fregueses como ele, também devia haver muito poucos, pois gastava sempre, sempre na mesma Tabacaria.
Era um pouco cínico e até houve aquela vez, que troçou das cartas de amor que o senhor Pessoa escrevia à sua amada, a menina Ofélia, chamando-lhes de Ridículas! Mas se o patrão não se ralava, também não era ela que se ia incomodar com o assunto.
Ao médico, o senhor Ricardo, achava-o muito gentil e tinha a certeza que ele sentia uma enorme paixão pela botânica, pois falava muito de flores, grinaldas, folhas, primavera, magnólias e a sua voz enchia-se sempre que falava de rosas. Ou se calhar, arranjara um namorico com alguma vendedeira da ribeira. Fosse o que fosse, os outros chamavam-lhe de bucólico e quem era ela para os contradizer.
Mudou-se para o Brasil, que aquilo de repúblicas não era nada com ele. Nunca, mas nunca mais soube nada do senhor doutor, nem sequer quando morreu.
E o senhor Alberto?
Ai o senhor Alberto... que criatura encantadora! O que Maria Apolónia o venerava.
Via-se logo que era um homem simples, mas todos lhe tinham grande respeito, ah pois! Mal ele começava com aquelas poesias sobre os pastorinhos e os rebanhos, fazia-se um silêncio profundo naquela casa e as suas palavras ecoavam por todo o bairro. Maria Apolónia é que não era mulher dada a ocultismos e astrologias como o senhor Pessoa, senão, até podia jurar que aqueles versos iriam voar através dos tempos.
Conseguia imaginar a cara de espanto daqueles amigos, fechados no escritório e deliciados a escutar tamanha beleza.
Era um Mestre o senhor Alberto, oh se era!
