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terça-feira, 31 de março de 2009

palitar

foto toothpicks cube

É um esmiuçar a fundo, um esgravatar com rigor na busca de pedaços moribundos, que quando se alcançam por fim, atinge-se uma sensação de vitória, de missão cumprida. Alívio.
Perfeitamente compreensível este estado de consolação, que se obtém com o prazer do palitar e não, nada tem de repulsivo, pois a procura exaustiva de defuntos fragmentos em cavidades íntimas, mais não é, que uma tentativa puramente cultural de aproximação a ancestrais rituais indígenas, isto é, o ensaio de tornar a dar vida ao que já se foi.
A fracção de comida putrefacta presa entre dois molares cariados, emite uma mensagem de angústia claustrofóbica, e é então que o proprietário da cavidade bocal, perante a agonia da prisão e o desejo de liberdade daqueles restos mortais de bife, desespera.
A sua coerência é rapidamente toldada e a ele qualquer frágil lima de unhas, encerra em si a capacidade de serrar o ferro das barras da cela. Entrega-se ao momento numa dedicação única e torna-se um expert no manejo do simplório palito de madeira, acreditando ser capaz de um eficaz e complexo tratamento de higienização, desvitalização e quiçá ortodontia, à laia de pé de cabra.

Ahhhhh, rumoreja satisfeito.
O protagonista deste espectáculo descai agora da cadeira, encosta-se em jeito de sesta domingueira e de palito ao canto da boca que dança mais calmo, para baixo e para cima, arrota fundo e finalmente realizado.

segunda-feira, 23 de março de 2009

porcos, feios e maus


Na disciplina de História, aprendíamos as características das várias classes sociais: povo, burguesia, clero e nobreza. Hoje em dia muitas mais existem; a classe dos condutores, dos políticos, dos fãs de hipermercados, das toupeiras dos centros comerciais, dos consumidores de junk food, dos pais demissionários, a malta do futebol e venha o Diabo e escolha.
Poucas coisas me repugnam mais em Portugal, do que o mundo do futebol. Não há quase nada, ou quase ninguém que escape.
Para já é um 'desporto' para maricas, pieguinhas e meninos da mamã mimados e malcriados. Fiteiros de primeira, passam a vida no chão aos gritos, agarrados ao tornozelo, a escarrar para o ar, a berrar palavrões, a pregar rasteiras ao adversário e a crescer para cima do árbitro.
Dão socos nos árbitros nos mundiais, cospem na cara do adversários em frente às câmaras, insultam os adeptos com as mãos, atiram medalhas e taças para o chão, racham cabeças, provocam lesões graves intencionalmente, espetam murros aos seleccionadores se não os convocam e depois como castigo, ficam sem jogar dois ou três joguinhos, vão para a comunicação social mandar bocas e são os heróis dos seus adeptos mentecaptos.
Têm um óbvio problema com disciplina, formação básica e profissionalismo. São o exemplo perfeito para mostrarmos aos nossos filhos e daí eu ser apologista o mais possível, de que se leve cada vez mais as criancinhas ao futebol. Não existe ecossistema melhor, para a formação do Homem.
Burgessos ao mais alto nível, não há como eles para saber como misturar em harmonia a enorme fivela do cinto Dolce e Gabbana, com um cap Gucci, uns jeans Armani e um polo Ralph Lauren.
Os treinadores idem. Na maioria são uns incompetentes com o rei na barriga, incitadores a desavenças, antipáticos, com um nível de formação no mesmo patamar dos seus pupilos, quase nenhum tem um penteado que se aproveite e falam um dialecto estranho, quase incompreensível.
São sempre os primeiros a falar do árbitro, mesmo que o jogo ainda não tenha sido realizado.
Depois a subclasse de presidentes de clubes, dirigentes de federações, de ligas e ligas e ligas e mais ligas.
Cambada de corruptos, mentirosos e impostores, novos ricos, histéricos, palhaços de passado suspeito, com pretensões campónias de governarem uma mini-nação, só porque na escola básica nunca foram escolhidos para delegados de turma e não faziam parte da equipa de futebol, lá do campo de terra.

Passam a vida a ser investigados pela judiciária, fogem do país porque têm informadores no local e na hora certa, passeiam no estrangeiro à vontade, confiscam-lhes bens, vão a tribunal e escapam sempre, mais uma vez ganhando o papel de heróis exemplares perante a obcecada tropa de adeptos.
Os árbitros têm um ar de infelizes que até metem dó. Têm medo dos jogadores, medo dos treinadores, medo dos jantares pagos com os dirigentes dos clubes, ou com os seus mandantes, medo de apitar, medo dos cartões, medo de pisar a relva, medo das 'luvas', medo dos outros árbitros, medo dos adeptos, medo de voltar aos balneários, medo de ir para casa, medo de atenderem o telemóvel, medo de receberem uma sms. Medo, muito medo.
E os jornalistas que entrevistam os jogadores logo a seguir ao jogo? E o comportamento primata dos adeptos, quando após um jogo vêem uma câmara de televisão ou alguém de microfone em riste? E a violência das claques, digna de qualquer guerra de ódio mortal e cego? E os seus cânticos, de fazer inveja ao PNR? E as gordas dos jornais desportivos? E as mortes nos estádios? E quando o início de um telejornal nacional, é uma vulgar notícia sobre futebol?
E finalmente, a creme de la creme: os comentadores desportivos. Mas haverá programa mais desprezível, abjecto, qual varinas na praça, do que aqueles que falam horas a fim, sobre os jogos de futebol?
E gritam, e insultam-se, e zangam-se a sério, e vêem imagens que mais ninguém vê, e sonham, e deliram, e acreditam no que estão a vociferar e são pagos! E são ouvidos! E têm audiências!
E usam gravatas da cor do seu clube! Meus Deus, gravatas da cor do clube!

Oh eruditos colóquios de taberna, nas tardes de domingo, voltem que estão perdoados.

terça-feira, 17 de março de 2009

rosa

foto fanciful twist

Há muitos anos que não vejo telejornais e se eles, matreiros, me apanham distraída e se intrometem no meu caminho, troco-lhes as voltas, tiro-lhes o som, ponho alto um cd, mudo de canal, desligo a televisão.
Esta minha negação assumida, de impedir que a realidade me entre pela vida adentro a toda a hora e sempre que lhe apetece, faz-me recordar a Rosa das saias de folhos.
Era uma 'maluquinha' que durante muitos anos passava à porta da nossa casa, rindo sempre alto, tinha conversas desconexas consigo mesma, criava vozes, respondia-se, dançava à volta das crianças, abraçava os animais, nunca fez mal a uma mosca.
Vestia sempre compridas e rodadas saias de folhos, lenços no cabelo, colares de mil voltas e pulseiras barulhentas. Toda ela era uma festa.
Nunca ninguém a evitou, teve medo dela, enxotou ou sequer lamentou. Rosa era quase igual a todos que morávamos naquela rua, com a única diferença de que era mais feliz que nós. Mas pouco ou nada a entendíamos.
Um dia regressou de um dos seus habituais períodos de internamento, totalmente diferente.
Depois de uma crise mais forte que o habitual, teve de ser medicada com uma dose de peso. Passeava agora na nossa rua de cabeça sempre baixa, roupa discreta e sem folhos, rezava baixinho, não nos conhecia, não brincava com as crianças e fugia dos cães.
Às vezes levantava a cabeça para o céu, andava à roda sem parar e dizia a chorar, ai mundo que não gosto nada de ti desta maneira.
Foi essa a única vez que a percebemos e tivemos pena dela.
E penso que de nós também.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

hoje não escrevinho nada

Escrevinhem vocês.


"A humanidade leva-se demasiado a sério. É esse o problema original do mundo. Se o homem das cavernas soubesse rir, a História teria sido muito diferente".

Lord Henry, in O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

hoje ia falar de doces, mas...

Afsaneh Nowrouzi, sete anos no corredor da morte

Há pelo menos três anos, que me associei ao site oficial da Amnistia Internacional, que na altura uma amiga me enviou de Espanha. Desta forma, através de petições absolutamente acreditadas e sérias, eu pude dar o meu nome, sempre que os direitos humanos estivessem em causa. Hoje chegou-me esta petição, para tentarmos impedir a morte de dez pessoas por apedrejamento, no Irão.
Crime bárbaro em pleno séc. XXI, que é infligido a homens e mulheres casados, acusados de cometerem adultério.

As pedras utilizadas não podem ser nem muito pequenas, para causarem dor, nem muito grandes, para não matarem de imediato o condenado. A intenção não é apenas a morte, mas sim o sofrimento até ela chegar.

Eu já assinei, como assino praticamente todas as petições que me chegam através da Amnistia. Quem quiser poderá fazê-lo aqui.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

politicamente incorrecto

foto tea for purple

'Bora lá falar da tertúlia do D. José Policarpo. Sarilhos, disse o senhor? E disse muito bem! Sarilhos até é pouco, muito pouco.
Penso, é que depois das suas palavras estarem já publicadas na imprensa mundial, tem de se pôr a pau com as perseguições e atentados que podem vir por aí.
A pior crítica que lhe fazem, é ter sido o líder de uma religião, que proclama valores cristãos como amor ao próximo, ter proferido frases 'intolerantes' como: “Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam.”
Pois por ser líder, é que me satisfez aquilo que disse, pois não teve nenhuma intenção de fomentar qualquer quezília.
Devíamos estar fartos de ter medo de desenhar cartoons ou escrever livros sobre Maomé.

Eu falo daqui à vontade; já fui católica, apostólica e romana, sei a Bíblia de trás para a frente e de pernas para o ar, estudei o Alcorão, conheço pensamentos, discursos, lavagens, diálogos, imposições, ideias de amor, actos de misericórdia, filhaputice, padres, freiras, católicos extraordinários, católicos nojentos e católicos assim-assim. Fiz a minha opção em total e livre consciência, quando não gostei mais, afastei-me, pus de lado, apaguei, esqueci.
Conheço com os meus olhos e vivência pessoal, o trabalho de compaixão infinita que levam a cabo, membros e leigos da Igreja Católica, em países e locais deste mesmo Portugal, onde a pobreza é extrema, a miséria total. Sei da dedicação e do amor infinito que essa gente dedica a quem menos tem. Sei dos riscos que correm todos os dias, por só quererem ajudar e como colocam a sua vida em perigo a cada minuto, em troca de nada. Sei de crimes hediondos que a Igreja cometeu, sei dos seus pecados por atitudes cobardes de fechar os olhos à realidade, para proveito próprio, sei de casos de padres que cometeram atrocidades, que nem o Diabo se lembrou delas.
E como sei de tudo isto, como muitos de vocês também sabem, destesto generalismos, saídas de uma só porta ou cegos de olhos abertos.

Não concordo com a posição da igreja face a pontos fulcrais importantíssimos e vitais da nossa realidade, como a homossexualidade, medidas de prevenção da Sida, o papel secundário que concedem à mulher na Igreja e na sociedade, o uso de contraceptivos e muitas outras situações, faladas vezes sem conta em relação à não evolução da Igreja face aos dias que correm.

Onde os críticos de D. José Policarpo, uns racionais e outros falsos moralistas, viram intolerância eu vejo talvez imprudência, mas acima de tudo verdade, realidade e muita lucidez.
Não vejo racismo, preconceito e nada de
intransigência. É a minha opinião, tenho-a muito clara e nem crente, sequer já sou.
D. José Policarpo, que ainda no outro dia disse uma grande bacorada em relação à homossexualidade, que me fez ficar agoniada, a chá preto e bolachas de água e sal, na terça-feira não atirou esta frase da 'cautela' e dos 'sarilhos' para o ar. Não, a frase foi proferida num discurso onde também falou de respeito, diálogo, tolerância e onde prudentemente ainda disse: "Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão? Se queremos dialogar com muçulmanos. temos de saber o bê-a- da sua compreensão da vida, da sua fé. Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar"
. A conversa durou mais de duas horas e foi muitíssimo esclarecedora, mas para variar a imprensa gosta é de parangonas, senão ninguém lhe pega e como o assunto Ronaldo já não estava a dar, toca-lhe de nos 'enfiar' com o patriarca, que sempre dá mais uma polémicazinha.
E o povo, que adora é falar de tudo e de nada, que ama uma boa peixeirada e tem uma varina dentro dele sempre à espera de berrar, engole uma frase e pimba. Eu li por aí, cada interpretação desta tertúlia, mais estúpida, ignorante, falsa e moralista que até nojo me meteu.
A mim, uma quase ateia - se é que isso existe.

Não me venham com discursos de mau exemplo de líder religioso, ideias pré-concebidas de esquerda, frases politicamente correctas ou generalismos de ocasião.
Não o ouvi em toda a entrevista falar em TODOS os muçulmanos, ouvi sim falar de um povo que em levando a sua religiosidade em todos os pormenores da vida, se torna muito difícil de dialogar. Porquê? É alguma mentira? Eu conheço vários, por razões que não vêm ao caso, que são pouco religiosos e que nem à estalada lá vão, tamanha é a tacanhez daqueles cérebros de papa.
Difícil de dialogar é muito leve, impossível é muito mais real.
Portugal não é um país onde se saiba de histórias trágicas de casamentos entre mulheres ocidentais e homens muçulmanos, mas noutros países europeus, como a França, Inglaterra e a Holanda, há em cada esquina histórias de verdadeiros infernos, raptos e até morte, de quem quis escapar e já não o pode fazer.
E muito fácil falar e arranjar argumentos bonitos e decorados, quando a realidade não nos toca minimamente.
Está a fazer-se uma tempestade num copo de água, de uma conversa que demorou horas e onde o respeito pela religião muçulmana nunca, mas nunca foi posto em causa. Este histerismo de algumas frases eloquentes contra o que ele disse, está muito próximo do exacerbo fanático de alguns muçulmanos, que até arrepia.
Os piores são os que aqui dão no cravo e em casa dão na ferradura.
Só faltou mesmo dizerem que o homem tem um jogo das cruzadas medievais na playstation e que tem cromos do El Cid, p' troca com o Papa, quando vai ao Vaticano!

E aqui vai um pouco de tolerância e amor ao próximo, nas palavras do Corão:
Ó vós que credes! Não tomeis os Judeus nem os Cristãos por amigos. Eles são amigos uns dos outros. Aquele de entre vós que os tomar por amigos é um deles. Alá não guia os que praticam o mal (...).
Ó vós que credes! Não escolhais para amigos esses que receberam a escritura antes de vós e os descrentes que fazem objecto de irrisão das vossa crenças (...).
E quanto a esses que dizem: "Olhai! Nós somos Cristãos". Nós fizemos uma aliança mas eles esqueceram a parte em que eram admoestados. Por isso fizemos despertar entre eles a inimizade e o ódio até ao Dia da Ressurreição quando Alá os informará dos seus trabalhos.

Mas quem é que de vocês não ficaria em pânico se a vossa filha lhes aparecesse com um muçulmano em casa a dizer, Mãe este é o Mustafá e vou viver para a Arábia Saudita, onde ele tem uma família imensa e muito unida e depois mudo o nome para Fátima como a mulher do profeta e não sei quando venho ver-vos de novo, porque o Mustafá diz que os voos são muito raros.
Diziam o quê? Inshala?
Por amor de Deus, Alá, Jeová, Buda ou lá quem é que vocês queiram rezar. Eu morria de susto, fazia-lhe uma lavagem ao cérebro com filmes, literatura e exemplos de vida real e não descansava enquanto não a pusesse a milhas do sujeito.
Ai o amor, o amor.. é tão lindo não é? Na ingenuidade da juventude então, até dá direito a ser-se estúpido, ingénuo, crédulo e tudo.

Não vamos também pensar que todas as mulheres muçulmanas são vítimas, ignorantes e desgraçadas. Muitas, são mulheres esclarecidas, que levam a sua religiosidade em consciência sem a imposição dos homens. Mas a grande maioria nem pensar pode! Aliás, pensar será um dos milhares de verbos que não existem no vocabulário feminino.
A comunidade muçulmana está magoada. Também eu estou, quando por exemplo sou testemunha de situações como noutro dia num supermercado, em que fiquei colada ao chão ao ver uma mulher muçulmana de burka, a escolher uns collants. Primeiro encostou-os ao buraco dos olhos para ver bem a cor e depois para verificar a elasticidade, teve de pedir ao marido se podia levantar a burka, para o fazer melhor. Foi revoltante a cena. Mas sorte a dela, que ainda pode andar à solta nos supermercados sem gps ou trela, a mostrar a cor dos olhos e a espessura dos tornozelos.

Chamem-me o que quiserem. Esta é a minha posição e lamento se se chocarem. De homens muçulmanos quero distância. Muita. Toda. Para todo o sempre!
Sou mulher não sou um objecto, como por exemplo pensa um país muçulmano riquíssimo e supostamente evoluído, como a Arábia Saudita, aqui.

D. José Policarpo foi o Bob Geldof de 2009.
O que o meu antigo líder religioso disse, é tudo tão verdade...


para mais esclarecimentos, ler aqui, do jornalista Carlos Narciso.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

digam lá


A Beatriz, recebeu esta frase linda como presente de Natal: "Olha para ti ... ainda há princesas!"

E vocês? Quais foram as palavras mais bonitas que já tiveram?

sábado, 10 de janeiro de 2009

vizinhança . . .

ELE VOLTOU !

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

ermos

foto minha

Gosto de conhecer, de me relacionar, de me por à conversa, de discussões saudáveis. E ouvir. Gosto de gente.

Mas o meu grupo etário preferido são os velhos, já aqui o disse mais do que uma vez. E uso a palavra velho, porque gosto do que ela encerra.

Quando estou com eles, observo muito, ouço mais e fico atenta a tudo. Aos gestos, às palavras, às expressões, aos movimentos lentos, às mãos, ao sorriso brando, ao fechar dos olhos sempre que descansam acordados.

Este foi um monólogo, que a D. Rosarinho teve sentada ao meu lado, enquanto esperava pela sua consulta, na mesma sala da clínica onde eu também aguardava.


A minha casinha era no Algueirão, sabe? Não há nada como a nossa casinha. Eu tinha para lá muita criação, dois cães e nove gatos muito amigos, mas estava sozinha e quando fiquei doente, tive de deixar tudo.

Sinto falta das minhas vizinhas, que me ajudavam a estender a roupa no quintal e a fazer a cama todos os dias. Tenho saudades da visita do carteiro e do senhor Abílio, que me trazia a botija do gás todos os meses e um dia até me arranjou a fechadura do portão.

Olhe e agora, estou para aqui perdida, longe das minhas coisinhas. Sei que sou muito bem tratada lá no lar, mas não tenho ninguém.

Não há nada como a nossa casinha.

Venha Rosarinho, é a sua vez, disse a empregada do lar que a acompanhava à consulta e ajudando-a a levantar, deu-lhe um beijinho na testa.

Beijinho que valeu ouro para mim.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

responsabilidades de adolescente


Que maçada Beatriz, logo hoje tínhamos de marcar a tua consulta para colocares o aparelho, mesmo na véspera do teste de físico-química. E o dentista disse que deve ser p’rái uma hora e meia de boca aberta.

Bom, vamos então, que enquanto tu estás na consulta eu vou ao supermercado e à farmácia e assim vimos logo para casa, para não perderes mais tempo.

Só vos digo que ficou giríssima, de brackets novos e com cor roxa. Modas! E ela adorou.

Vá, vamos lá para casa, que tens de acabar de estudar com calma.

Sem stress mãe, estive a rever mentalmente a matéria do teste todinha, refastelada na cadeira e já está tudo sabido.

Ai Dona Lurdes, a senhora não merece estudantes responsáveis e aplicados como esta!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

when Obama wins


Raramente falo de política por aqui. É opção. Chega-me bem os muito bons posts nos blogs dos outros. Se já estiveram enjoados como eu, com a histeria de posts sobre Obama e as eleições americanas, podem passar à frente sem ler este também.

O meu candidato sempre foi Hillary e não compartilho nada da ideia de ambiciosa tresloucada, fria e calculista que passa por cima da família só para ser presidente da América e tudo o mais que lhe queiram atribuir. Leiam a biografia dela “Living History” e depois falamos. Ou será que alguém ainda tem dúvidas de quem foi a grande humilhada no episódio Lewinsky, por muito seca, dura e ambiciosa que fosse? Tínhamos ganho dois presidentes, ideia que partilho com o Luís Castro. Mas o povo é soberano.

Gosto de Obama e gostava de McCain, que no seu digníssimo discurso de derrota, do qual os políticos portugueses deviam beber as palavras, para saber como se perde com honraria e se ama de verdade o país onde se nasce, mostrou-me que não estava enganada acerca dele, é um homem bom, nobre. Quem achar o contrário que se justifique, o dizer mal por dizer não me chega. McCain acartou consigo dois erros que lhe foram fatais: ser o sucessor de Bush e dos vómitos das suas desgraças e Sara Paula!

Numa tentativa estratégica de conquistar o eleitorado de Hillary, escolheram-lhe o seu oposto. Saiu gorado. Quem ama uma, odeia a outra. Vivemos no séc. XXI, onde nem as mulheres estúpidas se deixam enganar com essa facilidade. Não basta trocar uma mulher por outra e para quem ainda não sabe isso, não sabe nada! Temos dois olhinhos na cara e servem nem que seja para distinguir na mesa de voto, que uma é loura e a outra é morena. Uma é Hillary e a outra é Sara Paula.

No entanto, achei repugnante a forma como a imprensa e todos a atacaram, quando se soube que tinha concorrido ao concurso de Miss Qualquer Coisa, que a filha adolescente estava grávida, que tinha muitos filhos e era mãe de família e se orgulhava muito disso. Achei essa estratégia abominável. Nojenta, mesmo. Só prova que a América e o mundo ainda são completamente mentecaptos quando uma mulher, que ainda nem abriu a boca é atacada desta forma, só porque é bonita. Dos poucos a portar-se à altura e a desmarcar-se destas cenas tristes, foi Obama que não se deixou levar pelo preconceito, tal qual fizeram com ele, por ser preto.

Depois desta peixeirada sem cabimento, surgiram finalmente os ataques políticos, os legítimos ataques, esses sim os que interessavam para a história. Atiraram-se ao seu conservadorismo, às ideias que tem sobre a venda de armas nos EUA, à sua postura face ao aborto e o diabo a sete. Assim já falamos a mesma língua: o seu a seu dono.

Ainda sobre Sara Paula, é estúpido cuspir e arrotar no seu radicalismo e seguir como se ela fosse só uma louca isolada que veio de lá dos ‘cafundós’ do Alasca e não tivesse importância nenhuma para a equação.

Sara Paula, representa milhões de mulheres americanas que pensam exactamente como ela e é tacanhez não levar esta realidade em linha de conta. Temos a mania ingénua e ridícula de nos deixar apaixonar pelos actores do cinema americano e pensar que é tudo como no Sexo e a Cidade. Quando se fala em candidatos, esquece-se quase sempre que eles representam milhões de pessoas por trás, iguaizinhos a eles, sem tirar nem por! Foi assim com a maioria dos ditadores, tomaram-nos com um único Eu: erro crasso!

Ressalto ainda duas situações de tudo isto e a primeira é o papel racista da comunicação social durante estas eleições, em que de repente invadem as televisões, rádios e imprensa escrita com entrevistas a populares negros, nas ruas da América, como se eles nunca tivessem existido. Porquê? Não me digam que nas outras eleições americanas, os negros da América estavam escondidos? Não votavam? Não interessavam? Saíram da toca só em 2008? Eram uma minoria?

A segunda é o virem dizer aos quatro ventos que os americanos deram uma lição de moral ao mundo. Aqueles americanos que votaram na borrada do Bush duas vezes seguidas? Aqueles americanos que o elegeram novamente, depois da mentira do Iraque estar confirmada à frente do nariz, para assistirem ao horror do Katrina, ao vivo e a cores? Os americanos dão-me muita coisa; cinema, teatro, escritores, música, arte, paisagens lindas, povo encantador algumas vezes, boas universidades e até junk food da boa e da gordurosa, mas lições de moral muito poucas vezes.

Obama venceu. A palavra que mais se ouve é mudança e ainda bem. A primeira mudança será zarpar com Bush de lá para fora, para Guantanamo, quiçá. Ou melhor ainda, e já que o sonho é possível e tornou-se real, fazer um rewind e colocá-lo no epicentro do Katrina, que ele tratou com tanto carinho e atenção.

A mudança maior não vai ser para já e Obama sabe-o bem. Deve ter a sala oval cheia de papelada até ao topo, de assuntos tão prementes e diversos como terrorismo, economia interna e mundial, dívidas deixadas por Mr. Bush, segurança social, educação e saúde, preocupações ambientais, petróleo, desemprego, bloqueios económicos, Iraque, Guantanamo, Afeganistão, Irão e América Latina.

Foi a mais disputada eleição americana de sempre, em que venceu o preconceito racial contra o herói de guerra que os americanos tanto amam e idolatram.

Eu por mim aguardo sem euforias. O que é que ele tem de diferente de qualquer outro homem? Até agora nada. Veremos daqui para a frente. E como é humano como todos nós e ainda bem, também nos irá desiludir em alguma coisa, pois será de todo impossível agradar a gregos e troianos para sempre.

Sou por natureza optimista, mas nada dada a messianismos.

Comam lá um bolinho, vá lá não se acanhem.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

oferece-se post a quem precisar


Vai. Pega na tua vida e segue com ela e vai. Agarra a chance de mudar e parte. Está alguém à espera? Não importa. Existem muitas almas gémeas que te vão encontrar um dia. Mas vai. Comete erros, falhas, asneiras, tropeça e cai, bate com a cabeça, mas nunca fiques; vai!

Podes ser feliz ou derramar lágrimas, mas vive a vida da tua vida. Só tens uma e é esta. Mas vai.

Por isso segue a viagem já, apresenta-te, mostra-te, avança, caminha e vai.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

o meu café com letras

fotos gi e patti

Quando entrou na sala da biblioteca, para o nosso café com letras, foi imediatamente aplaudido. Ficou envergonhado e deitou-nos a língua de fora. Avisou-nos que falava baixo, o que é verdade, pois algumas vezes o micro não foi suficiente para a sua voz chegar a todos.

Começou por dizer ao Carlos Vaz Marques, que quando iniciou este livro, o Arquipélago da Insónia, não tinha nada, mas depois apareceu-lhe uma voz, a voz que lhe foi dizendo o que escrever. E é assim que tem sido com os seus últimos livros, chama-lhes as vozes do eu, vozes sem nome e que estão dentro de nós.

Noutros tempos, fazia um plano de escrita para os livros e muitas vezes saía furado. Agora não, vai atrás dele, do livro e é este que lhe diz o que deve escrever.

“Um bom livro, é um livro que foi escrito só para mim, com o qual eu tenho uma relação pessoal e afectiva. Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria e também sofrimento, mas é a minha sina”.

Fica espantado quando lhe dizem, ah o seu livro é tão complicado. Não compreende quando alguém da plateia afirma, que as suas últimas obras são labirínticas. “Labirinto? Que palavra tão estranha! Aquilo é tudo tão claro, tão óbvio”. O público ri. Não é assim tão fácil e este último não foge à regra, mas eu sigo o conselho dele quando nos diz: “Se deixarmos os sentidos pensarem, começamos a gostar de livros bons. É preciso ter vivido para escrever, mas também é preciso ter vivido para ler”. Também já lhe disseram que o livro é triste. Não acha nada. É alegre porque se sente a felicidade da mão do autor. É assim que entende, que este é um livro feliz.


"Gostava de cada vez mais, encher os livros de silêncios; silêncios para os leitores os preencherem como quisessem. Temos de aspirar ao silêncio, para conseguirmos escrever livros a sério. O leitor é que é importante, não o escritor". Diz da acusação de falta de pontuação, “ela está lá, apesar de não a verem; está nos espaço e no tempo da escrita, façam-na". "Sinatra foi quem foi, pelos intervalos de respiração, pelas paragens que fazia quando cantava”.

Falou do que pensa acerca da avalanche de publicações em Portugal, que se faz sem qualquer critério de escolha, pré-revisão ou qualidade. Nos EUA, tal não acontece com as editoras. O rigor é grande e existe uma peneira.

A discrepância é tão abismal, que isto diz tudo da maneira de como cá se publica um livro.

Quanto ao Nobel, tema que já é de praxe, ALA tem uma opinião com a qual eu corroboro na íntegra, “toda a gente faz apostas para o Nobel da Literatura, todos falam dos escritores nomeados, todos têm uma opinião a dar, mas ninguém dá sugestões, opiniões ou pareceres, acerca dos outros prémios e dos seus possíveis vencedores; do Nobel da Economia, da Medicina, ou da Física. Falam de Literatura como se fosse coisa que todos entendessem. Não é.

A Literatura é outra coisa. É estar entre os homens, no meio deles, não é contar-lhes histórias".

Agora faz o que os livros querem. “Sabemos muito pouco do que é escrever, assim como sabemos muito pouco do que é viver”.

Já foi mal-educado noutros tempos, já pediu desculpas e recebeu lições de boa educação de quem ofendeu. Do excelente poeta Vasco Graça Moura, por exemplo. Ri ao lembrar-se que chamou gorda à Natália Correia num programa de televisão, mas arrepende-se. Diz imensas piadas pelo meio, tem muito sentido de humor, peculiar, mas tem, fala das mulheres, conta-nos que prefere escrever na cozinha, que divide o atelier onde escreve, com um pintor de quem gosta muito, que no bairro castiço onde vive, é tratado de senhor António, por gentes a quem, se nota na forma como fala deles, tem afeição. Diz que protegem a sua morada dos curiosos. Vai à mercearia do senhor Cardoso, dedica-se ao trabalho treze horas por dia e folga aos sábados a partir das quatro: “tal qual as sopeiras e os magalas”. Ao domingo volta de novo ao trabalho.


Falou dos amigos Júlio Pomar e José Cardoso Pires. Gosta de ler Céline, Flaubert, Garcia Marquez, Simenon, Philip Roth e Gonçalo M. Tavares.

Citou Oscar Wilde, interpretou Hemingway, falou de Bovary, entristeceu-se com a morte de Paul Newman, “um homem único e de uma enorme bondade”, comoveu-se com as lágrimas e a tristeza de Robert Redford, quando da morte do amigo, que viu numa entrevista na televisão, quando esteve em Nova Iorque, lembrou-se da sua doença, admirou a coragem das pessoas que com ele partilharam a enfermaria do hospital público onde esteve internado, durante um período muito duro da sua vida e que estava a meio deste livro, falou da fragilidade que lhe trouxe a morte do pai.

Falou de muitas, muitas coisas, impossível eu referir todas.

Coça a nuca, coloca as mãos atrás da cabeça ou apoia o queixo na mão, gestos inatos e descontraídos quando fala para nós, mas raramente fixa o olhar nas centenas de pessoas que ali foram para ouvir, pensar e rir com ele. Só nos olha nos olhos, quando lhe fazemos uma pergunta directa, como fez comigo quando o questionei se ele tinha noção do momento em que o livro deixava de ser dele autor, e passava a pertencer a ele próprio, livro.

“Sabe que eu demoro muitíssimo tempo, meses até, para escrever a primeira parte dos meus livros. Escrever é muito difícil. São capítulos e capítulos que escrevo e reescrevo vezes sem conta, passo a limpo e torno a ler. A partir daí, da metade do livro, ele segue o seu caminho sozinho”. E termina com um grande sorriso para mim, como quem diz, entendeu?

É um sedutor e sabe-o bem.


Antes de se despedir de nós, ainda disse, “Só começo um livro, quando tenho a certeza de que não sou capaz de o fazer. É um desafio. Não parto com vantagem nenhuma”.

E enquanto fumava o seu tão apetecido cigarro, autografou-nos os livros que carregávamos numa fila pouco ordenada, por assim dizer.

Acho-lhe piada, gosto-lhe dos disparates, das suas verdades muito próprias, do ar displicente e despreocupado, da vaidade camuflada, dos olhos azuis, da voz uniforme, do rosto sério que de repente se altera para um enorme sorriso. Gosto de discordar dele. Gosto das suas contradições. Gosto dele, pronto.

E o seu sentido de humor apurado? Vão saber dele aqui, à minha companheira de tertúlias. E logo estaremos aqui.



o meu 'Arquipélago' a ser assinado

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

cartas de amor

foto minha

Comprei noutro dia num alfarrabista de Lisboa, este livro antigo e maravilhoso de cartas para namorados, arranjar marido e arranjar esposa, tal e qual como consta do sub título no interior. São dezenas delas com respostas e negações das pretendidas aos seus candidatos. Escolhi uma que achei uma delícia, desde as palavras respeitosas do rapaz, à envergonhada resposta dela e terminando na carta em que ele pede aos pais dela, para que estes os autorizem a conversar.

São cartas de outros tempos que me deixaram perdida de riso e ao mesmo tempo admirada e sensibilizada com este tipo de linguagem.

Carta do pretendente:

Exma. Sra.

Apesar de a conhecer há muito tempo, só hoje me atrevi a escrever-lhe.

Vivia amando-a em silencia, e sempre temi dirigir-lhe a menor frase de amor. Acanhamento meu, fruto da sua mesma timidez e do meu enorme respeito.

Agora não posso mais calar este afecto que me domina e que é razão de ser da minha própria vida.

Não me dê uma resposta negativa. Pense bem, muito antes de me escrever, mas conceda-me a graça de esperar o seu afecto, mesmo que eu tenha de lhe demonstrar, à força de sacrifícios, que ninguém mais a amará como eu a amo.

Espero cheio de temor e ansiedade a sua carta

Francisco

Resposta da menina:

Exmo. Sr.

Após ter mostrado a meus pais a carta que V. Exa. me escreveu, e animada pelos seus conselhos e porque também eu o estimo com bastante sinceridade, venho assim tranquilizar o seu coração alvoraçado.

Meus pais conhecem-no um pouco e isso é uma garantia para o nosso amor.

Ser-me-ia doloroso simpatizar com alguém a quem os meus olhassem com maus olhos. Felizmente dá-se o contrário e isso é uma grande felicidade para nós.

Veremos se não terei de me arrepender pela facilidade com que acreditei nas suas boas expressões.

Sem mais, creia-me com toda a consideração.

Madalena

Pedido de namoro aos pais:

Exmos. Srs.

Há tempo já, que estou para me dirigir pessoalmente a V. Exas. Uma timidez grande me tem embaraçado. Vencida hoje, em parte, essa timidez, resolvi escrever a V. Exas., pedindo-lhes que me concedam a suprema ventura de falar com a filha de V. Exas.

Repugna à lealdade do meu carácter amá-la e falar-lhe, sem que os pais o saibam.

V. Exas. Dirão o que se lhes oferecer sobre o assunto, uma vez tomadas as informações que julguem necessárias a meu respeito.

De V. Exas, At.e Ven. e Obgº

Francisco

Isto não é incrível?

Está bom assim, Vera?

domingo, 12 de outubro de 2008

aviso à vizinhança

foto minha, linhares da beira
Vizinhança, temos gente nova no blogobairro. Nova vizinha à janela.

E gente do melhor que há.

Com sentido de humor, de frase afirmativa, raciocínio lúcido, verdadeira e emotiva.

É a Si, do blog de Si para si.

Vão dar-lhe as boas vindas, como boa vizinhança que são e vão ver, que não se irão arrepender do que ali vos vai ser dado a ler e pensar, a cada momento.

Mais uma vez, bem vinda, querida Si.