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terça-feira, 18 de novembro de 2008

encalhada, como dizia a minha avó


É pateta eu sei, mas quando chego à conclusão que vou deixar um livro a meio, fico com aquela sensação de encalhada. Encalhada mesmo, tipo Tolan no Tejo.
Primeiro, começo num processo de preguiça a ler mole, a estender o prazo de lhe pegar de novo, a disfarçar fingindo que não o vejo, metendo os outros pelo meio, porque leio muitos ao mesmo tempo e aquele vai ficando por ali a olhar para mim, com ar de cachorro abandonado.
Às tantas, ouço o autor a atirar-me bocas, ah não entendes é nada disto, a minha escrita não é bagagem para ti, anda aqui um tipo a esfolar anos de vida, em trabalho árduo e depois vêm estas limitadas fazer caretas. Vai mas é ler o Paulo Coelho! Caldo entornado.
Ora, os fãs do Paulo Coelho que me desculpem, mas eu não suporto o Paulo Coelho. Nem as histórias do Paulo Coelho, nem as capas dos livros do Paulo Coelho, tremo com os títulos do Paulo Coelho, abominei os imbróglios blogoesféricos do Paulo Coelho sob falsa identidade e desprezo a forma como ele alimenta a mina de diamantes que encontrou, na ausência de horizontes e afectos, nos milhões de corações vazios de tantos de nós. Pronto, eu tenho um problema com o Paulo Coelho, o que no fundo é um disparate, pois eu nem conheço o Paulo Coelho. Li-lhe o Monte Cinco e aparvalhei de todo.
Bom, depois das gracinhas do autor, deixo o livro perdido pelo banco do carro, utilizo-o como leque e também me serve de base para copos. O outro, claro está, roga-me pragas, chama-me de desleixada, mulher rude e diz que nem uma lista de supermercado mereço ler.
Eu disfarço. Pego nele e levo-o para ali, depois para acolá, enfio-o na cesta da praia, empilho-o na mesa de cabeceira, limpo-lhe o pó, compro-lhe um separador novo, arrumo-o virado para o Monte Cinco do Paulo Coelho, mas às páginas tantas, não dá mais. Abandono o livro e enfio-lhe com um post-it verde fluorescente, para me lembrar de o esquecer.
Mas não gosto de ficar encalhada. Não gosto de deixar livros a meio, irrita-me e se calhar não faz sentido, pois se não como tudo o que me põem no prato, quando a comida não me sabe bem, se deixo a bebida a meio, porque ficou aguada com o gelo, se dou roupa que já não visto, mesmo que pouco usada, se desisto de um filme e mudo de canal e se até deixo de dar importância à existência de certas pessoas, porque é que me sinto encalhada, quando deixo um livro a meio?

Haverá forma de tirar este petroleiro de dentro de mim?

domingo, 16 de novembro de 2008

a ajuda chegou


Desde ontem de manhã, até hoje de noite que o Ares virou cabaré! Com shows azuis-psicadélicos, go-go-girls e efeitos de luzes cor-de rosa porno.
Foi uma pouca vergonha, só vos digo e quem por aqui passou, pode muito bem confirmar o que eu digo.
As taradas das minhas hiperligações, pareciam doidas varridas atrás das imagens do blog, saltavam umas por cima das outras, comiam-me os posts e fotos, engoliram a música do Peter Cincotti e ....

Foi a loucura! Autêntico blog da França da Belle Époque.

Motivo: escrevia os meus posts no Word e copiava-os para aqui. Não se pode. Asneira da grossa, porque trazem consigo códigos HTML, não compatíveis com o blog.
Naba!
Mas o principal causador do deboche, foi o post do Paul Auster. Ah pois é, ainda se acha uma bela bisca e vai de me desinquietar as hiperligações, umas estouvadas que estavam fartas de estar sossegadas na coluna do lado direito.

Agora a sério, isto deu-me conta da cabeça, principalmente por não saber o motivo da 'avaria', e nada do pouco que eu fazia, parecia resultar. É frustrante quando não dominamos o meio onde nos inserimos. O Ares ficou horrível, completamente alterado, não só esteticamente, como a nível das suas funções.
Nada obedecia e eu não conseguia seguir com aquilo da forma como estava. Fiquei fula da vida.
A vizinhança foi impecável, aliás já estava à espera. Deixaram-me comentários de sugestões, troquei mails de ajuda com alguns, deram-me dicas, disseram-me palavras simpáticas, piadas para eu levantar o ânimo, telefonemas, indirectas a culpar a minha erótica tarte de maçã e o PCP no meio da minha fúria, ainda me fez rir a valer. Obrigada a todos pelos comentários.
E eis que vem a Sony dizer, que tem um amigo expert e que ia imediatamente falar-lhe do meu novo espaço nocturno: O Cabaré do Ares.
Foi ele a minha alma salvadora. Sem me conhecer de lado nenhum, prontificou-se imediatamente a resolver o problema e vai de trocarmos mails até às tantas, para resolver o cor-de rosa porno do Ares.
Passei o domingo todo a 'desinfectar', post by post desde Janeiro, até hoje! Só eu e a minha paciência infinita.
E finalmente, ontem perto das 18h, lá se conseguiu identificar o Bicho Mau e mandar o cabaré instalar-se noutro blog mais adequado a espalhafatos.
Obrigada little dragon blue! Estou em dívida e cobra-me quando precisares.
Fiquei triste. Hoje não fiz post, quase não visitei, nem comentei ninguém, tenho perto de 700 posts no Google Reader para ler e mais uma vez tomei consciência que este blog é importante para mim. Não só no escrever, no ler, no comentar, nas visitas que recebo todos os dias, nos amigos virtuais, nos links de quem gostamos, mas também pelo seu aspecto estético.
Parece disparate, mas foi como se a minha imagem estivesse em causa. Parvoíce?
Se calhar não é, pois o template do nosso blog é o nosso cartão de visita, é o hall de entrada do nosso apartamento, é o foyer do hotel, onde recebemos os amigos e as visitas e tentamos pôr todos à vontade.
E eu gosto do Ares, como está. Discreto, só com puxadas de cor nas imagens que posto e nas que escolho para a lateral direita.
Por isso vizinhança, parece que a folia acabou, podem entrar em descanso e ler-me com calma. A famosa tarte de maçã, que tanto lhes despertou os sentidos, é que já acabou, mas ainda há umas migalhas aqui, para quem não a provou na sexta-feira.
Sirvam-se que vou comentar-vos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

às vezes sou muito feia e má também


Definitivamente, o conviver forçado não é para mim. A excepção são as feiras, já sabem.

Vem uma e atira um grito à criança, que feliz na sua tarde de soltura dá cambalhotas no tapete sujo da loja, chama-lhe de Igor José, oferece-lhe uma ipsis verbis lambada na tromba e diz para mim já completamente íntima, raios partam os sacanas dos putos que dão cabo da gente. Depois há outra, que embora seja da fila do lado, encosta-se ao meu ombro qual gémea siamesa e mete o bedelho para ler o título do meu livro, só não se desequilibra e cai estatelada porque as filas são muito apertadinhas com gente que tem medo de perder a vez e que a amparam do tombo. Atrás de mim, tenho uma jovem com pretensões a grávida mas sem bebé na barriga, que além de ter a dita pança exposta para o público apreciar sem qualquer tipo de pejo, ainda me roça com ela nos rins, cada vez que se vira para enfiar dedos nas orelhas do namorado. Não me perguntem para quê. Também não percebi. Nem quis. A da frente, dança o Vira na fila e sempre que o faz, sacode a cabeleira oleosa no meu nariz, vem a amiga que me passa literalmente por cima sem pedir licença e atira-lhe com mais não sei quantos livros de auto-ajuda para dentro do cesto e começa desenfreada a ler em voz alta a sinopse mantra-zen de todos eles, para os ursos infelizes que aguardam naquela fila estúpida de domingo, como eu.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

post s.o.s.


Preciso da vossa ajuda. Desculpem-me o sacrifício daquilo que vos vou pedir, mas sinto-me atarantada e sem saber como agir.

Há umas semanas a esta parte, que tenho vindo a ser abordada via e-mail por homens que me são totalmente estranhos e que pretendem saber como é que se ouve música no blog, como se colocam fotografias nos posts, se eu penso que o template é importante para a imagem do mesmo, se devem postar todos os dias … bom é um chorrilho de questões que nunca mais acabam.

Ainda assim e mesmo com falta de tempo, decidi ajudar os coitados dos rapazes, pois os pobres sentem-se perdidos perante toda esta parafernália de opções, confusos com tantos links e realmente têm razão; é muito post, muito post, muito post. Estejam à vossa vontade. Podem deixar e-mail, nº de telemóvel, morada, link do vosso blog ... olhem meninas o que quiserem.

Aceitam-se notas numa escala de 0 a 5, mas por favor ajudem-me, começo por dar explicações a qual?


Gabriel Aubry


Reinaldo Gianecchini



Patrick Dempsey


Olivier Martinez

Roque Santa Cruz


Jim Caviezel


Richard Gere


este não sei quem é, mas penso ser alguém para o post sobre
o casamento entre homossexuais
e a t-shirt é gira



Nota: homens comentadores, não se ponham com frases do tipo, 'ai eu não aprecio homens e tal', que não lhes perdoo se não me ajudarem nesta aflição! Façam de conta que estão a escolher o noivo da vossa filha, pronto.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

[3] figuras tristes, as minhas

foto blog cupcakes
Beatriz, o que é que tens na boca?

É uma goma, mãe.

Uma goma? Mas vamos agora mesmo almoçar. E hoje não é dia de doces.

Oh mãe, estava com fraqueza e foi só uma para me subirem os açúcares.

É bem feita. Quem me manda a mim mentir-lhe e dizer que preciso de açúcar por causa da tensão baixa, quando sou apanhada a sair da despensa com uma tablete de chocolate de 250gr. na mão? Castigo meu por enganar a criança, infligido pelos glúcidos que me perseguem a linha e me comprometem com todas as suas maléficas calorias, a firmeza dentro da minha ganga.

Mulher fraca, sem vontade, corrompida pelo prazer da gula. Educadora sem escrúpulos, modelo de mãe a não seguir, mulher de valores insignificantes.

Esta sou eu.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

das pequenas coisas

foto de sianto

Também já não perco muito tempo com o tempo, nem ando a correr com ele como se fosse fugir de mim amanhã. Prefiro gozar os minutos, às horas e os dias às semanas.

Desfruto bem mais os pequenos instantes que os grandes momentos. Os primeiros, aprendi a perpetuá-los e aos outros a dar-lhes a efemeridade que me merecem. Mas nem sempre soube disto.

Agora fico quieta quando chega o sol baixo e me toca a cara, não sinto frio quando arrefece ao fim da tarde de Outono, nem me queixo se a chuva resolveu salpicar-me o dia. Escolho o espaço que não tem sombra, rio-me das cócegas da brisa e agradeço à chuva o cheiro que deixou quando regou a terra. E pelo meio destas escolhas, entre estes pormenores de como gosto de ser, também descubro que sempre detestei o provérbio, mais vale um pássaro da mão que dois a voar.

É mentira. Não vale nada.

Se não podemos ficar com os dois, não temos que necessariamente ficar com o pássaro que ficou para trás, o que voa pouco, com o que sobra daquilo que tão benevolamente nos deixam, criando-nos a falsa ilusão de que é melhor termos qualquer coisa, que coisa nenhuma.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

já cá canta

foto minha

Bom dia, sei que não é permitido fotografar na FNAC, mas preciso mesmo de tirar uma foto aquele escaparate do “Jogo do Anjo”, pergunte lá à pessoa que manda aqui, se me faz o jeitinho.

E fez.

E “O Jogo do Anjo” começa assim:

1º capítulo – A Cidade dos Malditos


“UM ESCRITOR nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá.

Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem um preço”.

E lá estava eu, tontinha na fila da caixa a devorar a primeira página.

A senhora, se faz favor …

(continuação do post anterior)

carlos ruiz zafón


Foi assim. Eu conto.

Ouvi alguém lá muito ao fundo na televisão, dizer que o livro assim e que o livro assado. Que era um livro que falava de livros. Que prendia no primeiro parágrafo, que era mágico, único, deslumbrante. Um livro mágico? Sobre livros? Arrebitei as orelhas.

Livros com alguma magia conheço vários, agora livro mágico só conheço um e coloquei-o ali, na minha coluna do lado direito.

Estavam dadas as directrizes para a ‘je’ ir à livraria mais próxima.

Tudo para mim foi especial neste livro, até a compra. Bom dia, vinha à procura da “Sombra do Vento”, do Zafón.

Sombra do vento….., sombra do vento……, zafónnnnn, ah, parece que vieram poucos, mas acho que está com sorte, porque penso ter ali um dentro guardado já nem sei porquê.

Mas sabia eu, estava à minha espera, como descobri mais tarde quando o li.


E um dos livros da minha vida, começa assim:


1º capítulo – Cemitério dos Livros Esquecidos

“Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias de Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.

- Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel - advertiu o meu pai - Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.

(…)

- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. (…) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos que chegue aqui. Neste lugar, os livros de quem já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. (…)


(…) talvez o acaso ou o seu parente de gala, o destino, mas naquele mesmo instante soube que já tinha escolhido o livro que ia adoptar. Ou talvez devesse dizer o livro que me ia adoptar a mim”.

Quando o terminei, voltei impulsivamente à primeira folha e li tudo de novo. Nunca antes o tinha feito.

Totalmente inebriante.

Arroubo de sentimentos.

Exame de consciências.


Quase durante dois anos e meio, o livro andou esquecido pelas livrarias e de repente em 2007, parece que o descobriram. Todos falaram nele, todos o leram, emprestaram e ofereceram. Banalizou-se. Paciência. Se calhar é esse mesmo o seu destino de um livro. Ser lido por todos.


Disseram-me que hoje sairá em português o “Jogo do Anjo”, o último livro do Zafón.


Não quero saber do preço. Não quero saber das filas. Não quero saber do populismo e das massas. Se saiu hoje, já é meu. Se sair amanhã ou depois, também.



segunda-feira, 13 de outubro de 2008

quem vê o quê a quem


Fico a pensar que sim. Que se olha muito para fora. Demasiado até. Avalia-se sobejamente o exterior, os outros. Também o faço, confesso. Frequentemente. Esqueço-me é da parte do avaliar, porque lanço logo o espírito em fantasias. E quem sou eu para esticar o dedo indicador...

Prefiro perder-me na expressão distraída da mulher, que sentada na esplanada desfolha uma revista, nos dedos do homem que mexem e remexem o açúcar do café e que deixa fugir o olhar para o infinito, na conversa sussurrada do casal de velhos, acolhidos no banco do jardim e no saco de miolo de pão seco que ela, com a mão trémula de veias grossas e azuis, oferece devagar aos pombos do jardim.

Depois lembro-me da minha primeira bicicleta de rodinhas, comprada em Espanha na loja Las Tres Campanas, enquanto sigo o olhar pelo caminho em linha muito recta, que faz a menina que tem uma cor-de-rosa parecida com a minha. Fixo-me na mãe dela, que saiu de casa à presa e se esqueceu de si e de se arranjar, um pouco que fosse, sorrio para dentro a pensar, porque são na maioria os homens, quem queda parado a ler as gordas dos jornais expostos no quiosque da rua, não imagino há quanto tempo, dorme no passeio o velho alcoolizado, ainda me apercebo do ar enfastiado e do pensamento a quilómetros de mim, daquela miúda nova que serve na minha esplanada e tenho pena do balão lilás, que fugiu da mão do menino de caracóis pretos e que seguiu em direcção ao céu. Ouço o tom de voz do marido, da mãe cansada, que se esqueceu de se arranjar, que chega nas calmas de sábado à tarde com a Bola debaixo do braço e lhe pergunta com comando na voz, já pediste para mim?

E tenho, duas mesas à frente da minha, um bebé a rir-se da minha cara.

Ainda há aquele homem que fala sozinho e acho que se responde. O outro que grita ao telemóvel, enquanto deita um olho aos filhos que se esticam para dentro do lago, os namorados que estão zangados, os que estão calados, os que estão apaixonados e os três estudantes, que suspiram com a quantidade de calhamaços que acartam e ainda não descobriram que este, vai ser um dos seus melhores tempos.

Depois passeio pela rua, com este sol belíssimo que me afaga a cara, entro na loja preferida e trago comigo mais duas peças de roupa da nova colecção, parecida com as outras que já lá tenho no cabide, rio e quase canto, durante o filme que escolhi ver, entro e saio num instante da mercearia tradicional, porque só preciso das minhas tenras couves de Bruxelas e chego a casa ao fim do dia, novamente mais completa.

Mais inteira de pormenores sem importância, que nem sequer são meus, de vivências simples a que dou imenso valor e de olhares ao redor que me enriquecem o dia. E a angústia do tempo que passa, dissipasse.

E quando me sento no cadeirão de orelhas, sobre as pernas dobradas para começar a ler, atiro primeiro uma e depois outra gargalhada. Quem está à minha frente, só levanta os olhos, não reage e já não estranha, lá está ela de novo, de certeza que ficou presa a alguma coisa que viu hoje.

A primeira gargalhada, vai para os que tiram rápidas ilações e supõem que quando nos sentamos a observar a vida que vai à nossa volta, a atitude de quem o faz nunca é de humildade, mas sempre de fagocitose.

A segunda gargalhada é mais amiga. É a pensar nos que até me conhecem, mas que me dizem, nas vezes que me apanham nas minhas observância do quotidiano, pronto, já estás perdida no teu mundo, mergulhada nos teus motivos, dentro de ti novamente.

Afinal, pensava eu que a minha cabeça era promiscua de divagações e devaneios, que errava perdida pelos bocados de vida que os outros me mostravam sem saber, que passeava durante todo este tempo no espaço exterior, a interpretar e ouvir o que quase não era dito entre eles e afinal, dizem-me agora aqueles que me estão mais perto, que a minha cabeça é monógama e que fico muito metida comigo mesma, quando me dedico a este espiar em jeito de mirone, do eu dos outros.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

inícios

Devia-se parar de crescer pelos quarenta, suster o envelhecer, principalmente se já formos felizes nessa altura. Dei conta que não é possível, pois já passou quase um ano e também eu continuei a envelhecer.

Dois ou três anos antes dos meus quarenta chegarem, fiz um acordo comigo mesma e por isso não fui surpreendida por eles. Até já estava informada, que ia alterar e deitar fora certas partes de mim e começar a seleccionar e optar com calma, por outras novas, a fim de acartar com mais bagagem para os anos seguintes. Foi um trato tão sério, como aquele que fiz quando deixei de fumar, há mais de um ano.
Os acordos que fazemos connosco, deviam ser sempre os mais verdadeiros, pois está em jogo a nossa própria vida. Que é só uma. Mas são sempre aqueles que falhamos primeiro.
2008, um ano que até nem começou nada bem logo nos primeiros dias, acabou por se revelar positivo e inesperado. Começo a acreditar que 2009 vai ser ainda melhor. Damos muitas voltas no carrossel e nunca as desfrutamos como se fossem a última. Aprendemos pouco.
Provavelmente, hoje à tarde, vai ser o início da segunda parte da minha vida. Uma outra fase, só isso. Se calhar com pouca importância para vocês, mas com toda para mim. Acho que vou crescer.
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E quando, ou se tudo se concretizar, eu conto aqui, um dia.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

sossego II


Amo as arriscadas e matreiras vírgulas, que me travam a ponta dos dedos.

Pertencem-me devaneios que começam a correr disparados sabe-se lá para onde, e as pobres sustentam-me a queda, quando avanço sem pensar.

São irritantes já vos disse um dia, mas dou-lhes primazia.

Servem-me de intervalo à imaginação pois ela não me vem da vontade, flui e precisa de sujeição, pelo menos a mim, pois sou eu que lhe dou vazão e a escoo.

Como sabem do meu encanto por elas, as pequeninas vírgulas abusam. Parecem mini-convulsões que tropeçam entre as palavras que elejo, colam-se à última letra como se dela fossem parte inerente e torna-se difícil fazê-las entender, que o seu lugar não é ali.


Que eu só me queixo, que lhes ralho e tenho pegas de meia-noite com elas. Dizem-me amuadas. E que a culpa da sua excitação é toda minha porque ninguém me manda adjectivar, exagerar e escrever de forma desalmada. Que é quase desumana, a maneira como lhes exijo presença de modo contínuo e incessante, no meio dos meus textos. Que com os pontos finais nunca me ouviram refilar e até os parêntesis parece que para mim não existem, tal é a mania que tenho de recorrer a um par de vírgulas, para os substituir.

Elas sabem que as adoro, mas às tantas irritei-me. Querem lá ver as meninas! E eu faço o quê se não gosto de parêntesis, chavetas, reticências, travessões, dois pontos, ponto e vírgula e até evito ao máximo as exclamações e as interrogações? E perguntei-lhes mesmo se eram mais felizes com o outro, que tem vezes que nem sequer as utiliza. As vaidosas adoram aparecer e dar nas vistas, mas já sabem que com ele não fazem fita. Encolheram-se logo. Sorrisinho amarelo e ponta da cauda encolhida entre a perninha atrevida.

Que eu também não exagerasse e não as castigasse. Elas até eram bem felizes com umazinha simplória qualquer, isto é, comigo. Teria era de ser um pouco mais compreensiva e tentar avisá-las dos meus pretensos ímpetos literários. Que não me atirasse ao teclado e à pobre da lapiseira como uma desenfreada, porque o que me vem à cabeça só a mim pertence e não se dissipa para lado nenhum. Que eu não tinha horas para as convocar; que escrevia, apagava, riscava, alterava, gatafunhava, trocava, anulava, acrescentava, ria, chorava, irritava-me, ligava a música e só então sossegava.

Eu, e finalmente elas também.

Prometi-lhes que ia pensar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

conversa da treta


Cenário: esplanada com grupo de amigos, alguns conhecidos e outros quase estranhos também. Pronto, éramos muitos.

Desagrada-me ouvir conversas em que são dadas opiniões levianamente, onde se fazem comentários gratuitos, tudo baseado em conjecturas sobre a vida de alguém. Convive-se com uma pessoa, duas ou três vezes e já se lhe tira a pinta e a radiografia completa. Fico perplexa a pensar, como raio esta gente que mal conhece a vida da pessoa em causa, chega a tantas conclusões e óbvias certezas. E mais, até sabem o que o(a) outro(a) deve fazer e não fazer. Para onde ir e onde não ir. Com quem e até sem 'quem' algum.

É um mistério.


Sou uma pessoa crítica, com opinião formada sobre muita coisa e cada vez com mais dúvidas acerca de outras tantas, observadora e muitíssimo atenta por natureza. Várias vezes sou dura e cirúrgica e tenho perfeita consciência disso, é voluntário. Ah e não me esqueço de quase nada. Grande desvantagem para os outros.

Também mudo de opinião se for caso disso, na boa. Aliás só não muda de opinião quem não a tem. E felizmente já o fiz várias vezes. Para meu benefício e dos outros.

Mas quero estar livre de atirar pedras à desgraça das pessoas e falar de alto de vidas que não vivo e de que nem sequer conheço todas as razões, ou de assuntos que não domino e muito menos quando mal sei do que se trata. Quero ter sempre esse discernimento, porque não tenho quaisquer pretensões de perfeição. Livra! ‘Ganda seca, quem tem a mania que sabe tudo. Já sei muita coisa, mas felizmente nem sei a missa a metade.

Não gosto de forcas, de linchamentos, de fogueiras, de julgamentos sem testemunhas, de enterros, de coveiros em part-time, nem de culpas. Quem nunca viveu já situações, por muito insignificantes que fossem e que não teve outro remédio senão moldar-se, adaptar-se, esperar que as coisas se resolvessem, engolir e calar, que se acuse.

Seria a primeira pessoa perfeita que eu ia conhecer. E como diz o povo ‘falar é fácil’, temos sempre muitas respostas para as vidas dos outros e sabemos sempre qual a melhor forma de convalescer e aperfeiçoar as suas vivências.


Talvez um rewind na nossa vida nos fizesse calar antes de abrirmos a boca e falar sem pensar.

E é uma ideia minha ou as acusações e sugestões vêm sempre do lado de quem mais devia estar calado? Ou de pessoas que passam a vida a bater com a cabeça nas paredes?

As mesmas cabeças, que com a mesma facilidade acenam que sim, como abanam que não, ou fazem assim-assim.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

muitas saudades tuas


Eu sou Outono que começou ontem. Sou frio e vento e folhas encarnadas pelo chão.
Castanhos, ocres, cinzentos, laranjas, ferrugens, matizados e mesclados. Verde seco.
Cheiro orvalhado, terra molhada, brisa fresca, chuva fina.
Sol alto mas ainda cálido, que quando cruza o equador celeste, no hemisfério norte se chama equinócio.
Às vezes envergonhado em céus azuis.
Braços agasalhados, lãs para fora, roupa quente, arrepios de frio.
Cinema, exposições, espectáculos, castanhas assadas, chás quentes, fondues de chocolate, compotas e geleias, receitas caseiras de fornos em brasa, para tardes frias de lanches plenos, vinho tinto ao jantar. E caipirinhas também, porque não?
Passeios de Inverno, serões à lareira, projectos do tempo frio, fotografias na praia.
Renovação de ciclos, recomeços, reciclagens, reviravoltas. Reaparecimentos revigorantes. Reencontros de príncipes e de princesas. Contos de fadas.
Cabelo ao vento e cara fria. Sentimentos meus. Nostalgia sem doença.
Gosto neste Outono da frescura invernosa que se inicia, da natureza quase primaveril e do calor que ainda veraneia.
Só não quero o curto dos dias.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

apologia às minhas letras


Estas letras vêm todas parar aqui da forma que lhes apetece. Como lhes dá na real gana.

Lentas e cuidadas, quando me deixam ficar sossegada, quando as junto todas para mim e as coloco como se tivessem voz, para conversarem comigo. E eu tola, ainda lhes respondo.

Cuspidas, quando se querem fazer entender ou como se a sua força, fosse capaz de ocasionar alguma alteração em coisa alguma. E eu ingénua, ergo bandeiras ao vento.

Em tom de brincadeira, quando estão prontas para uma qualquer festa de morfologia, sintaxe ou linguística. E eu solidária, dou-lhes boleia para o ecrã, batendo no teclado.

Preguiçosas e melancólicas, sempre que se espraiem e estendem por aqui, sob a forma de recordações nostálgicas, caracterizando imagens fotográficas registadas para sempre. E eu tranquila, repouso nelas.

Visionárias, quando nas aventuras que percorrem juntas me abrem os olhos e me preenchem o desconhecimento. E eu antes toldada, consigo agora antever.

Sombrias, quando se aquietam a olhar para mim e entendem que hoje não é dia para me importunarem. E eu recompensada, agradeço-lhes.

Com uma imensa gratidão. Assim. Alinhando-as como me pedem.


Não sou eu que as escolho, elas é que me escolheram a mim.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

até a última luz se apagar


Se eu pudesse de um momento para o outro, tomar uma decisão impossível, queria ficar até muito tarde neste mundo.
Não quero entrar pela via da agonia, mas detesto que a vida tenha limite.

Passagem. Término. Remate. Baliza.
Tantas vidas que queria viver.
Tantas músicas que gostava de ouvir e livros de ler e pessoas para conhecer e sítios para ir.
E emoções para sentir
Resta-me gozar das ofertas que mereci. E que conquistei.
Mas devia-se poder optar.
Até a última luz se apagar.
Ficar por aqui até querer.
Até morrer.
Mas sempre poder escolher.
Fada, senti assim o teu desafio.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

coisa pouca II


Depois de escrever o post sobre a correria que é o regresso às aulas e de ler os vossos comentários, opiniões e experiências pessoais, fiquei a pensar no assunto. É uma característica minha. Gosto de pensar no que escrevo. E no que leio. Até porque existem sempre vários lados de um mesmo assunto, que se devem ter em linha de conta e impulsos, precipitações e juízos com poucas bases resultam sempre em disparate.

Será que desta vez pensei demais, ou não é novidade para ninguém que na maior parte das famílias, sejam elas mais modernas ou mais tradicionais e apesar de algumas mudanças positivas, a sobrecarga de tudo o que diz respeito à família e principalmente aos filhos, cai ainda nas costas de nós mães?

Não é querer ser reaccionária, polémica, queixinhas de dodo em riste, sofredora e muito menos fazer o papel da coitadinha explorada, que aliás me fica péssimo.

É só uma mera constatação da realidade, numa sociedade em que grande parte das mulheres também trabalha fora de casa, por razões tão diversas quanto válidas.

Mas realmente há coisas que nunca mudam. Ou mudam pouco. Ou devagar. Muito devagar. Mesmo. Por responsabilidade de ambos os sexos.

Antes de mais, salvo já aqui as devidas excepções. E se as houver por aí, por favor aproximem-se e piquem ali em baixo onde diz comentários.

Continua a ser de nós mães que se espera toda a harmonia da casa, que vai desde tarefas domésticas maneirinhas, como lavar tectos e arear tachos, passando por criar filhos felizes, bem educados e lavadinhos e acabando no ritual da apanha do cocó do cão e na distribuição da alpista aos piriquitos. Tudo isto com ar feliz, impecável e sempre em forma. Tipo wonder woman, mas sem aquela parte das pirosas botas de verniz encarnadas.

Pessoalmente, sinto-me uma privilegiada, porque 75% do meu trabalho consigo fazê-lo em casa, aqui mesmo neste escritório, onde escrevo estas palavras. Sou dona dos meus horários e divido o meu tempo e disponibilidade entre mim e a família, sem pressões, presas e culpas. Foi a opção que escolhi, acarreta algumas desvantagens incluindo monetárias, mas não a trocava por um trabalho por conta de outrem. Nunca me arrependi e hoje cada vez menos.

Há ainda o caso de mulheres que estão em casa todo o dia e não param um segundo que seja, desde que se levantam, muitas vezes primeiro que todos os outros, até que se deitam. Por opção ou porque não tiveram outra alternativa.

Mas grande parte das mães trabalha fora de casa, com horários impostos, com responsabilidades que por vezes não permitem a mínima distracção ou falha sequer, com demoradas viagens em transportes públicos apinhados de gente, em filas de trânsito infinitas, com idas desesperantes a supermercados às piores horas do dia e só com o direito a três abdominais no ginásio da esquina, na fugaz hora de almoço.

O que me espanta é que tudo isto é suposto ser muito normal. As mulheres queixam-se e tal, respiram fundo, adormecem para cima do vizinho do lado no comboio, têm olheiras até ao queixo, passam os fins-de-semana a estender máquinas de roupa e tomam tudo de uma forma indelével. Em muito poucas, vejo uma reacção para modificar a situação, pelo contrário, alimentam-na. Há famílias onde não será de todo possível qualquer tipo de mudança na estrutura familiar, principalmente por razões de ordem social e de educação. Mas em muitas outras esse problema não se põe! Será que as mulheres ainda crêem na ideia, de que casar é começar a viver só para os outros? Acreditam em sinas e destinos do passado, destinos pré-estabelecidos pela sociedade e conformam-se simplesmente com aquilo que os outros esperam que façam, porque foi assim que alguém um dia lhes disse.

Quem já não ouviu a desculpa de uma amiga: ai amanhã não posso, porque tenho de ir com a minha filha ao dentista; hoje não dá, porque ainda não fiz o jantar; tenho de me ir embora, porque já estou atrasada para lhe dar o banho; não contes comigo, porque quando chego a casa, ainda tenho tudo para fazer; jantar de aniversário ao dia de semana? Nem pensar, então quem é que depois deita os miúdos? Fim-de-semana fora? Credo! E quem toma conta do meu marido e da minha filha?

Hello! Desculpem lá, mas hoje em dia, respostas deste tipo não deviam ser normais. Mas são. E ainda por cima são dadas por mulheres da minha idade e ainda mais novas. Primeiro não devem ter os homens em grande conta e pior ainda, a elas próprias. Por isso muitas vezes digo, que o peso que carregamos em cima de nós mães, será também culpa nossa. Tenham paciência, mas nunca ouvi respostas deste tipo, vindas da boca de um homem! Serão as mães completamente insubstituíveis e os pais completamente incapazes? Não acredito.

Então porque assumem tal papel? Também não sei.

Paizinhos, ‘bora ai trocar o verbo na pergunta e em vez de um: queres ajuda em alguma coisa, passamos a ouvir e aceitamos o: queres dividir o trabalho?

Era tudo tão mais fácil. Eles trocam o verbo da pergunta e nós, mãezinhas, deixamos de ter a mania que somos mães deles!

Quando andei nas voltas com o material escolar no hipermercado, vi que pelo menos quase todos os pais que estavam naqueles corredores, eram mães com filhos ou sem eles e de lista de material na mão. O único homem que vi, berrava com a desgraçada da filha adolescente, só porque ela queria os dossiers da moda em vez de escolher os que ele entendia e o problema ali nem sequer era monetário e sim falta de jeito, paciência e casmurrice. O cretino que reagiu assim, não o fez por ser homem, obviamente. Era mesmo assim de nascença, independentemente do seu sexo. Mas é um facto que os homens não têm muita pachorra para estas coisas de escolher uma caneta entre outras trinta, que para eles são a mesmíssima coisa. Mas se eu fosse até ao corredor dos artigos para carros, ou cd’s, ou vinhos …

Aliás, como a Cecília aqui disse e muito bem, para os homens aquilo é tudo igual, compra-se um caderno, uma bic azul, uma lapiseira e uma borracha e já está!

Meus amigos, isso era ‘dantes!

Outro exemplo, é tudo o que diga respeito a médicos e doenças. Otorrino, dentista, ortodoncia, oftalmologista, ginecologista, ortopedista, fisioterapeuta, radiologista, urgências de hospital, vacinas, tratamentos de enfermagem, análise clínicas, pensos rápidos, compras na farmácia e até picadas de peixe-aranha. Na maior parte dos casos quem vai com os filhos? As mães. Porquê? Não sei, mas gostava de saber.

Onde eu vejo uma mudança maior e até muito nítida, é no acompanhamento dos filhos pelo pai, às actividades desportivas. Caso seja ballet ou futebol. Há muito mais homens a ir pôr e buscar os filhos às actividades extra e muitos deles ficam lá durante o horário inteiro. Mistério!

Outro tema onde as mães estão em maioria, é no acompanhamento escolar dos filhos. A secretária é muitas vezes substituída pela mesa da cozinha. Ali estuda-se, fazem-se os trabalhos de casa e tiram-se dúvidas.

Enquanto isso, a mãe faz o jantar, dobra meias, engoma camisas e t-shirts, prega dois botões, atende o telefone às melgas da tv cabo, ou a sujeitos suspeitos que lhes oferecem prémios que têm de levantar a partir das sete da noite, fazem mimos ao gato e mudam a areia da caixa, estendem roupa, preparam o almoço da criança do dia seguinte, limam uma unha falhada há três dias, orientam o saco do ginásio, trincam uma maça, telefonam à mãe, pensam mal da sacana da colega do trabalho, pensam se ainda querem ter outro filho, pensam na factura da contribuição autárquica, pensam que ainda não marcaram a consulta de ginecologista, resolvem deixar de pensar, arrumam as compras na despensa, tiram dúvidas de matemática ao filho, telefonam outra vez à mãe, põem a mesa para o jantar, reparam que se esqueceram de comprar guardanapos de papel o que também não faz mal, porque vai com rolo de cozinha e tudo, assinam o teste de história, tentam perceber alguma coisa da novela das sete, ralham com o filho que espreita para os morangos com açúcar em vez de fazer os tpc, sonham com aqueles sapatos da montra, lêem um recado da directora de turma, telefonam a última vez à mãe, reparam finalmente que fizeram tudo isto ainda de saltos altos, atiram um beijo ao marido que acabou de chegar, cansadíííííssimo do trabalho e que lhes pergunta, então, o teu dia foi bom?

E depois disto tudo, ainda têm de ouvir bocas parvas sobre enxaquecas!