
Tenho dois medos racionais, ou melhor tinha, porque um deles já o venci. O outro não digo. Nem aqui, nem em lado nenhum. Só a mim diz respeito.
Não converso de intimidades com quase ninguém a não ser com duas ou três pessoas no máximo, o que para conversas íntimas já é uma multidão. Aqui então, muito menos. Não tem somente a ver com a delicadeza de alguns temas, mas sim com a leviandade, banalidade e boçalidade, anexadas a uma histeria colectiva com que se opina, arrota e gargalha sobre o privado, o secreto, o íntimo, o ‘só nosso’.
E ultimamente tenho presenciado mais isso em pessoas do meu próprio sexo.
Tudo o que é assunto, que no meu entender deveria ser tratado em privado, se expõe com deboche, em vitrinas instantâneas e improvisadas, onde não existe sequer um vidro a proteger do pó da rua, sem alarme contra intrusos e a preços tão baixos, que nem para saldos serve. A exposição íntima e pessoal é tão solicitamente rastejante, que as centopeias e as larvas, na incapacidade de competir com tamanha inferioridade, entram em depressão.
É como confundir camaradagem com amizade, libertinagem com ousadia, domicílio com lar, sexo com deboche, franqueza com cuspir na cara. Enoja-me a verborreia. E como auto-estima, confiança e solidez, são características que conquistei à minha custa e no meu caminho, dispenso de perguntar ao povo e à assistência como se rasga o papel, como se lambe ou o que fazer com os pauzinhos dos gelados.
Como feminista… Bom, faço aqui uma pausa para esclarecer as mentes mais distraídas. Feminista não é ser lésbica, prescindir de usar soutien, ter cabelo curto, vestir-se à cantora Dina, ser ressabiada com homens, ir à festa do Avante, não fazer depilação, ter bigode como a Odete Santos e escrever poesia erótica. Ser feminista não diz respeito só à mulher, mas a todo o ser humano, porque se trata de uma posição social que defende direitos humanos básicos, neste caso os direitos da mulher. Discriminação laboral, social, salarial, maus-tratos físicos e psicológicos, exploração sexual e tráfego, direito à educação, à religião, ao divórcio e à liberdade sexual e por ai afora
Então voltando ao tema do post…
Dizia eu, que como feminista e também como mulher muito feminina que sou, não me identifico minimamente com o rumo que muitas mulheres deram à sua emancipação. Adoptam uma linguagem de carroceiras, utilizam natural, fácil e obviamente, as curvas perfeitas e até os disformes pneus Goodyear do seu corpo e gerem com muito pouca inteligência, a nudez, o erotismo e as conversas sobre sexo. Servem-se a si próprias numa bandeja de pirex da loja do chinês, sem obterem o menor proveito em benefício próprio, nem sequer um pagamento em notas amarrotadas, como a mais honesta das prostitutas. Caem facilmente na ilusão que com este tipo de atitude e com uma reles conversa brejeira prolífera de laivos de intimidade, despertam desejos, alcançam estatuto e poder, e pior, caem na fantasia de que espevitam interesses. Pobres de espírito. Se eu fosse gajo, esmorecia e virava eunuco com medo.
É de uma falta de inteligência enorme, pensar-se que a evolução e o respeito por nós mulheres, é incompatível com a nossa feminilidade e com o uso correcto do nosso cérebro. Felizmente, podemos falar de todos os assuntos sem barreiras, mas penso haver limites e uma réstia de bom senso de se espalhar aos quatro ventos, de dar shows e palestras gratuitas, daquilo que devia pertencer, a meu ver, ao foro íntimo e privado. Preservado. Temos a faca e o queijo na mão para exigirmos respeito, igualdade nas mais diversas áreas e as mesmas oportunidades na sociedade. Tolas. Ao invés de filtrarem do homem aquilo que ele tem de bom, as suas muitas qualidades, preferem clonar e copiar os seus piores defeitos. E muitas fazem-no em consciência. Burras.
Minhas queridas, o cérebro não é um músculo, mas também precisa de ser exercitado. Não utilizem só a vagina e o parlapié de rua. E por favor, não circulem pelo passeio, no escritório, nos bares, na casa dos amigos, nas festas, na net, unicamente na posição horizontal, é que demoramos tantos séculos para nos pormos em pé!
É com enorme aversão que constato esta postura escancarada em mulheres iguais a mim e que o assumo como uma realidade actual. É com muita apreensão que chego à conclusão de que, se a minha avó enfrentou uma sociedade fechada sobre si mesma, puritana e moralista, para não se subjugar à vontade do pai dela e mais tarde da do marido, se a minha mãe o tornou a fazer nos anos antes do 25 de Abril, impondo-se como ser humano e rejeitando o papel de mero objecto de adorno e de utilização sexual, e se até eu, de uma certa forma também me afirmei pelo meu valor, numa sociedade marcadamente machista, as nossas filhas terão porventura um trabalho muito mais árduo e penoso, para mostrar que por cima de um corpo sensual e bronzeado à vista de todos, têm uma vida privada e assuntos que só a elas dizem respeito, que não são para imprimir no curriculum e que ainda possuem um cérebro que funciona.