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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

crónicas de graça #2


Hippies e Yuppies

No meu tempo fui hippie. Acreditava que o amor tudo podia, que a guerra era o grande erro do homem, a paz a sua salvação e a liberdade, a sua maior conquista. Confiava na não-violência, no amor livre.
E não, o meu mundo dos 60's e 70's, tinha muito pouco de cor-de-rosa, engana-se quem assim o julga. Na Europa imperavam ditaduras obsoletas, o mundo vivendo uma coexistência pacífica durante uma guerra fria, receava um terceiro grande conflito mundial, conservava-se a espada de Hiroshima sobre as nossas cabeças, desconhecia-se o avanço do poder nuclear, mas aqui e ali ouvia-se falar de experiências atómicas no pacífico, praticavam-se diferentes regras sociais entre pretos e brancos e o apartheid, era aceite como algo absolutamente normal. As duas super potências, estendiam viscosamente os seus longos tentáculos até ao fundo da litosfera, dominando, ora disfarçada, ora abertamente, o mundo de então.
Com 19/20 anos nada podíamos fazer, mas tínhamos fé, usávamos a voz, o corpo, a nossa imagem. Possuíamos uma fome intelectual insaciável, acreditávamos na força da música, na palavra dos poetas, na realização de sonhos e exigíamos um futuro diferente.
Verdade será também, que vivíamos existências por vezes psicadélicas, praticávamos actos de loucura inconsequente, tínhamos visões utópicas para o futuro e defendíamos anarquismos impraticáveis. Mas sempre fomos participantes, poucos se demitiam do seu papel de cidadãos do mundo, abraçávamos as causas do nosso tempo, criámos
um símbolo da paz, contestámos os valores tradicionais da nossa sociedade, fizemos frente ao poder económico, militar e político. Vivemos de forma intensa aquele tempo, que era o nosso. Peace and Love. Make Love not War. Flower Power.
Depois fui assentando, casei com um homem quimérico igual a mim e tive um filho, que entreguei aos 80's.

No meu tempo fui yuppie. Depois da licenciatura e da pós-graduação numa universidade impactante, acreditava na bandeira hasteada do sucesso da carreira, na ambição profissional para escalar o organograma empresarial, na competitividade das corporações, no rápido enriquecimento e quem sabe, usufruir alguma vantagem dando um saltinho pela política. No meu special way of life, havia espaço para toda uma parafernália de prazeres materiais que me atribuíam status pessoal. Fato no alfaiate, monograma na camisa, botões de punho, o aparato do primeiro telemóvel, um carro deixando lastro à sua passagem, apartamento design, a ostentação das marcas na roupa casual. O golfe, o squash, o clube, o sushi, o bar da moda, a assinatura anual de uma importante revista empresarial estrangeira.
Não foi fácil. Tivemos de escalar bastante nesta busca desmesurada para alcançar o sucesso, lutar contra aquelas ideias tontas do saber, da ética e dos valores retrógrados. Insanidades ultrapassadas, de que os fins não justificam os meios e ingénuos delírios de que bastava ser e não parecer. Absorver ao limite todas aquelas normas de conduta na sociedade, invisíveis e em nenhum lado escritas, mas onde não se permitiam falhas, percalços ou um ínfimo deslize.
É um facto de que envelheci cedo, o tempo contado ao segundo, o stress causado por esta forma de manutenção da vida, o cansaço mental e físico para manter este estatuto a funcionar, sem intervalos ou descanso. A família onde não investi.
Depois fui assentando, casei com uma mulher carreirista igual a mim e tive uma filha, que entreguei ao segundo milénio.

No meu tempo não sei o que sou. Sinto muito poucas certezas, possuo uma infinidade de questões e dezenas de dúvidas. Não tenho por que lutar, não vejo por onde seguir ou para quê me esforçar.
Tenho avós que transportam em si histórias devaneadoras e uns pais, que me impressionam de sucesso e dinheiro. A avó, diz que hoje não sabemos como se sonha, o pai pensa que somos uns desinteressados e eu, que vivemos desapaixonados.
O ambiente existente é contraditório. Tanto se fala do facilitismo presente, como de um futuro sombrio, que todos os jovens são admitidos na faculdade, mas que só poucos conseguem um emprego promissor, que hoje temos acesso a toda a informação, à internet e ao mundo, bastando tocar numa mera tecla, mas mesmo assim seguimos indolentes e insatisfeitos.

O pai oferece-me mais um gadget e que falamos mais tarde, o que nunca acontece. A avó zanga-se comigo, dizendo que provavelmente a culpa não será toda nossa e que somos uma geração que podia ter o mundo nas mãos, mas que desperdiça um tempo precioso no vazio. Enfiamos a cabeça na areia que tem aspecto de ecrã. Ecrã de televisão, de computador, de consola, de telemóvel. Não entende a nossa apatia, diante este presente tão cheio de problemas como as questões ambientais, a fome no mundo, o envelhecimento da população, a crise geral; esta chata palavra crise; palavra curta mas que repetida até ao infinito se alonga, e alonga, e alonga pelos meus dias.
Parecemos fingir que tudo está no bom caminho, apesar de o sabermos falso, e podemos por vezes parecer ignorantes, mas não o somos. Todos nós escutamos palavras-chave como endividamento, desemprego e despedimentos em massa, falências, corrupção, pobreza crescente, pensões miseráveis, infindáveis listas de espera nos hospitais, medicamentos caros, políticos pouco credíveis...
Talvez um dia eu assente e case com alguém desmotivado igual a mim, mas não sei se terei filhos. Para os entregar a quê?


O que dirá o meu querido parceiro, que talvez tenha vivido alguma destas experiências na primeira pessoa?

Crónicas de Graça #1