
Foi um presente de casamento, herança de uma tia avó que juntamente com um louceiro antigo de pau-santo, me deixou para esse dia muito especial, aquele serviço de porcelana fininha e frágil, quase biscuit, que um lord inglês tinha oferecido ao meu bisavô em troca de um favor pessoal.
Ficou arrumado no louceiro antigo, num local privilegiado, pois quando se abriam as portas de par em par, dava-se de caras com pires fininhos e perfilados com vaidade, chávenas susceptíveis e emparelhadas aos tremeliques, bem ao lado do casalinho composto pelo açúcareiro e a leiteira e mais atrás, igualmente em destaque, o bule mais gordo e reluzente de todo o armário.
Nos primeiros tempos foi usado com bastante frequência, mas quando um invejoso prato de pirex, me lascou um dia um dos frágeis pires, pensando que eu não estava a ver, decidi protegê-lo e não o colocar tanto a uso, como até então o tinha feito. Também havia outros serviços que gostava de usar e mereciam a minha atenção.
Serviço raro e praticamente único à época, e sem companhia à sua altura, ressentiu-se, claro está.
Eu ouvia as chávenas a chocalhar umas nas outras quando abria as portas do louceiro, o meu bule não me parecia tão reluzente como antes e os pires já nem 'biscuiavam' nem nada, mas sinceramente não dei muita importância e até pensei que a bacidez do meu serviço se devesse ao pouco uso e confesso que deixei andar.
Só fiquei verdadeiramente preocupada, quando numa destas frias manhãs de Outono, fiz um chá de pinheiro de Natal e me lembrei de ir buscar uma das minhas velhas chávenas brancas.
Ora, todos sabemos que os chás de pinheiro de Natal servem-se a ferver, devido ao calor que vem das bolas coloridas, dos sinos, dos anjos, das fadas, das luzes e da estrela dourada do topo, não é?
Pois, o meu chá não. Mal o deitei na chávena de estimação e a levei à boca, estava morno, quase frio, que nem o açúcar derreteu e ainda me disse, podias ter avisado que hoje era ice tea!
Quase nem tive tempo de lhe responder, pois a minha chávena chorava-me nas mãos e do louceiro começou a vir um zum-zum suspeito.
Levantei-me, abri as pesadas portas do armário e digo-vos já, que o que vi não foi nada bonito de assistir. Um bule, outrora gordo e brilhante, era agora uma peça pálida e desenxabida e um líder destituído daquele serviço sem horizontes. Os pires coitadinhos, que já eram delgados de nascença, mais pareciam folhas de papel vegetal que até os veios se observavam a olho nu, de tão magros que estavam e as chávenas, desfaleciam umas em cima das outras, parecendo que iam tombar e partir-se em cacos, a todo o momento.
Claro está, que me consumi de remorsos e apesar da minha intenção ter sido somente de o poupar e proteger de futuras lacas irrecuperáveis, o facto é que o meu serviço não o sentiu dessa forma e quase que o levei à morte.
À morte sim, não estou a exagerar! Quando peguei nas peças, uma a uma, era vê-las pobrezinhas, aninharem-se no meu colo, a soluçarem como bebés, carentes de mimos e atenção.
O meu querido serviço sentira-se abandonado e entre fungadelas, lágrimas grossas e suspiros profundos, acabou por desabafar o seu rico percurso de vida, do qual eu já conhecia a história, mas deixei-o falar.
Trabalhava desde novo, primeiro com a minha bisavó Joana, em lanches séri
Depois de umas assoadelas e de lágrimas já secas, o meu serviço de louça branca continuou o seu romance, agora nas mãos da minha tia-avó, Purificação.
Era posto na toalha de renda alva, durante chás de amigas casadoiras e cada uma na sua vez, trazia bolos secos, eclairs recheados e biscoitos macios, para aprovação e discussão de ingredientes, com as outras convidadas. Conversava-se muito de receitas, de pontos de cozedura do açúcar e dos milagres que uma pitada de sal fazia a certos bolos. O chá era de tília ou camomila, pois não se pretendia desajuizar meninas pueris. E que os homens se prendiam pelo estômago, foram segredos que o meu serviço ouviu.
E depois eu, que de tanto o ver na casa da tia-avó, a comovi com a minha adoração por ele e mo prometeu para quando eu casasse.
Aqui em casa foi muito utilizado, com bules re
Outra vezes, enroscada no sofá, com uma chávena de chá com mel numa mão e um livro na outra, em lanches de amigas, para colocar a conversa em dia e até em pequenos-almoços a dois.
Para solucionar a hipotermia de afectos, tricotei-lhe agasalhos fofos, camas com resguardos cálidos, cachecóis de duas voltas, mantas felpudas e até toucas e gorros da mais branca e pura lã.
Não voltei a arrumá-lo no louceiro de pau-santo e tenho-o mais perto de mim, perfilado e sempre à mão, em cima da mesa grande da cozinha e todos os dias nos cumprimentamos e nos servimos dele. E vai estar connosco neste Natal.
Ficou-me a lição, de que é preferível uma vida bem vivida, mesmo que com grandes lascas, do que um coração totalmente rachado, abandonado e sem uso.










