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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

lindo serviço - #14


Foi um presente de casamento, herança de uma tia avó que juntamente com um louceiro antigo de pau-santo, me deixou para esse dia muito especial, aquele serviço de porcelana fininha e frágil, quase biscuit, que um lord inglês tinha oferecido ao meu bisavô em troca de um favor pessoal.

Ficou arrumado no louceiro antigo, num local privilegiado, pois quando se abriam as portas de par em par, dava-se de caras com pires fininhos e perfilados com vaidade, chávenas susceptíveis e emparelhadas aos tremeliques, bem ao lado do casalinho composto pelo açúcareiro e a leiteira e mais atrás, igualmente em destaque, o bule mais gordo e reluzente de todo o armário.

Nos primeiros tempos foi usado com bastante frequência, mas quando um invejoso prato de pirex, me lascou um dia um dos frágeis pires, pensando que eu não estava a ver, decidi protegê-lo e não o colocar tanto a uso, como até então o tinha feito. Também havia outros serviços que gostava de usar e mereciam a minha atenção.


Serviço raro e praticamente único à época, e sem companhia à sua altura, ressentiu-se, claro está.

Eu ouvia as chávenas a chocalhar umas nas outras quando abria as portas do louceiro, o meu bule não me parecia tão reluzente como antes e os pires já nem 'biscuiavam' nem nada, mas sinceramente não dei muita importância e até pensei que a bacidez do meu serviço se devesse ao pouco uso e confesso que deixei andar.

Só fiquei verdadeiramente preocupada, quando numa destas frias manhãs de Outono, fiz um chá de pinheiro de Natal e me lembrei de ir buscar uma das minhas velhas chávenas brancas.
Ora, todos sabemos que os chás de pinheiro de Natal servem-se a ferver, devido ao calor que vem das bolas coloridas, dos sinos, dos anjos, das fadas, das luzes e da estrela dourada do topo, não é?
Pois, o meu chá não. Mal o deitei na chávena de estimação e a levei à boca, estava morno, quase frio, que nem o açúcar derreteu e ainda me disse, podias ter avisado que hoje era ice tea!

Quase nem tive tempo de lhe responder, pois a minha chávena chorava-me nas mãos e do louceiro começou a vir um zum-zum suspeito.

Levantei-me, abri as pesadas portas do armário e digo-vos já, que o que vi não foi nada bonito de assistir. Um bule, outrora gordo e brilhante, era agora uma peça pálida e desenxabida e um líder destituído daquele serviço sem horizontes. Os pires coitadinhos, que já eram delgados de nascença, mais pareciam folhas de papel vegetal que até os veios se observavam a olho nu, de tão magros que estavam e as chávenas, desfaleciam umas em cima das outras, parecendo que iam tombar e partir-se em cacos, a todo o momento.

Claro está, que me consumi de remorsos e apesar da minha intenção ter sido somente de o poupar e proteger de futuras lacas irrecuperáveis, o facto é que o meu serviço não o sentiu dessa forma e quase que o levei à morte.


À morte sim, não estou a exagerar! Quando peguei nas peças, uma a uma, era vê-las pobrezinhas, aninharem-se no meu colo, a soluçarem como bebés, carentes de mimos e atenção.
O meu querido serviço sentira-se abandonado e entre fungadelas, lágrimas grossas e suspiros profundos, acabou por desabafar o seu rico percurso de vida, do qual eu já conhecia a história, mas deixei-o falar.

Trabalhava desde novo, primeiro com a minha bisavó Joana, em lanches séri
os e sem novidades de maior, com pão caseiro do verdadeiro, que levedava a massa na arca de madeira. Saía do forno de lenha a estalar e ia fazer companhia a um leite gordo e quente, acabado de sair da cabra Rosalina. Juntava-se tudo na mesa grande, com compota de amoras silvestres, doces e negras, mexida horas seguidas no panelão de ferro, mais a manteiga amarela, batida à mão nos serões de domingo.
Depois de umas assoadelas e de lágrimas já secas, o meu serviço de louça branca continuou o seu romance, agora nas mãos da minha tia-avó, Purificação.

Era posto na toalha de renda alva, durante chás de amigas casadoiras e cada uma na sua vez, trazia bolos secos, eclairs recheados e biscoitos macios, para aprovação e discussão de ingredientes, com as outras convidadas. Conversava-se muito de receitas, de pontos de cozedura do açúcar e dos milagres que uma pitada de sal fazia a certos bolos. O chá era de tília ou camomila, pois não se pretendia desajuizar meninas pueris. E que os homens se prendiam pelo estômago, foram segredos que o meu serviço ouviu.
E depois eu, que de tanto o ver na casa da tia-avó, a comovi com a minha adoração por ele e mo prometeu para quando eu casasse.

Aqui em casa foi muito utilizado, com bules re
petidos de chá preto e forte, bolo de laranja ensopado, macarones divinais, scones com nata fresca e fondue de chocolate, em fins de tarde de domingo.
Outra vezes, enroscada no sofá, com uma chávena de chá com mel numa mão e um livro na outra, em lanches de amigas, para colocar a conversa em dia e até em pequenos-almoços a dois.

foto do blog latest work
E pronto, agora está tudo resolvido, bastante mais calmo e terminou a choradeira.
Para solucionar a hipotermia de afectos, tricotei-lhe agasalhos fofos, camas com resguardos cálidos, cachecóis de duas voltas, mantas felpudas e até toucas e gorros da mais branca e pura lã.
Não voltei a arrumá-lo no louceiro de pau-santo e tenho-o mais perto de mim, perfilado e sempre à mão, em cima da mesa grande da cozinha e todos os dias nos cumprimentamos e nos servimos dele. E vai estar connosco neste Natal.
Ficou-me a lição, de que é preferível uma vida bem vivida, mesmo que com grandes lascas, do que um coração totalmente rachado, abandonado e sem uso.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

espera-maridos - #13

fotos do blog sweet paul

Naquele tempo, casava-se por tradição, educação, porque os pais mandavam e os filhos obedeciam e porque sim. Poucas vezes por amor, que esse chegava mais tarde e era quando vinha.
Ao marido, consagrou-lhe um patamar acima de seu, conforme lhe ensinaram e atribuiu-lhe um cargo de amo, senhor e patrono, que a governava, protegia e até orientava. E assim, cumprindo com todas as regras estabelecidas, tudo haveria de correr bem.

Mas o seu papel de mulher serena, obediente e cumpridora dos incómodos deveres matrimoniais, não foi o bastante para o manter perto de si. E os muitos serões de longas esperas, foram acompanhados pelo seu hobby de solteira, o crochet.
Testemunhas oculares, de muitos anos de dedicação silenciosa a um casamento de solidão, assim foram, quilómetros de correntinhas, pontos baixos, pontos médios e pontos altos, pontos sós e espaços, que inventou com a linha branca de algodão.


Nas suas mãos diligentes, tomaram forma toalhas para dias de festa, colchas de Verão para camas frescas, dobras ricas em lençóis de linho, naperons para tabuleiros de chá, camilhas de franjas grossas e panos e paninhos de todos os modelos, para entreter o tempo que sobejava cada vez mais.
No início, o crochet que nascia da agulha de alumínio que trazia de solteira, era para terminar o enxoval e as muitas peças inacabadas, nos pormenores de uma bainha, ou no cerzir cuidadoso de uma ponta pelo avesso.

A prática era muita, o resultado final perfeito, mas não passava de um entretém de menina prendada, como lhe dissera a mãe. O teu tempo daqui para a frente, é para ser investido na tua casa, nos teus filhos e sobretudo no bem estar do teu marido. E depois é que vens tu. Crochet a partir de agora, é coisa de gente com tempo livre.
Enganou-se a mãe. Tempo livre era o que mais tinha e depois do enxoval para os filhos, continuou sempre com o crochet e só trocou a agulha de alumínio pela de aço, de forma a estar mais de acordo com a sua vida.


Vestida com camisa de dormir bordada por si, protegida por um espera-maridos nos ombros encolhidos, ligava a telefonia e ao som dos 'olhos castanhos' ou do 'não venhas tarde', encetava o seu ritual nocturno, que com o avançar dos anos, deixou de ter hora fixa para terminar.
Num trabalho quase autista, que crescia sozinho e ausente de controlo, surgiam alças e laçadas, costuras unidas e arremates, pontos e carreiras, uns apertados e outros mais frouxos, conforme o estado de espírito. E a tensão, o mais relevante de tudo. A tensão do ponto, controlada pela mão segura no fio, que só tinha um momento de vacilo, quando lhe sentia a chave metida à porta e atirando de qualquer maneira o companheiro de horas tristes para o lado, recebia o marido com o mesmo sorriso compreensivo e condescendente de todas as noites.
Fazia que acreditava na felicidade daquela união, onde verdade seja dita, ele nunca lhe faltara com nada.

Só com tudo.
Confirmava se o pijama dele se encontrava colocado na beira da cama, se a dobra do lençol estava devidamente esticada e se o copo de água mineral, protegido do pó por um dos seus naperons de crochet, estava na mesa-de-cabeceira.
Na noite seguinte, retomaria o trabalho abandonado na salinha de costura. Esse ao menos, esperaria sempre por ela.


Quando ao fim de meio século de casamento, celebrou as bodas de ouro e deu um jantar onde reuniu a família e os amigos, tirou do baú de noiva, muitos dos seus antigos companheiros de uma vida com pouco para contar. Amigos de muitas horas, que depois de criados por si, eram dobrados com perfeição e guardados para quase nunca serem mexidos. Impolutos.

Ninguém reparou neles, ninguém deu importância aos trabalhos, ninguém perguntou donde vinham todos aqueles naperons, panos e toalhas de vários tamanhos, que enfeitavam de repente a casa.
Só Matilde.
Matilde a neta querida, que observou o jeito com que ela passava a mão ossuda, nas franjas da camilha para as alisar, como sacudia cuidadosamente as migalhas da toalha grande, da mesa de jantar, para não puxar nenhum ponto fragilizado pelo tempo, como sorria ao distribuir pelos móveis, bases de copos de linha branca, como ajeitava os cantos dobrados dos naperons, assentes em tabuleiros herdados, de prata antiga.


Foi a avó Maria que fez tudo isto? Nunca me tinha mostrado, nem sabia que existia. É tudo lindo, avó!
Coisas minhas sem importância, Matilde. Como viste, são panos sem grande valor, com pouca utilidade hoje em dia e quase ninguém reparou neles. Nem o teu avô. Pouca valia têm a não ser para mim, porque me guardam segredos, histórias, vergonhas e medos. Uma vida.

No fim do jantar, Matilde ficou e dormiu na casa dos avós e pela primeira vez ouviu histórias de passados distantes, formas e opções de vida muito diferentes da sua e que desconhecia a existência. Compreendeu finalmente certos silêncios, olhares baixos e vozes obedientes e por fim, descobriu arcas de ferro, baús de câmbala, gavetões de cómodas antigas, carregados de mil peças de linha branca, perfumadas e por estrear.
Nessa mesma noite, Matilde aprendeu a fazer crochet com as mesmas agulhas de alumínio, que a avó usava em solteira e ouviu todas as instruções muito atenta: ponto corrente, ponto baixo, meio ponto alto, ponto alto, ponto alto duplo, ponto alto triplo, ondulado, azaléia, ostra, tijolo, pastilha, ziguezague, barra, bico, esmeralda, pico, colunas anjour e ... nunca mais parou.

A partir daí, combinavam lanches cerzidos a linhas e agulhas, reuniões de pontos simples e laçadas, mais pontos rede, pontos segredo e pontos relevo e ao domingo à noite, chás e bolo de claras caseiro, para desanuviar a tensão do ponto.

A avó, já não guardava nenhum trabalho nos cantos dos armários ou em gavetas fundas.
Com Matilde, aprendeu a dar-lhes outro rumo, a mostrá-los e exibi-los, quando a neta, no dia do seu aniversário lhe espalhou pela casa, uma adaptação feita por si, dos velhos e eternos companheiros da avó Maria.


(clicar na foto para aumentar)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

compor - # 12



O Livro apaixonara-se por ela, desde que vira Clara a desenhar as vogais na primária, com a professora Gabriela.

Criava a bolinha do ‘a’ muito perfeita e redondinha e esticava-lhe as perninhas, uma para cada lado, com um imenso cuidado, para não aleijar a primeira letra.

Ao ‘e’, imaginava-o na sua cabeça de seis anos, como um ponto de crochet e depois como se tivesse uma agulha, igual à da avó Maria, apanhava-o numa ponta, dava-lhe a volta certa e aí estava ele, o ‘e’.

O ‘i’, lembrava-lhe o plie, que tinha aprendido na classe de ballet. Era a sua letra preferida, ouvia o toque do piano na ponta do lápis, pegava no ‘i’, ajudava-o ao plie e acrescentava-lhe uma pinta, como se fosse o pompom do penteado, preso com uma fina rede.

O Livro assistia a tudo de longe e com paciência ficava quieto no seu canto, a imaginar o dia em que ela o fosse escrever. E Clara seguia sem saber do talento.

O ‘o’ punha-a a sonhar. Aquela perninha que saia da bola redonda em direcção ao céu, puxava-lhe pela imaginação e pensava logo que o ‘o’ não andava por ali sozinho com as outras vogais. Estava certa, que aquela perninha voltada para cima ansiava por mais letras. Perguntou à professora se havia outras para juntar aquelas. Espera e verás, primeiro tens de aprender a fazer estas muito bem e depois logo brincas com todas.

O ‘u’, lembrava-lhe o cadeirão de orelhas do avô Mário, de assento fundo e com dois braços grandes, onde ele se apoiava para ler o jornal e ela se enterrava naquele colo, onde ouvia histórias sem fim.

O caderno de linhas de Clara era um brinco de asseio, onde quase nenhuma borracha se tinha alguma vez esfregado. As vogais vinham todas atrás umas das outras, perfeitas como se as tivesse pintado toda a sua vida. Quando chegaram as outras letras, foi uma alegria enorme e inventava uma razão de ser para a existência de cada uma delas.

O ‘s’, era a cauda de um papagaio de papel ao vento, na praia no Inverno, o ‘p’, amigo do soldadinho de chumbo, da história do avô, o ‘q’, um gato de costas, amuado com o rabo descaído, o ‘f’, o pente do namorado da mulher-a-dias, o ‘g’, um anzol igualzinho ao que o pai usava no barco, o ‘m’, as montanhas das férias na neve, o ‘v’, o fundo do vale da casa dos avós e o ‘z’, os desenhos geométricos que a mãe fazia nascer na prancheta.

O Livro deleitava-se de prazer. Continuava a ansiar pelo dia em que Clara o iria descobrir, abri-lo e saber que tinha de o preencher. Mas teve ainda de esperar pelas cópias, ditados, redacções, testes de língua portuguesa, o assimilar de normas e regras da língua, para encadear todas aquelas letras.

E depois o ler. Clara tinha ainda de ler muito, antes de ir ter com ele.

Precisava de crescer primeiro, com todos os outros livros.

Com os contos de Perrault, de Andersen, de La Fontaine e dos Grimm, saber das histórias da Sophia, de sonhar com a Colecção Azul, viver as aventuras da Enyd e conhecer os Cinco, os Sete e o Gordo do mistério, imitar as peripécias das gémeas em Santa Clara e as partidas da Diana e das outras raparigas nas Quatro Torres.

Conhecer o Zé Colmeia, o Gasparzinho, a força da Bolota, os milhões e a bondade do Riquinho e a Brotoeja das bolinhas. Criticar o Patinhas, adorar o mau feitio do Donald e invejar o talento da Vovó Donalda. Trocar o ‘l’ como o Cebolinha e lavar o Cascão bem lavado. Acreditar que existem super heróis como o Fantasma, o Mandrake, o Quarteto Fantástico. e Thor. Rir com o Tom e o Huck, chorar com o Pai Tomás e com o Zezé e os seus queridos amigos, o Portuga e o meigo pé de laranja-lima.

Partir no sonho e ser levada pela imaginação, com o Júlio na volta ao mundo, conhecer as pupilas e a morgadinha, saber dos amores infelizes de Teresa e Simão, de Carlos e Eduarda, de Pedro e Inês, namorar com Garrett, Florbela e o Luís. Multiplicar-se com o Fernando.

Apaixonar-se por Heathcliff!

Investigar com Poirot, Maigret, Perry Mason e Nero Wolf e depois perder-se à vontade e ter Grandes Esperanças.

Lançar-se aos livros e fazer escolhas, seleccionar autores, preferir formas de escrita, envolver-se no ritmo, na entoação, na trama, na viagem, na criação e no talento de muitos.

Tanto para fazer, até chegar o dia em que conhece um Livro em branco, um Livro que nem sequer linhas tem, que ninguém ainda escreveu e que chegará até si na altura certa.

Que sempre a esperou.

O Livro que surge numa altura, em que Clara cheia de saudades das pernas delicadas do ‘a’, das voltas do ‘e’, do plie do ‘i’, da altivez do ‘o’ e do cadeirão do ‘u’, os irá voltar a desenhar, como o mesmo amor de antes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

às vezes só basta ser feliz - # 11


Oh valha-me Deus, gritou Priscila Vanessa, atirando com o telefone e saiu a correr rua abaixo, direitinha à casa da vizinha fina lá do bairro, onde a mãe, D. Vina fazia umas horas. Ai rapariga, que susto me pregaste. ‘Qué lá esses guinchos, tu ‘tá-me calada filha que a D. Alzira não gosta nade de excessos, como ela diz.
Era impossível não gritar, tinha conseguido a vaga de ajudante para o cabeleireiro no shopping “Estrela da Noite” e não era coisa pouca, não senhora! Ali varriam-se cabelos das senhoras ‘como deve de ser’ lá da zona, daquelas madames muito louras que se gabavam dos maridos trabalharem e elas não, enfeitavam-se vitrinas com boiões gordos, com letras douradas de produtos estrangeiros de nomes difíceis, cheios de ‘k’s’, ‘y’s’ e ‘w’s’, podia-se pintar os olhos com aquelas sombras lindas, de azuis e verdes brilhantes, como via nas balconistas das outras lojas do shopping, trocavam-se opiniões animadas sobre os desgraçadinhos e as fofocas cor-de-rosa do programa da D. Fátima e ainda tinha hipótese de ganhar uma comissãozita, se aprendesse a lavar cabeças como a Beta.
Ai Priscila, que alegria me dás e vês filha que eu tinha razão quando te dizia para fazeres o 9º ano? Que surpresa vai ter o teu pai mal chegar a casa e vir que temos iscas com elas para o jantar. Vai perceber logo que estamos a festejar e quando vir o pudim de ovos, então? E não é que a D. Vina acertou. O senhor Rocha até chorou de alívio ao ver a filha encaminhada na vida, agora só lhe faltava arranjar um rapaz jeitoso, trabalhador e sério, para ele poder partir em paz.
Priscila Vanessa teve logo sucesso junta da patroa. Era bem mandada e fazia o que lhe pediam, mas despertou inveja na Ivete manicura, na Olga da caixa e na tal da Beta lava cabeças. E porquê? Porque Priscila Vanessa era gira que se farta e pronto! Tinha assim uma carinha de anjo, redonda com duas saudáveis rosáceas, olhos pestanudos e azuis, boquinha de rosa e narizito arrebitado, enfeitado com algumas sardas. E mais, era dotada de uma cabeleira selvagem, loura e farta, até ao meio das costas, muito bem tratada com muito amor pela D. Vina, que lhe aparava as pontas uma vez por ano, mesmo antes de irem a banhos para a Fonte da Telha em Agosto.
Cabeleira cobiçada por todas as invejosas do shopping “Estrela da Noite”; balconistas modernas, engomadeira da 5 a Sec, ucranianas do minimercado, a Dra. da empresa de contabilidade e de venda de impressos para as finanças, a brasileira da boutique ‘Tininha’, a dona da capelista e até pela cigana Almerinda, que vendia pólos Sácoste à entrada do shopping.
Priscila Vanessa, rapariga muito bem criada pela mãe Vina, mulher-a-dias com muita honra e pelo pai Rocha, pintor da construção civil, com muito orgulho, nem se apercebia dos sentimentos mesquinhos que despertava nas outras, nem achou estranho que a Beta nunca tivesse tempo para lhe ensinar a lavar cabeças, nem desconfiou quando a vassoura desapareceu uma manhã inteira, ou que os boiões da vitrina aparecessem todos desordenados. Estava feliz com aquele emprego promissor e isso bastava-lhe e mal sabia que o melhor ainda estava para chegar à sua vida, para a modificar para sempre.
Já tinha ouvido várias vezes, as colegas falarem do Joca da transportadora "Não Esperes Muito”, mas ainda não o conhecia. Mal o rapaz punha o pé fora da carrinha das entregas, era um corrupio e uma excitação de gritinhos em todas as lojas daquele shopping, nunca visto em nenhuma outra altura do dia.

Bom dia Joca, olá Joca, como vais Joca, estás bom Joca, trazes alguma coisa para mim Joca, hoje vens carregado Joca, estás atrasado Joca… ele de olhos no chão só devolvia o bom dia. Não era de todo rapaz dado a confianças.
Foi como se o fogo de artifício anual da colectividade lá do bairro, tivesse explodido sem aviso. Quando Joca lhe passou a caixa dos cremes de abacate contra as rugas para as mãos e os seus olhares se cruzaram, o coração de Priscila Vanessa subiu-lhe às faces, os frascos de champôs tremeram na prateleira, a caldeira pifou e as clientes atiraram berros com a água gelada, a Beta louca da vida e possuída pela raiva, arrancou cabelos à madame loura que lavava a cabeça, a manicura apanhou uma cutícula extra à cliente ficando sem gorjeta e as luzes das invejosas do shopping fundiram todinhas de uma vez.

Joca, até então rapaz seguro de si e nada dado a grandes conversas com o mulherio assanhado que o abordava constantemente, ficou perdido naqueles olhos azuis, apaixonado por aquela carinha laroca e deslumbrado com o louro-dourado, mais bonito que tinha visto na vida.
Amou desde logo o nome que ela nervosamente assinou no recibo e jurou a si mesmo que Priscila Vanessa seria a mãe dos seus filhos.

O namorico começou com sorrisos envergonhados, olhares de soslaio e mãos que se tocavam ao de leve quando da entrega das caixas de cremes, champôs e ceras depilatórias. Tudo no maior recato, obviamente.
Ai menina, que sorte tu tens. O Joca nunca olhou para ninguém neste shopping e nunca lhe vimos um namoro sequer. Priscila Vanessa totalmente pura e novata nestas lides, tremia tanto, que sempre que ele estava para chegar, precisava de se refrescar com o secador no programa frio, não fosse dar-lhe um fanico no meio do salão.
Posso esperar por ti, à saída do trabalho? perguntou-lhe ele, depois de dois meses de flirt e sorrisos respeitosos.
E assim, iniciaram um namoro sério e respeitador, com a aprovação dos felizes D. Vina e senhor Rocha.
Priscila Vanessa não descurou do seu trabalho no cabeleireiro e nunca permitiu que as entregas diárias de um Joca apaixonado, interferissem com o seu desempenho. Foi promovida a lava cabeças e tudo, pois era rapariga séria e trabalhadora.
Todos os dias, esperava por ela à saída do salão com uma flor que lhe oferecia para enfeitar o cabelo louro e dava-lhe um beijo suave e respeitoso, pegando-lhe na mão e conversavam pelo caminho até casa.
Os fins-de-semana eram os grandes dias do namoro. Ao sábado, depois de ajudar a mãe nas compras da feira, Priscila Vanessa tinha autorização para sair até às sete e meia. Os namorados almoçavam num grande centro comercial de Lisboa, viam as montras e iam ao cinema carregados de pipocas barulhentas e colas com palhinha. Em sábados de sol, passeavam abraçados junto ao rio, trocavam segredos em bancos de jardim ou à sombra de um jacarandá em flor, comiam pastéis de Belém e no caminho de volta, cantavam de cor as músicas de Barry Manilow.
Ao domingo, Priscila Vanessa assistia sempre aos jogos da bola e fazia parte da entusiasta claque feminina, que apoiava a equipa onde Joca era trinco. Seguia-se uma feijoada entre todos os sócios do clube, respectivas famílias e equipa adversária e à tarde as raparigas trincavam pevides salgadas, entre conversas de novelas e enxovais, enquanto os namorados se entretinham em animadas partidas de bilhar e disputadíssimos campeonatos de matrecos, acompanhados de minis e tremoços. Juntavam-se aos pais dela, ao fim do domingo para jantarem todos juntos e enquanto Priscila Vanessa e a D. Vina arrumavam a cozinha, Joca e o senhor Rocha discutiam os resultados da última jornada.
Em semana de santos populares, Joca carregava com o andor do santo na procissão, fazia parte da comissão das festas e ainda tinha tempo de ajudar Priscila Vanessa e a D. Vina a enrolar as centenas de rifas em papelinhos coloridos, que ela vendia na quermesse da paróquia.
Agradeciam na missa campal o amor com que foram abençoados e à noite rendiam-se ao paganismo, saltando fogueiras lascivas, escondendo os olhos em máscaras diabólicas, não resistindo à tentação da gula na barraca dos doces caseiros e dançando agarradinhos no bailarico, com as músicas românticas do cantador contratado.
Depois de um ano de namoro, começaram a usar uma aliança fininha de prata que reforçava o compromisso, abriram uma conta conjunta na Caixa, arrendaram o T2 mesmo ao lado da mãe Vina e do pai Rocha, deram a primeira entrada para os móveis e electrodomésticos na Conforama e decidiram que depois de casar iam ter um casalinho.
Joca disse imediatamente, a menina será igualzinha à mãe, rosadinha e de cabelos louros como um anjo, tal e qual tu, minha querida Priscila Vanessa.
E até hoje, sei que têm sido muito felizes para sempre.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

broken wings - #10



Vivia-se bem no planeta Jubilo. Tão perto do céu, como da terra. Os mortais usufruíam de uma existência mágica, com os seus deuses sempre por perto.

Os incêndios eram extintos com sopros vindos de cima, as maleitas desfeitas com sorrisos de deusas douradas, os desgostos do coração eram substituídos por novo amor, pela mão de um deus encantado, as zangas esquecidas com olhares reprovadores de deuses de barba longa e branca, o nascimento presenciado por um deus sábio, que atribuía dons e a morte era conduzida para o céu, ao colo de deuses jovens e renovadores. As crianças-deuses, andavam na escola do paraíso, onde aprendiam a arte de socorrer a mágoa nos animais.

Os humanos tinham características especiais e uma delas, única, herdada pelos pais no dia do nascimento. Visão extra, pisar sobre a água, ouvir o pensamento, falar a língua dos animais e um sem fim de capacidades muito especiais.

Missi podia voar como a mãe. Possuía asas gigantes de penas longas e brilhantes que quase lhe tocavam nos pés, oferecidas por um deus sábio que testemunhou o seu nascimento e que se esmerou na beleza e na imensidão daquelas asas.

Missi quase se esquecia que podia andar e voava para todo o sítio, longe e perto. Em criança imitava os voos dos pardais do jardim, mais tarde o das pombas nos telhados e finalmente os voos altos das águias e falcões.

Disparava rumo ao nada e sumia-se no azul. Competia com as aves de rapina, fazia corridas com as andorinhas, os patos-reais e os flamingos quando das suas migrações e planava tão bem como o grande pássaro, o condor.

Conheceu-o quando chocaram no céu, numa altura em que ela, aproveitando brisas de calor que a sustentavam no ar como uma cama de rede, pairava de olhos fechados.

Perderam o equilíbrio, desarranjaram as asas e foi uma nuvem de penas pelo ar. Atrapalhados, ajudaram-se um ao outro, pousaram na montanha e só nessa altura ela reparou quem ele era. Um dos deuses do planeta Jubilo

Tinha ficado magoado na asa direita, mas a ferida curou-se lentamente. Imunidades de quem vinha do céu. Mas ficou a cicatriz dorida daquele embate.

Com um sopro, afastou-lhe algumas penas do cabelo e disse o nome, sou o Don.

Deste encontro resultaram afinidades singulares, exclusivas e perpétuas. Nascia neles o supremo sentimento. Tinham a paixão do voo e juntos desidratavam-se entre os fenómenos de calor e luz, no meio da atmosfera rarefeita do éter.

Missi desconhecia, mas Don sabia que uma relação emocional entre deuses e mortais era proibida, pois um dos dois arriscava-se a perder o seu dom. Mas os deuses ali não eram perfeitos e ele deixou-se ir com Missi ao sabor das brisas e ventos.

Combinavam encontros nos ninhos abandonados dos pássaros vadios, no cimo das nuvens mais pesadas ou no extremo dos arco-íris.

Almas gémeas nas nortadas, nos suestes e nas monções. Respiravam correntes de ar e ventos leste e abraçavam-se ao sabor do barlavento. Nunca souberam o que era um furacão ou um tornado, preferiram ventanias e redemoinhos mais ligeiros. Mas o ciclone deu-se e os deuses descobriram a sua ligação.

Um dia Missi caiu e as asas pararam, não lhe obedeceram, estancaram de repente e embateu com toda a força num enorme raio de sol que a destroçou para sempre. Sem saber como, entendeu tudo nos olhos de Don, quando ele a segurou e impediu que se extinguisse do desgosto. O sol zangou-se e num golpe anoiteceu o dia mais cedo que o costume, o vento que com ela convivia desde as primeiras asas, expeliu fortes rabanadas que gritaram de sofrimento e as nuvens autocarregaram-se de humidade cinzenta, para chorarem lágrimas grossas de tristeza, imitando o dilúvio do primeiro Livro.

Leva as minhas assas partidas e trata-me delas, senão nunca mais conseguirei voar. Não consigo pensar, não consigo ser, não consigo viver. E ele assim fez. Dobrou-as com jeito e envolveu-as em si próprio, recolheu ainda algumas penas que flutuavam à roda deles e partiu rumo ao céu, para mais uma missão etérea.

O céu estava trancado. Portas, janelas e qualquer frecha. Era o castigo. Depois do concílio, fora Missi a escolhida por decreto ficando privada do dom de voar. Não por pensarem ser ela a maior responsável da tragédia, antes pelo contrário, mas Dom sim. E a dor dela seria o seu castigo.

Os deuses nunca são misericordiosos com as leis que impõem. Não abrem excepções, são duros e intransigentes. Escrevem leis para a alma em livros grossos, como se o que nos nasce de dentro tivesse nome e pudesse ser julgado assim, levianamente, por árbitros que só entendem de estabelecer sistemas de regras reguladoras e imutáveis.

Com Eva aconteceu o mesmo no planeta do lado, só que o homem que a deveria ter amparado era fraco e não foi escolhido por ela, impuseram-no. Não tinha a mesma força do homem de Missi, que a salvou, que não deixou que o erro da sua fraqueza fosse fatal para ela. Missi nunca foi apontada, excluída e diminuída e nunca acartou no seu nome e no seu sexo, o peso de uma má reputação de séculos e séculos. Como Eva.

“Leva as minhas asas partidas e trata-me delas”, ele tratou e viveram perpetuamente à bolina.

Don carrega-a nos braços, ao colo, nas costas ou empresta-lhe uma asa. A asa que ele feriu quando se viram pela primeira vez. É uma asa sofrida que entende a dor de Missi, quando ela agora voa, lesa e mutilada.

É deles que nascem cúpidos. Querubins gordos, que na ponta das flechas cheias de amor que disparam contra nós, herdam a salvação dos pais e guardam o caminho da Árvore da Vida.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

a cor de Purple - #9

foto da Gi

Tinha mãos feitas de sonhos. Herdadas da mãe que fora a parteira mais solicitada da zona. Nunca perdera um bebé, nem o da vaca do Sr. Francisco quando o veterinário não pode lá ir.

Mas as mãos dela nasceram para outro fim, tão nobre como o de dar oportunidade à vida como fazia a mãe. Desenhava futuros felizes.

No meio da vida difícil e pobre do bairro, Purple tinha sempre uma folha colorida do seu bloco de desenho para oferecer a alguém. Eram desenhos de esperança e alento e sempre sem a cor preta. Nunca coloria nada a preto. Na caixa dos lápis, no estojo dos guaches, na palete de aguarelas, o preto estava sempre novo. Intocável.

Alguns pretos até secavam e morriam.

Uma vez, regressava a Sra. Joana exausta das horas extra que fazia a dias e já Purple a esperava com uma folha na mão, preenchida com aviões, malas de viagem, sacos brilhantes do freeshop e ursos de peluche. Tu não me digas que o meu filho vai voltar? E trás as minhas netas? E já não sabia se havia de rir ou chorar, ou gritar, ou correr para casa, ou ligar o telemóvel ou …

Noutro dia foi o Jonas, que quando se preparava para sair de casa com a prancha de surf às costas, a viu sentada no passeio em frente à porta dele com o bloco de cavalinho nos joelhos encolhidos e a dar os últimos retoques na colunata coríntia do Templo de Diana. Évora? Évora, Purple? Eu entrei em Évora? Largou a prancha no chão e abraçou-a até sempre.

Os recém-casados que moravam ao lado dela, também foram presenteados com um dos seus desenhos. Folha ocupada de cálculos matemáticos de todas as cores, que saltitavam entre percentagens e gráficos de probabilidades até 2038. Zé! Oh Zé, anda cá ver isto! Olha o que a Purple nos trouxe. O banco vai conceder-nos o empréstimo para a casa!

Fora este o dom com que a vida a dotara. Pintar a cores o futuro dos outros.

Frequentava pois está claro, Belas Artes e era a aluna preferida do velho professor Gil na disciplina de Composição-Pintura. O traço inato que saia das suas mãos sem qualquer pretensão ou inquietação com o seu futuro, comoviam-no ao ponto de ter emoldurado alguns dos seus desenhos e tê-los espalhado pela sua casa. Ele já tinha ouvido falar da predestinação dos desenhos, mas a grande admiração começou quando um dia Purple lhe ofereceu uma folha desenhada com bigodes compridos e finos, todos sujos de leite. Apareceu o Sebastião, Purple? Ai que susto me pregou aquele gato fujão! Ficaram amigos.

Como não sabia desenhar feio, triste e mau, nada pintou no seu bloco quando a doença espreitou pelo professor Gil adentro, gostou do que viu, entrou e ai se instalou. Para crescer.

Mas Purple sentiu-lhe o ar cansado, os olhos tristes, a pele baça e a voz baixa. Sacava do bloco irritada, olhava para aquelas folhas brancas e nada. Distribuía os lápis à sua volta, espremia bisnagas de tinta, lavava pincéis de pelo de marta, desenroscava boiões de tinta, raspava lápis de cera, aguava as suas aguarelas e nada de nada!

Tornou-se impossível saber o que se passava com o professor e não conseguia entender o seu decair e a sua fraqueza. Também não soube, que naquela segunda-feira ele não ia estar pela primeira vez, desde que ensinava a disciplina de Composição-Pintura. A faculdade informou os alunos que o professor Gil se encontrava de baixa para fazer exames e provavelmente iria ser sujeito a uma cirurgia ao coração. Delicada, mas decisiva. Era então a doença, a razão das suas folhas continuarem vazias. O preto nunca lhe saía nos desenhos de futuros promissores e dos outros futuros ela não sabia desenhar.

Numa enorme tristeza continuou a desenhar a felicidade de todos, só porque lhe era inato. Quando nesse dia regressou a casa, fez festas ao gato bebé que comia os restos do lixo e deixou-lhe pintado no passeio com batom, uma criança sorridente de braços estendidos. Passou por uma jovem que esperava à porta do cinema e deu-lhe para a mão uma rosa amarela, desenhada no verso do bilhete do autocarro. Com o cor-de-rosa e o azul claro, pintou duas chuchas enormes, que ofereceu à empregada do talho. Pegou ainda nas cores das férias de Verão e emoldurou uma enorme folha de papel desenhada por si, cheia de um verde mar, areia fina e brilhante e presenteou os pais no jantar de comemoração de quarenta anos de casados. E para o professor Gil, passaram-se dias de agonia em que nada pintava.

Até que chegou o dia em que o bloco de cavalinho lhe implorou que o abrisse, os lápis trocavam de lugar na caixa num enorme frenesim, os guaches auto espremiam-se cuspindo cores sem direcção certa, as aguarelas transformaram-se numa sopa policromática e os lápis de cera derreteram-se de excitação.

Mas o que era aquilo? Nunca as suas cores se tinham portado daquela forma alucinada. E o papel então? O papel gritava pelo nome dela, Purple, Purple! Tens de nos entender!

E ela entendeu. Abriu a janela para o rio e as cores saíram disparadas rumo ao céu, uniram-se em arco e falaram com o pai-íris. Conversaram. E mais calmas, ouviram conselhos sobre tonalidades, sombras, texturas, luz e reflexos, matizes e gradações, desde as cores primárias às terciárias. Regressaram para a caixa, Purple pegou nelas e saiu desembestada para a rua em direcção ao hospital.

Oh Purple, tanto que esperei para que me trouxesses uma das tuas pinturas com futuro. Olhou para ele com uma enorme alegria e com cuidado colocou-lhe em cima as folhas brancas e vazias todas desirmanadas, a caixa dos lápis, as bisnagas de guaches, os frascos e tinta, o estojo das aguarelas e as lascas dos lápis de cera.

Vim desenhar para o pé de si.

Não conseguiste não foi? Não há esperança para mim?

Nada disso, professor.

A mão dela nunca deslizava para o feio e o disforme e muito menos para o lúgubre ou o sombrio.

Não sei pintar o que ali dentro se vai passar. Não conheço, não sei do que se trata e nunca lidei com o preto da vida. Mas os seus médicos sim, professor. Nasceram com o dom de correr com ele para fora da nossa existência e com capacidade de ver para além da bacidez da peçonha. As minhas cores estão tão aflitas com o poder do preto, que quase ficaram sem tom de tanto me implorarem para que as trouxesse até aqui. As folhas do bloco soltaram-se da lombada, tal era a excitação de quererem acompanhar as cores até si. Quase que não me deixaram entregar uma folha ao motorista do autocarro, com o desenho da fábrica de portões abertos e cadeados no chão, onde trabalha a mulher dele.

Elas acham que juntas vão vencer o preto. Nunca ele me toldou tanto a visão, como neste seu futuro, que nem sequer me deixa alcançar a simples matiz de uma qualquer cor. Mas não se preocupe, porque sinto que vou conseguir desenhar para si.

No final.

A equipa médica aproximou-se e imediatamente imagens de luz chegaram às mãos de Purple com tanta veemência, que receou não ter trazido consigo cores suficientes e papel que chegasse, para libertar o desenho mais bonito que jamais algum dia criara. Mas o pai-irís brilhava por toda a cidade, mais intensamente que nunca.

Espere um momento Dr., trouxe de casa um desenho para si. E de dentro da sua mala de pintura, retirou um maço sem fim de folhas soltas, que estendeu ao chefe da equipa médica. Ele desfolhou-as uma a uma e apreciou agradecido, aquela mancha de cor. Distribuiu cada uma delas por toda a sua equipa, que partiu para a sala de operações seguida pela maca do professor Gil, que a tudo assistiu em silêncio de entendido.


E cada um deles levou consigo, dobrado e guardado no bolso esquerdo da bata junto ao coração, um desenho de Purple, inundado de sorrisos perfeitos com todas as cores do arco-íris.




mais fotos do arco-íris aqui

terça-feira, 14 de outubro de 2008

premonições - #8


As rosas do meu canteiro sempre acharam que eram melhores que as outras flores. Peneiras que têm, antes mesmo do milagre surpreendente de Isabel, quando enganou o autoritário do Dinis. E depois, com aquilo de terem espinhos, ninguém as cala. Ah e tal, que como nenhuma outra flor se aproxima delas, podem ter mais realce lá no canteiro, que o perfume delas é famoso, têm uma água como seu nome, aguentam-se firmes no Inverno, são as preferidas dos apaixonados, cada cor sua tem um significado muito próprio, acompanham quase sempre champanhe e caixas de bombons e até os humanos lhes têm respeito quando as vão colher.

Resumindo, são umas insuportáveis e aquilo enerva-me.

Há flores muito mais bonitas do que as rosas, lá no meu canteiro. Então e os amores-perfeitos, as minhas deslumbrantes violetas, os brincos-de-princesa, as buganvílias, as estrelícias, os gladíolos e as dálias pom-pom?

Sempre que cuido das outras flores, lhes corto as folhas mortas e lhes renovo o adubo, tento fazer-lhes ver que se deviam impor perante as tontas das rosas. Trato das rosas de forma igualzinha, só não lhes faço festas.


O problema maior é com os amores-perfeitos e as minhas violetas; até metem dó. Como são baixinhas, ficam intimidadas com toda aquela prepotência. As outras, as estrelícias, os gladíolos, as buganvílias, os brincos-de-princesa e até as simples dálias, chegam bem para as rosas, essas não me preocupam. Atiram-lhes para cima da vaidade, com a originalidade das suas formas, a altura do seu caule e com a exclusividade da sua espécie e as outras, apesar de manterem com as peneiras e os picos, param logo de fazer gracinhas.

Mas fiquei com um problema; como é que ia fazer, para que as minhas flores baixinhas e frágeis, acreditassem que para mim, eram as mais bonitas de todas?

Comecei pelos amores-perfeitos e tentei explicar-lhes, que até a cor preta, arrogante e com manias de superioridade e que raramente se mistura com as outras cores, porque acha que por si só, é a elegância em pessoa, se rendeu ao mundo da botânica e escolheu os rasteirinhos amores-perfeitos, para dar o braço a torcer e aceitar de bom grado fazer pendant com o amarelo, o azul, o castanho, o encarnado, o roxo e sei lá mais com quem. Que queridos os amores-perfeitos, puseram-se logo a espreitar de uns para os outros, à procura de quem tinha mais preto na pele.

E o vosso nome, continuei eu, há lá nome mais bonito para uma flor? Só uma muito especial poderia ser chamada assim.

E fiz mais. Para as mimar, retirei-as do canteiro e coloquei-as em vasinhos de terracota. Distribuí-as pelo parapeito da janela da cozinha, para poderem dizer adeus às amigas, amparei-as ente os meus livros preferidos e perfumaram-me as histórias, ouviram a banda sonora do Moulin Rouge, enfeitei com elas o quarto da Beatriz e à noite acendi-lhes uma vela especial sem perfume, para terem companhia e lhes iluminar as cores.

Só lhes digo que parecem outras. Espreitam pela janela para as invejosas das rosas e pelas frechas das portadas, atiram dicas e conselhos de ânimo, aos jovens amores-perfeitos, que entretanto semeei. Estão portanto em convalescença, mas com alento para voltarem ao seu verdadeiro ecossistema; a terra, o sol, a chuva, o frio e o calor, o vento e para junto das amigas coloridas.


Com as minhas violetas, foi mais difícil. Coitadinhas, são muito sensíveis e com qualquer simples aborrecimento, deixam logo cair a flor e já nem sei se, ou quando voltarão a florir. Peguei nelas com muito jeito e acariciei-lhe o pelo, devagar. Ah pois, o pelo. Quantas flores existem com pelo nas folhas? Poucas, aposto. Isso é característica de humanos e do reino animal. E também das minhas violetas, que são especiais com penugem nas folhas fortes e macias, que crescem em forma de rodízio e servem de amparo para a flor linda que vai nascer no seu centro. E disse-lhes para o caso de não saberem, que mais nenhuma flor recém-nascida, é tão bonita como uma baby-violet. As violetas escondem de nós segredos coloridos, pois só elas sabem a cor da flor que aí vem. E que cores! Roxo, branco, anil, tons transparentes de lilás, cor-de-rosa e …violeta. Pois é meninas, vocês são nome de cor e de gente. Violeta! Parece impossível, mas elas tinham tão baixa a auto-estima, que pensavam que só as tontas das rosas tinham direito a tal privilégio. Até se lhes arrepiaram os pelos das folhas, tal foi a euforia e a algazarra entre todas. Gritinhos para ali, gritinhos para ali. E ainda há mais, continuei eu, há rosas amarelas, rosas encarnadas, rosas brancas, rosas cor-de-rosa, mas nunca viram rosas violetas…só de estufa e mesmo assim deve ser um violeta muito do desbotadinho.

As outras empertigadas, ouviram tudo lá de fora e começaram a observar-se com descrição. Realmente, rosa violeta nenhuma era e ainda por cima, já não bastava as simplórias das margaridas darem nome aos humanos, agora também havia mais estas minorcas e rasas com nome de gente. Isto foi imediatamente motivo para grande estardalhaço no canteiro. As escandalosas das estrelícias, armaram logo barraca com sonoras gargalhadas ao ver a cara de ofendidas das outras. Os gladíolos, que traziam flores quase até ao solo, cochicharam com as térreas violetas e trocaram segredinhos à vontade, sem qualquer receio dos espinhos que as espreitavam, sempre de extremidade pontiaguda e ameaçadora em riste. As buganvílias, com aquele frondoso corpo carregado de cor, conseguiram chegar até à janela da minha cozinha e era vê-las a serem informadas de todas as curiosidades, contadas pelos amores-perfeitos, sobre o que se passava do interior da minha casa.

As dálias pom-pom, que têm um certo prestígio lá no canteiro, porque eu lhes corto o pé com frequência para enfeitar a minha sala, juntaram-se aos brincos-de-princesa, que são flor com estatuto de nobreza e trataram logo de por as rosas no seu lugar. Disseram-lhes que a partir de agora, acabassem com as pinderiquices, com as desfeitas a torto e a direito às flores pequeninas, frágeis e desprotegidas, que até os simplórios dos cravos encarnados iriam ter melhor futuro que elas, que pusessem de parte a megalomania, porque qualquer dia só prestavam para logótipo rasca e descorado, de um partido político que governaria um qualquer país minorca e foleiro, que terá tudo, menos aspecto de canteiro florido.

fotos de ana cotta e cláudio marcon


terça-feira, 7 de outubro de 2008

putrefacto - #7

pintura de michael knowlton
Luís era cobarde. Sempre fora. Até para sair das entranhas da mãe, tinha demorado mais vinte dias que os irmãos. Desde pequeno que chorava por tudo e por nada, ficava sempre perfeito no papel de vítima, alimentava-se da mania da perseguição, fomentava intrigas, possuía ódios de estimação, até de estranhos, por pura inveja e embirração, ou só porque lhe apetecia. Figurinha que vivia pela calada e que na frente dos outros era uma pura alma, dócil e pacata. Nunca tivera uma namorada de jeito, porque cobiçava sempre a dos outros, não chegou a aluno mediano, porque era cábula e amigos teve poucos ou nenhuns, porque era vazio. No trabalho era frustrado, inconformado e viva sempre desiludido. Trabalhava muito mais que qualquer outro, tinha colegas invejosos, os chefes eram uns incapazes e os clientes uns ignorantes e chatos que lhe davam cabo da cabeça. Dizia ele. Tanta era a amargura dentro de si e tamanho era o esforço para se portar com uma postura cândida perante os outros, que começou a sofrer de pesadelos nocturnos, visões e episódios alucinogénios.

Como descarregar então tanta raiva, guerras internas e sobretudo a solidão de uma vida, que tinha até agora dado muito poucos frutos? Descobriu o prazer de soltar o ódio inconsciente que tinha de si próprio, sob a forma de manifestos públicos sem assinatura e tudo na sua vida dupla se tornou mais simples de digerir. As borbulhas pestilentas do seu coração rebentavam o pus amarelo, naqueles textos alucinados e fantasiosos, onde desabafava as infecções da alma, sempre sem cara e sem nome. Intitulava-se Hiena e nenhum outro pseudónimo seria tão apropriado. Eram páginas de frases empolgantes, tentativas de enxovalhos públicos e discursos triunfantes, proferidos em cima de um palanque invisível e oco, aguardando que a plateia o aplaudisse em estridente ovação. Ao fim da tarde, logo a seguir a mais um dia cão de trabalho e com a cabeça a fervilhar de pequenos vermes e insectos, escrevia desalmadamente mais uma página de agonias, dirigida ao último indivíduo que o tinha irritado, que não lhe tinha dito bom dia, ou que tinha umas calças novas. Na calada da noite, colava-as em locais estrategicamente escolhidos, como a parede do café central, a estátua do poeta da vila, a porta dos correios, a entrada da capela, a paragem da camioneta e nas bancadas do campo da bola. Regressava a planar para casa e era aquela a única noite da semana que dormia bem. Prazeres efémeros que a cobardia lhe trazia.

No início, os habitantes da vila que até nem eram assim tantos como isso, mas que eram pessoas pacatas, sem maldade e sobretudo provincianas, liam aquelas missivas, trocavam uma frase ou outra sobe o assunto, seguiam com a sua vida e nem atingiam que estivesse ali, naquelas feias palavras um destinatário, e muito menos o próprio visado entendia que aquilo era com ele. Nada do que estava escrito tinha razão de ser. Era gratuito. E as carapuças de pouco serviram. Compreendiam tudo como a obra de um autor atormentado, que talvez por ser muito feio, teria vergonha de se mostrar e revelar-se ao povo. Não o levaram muito a sério e tiveram pena dele. Isto não lhe agradou sobremaneira, o impacto pretendido e a tentativa de injectar o medo na população, fora gorada. Dedicou-se a uma empreitada, cada vez mais empolada de missivas exacerbadas e aí, o povo abandonando a ideia do autor pobre coitado, passou a interpretá-lo como ele realmente era: isolado e com uma auto-repulsa latente. O número de manifestos aumentou, os absurdos escritos subiram de tom e as páginas transformaram-se rapidamente numa novela de traços autobiográficos. E o Hiena, sem se dar conta, tornou-se no seu personagem principal, um ser ignóbil, possuído por algo maléfico que o colocava fora de si. Mais tarde ou mais cedo, alguém repara no elemento cobarde, ele revela-se pelo que diz e depois pelo contrário, pelo que não faz. É esse o seu ponto fraco, é por aí que quebra e cai. Pelo recuar. Pelo agir na sombra.

Concluíram que na vila morava um louco encapuçado, provavelmente com dupla personalidade e que se movimentava no meio deles sem se fazer notar. Como reagir, enfrentar e entender um ser assim, que odeia de borla, sem razão aparente, sem motivo sequer? Não foi o Hiena, que por si só, os fez reunir e reflectir perante aquela nova realidade e os colocou a trocarem ideias. A tomada de consciência da existência de alguém assim, despertou a população para dentro de si própria, da sua vida, do seu dia-a-dia, da sua vila. Acordaram de repente, uns para os outros.

Repararam, talvez pela primeira vez nos cabelos brancos da mulher da mercearia, nas olheiras do homem do talho, na solidão do sacristão, nos olhos infelizes do engraxador de rua, no alcoolismo do presidente da junta, na simpatia da funcionária dos correios, no frio que passavam as prostitutas da rua, da entrada da vila, dos filhos pequenos que elas criavam em semi-presença, na agonia financeira da recente viúva do lavrador, no destino sem horizonte, incerto e injusto do jovem que não conseguira ir estudar para fora, no cuidado que o jardineiro dedicava aos canteiros, no fiado sem fim que o dono do café suportava, na bondade da padeira, no abandono do parque infantil, nas ervas daninhas da escola primária, na miséria extrema do mendigo da vila, na vida apática dos velhos do lar, na exclusão das duas famílias ciganas. E por fim, no cotão opaco do egoísmo, que se foi acumulando nos seus enormes umbigos.

Quando se abre os olhos ao nosso redor, podem passar muitas noites seguidas, que eles dificilmente voltarão a fechar como antes. Aquilo que se recebe em troca quando se praticam atitudes de altruísmo e de solidariedade sem esperar nada, não tem qualquer preço. É muito maior o retorno porque a oferta é desinteressada. E quando se começa, é improvável que se consiga parar. Aqueles homens e mulheres e aquela vila modificaram-se para sempre. Depois de muitos anos, o jovem, agora homem, a quem deram a mão para ir estudar para a grande cidade, contou a história no seu livro de estreia.

A seguir à introdução da obra, feita pelo reabilitado presidente da junta, o público correu para o autor a perguntar, e o Hiena onde está, apanharam-no, desistiu das missivas, o que foi feito dele, quem era? E isso interessa? – Sorriu ele.