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sábado, 25 de outubro de 2008

[12] ´tou no ir...de fim de semana


foto da Gi

Achamos estes carros giros, quando fomos à aventura por Lisboa no outro dia e a Gi tirou a foto.

Dois dias depois num post do blog Caixa de Costura, descobri para que serviam os carrinhos amarelos.

E não é que a descoberta foi bestial!

São os GoCar e servem para passear por Lisboa, em percursos turísticos pré-estabelecidos, como a Baixa-centro, Belém e Expo.

Ao mesmo tempo que os guiamos, vai-nos sendo explicado tudo o que estamos a ver, têm ainda um GPS que nos deixa tranquilos com o trajecto e depois é só seguirmos as instruções.

O mínimo de tempo de aluguer é de uma hora, mas pode ir até um dia inteiro.

Eu estou mesmo tentada, antes que venha a chuva.


Então, não se animam também? Espreitem aqui.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

convite, em papel conqueror vergé com marca de água, para visita à minha aldeia

foto de felber

Eu nunca me vou esquecer, como se desce a Rua do Século aos sábados de manhã.
O empedrado da rua, o barulho dos saltos no passeio que acordam aquelas casas brancas, as varandas de ferro com vasos de sardinheiras encarnadas que me espreitam, as portadas antigas de madeira pintada, os cantos escondidos, os táxis que levam os últimos ocupantes do Bairro Alto para casa, os cães vadios que abanam sempre a cauda e os gatos fugidios que me olham desconfiados debaixo dos contentores de lixo. E os sem-abrigo aos cantos, deitados nos cartões, enrolados em mantas cinzentas. As manhãs frescas que recebem no Príncipe Real a feira biológica, o sussurrar das árvores gigantes que nos dizem bom dia.
E nos enviam a brisa como presente.
Espreito o meu rio pela Rua da Emenda. Está lá sempre, o meu Tejo. Umas vezes azul e outras cinzento. Mas nunca sai dali, porque é nosso; dorido mas sempre pontual. Acho que ele chora. É como um cão maltratado, que volta sempre ao dono.
E chegar ao largo Camões, ver o eléctrico amarelo a passear e a gemer nos carris É o 28 que vai p’rá Graça.
Foi no Chiado que nasci. No coração da minha terra, mesmo no centro. Não sei sair dali. Fico presa ao chão, a olhar à roda, dependente não sei do quê. Lamento quando vejo a sujidade da minha aldeia, os estranhos que gozam mal um espaço que não é deles. Já não sei distinguir quem é de lá ou quem só se alimenta dela, a usa e a deita fora. Vai-se tudo embora ao fim da tarde. Mas dali não saio. Não quero. É meu.
Não gosto de mal agradecidos na minha casa. Não gosto dos que se servem dos recursos que a minha aldeia oferece, para depois de encherem os bolsos, dizerem mal dela quando partem. Não gosto de quem cospe no prato que comeu. Quem está mal que se mude. Nas outras aldeias também há pratos, com menos comida, mas há. Desprezo ainda mais os ódios à minha cidade, só porque ela é capital. Assim como os que a ela pertencem e não a defendem. E se é capital, será de todos. Não é ela que decide as raivas que acumula em cima de si, somos nós todos que lhas atribuímos. E isso é errado, totalmente errado. Ela é a cidade mãe. Nada tem a ver com as atitudes dos homens, só sofre com elas.
Connosco. E convosco.
Não quero os meus passeios conspurcados por aqueles que sobre ela proferem veleidades sem a conhecerem, que misturam temas, políticos e dirigentes desportivos, ideias confusas, mal intencionadas e atitudes facciosas. O amor à nossa terra nasce da vivência que temos dela, do que nela experimentámos, do que ela nos ofereceu de graça, do relacionamento diário de dias, semanas, meses e anos. De vidas e de mortes. De curas e doenças. De brancos e pretos. Nasce também do feio, do mau, do trânsito, do stress, das filas, das paredes manchadas, do abandono, do escape dos carros, de empregados mal-educados. Que se lixe do que é que nasce o amor à minha aldeia! Ela é imensa.
A cidade é como um filho. Eu sei dos defeitos dele, não preciso que mos indiquem. Olhem para os vossos. Não se resiste à beleza de Lisboa e quem o fizer não a merece conhecer. Ela não serve para arrogantes, mas para apaixonados.
Ali tenho o meu cheiro, a minha casa, a minha escola, os meus vendedores ambulantes, as minhas memórias do ‘sobe-rua/desce-rua’ de mão dada com a minha mãe, os meus lanches, as minhas compras de Natal, as minhas lojas, as minhas livrarias, as minhas retrosarias, o meu sol, a minha chuva, os meus mendigos e pedintes, os meus engraxadores, os ardinas, as varinas, os cauteleiros, os carteiristas do metro, os meus cegos que tocam pelas ruas, os meus Porfírios com a minha amiga, a nossa Casa Africana, os meus táxis pretos, os fantásticos croissants de doce de ovos da Bénard, o meu café no Nicola, os bitoques do Pic-Nic, os tijolos de marmelada na Tendinha, a ginjinha em copos que em tempos foram lavados à mão, os meus autocarros verdes de dois andares, os meus telhados de telha laranja que descem em escadinha até ao rio, o meu Parque Eduardo VII, os meus patos e pombos, as minhas esplanadas, as minhas papelarias, os cantores do metro, o meu castelo e a sua singular paisagem, única em todo o mundo, os meus bairros de roupa estendida nos varais, as varandas de ferro, as portadas de mil cores, as minhas sete colinas, os jacarandás em flor no mês de Junho, os miradouros, os meus elevadores, os barcos a remos do Campo Grande, a minha Avenida com o meu pai.
O meu Chiado a arder. Há vinte anos. As minha lágrimas.
A emoção sempre que por ali passeio é igual à do emigrante que regressa a casa. É arrepio inato, intuitivo, congénito, incontestável.
Ali fica o meu largo do coreto, é onde a minha banda toca, é onde o meu rancho dança, é ali a festa da minha aldeia.

É aquele burburinho de gente o meu folclore.

Sou de muitos sítios de Portugal, mas é daqui que serei sempre de verdade. Quero sempre nascer assim outra vez.
Sei que nunca vou deixar a minha terra-luz. Gosto de muitas outras, mas só a ela devo fidelidade.
É aquela a minha rua.
Como só Minha é Lisboa.
Então, convite aceite?
Adenda (9.20h): Esta vai comigo e sexta-feira lá estaremos nós mais a Beatriz, que adora estes meus tours tanto quanto eu.