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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

crónicas de graça #1


O Tejo

Diz o Tejo, que anda triste a enlutar o leito de cinza-negro, quando se aproxima do mar para morrer. Já vem assim, entornado e vago, desde muito antes das colunas do cais. Há até quem jure, que o viu na mouraria num lamento pesado, porque há muito que não se escutam as guitarras e as vozes que lhes fazem companhia.
Diz o Tejo, que antes enterrava-se ali muito mais feliz, sem pó nem cascalho, estaleiros, guindastes e contentores, sem homens de costas interminavelmente voltadas para si. Já não sente a mesma vontade de se amadurecer, espalhando-se pelo mar da palha; queixa-se que lhe tirámos os peixes, os golfinhos, até as aves e que em troca o sujamos, o sovamos, o esquecemos.
Eu vou-o escutando, os velhos precisam de investir as memórias em nós, os que ficamos a assistir ao que vai sobrando.
Diz que à noite tem chorado pela mãe, Albarracín.
Sente falta das brincadeiras infantis, quando descia a serra materna a toda a brida, pulando em sulcos e fendas, em desníveis de relevo, levando atrás de si calcário, margas e arenitos que se soltavam com a sua força.
Lembra-se saudoso do encontro com o seu primo direito, Hoz Seca, o primeiro parente a afluentá-lo na sua foz, que o abraça com um emocionado caudal, maior que o próprio Tejo. Nisto, obriga-o a descer na galga, por pronunciadas gargantas encravadas na paisagem órfã de gente. Ao fundo, ainda consegue vislumbrar Guadalajara que lhe acena abalada com a violência do seu percurso; é natural, quase que o viu nascer.
Ali perto, sente-se protegido, valorizado pelas margens bordadas de uma flora rica em pisos bioclimáticos, pelos pinheiros, azinheiras, carvalhos-portugueses e juniperus.
Mais abaixo, quando gira bruscamente, outros rios-primos se aproximam e o afluem, elevando-lhe a altitude orgulhosa. E ufano, gargalha para mim.
Não se incomoda nada de derrapar nas mãos-cheias de barragens, que lhe peiam o caminho e lhe diminuem a cota, pois está a chegar a Aranjuez! Visita o Palácio Real e não se cansa do o fazer de todas as vezes. Repousa o leito estraçoado das linhas do caminho, numa albufeira seiscentista e empurra o caudal para os campos, para as culturas; oferece-se ao povo que o recolhe. No final do dia, o vaidoso, ornamenta em silêncio vegetal as magnólias dos Jardins de Aranjuez. E adormece, verde-claro, com a cadência mágica do pulso allegro e adagio, de Rodrigo na guitarra.
O sol já vai alto e núbio, quando o Tejo parte. Deixa-se levar pela corrente fluvial, pois há que beijar ainda a visigótica Toledo e numa postura monumental, atravessar-lhe as pontes. Diz-me que rio sem pontes, não chega nunca ao mar.
E já segue o meu Tejo a caminho da maioridade, ora girando para oeste, ora para este, recolhendo à esquerda e à direita outros rios que o inclinam, que lhe alteram a direcção, que lhe indicam o rumo, virando-lhe o sentido agora novamente para oeste; rios grandes e pequenos que lhe vão incrementando o caudal e aliviando o peso, às vésperas de inaugurar a estremadura caceriana e os descendentes de Moctezuma.
E lá vem ele, desarvorado por ali afora, para junto de nós povo luso, já de cota baixa, baixa ...
Passa pela velha de Rodão e inclina-se paralelo à beira mais baixa, seguindo para Belver onde a barragem o trava pela enésima vez. Em Abrantes saboreia a palha doce que lhe adoça o meandro em volta da colina da cidade, aguardando o Torto que se lhe junta pela esquerda.
Revela-me que ama profundamente, do fundo das suas águas sombrias, o seu primo Zêzere, grande contador de estórias e aventuras viriáticas. Pândego rio aquele, que o acompanha em noites de insónia; dois velhos que se apoiam um no outro, naquelas horas que já dispensam ao sono. Por isso, vê-se e deseja-se por chegar a Constância, ansioso pelo reencontro. O abraço é indefinível e sentido na pintura de Malhoa.

foto minha

Juntos partem para as muralhas medievais de Almourol, onde o cruel D. Ramiro foi alcaide. Depois de Aranjuez, é aqui onde o Tejo mais almeja repousar. Ignora a maldição do lugar e assiste nas noites de S. João, ao reaparecimento do abraço enamorado do mouro com D. Beatriz, no alto da torre do castelo. Trata-se de um romântico incurável, este rio.
Torna-se apaixonadamente raso, flutuante; mais parece uma ribeira-criança onde rãs se escondem nas pedras e pulgas de água saltitam, deixando para trás perfeitos círculos desenhados sem o auxílio equidistante do compasso. É o meu Tejo perfeito, aquele ali azul-claro, que se queda rente às minhas mãos.
Gosta de se anoitecer em águas de Santarém, prefere lá chegar de noite para assistir à festa dos toiros; é um aficionado, pois então!
Os últimos momentos de prazer vive-os em Alcochete, onde exibe com orgulho um estuário protegido legalmente, repleto de zonas húmidas, ilhotas, lodo, salinas e terrenos agrícolas. Banha-o num cumprimento emotivo, o último. Depois dá-se Lisboa e a conversão em rio-mar.
Mas Tejo, digo-lhe eu admirada, desconhecia esta tua agonia em desaguar na capital.
Baixa-me os olhos de espuma, no momento que atravessa a ponte de Abril e em tom salobre revela-me, são as gentes que se alteraram, já pouco falam ou riem, não se acometem ou arriscam sequer. Sinto falta daqueles outros homens, do audacioso e jovem Vasco, do João, dos Pedros e do Henrique sonhador. Já são muitos séculos a observar este povo que não se chega à margem; à minha, à deles. A nenhuma.
Ou então é de mim, nostalgia minha, já não sei ... pensava ser solamente del salero y de luces, mas não, não sou.
Sou do fado...


E agora, o meu querido parceiro destas crónicas quinzenais, oferece-vos de graça o seu Douro.