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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

comércio tradicional


Olá Sr. João, bom dia, cumprimento-o eu todas as manhãs.
Bom dia menina, ora viva! Trata-me assim, há mais de trinta anos; menina.
Sempre foi velho, mesmo quando não o era.
Senta-se corcunda naquela eterna cadeira de taberna, que ruge guinchos estridentes no chão de pedra mal lavado e encaracola-se sobre a secretária antiga de carvalho gasto, dividida no tampo por uma racha profunda, já negra do tempo.
Diz-me que é a única peça de época; D. José, orgulha-se ele.
Lê fazendo caretas, de óculos empoleirados na ponta do nariz, a secção de obituário do jornal diário.
As velharias, a sucata e os cacos partidos que expõe na loja, são os mesmos de sempre, dispostos sem jeito ou método; amontoados uns sobre os outros, sem qualquer cuidado. Carregados de pó antigo.
Sabe menina, quando eu coloco a quinquilharia toda ao molho, é para espevitar a curiosidade da clientela. Pensam imediatamente que sou um velho tonto e que devo ter para aqui, debaixo deste lixo todo, alguma relíquia perdida sem saber.
E olhe, que acabam sempre por levar qualquer porcariazita, na ilusão que fizeram uma grande compra.
E eu, nem a boca abro.

O pó, soube também eu nessa manhã, faz parte da sua estratégia de marketing de vendas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

dos sonhos


Existem sonhos escondidos sem querer, desprezados por muitas outras prioridades no correr da vida, olvidados a um canto escuro, deixados de lado, abandonados.

Numa casa muito antiga em frente ao mar, com portadas de madeira encarnada, viveu em tempos um sonho de cantora por realizar.
Um sonho chamado voz grave e penetrante, que durante muitos anos só foi ouvida por crianças em canções de embalar, por paredes silenciosas que não revelam nunca segredos íntimos e por uma árvore centenária nascida no jardim, que em dezenas de anos guardou as várias canções que fluíam pela janela da varanda central da casa antiga, aberta logo de manhã cedo, de par em par.
Um dia, o sonho de cantora de levar a sua voz para fora da casa antiga, realizou-se.
Devido a um fenómeno até então desconhecido, a folha persistente da árvore do jardim, absorveu nos seus veios, o som que aquela voz grave libertava pela janela e nas épocas de invernias, a árvore aproveitando-se das danças forçadas pela fúria da ventania, deixava escapar pelo ar, com longos silvos assobiados agudamente, as notas musicais armazenadas nas suas folhas.

E assim, melodias de um sonho de cantora por realizar, eram apanhados no céu pelo bico das gaivotas brancas e levadas em direcção da praia, onde barcos e homens, receosos da tormenta, as esperavam confiantes na crença do seu poder de salvamento.
Músicas então cantadas pelo timoneiro aos seus marinheiros, serviam-lhes de alento e prendiam-lhes o pensamento à terra, para que nunca se perdessem nas águas do mar.
Na casa antiga, a dona da voz grave nunca soube que as suas canções foram transformadas em sucessos marítimos em dias de tempestade. Eram escutadas pelos homens do mar durante momentos de Adamastor, quando a chuva e a água estalavam com força contra o corpo duro de marinheiros corajosos. Músicas salva-vidas, bóias, âncoras que os traziam, de todas as vezes, de volta à praia. Inteiros.

Em alturas de mar brando e inocente, sereias doces e filhos de Neptuno, ofertavam aos marinheiros tesouros naufragados, fantasias marinhas, segredos da Atlântida e sonhos enterrados na profundidade do mar.
De volta à praia, homens agradecidos e humildes, colocavam as relíquias no jardim da casa antiga, para que durante a noite a árvore centenária, as folhas persistentes, o vento e as gaivotas brancas, bordassem com elementos do mar, portas, janelas, pilares, varandas, cúpulas, balaústres, paredes e torres altas.
Cordas e nós, búzios, conchas, estrelas, peixes e algas, esferas armilares, âncoras, a cruz e por fim, cânticos de homens salgados, escritos em pautas de água brava que ali foram deixados como um obrigado, para adornar uma casa muito antiga em frente ao mar, com portadas de madeira encarnada, onde viveu em tempos um sonho de cantora por realizar, um sonho chamado de voz grave e penetrante que salvava vidas do mar, sem nunca se ter salvo a si mesma.

fotos minhas, casa abandonada na foz

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

passa tempos

foto de jimmy backius

Esta foto foi tirada durante uma viagem ao mar da Sibéria, onde conheci um tártaro das estepes, que pertenceu à brava linhagem do valente correio do czar, de consistência de ferro e de fausto coração, chamado Miguel.
E também foi tirada, numa viagem com vikings barulhentos perto do mar da Noruega, quando me levaram para um passeio fresco, embrulhada em peles quentes de urso e lobo, minutos antes de visitarem por mar... talvez a desconhecida Islândia.
E ainda a consegui tirar, durante um inverno japonês, quando um aristocrata samurai, seguidor honroso do Bushido, me tentou ensinar na sua infinita paciência, o manejo do arco e da flecha e a decapitar com destreza, cepos ocos.
E tirei-a pela última vez, numa corrida a cavalo junto ao rio Amur, com um huno meu amigo da tribo de Temujin, o jovem que unindo turcos e mongóis foi aclamado como Genghis Khan.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

em sua defesa

foto do blog creature conforts

Raras vezes lhe dá para tristezas, para os pensares aflitos ou lembranças dolorosas. Decidiu ainda cedo desligar-se do que lhe faz mal, empilhando tudo no fundo de um baú, carregado de bolas de naftalina; um cheiro agonizante, que merece receber tudo aquilo que a faz doer.
Diz-me que é uma faculdade que começou por ser inconsciente, uma defesa que agora lhe é inata, esta, de virar as costas aquilo que a pode acometer de doenças da alma.
Interrompe e deixa em suspenso, a presença de outras vidas que nada têm ou terão a ver com a sua e filtra para a peneira fina, o que lhe basta para ser feliz.

Não se desperdiça com interlocutores com baixa patente de carácter.
E depois ri para mim, como se fosse tudo isto, muito fácil.

Só chora, quando se depara com uma frase certeira, que vem ao seu encontro num qualquer livro, revista ou outdoor que lê por aí, colocada ali de propósito para si, por um estranho autor que nada sabe da vida dela. Lê e relê e chora de novo, com a certeza de que por mais voltas que der, cairá sempre na ingenuidade de acreditar que aquelas palavras só podem ser para ela, de tão verdadeiras que são.
Só chora com melodias piegas, lamechas mesmo, das que são pano de fundo e servem de banda sonora às cenas finais de comédias românticas, onde namorados bonitos fazem as pazes, trocam promessas ridículas para o resto da vida, confessando culpas que não têm, assumindo falhas e prometendo a tola da lua.
Só chora, nos documentários sobre o reino animal, quando presas meigas são trucidadas a sangue frio por predadores velozes, traiçoeiros ou cobardes em matilha. Predadores idênticos aqueles que deita fora, com uma displicência que a espanta.
Só chora, com olhares de crianças poluídas, homens sós e cenas putrefactas de mortos que pensam que estão vivos.

E mais não chora.
Mas ainda me disse porquê.

Que precisava de guardar muitas lágrimas, que deitaria fora em convulsão infinita, num dia de fatalidade, que não poderá evitar de acontecer.
Onde frases certeiras já não caberão em lado nenhum do seu eu e nada terão a ver consigo.
Em que a música piegas que tocar, só poderá ser surda-muda e não servirá nem sequer à lua, que de tão cheia, vai rebentar dentro do vazio do seu coração.
E onde os predadores sanguinários irão ignorar as suas presas, que se definharão encolhidas de dor, como ela.

Até lá, mais não chora.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

só se chora no fim

ilustração de matthew woodson

Um dia, deixou para trás o estaleiro da sua existência, em contínuas e intermináveis obras, e descobriu uma voz conhecida que lhe segredava truques já esquecidos e aparentemente sem importância, para conseguir sobreviver em situações de caos, terramotos físicos e turbilhões espirituais.
Como o seu, em que tudo espantosamente desfaleceu sob um solo oco e sem fermento, dissimulado por fortificações de aço e diamantes. Seguras por alicerces fantasmas, que com um empurrão no local certo, abateram e levando tudo atrás, apenas deixaram um pó branco voador, que se entranhou na pele e a impediu de respirar.
Dizia-lhe a voz de um eu há muito esquecido, que a cura de algumas feridas passava por fazer um novo corte de cabelo, esconder os brancos da raiz e descer o tom das madeixas.
Alterações frívolas, onde se levam tesouradas radicais nos amargos de boca, em que se pincelam os fios cinzentos dos desgostos, com tons quentes de caju e louros de Verão, deixando cair no chão, com o estrondo necessário ao despertar da alma, fios de cabelo antigo, triste e sujo da poeira da vida.
E olhar de uma vez por todas para um espelho com reflexos de verdade.

Segue-se, continuou a voz, o assumir dos desenhos finos que nos cortam a pele, idênticos aos vincos da roupa, o abrir em definitivo dos olhos, com um rímel forte à prova de lágrimas e segurar entre os dedos, para nunca mais deixar cair, todos os abraços, beijos e palavras cheias que vierem por aí. E acreditar que serão imensos.
Acalentar-se num vestido justo, difícil como a vida, conseguir puxar até ao fim o fecho comprido das dificuldades e aceitar com um sorriso forte, as curvas sinuosas que surgem nas esquinas do seu corpo.
Depois é fácil, basta calçar meias finas e por vezes hesitantes como os passos que der, enfiar-se em saltos altos, com vários centímetros de décadas duras, mas férteis.
Palmilhar a rua numa postura vertical, espezinhando com sabedoria feminina os obstáculos da calçada até à última pedra incerta.
Afinal, é assim que ainda hoje se é mulher.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

noutro dia...


... entrei numa casa qualquer.
Tinham cães e não limpavam muitas vezes o pó. Os pêlos espalhavam-se por todo o lado e eu consegui fazer desenhos com o dedo, logo ali, na cómoda da entrada, iluminada pelo sol frio deste Inverno.

E nem me importei.
O território era democrático, viviam os animais da mesma forma que os seus donos. Tudo tinha o mesmo cheiro, a refeições quentes muito bem preparadas e a paredes vestidas de madeira tropical.
E eu senti-me bem.
Estendiam-se mantas de franjas coloridas pelos sofás e maples, para que todos pudessem gozar do seu conforto. Os nossos pés, assentavam em tapetes fofos e banquetas de malha, iguais às camisolas feitas pela minha avó e as irmãs dela.
E eu recordei.
Não existia preocupação com a ordem; as chávenas do café com leite continuavam em cima da mesa de apoio e já eram horas de jantar, as migalhas descansavam no tapete, já secas e os bichos contentes, traziam ossos gordurentos para o pé de nós.

E eu relaxei.
Nos nichos das paredes, brilhavam lamparinas de azeite, que me faziam retardar o momento de ir embora. Odores de infância.
Que eu cheirei.
Distraídos por natureza, deixavam luzes acesas até desoras, almofadas desordenadas e janelas sem cortinas. Riem-se sempre muito quando lá vou e falam comigo apertando as suas duas mãos no meu braço.
E eu adorei.

Vivem-se outras vidas, nem melhores ou piores que a minha. Só diferentes.
Ali também são felizes. Todos.
E eu também.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

particularidades de cada um

Até para uma pessoa como eu, que trabalha diariamente com a cor, às vezes torna-se complicado gerir as suas manias, manhas, ambições e sede de protagonismo.
Tive uma pega feia com o cor-de-rosa esta manhã, enquanto tentava terminar um projecto castanho-chocolate e verde-azeitona.
Queria porque queria, que eu trabalhasse mais com ele nesta época do Outono e não adiantou explicar-lhe, que os climas e as estações do ano, influenciavam as opções estéticas das minhas clientes. Não era uma boa altura para ele ser escolhido para uma decoração, a não ser para quartos de raparigas ou de meninas-bebés.
Que cor mimada, desinquietou-me os catálogos de papel de parede, os mostruários de tintas, os cabides de algodão, das sedas e do chenille e até o pantone, vejam bem!
Farta de o aturar, agarrei no corante cor-de-rosa, enfiei-me na cozinha e fiz-lhe uma homenagem sob a forma de doçaria chic, para que com a atenção centrada em si próprio, me deixasse trabalhar em paz. E por fim lá sossegou.

Livra, que corzinha mais temperamental!
Bem mais difícil de lidar, do que as dúvidas eternas que eu tenho em conjugar o encarnado sangue-de-boi ou o azul-pavão.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

adornos da natureza

Num sonho que tive, uma fada já velha e sábia, contou-me que a luz dos pirilampos servia para iluminar os vestidos das fadas, que nasciam durante a noite.
Os vestidos? perguntei eu, espantada.
Claro, nós nascemos despidas como vocês, mas como não temos uma mãe individual que nos escolha o que vestir, pois surgimos das caudas incandescentes das estrelas cadentes, ficou tudo combinado desta maneira com a mãe-natureza.
Assim, sempre que uma estrela morre e nos liberta pelo céu, através do seu manto brilhante, a árvore do traje enche-se de prestáveis pirilampos, que nos iluminam os vestidos coloridos, pendurados nos ramos.
E os vestidos nascem nas árvores? tornei eu a perguntar.
Ai que tonta, obviamente que não!
São deixados todos os dias ali, pelos beija-flor e pelas garças-reais, que nos fazem o favor de os trazer do atelier dos bichos-da-seda.

Realmente, faz todo o sentido, pensei eu quando acordei. Nós humanos, é que mais uma vez complicamos tudo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

amanda lee


Depois de muitos anos sem ver o meu melhor amigo, marcámos encontro na nossa esplanada de sempre. Tinha ficado pelo Texas depois da especialização equina e que ia casar brevemente. Veio a Lisboa, para nos convidar a todos.
Casar? Tu? O duro dos duros, quem diria.
O mundo dá mesmo muitas voltas. Tive logo de saber quem tinha sido a mulher valente, que lhe tinha conquistado a alma. Descreveu-ma com a perfeição de um homem apaixonado e com o coração do poeta, que sempre lhe conheci.
E com a minha fantasia disparada como uma lança, deixo-vos aqui a história feliz que para eles anseio, em terras americanas.

Em toda aquela inóspita região do Colorado, só havia uma mulher vaqueira: Amanda Lee.
Cobiçada pelos companheiros, na primeira entrevista de trabalho com o futuro patrão, bebiam-lhe a cor pastosa, que lhe forrava os lábios generosos e quentes e com olhos inflamados de apetite proibido, passavam-lhe mãos invisíveis pelos cabelos castanhos.
Amanda Lee, do alto da sua importância de fêmea provocante, mas de um homem só, não lhes dava qualquer valor e com os dedos ágeis de tanto driblar rédeas, deslizou-os pelas ancas, que convidavam homens de coração ferido a perderem-se nas suas curvas e ordenou ao vestido aromático que descesse imediatamente até ao joelho e fosse ter com as botas de cano alto e tacão grosso, pintado do encarnado da terra seca.
O vestido, adaptado ao seu corpo como uma segunda pele, obedeceu-lhe. Enroscou-se a ela no decote sem pudor, riu-se no fim das costas escorregadias do calor, desenhando-lhe uma prega funda e com má vontade, lá lhe cobriu os joelhos, saboreados por dez pares de olhos húmidos de malícia.
De voz poderosa e de um alcance como nenhuma outra, não havia gado que se tresmalhasse muito tempo e patrão que não a desejasse ter ao seu serviço.

Mas era junto de Miguel, o português e das filhas, que a voz de Amanda Lee tinha o verdadeiro valor.
Nas gargalhadas temperadas, durante refeições gordas de guisado de alce, borrifadas a bourbon, chocolate quente e café negro, nas ancestrais cantigas que embalavam crianças doces e morenas na hora de dormir e lhes afastava os medos de ursos pardos, no som rouco e nos uivos de alcateia, que transpiravam pelas paredes fortes de madeira dura do quarto de casal, em noites enérgicas de lua cheia.

Será que ela é assim?
Não importa, o que me interessa a mim e a vocês, é que estão muito apaixonados.


adenda: história ficcionada

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

noutra pele


Existem elementos de certas espécies, que mesmo com todo a evolução da natureza, resistem a identificar-se com os seus pares.
Ainda esta manhã, à conversa com uma aspirina efervescente, ela me dizia que esta modernice de caírem dentro de um copo de água e ficarem para lá a borbulhar, lhe parecia pouco digno. O decurso da sua dissipação é lento e ruidoso e aquele saracotear devasso, do ora vem acima, ora vai abaixo, deve induzir a náuseas.
Dos risinhos lúbricos que ouviu das ex-colegas de blister, enquanto flutuavam e se desfaziam dentro da água, pouco tem a revelar-me, a não ser, que o que escutou foi impróprio para uma senhora, ainda para mais uma aspirina, que tem uma tradição de títulos honoríficos a manter.
Também se queixou, da grande ignomínia que é a morte aos soluços que a espera e assegurou-me com firmeza, que sortudo era o destino das suas antepassadas, que faleciam de um só trago.
Confesso que me inspirou simpatia, uma enorme afinidade de sentimentos e fiquei a pensar no assunto, com a aspirina entre os meus dedos. A empatia foi tal, que me coloquei na circunstância por ela vivida e dei razão aos seus princípios e receios.
Num arrebatamento solidário, resolvi desfazer-me dela e das companheiras, rasgando-lhes a cobertura que as protegia e na precipitação de as salvar, fiz o que a minha amiga mais temia, atirei-as para a água da sanita, donde surgiu um geiser imenso e dos mais bonitos que já vi.
Para me libertar do incauto genocídio que acabara de cometer, resolvi imediatamente a culpa do meu acto impensado, com um pensamento positivo, pegando em parte da frase, do início deste meu post.
Existem elementos de certas espécies, que mesmo com toda a evolução da natureza, nunca atingem um orgasmo múltiplo em vida, quanto mais morrer dele. Ao menos proporcionei-lho.
E fechei a tampa da sanita para as proteger de olhares voyeurs.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

rápidas melhoras


Estive ali durante toda a minha vida e a dela. A partir de uma certa idade, tentei espreitar mais para fora, de maneira a conhecer os meus outros companheiros de mastigações e nessa altura levei logo com a alcunha de semi-incluso. Como se eu não tivesse já nome de Siso! Eu, o dente mais independente e marialva da sua dentadura. O único da minha espécie, que nas próximas décadas irá entrar em extinção.

A partir dessa primeira e única espreitadela sou: “o semi-incluso que não está ali a fazer nada e poderá muito rapidamente tornar-se num foco de infecção, como aliás já está a acontecer”. Foi o início de uma campanha contra mim, baixa, mesquinha e cheia de golpes sujos.

Ontem de manhã foi o veredicto final e a minha hostess, a Patti, que já estava com um otite externa, diagnosticada 1h antes que a pôs quase surda, ficou de rastos quando soube tal como eu, que ia ser sujeita a uma cirurgia, ‘in a moment’!

O aparato de aparelhinhos e apalherómetros na mesa do gabinete médico, mais parecia um show-room de fornecedores de consultórios de estomatologia. O barulho tlim-tlim, que fazem aquelas ferramentas umas nas outras, ao saírem de dentro de saquinhos azuis impolutos, é arrepiante.

Eu, cheio de peneiras pela importância que me estavam a dar, fiz tanto esforço para espreitar cá para fora, que até consegui ver a radiografia que o médico lhe mostrava com a minha cara. Lindo eu, só vos digo! Foi o momento alto da minha vida quando me vi reflectido naquela película negra. E depois …

… depois tudo acabou para mim, no momento em que aquela finíssima e pontiaguda agulha, carregadinha de um líquido acre que cuspiu sem piedade, me perfurou a raiz sem qualquer hesitação, uma e outra vez, deixando-me completamente abananado e sem saber onde estava, só conseguindo ouvir muito ao longe, o riso dos outros dentes, troçando da minha sorte.

O pior dos horrores ainda estava para chegar e sem sequer ter tempo de entender o que me estava a acontecer, um luzidio apetrecho de metal, frio e aguçado, começou a abrir caminho e a esburacar em volta de mim, ferindo de morte a minha grande amiga gengiva cor-de-rosa, que coitada, não tendo nada a ver com o assunto, sangrava e chorava de dor, perfeitamente desesperada e perdida naquele ataque surpresa.

Depois chegou outro aparelho, ainda mais grosso e forte que o primeiro, mas nessa fase a martirizada gengiva cor-de-rosa, já tinha desfalecido de todo e eu cada vez mais dopado, só rezava para que aquilo tudo terminasse rapidamente.

Mas não. Resolveram descansar uns minutos e deixaram-me ali, integralmente descarnado, com as minhas partes pudendas, vergonhosamente expostas aos olhos de todos os interessados da cavidade. Foi só ouvi-los a gozarem-me; a doida varrida da língua, a irrequieta da saliva, os meus quase ex-companheiros, as parvinhas das gémeas amígdalas e acho que ainda ouvi uma piadinha obscena, lá das profundezas do esófago.

E finalmente, com uma força sobre-humana, atirou-se a mim o mastronço, o alicate arrogante, que sádico ainda me disse: foste!

E fui.

Fui pousado em cima de uma gaze imaculada, onde mostrei ao mundo as minhas duas desmedidas raízes. Abandonado e ao frio naquela mesinha, juntamente com os aparelhos metálicos, carrascos sangrentos, responsáveis pela minha morte precoce e injusta, ainda pude ver a minha antiga dona, que de olhos muito fechados, levava cinco profundos pontos, cosidos e apertadinhos por mãos ágeis, com a linha de pesca mais grossa que eu já vi.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

algumas certezas


Sentia falta de encostar o nariz na vidraça e saber que apesar do céu limpo e do sol alto, estava frio lá fora.

São os melhores sábados do ano, aqueles que se levanta mais tarde da cama quente, veste o roupão branco e fofo e liga a música baixo para não despertar a casa. Passeia de meias grossas, rega as plantas, prepara o leite morno com mel e volta para a cama onde lê tudo e se espreguiça até onde lhe apetecer.

Que saudades dos vestidos de malha fina que se vestem com collants opacos, dentro de botas altas e que com pashminas longas de angorá, leva a almoços tardios de sábado, com amigos.

Os melhores raios de calor são os da quatro da tarde, que a faz fugir das sombras finas que nesta época descem cedo à terra, escolhendo os cantos da rua que o sol vem aquecer.

São dois eclairs, duas broas de erva–doce, duas delícias de amêndoa com ovos moles e pode acabar de encher a caixa com aqueles bolinhos de chocolate cheios de compota cor-de-rosa. E já agora, um bolo-rei pequeno, se faz favor.

No fim da tarde, arranja-se o tabuleiro grande que se trás cheio para a mesa do sofá. Aquece as mãos geladas em chávenas de chá preto e belisca aqui e ali, com os olhos fixos no filme que passa na tv e que a faz rir e chorar.

Enquanto lhe derretem na boca pedaços de alcaçuz com recordações de infância, de lareira já acesa, com a manta de pelo grosso encostada a si e com aponta do nariz sempre frio, tem mais uma vez certeza que pertence muito mais a esta época do ano do que a outra qualquer.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

consórcios

Entram sempre sem olhar para ninguém. Senta-se um e depois o outro. Um olha para a televisão e outro não olha para nada. E depois trocam. Lêem a ementa com calma e em silêncio, escolhem o de sempre e um olha para a televisão e outro não olha para nada. E depois trocam.


Ela abre o patê, barra-lhe uma tosta estaladiça e coloca-lhe no prato, come uma azeitona sem caroço e pede uma água fresca. Serve-se do queijo fresco, que só tempera com pimenta e na última fatia junta sal e oferece-lho. Ele aceita e continua a olhar para a televisão e ela não olha para nada e depois trocam. Chega a espetada de tamboril, colocada ao lado dele que a serve primeiro. Pimento e cebola não, não gosta e ele já sabe. Estende-lhe o prato e ela estica a mão, enquanto olha para a televisão e ele não olha para nada. E depois trocam. Um café e um brandy e uma mousse de maracujá, que ela não come até ao fim, pois duas colheres são para ele, que já sentado de lado na cadeira com o balão entre os dedos, olha para a televisão e ela não olha para nada. E depois trocam.

Surge a conta e finalmente daquele casal sai um som, alcançando o pico mais alto do seu dia, o clímax, vamos?

Ela levanta-se e nem responde a olhar para a televisão e ele não olha para nada. Afinal em casa também têm televisão e depois lá trocam.