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segunda-feira, 13 de abril de 2009

corín tellado

foto corín tellado
A Maria dos Anjos foi nossa empregada durante muitos anos. Chegou até nós com dezasseis ou dezassete anos, vinda da 'terra' para Lisboa. Da terra dela, que eu nunca soube qual era.
Dizia muitas vezes 'valhameDeusmeninatejaquietinhasenãodigoàmãezinha'; assim, tudo pegado e todos ríamos com ela.
Era pouco mais velha que a minha irmã, que a ensinou a ler e a aperfeiçoar a letra tremida e irregular. Adorou!
Agora que já consegues ler melhor, Maria dos Anjos, vamos à papelaria comprar uma revista e escolhes o que quiseres para ti. A sério, menina?
Claro que é a sério, Maria dos Anjos.
Eu trouxe a minha revista do Mandrake, a minha irmã a Burda, o meu pai o maço de tabaco Porto e o jornal e a Maria dos Anjos, apaixonou-se pela prateleira onde estavam dispostos e impecavelmente alinhados, os pequenos livros de romances de amor a cordel, da Corín Tellado.
Depois desse dia, Maria dos Anjos gastava o que lhe sobrava do ordenado, do qual enviava uma parte para a mãe que vivia ainda na 'terra', em Corín Tellado Já sabíamos que tinha terminado de ler o último dos seus livrinhos, quando vagueava pela casa de olhar perdido, sorriso disfarçado e se esquecia de nos pregar raspanetes e fazer queixas à nossa mãezinha.
Escrevia cartas de amor ao noivo, de fazer inveja a qualquer heroína dos seus romances melados, dizia-nos a minha irmã depois de fazer a revisão, a pedido da Maria dos Anjos.
Ah conta lá, conta lá o que ela escreve ao Alfredo. Nem pensem!
E nunca nos contou.
Numa das nossas visitas a Badajoz, o meu pai viu que estava no cinema um filme da Corín Tellado, "Tengo que Abandonarte"
. Comprou dois bilhetes, um para a Maria dos Anjos e outro para a minha mãe, que lá fez o sacrifício de lhe servir como tradutora. A minha irmã bem que pediu para ir também, mas o filme era para maiores de dezoito.
Quando duas horas depoise, a Maria dos Anjos entrou nas Galerias Preciados, vinha lavada em lágrimas, de braço dado com a minha mãe, que a muito custo punha um semblante bastante sério, ouvindo-a a repetir sem parar, 'aisenhoravalhameDeusquecoisamaisboniaoamordaquelesdois'.
Uns anos mais tarde, partiu de novo para a 'terra' para se casar com o Alfredo. Oferecemos-lhe uma caixa cheia de Corín Tellado e ainda hoje tenho dúvidas, se em Santa Apolónia ela chorou mais com pena de nos deixar ou da emoção, quando viu o presente das patroinhas.

A escritora espanhola Corín Tellado morreu no sábado. Escreveu mais de quatro mil livros e vendeu mais de quatrocentos milhões de exemplares. Em Espanha, só Cervantes terá sido mais lido do que ela.
E eu lembrei-me de imediato da nossa querida Maria dos Anjos. Que será feito dela?