Dora nascera gorda, crescera gorda, adolescera gorda e ficara para sempre gorda. Rapariga optimista, alegre e bem disposta, já se habituara com essa realidade e convivia bem com o seu físico.
Numa das suas habituais incursões a uma conhecida cadeia de fast food, decorada a encarnado sangue, que como já é sabido trata-se da cor que excita o apetite, conheceu entre os frascos de molho brilhante, o gás da cola e a gordura do hamburguer, aquele que viria a ser o amor da sua vida.
Chamava-se Rufino, trabalhava como caixa do restaurante desde que este abrira e era o único funcionário com contrato efectivo, pois nem num bife untado, aquela alminha jamais havia tocado e o gerente levara aquilo como uma verdadeira atitude com vista ao lucro.
O que não sabiam é que Rufino era vegan e por isso, incapaz de tocar em qualquer produto de origem animal. Ficava-se pelas insípidas saladinhas, bebia um copo de água e voltava para a registadora. Impoluto, aquele espírito.
Nunca houve explicação para a paixão súbita e visceral que nasceu imediatamente ali, entre a troca do nervoso talão da despesa e a consistente nota de vinte euros.
Facto é, que aqueles dois jovens foram atraídos como ímanes de tal maneira, que nem Newton saberia explicar. E nunca mais se largaram.
Namoraram intensamente durante um ano, recheado de trocas e juras, versos, sms's e emails de amor, passeios no shopping e refeições no fast food encarnado.
O problema da comida nunca chegou a sê-lo, verdade seja dita, visto que Dora comia sempre tudo e de tudo e Rufino, nada de nada.
Quando decidiram casar, Rufino fez-lhe a surpresa de convidar o seu amigo sueco, Jan-Olov um conhecido criador de moda, para que desenhasse o enorme e difícil vestido de noiva, para a sua superabundante-amada Dora.
Ela ficou delirante, pois sentia-se perfeitamente à vontade com Jan-Olov, o que lhe permitia fazer todo o tipo de pedidos exuberantes, muito próprios do seu carácter efusivo.
Mas... eis que tudo se desmoronou nas vésperas da boda. Depois das análises e exames da praxe, a que todos os nubentes responsáveis devem ser sujeitos, Dora ficou a saber que sofria de uma doença rara e fatal, não para si, mas sim mas para Rufino. Tinha o enorme e científico nome de: mantimentus.contra.vegan.bacchteris.phatalis.mortis. Resumindo, se a Dora lhe tocasse com um dedo que fosse, o rapaz ia desta para melhor.
Ela chorava desesperada por perder o amor da sua vida, mas não havia mais nada a fazer senão terminar aquela relação; o médico fora irredutível quanto à inevitabilidade das consequências e Rufino apercebendo-se do sentimento de desonra da sua amada, aguentou-se firme e hirto e decidiu resolver a situação à sua maneira.
Depois de colocado um anúncio no jornal, onde vendiam o vestido de noiva por estrear, Dora partiu para parte incerta.
Rufino reuniu toda a família e os amigos mais chegados no seu apartamento, recebendo-os demasiado excitado para o seu temperamento e em trajes desapropriados: havaianas coloridas, short de licra brilhante e camisola de alças justinha, a vincar-lhe a magreza do tórax pobremente desenvolvido do veganismo.
Ria nervosamente, enquanto a melena loura, trabalhada várias horas para dar credibilidade à sua explicação, lhe caía brincalhona para os olhos.
Acompanhado de alguns trejeitos exagerados, mas convincentemente ensaiados, despejou a notícia de um golpe só, enquanto limava uma unha falhada que insistia em deixar puxões na licra inusitada da sua vestimenta.
"Durante as várias provas do vestido de noiva da Dora, eu e o Jan-Olov descobrimos que nos amávamos loucamente e já não há mais casamento para ninguém".
E assim termina mais um documentário do Canal Relíquias Históricas, apresentado-vos aquele que se julga ter sido, o primeiro cavalheiro conhecido do século XXI.
Chamava-se Rufino, trabalhava como caixa do restaurante desde que este abrira e era o único funcionário com contrato efectivo, pois nem num bife untado, aquela alminha jamais havia tocado e o gerente levara aquilo como uma verdadeira atitude com vista ao lucro.
O que não sabiam é que Rufino era vegan e por isso, incapaz de tocar em qualquer produto de origem animal. Ficava-se pelas insípidas saladinhas, bebia um copo de água e voltava para a registadora. Impoluto, aquele espírito.
Nunca houve explicação para a paixão súbita e visceral que nasceu imediatamente ali, entre a troca do nervoso talão da despesa e a consistente nota de vinte euros.
Facto é, que aqueles dois jovens foram atraídos como ímanes de tal maneira, que nem Newton saberia explicar. E nunca mais se largaram.
Namoraram intensamente durante um ano, recheado de trocas e juras, versos, sms's e emails de amor, passeios no shopping e refeições no fast food encarnado.
O problema da comida nunca chegou a sê-lo, verdade seja dita, visto que Dora comia sempre tudo e de tudo e Rufino, nada de nada.
Quando decidiram casar, Rufino fez-lhe a surpresa de convidar o seu amigo sueco, Jan-Olov um conhecido criador de moda, para que desenhasse o enorme e difícil vestido de noiva, para a sua superabundante-amada Dora.
Ela ficou delirante, pois sentia-se perfeitamente à vontade com Jan-Olov, o que lhe permitia fazer todo o tipo de pedidos exuberantes, muito próprios do seu carácter efusivo.
Mas... eis que tudo se desmoronou nas vésperas da boda. Depois das análises e exames da praxe, a que todos os nubentes responsáveis devem ser sujeitos, Dora ficou a saber que sofria de uma doença rara e fatal, não para si, mas sim mas para Rufino. Tinha o enorme e científico nome de: mantimentus.contra.vegan.bacchteris.phatalis.mortis. Resumindo, se a Dora lhe tocasse com um dedo que fosse, o rapaz ia desta para melhor.
Ela chorava desesperada por perder o amor da sua vida, mas não havia mais nada a fazer senão terminar aquela relação; o médico fora irredutível quanto à inevitabilidade das consequências e Rufino apercebendo-se do sentimento de desonra da sua amada, aguentou-se firme e hirto e decidiu resolver a situação à sua maneira.
Depois de colocado um anúncio no jornal, onde vendiam o vestido de noiva por estrear, Dora partiu para parte incerta.
Rufino reuniu toda a família e os amigos mais chegados no seu apartamento, recebendo-os demasiado excitado para o seu temperamento e em trajes desapropriados: havaianas coloridas, short de licra brilhante e camisola de alças justinha, a vincar-lhe a magreza do tórax pobremente desenvolvido do veganismo.
Ria nervosamente, enquanto a melena loura, trabalhada várias horas para dar credibilidade à sua explicação, lhe caía brincalhona para os olhos.
Acompanhado de alguns trejeitos exagerados, mas convincentemente ensaiados, despejou a notícia de um golpe só, enquanto limava uma unha falhada que insistia em deixar puxões na licra inusitada da sua vestimenta.
"Durante as várias provas do vestido de noiva da Dora, eu e o Jan-Olov descobrimos que nos amávamos loucamente e já não há mais casamento para ninguém".
E assim termina mais um documentário do Canal Relíquias Históricas, apresentado-vos aquele que se julga ter sido, o primeiro cavalheiro conhecido do século XXI.
