Preenche-me sempre a lápis porque gosta de apagar, rasurar, desenhar asteriscos, fazer setinhas de ligação, sublinhar, escrever notas de cabeçalho e de rodapé.
Faz-me desenhos nos cantos superiores, enquanto espera que a imaginação chegue para escrever em seguida nas linhas que lhe coloco à disposição e que esperam pacientes para serem preenchidas.
Quando está mais lenta dobra-me os cantos, brinca com a borracha entre os dedos e fixa o olhar em mim como se me visse a folha seguinte à transparência. No fundo, despe-me.
Nos dias em que está com o tema na ponta da lapiseira, arranha-me com força, ri
Não lhe interessa a confusão, as vozes ao fundo, os ruídos de base, a presença dos outros, a televisão ou a música. Gosta de barulho à volta, que de todas as vezes lhe fez companhia e sempre soube encontrar o seu silêncio nele. Eu também acabei por me habituar, aos locais inusitados que ela escolhe para me sacar da carteira e começar-me a escrever. E lá vou eu outra vez, sem horários. sem rumo, sem saber. Tenho passeado muito, já lhe conheço o carro, o escritório, a casa, o picadeiro ao domingo de manhã, a esplanada junto ao cais, o bar da praia, a espreguiçadeira da piscina e noutro dia até adormeceu comigo na cama e só acordamos depois do sol.
Eu, um simples caderno de linhas.
