segunda-feira, 20 de outubro de 2008

das pequenas coisas

foto de sianto

Também já não perco muito tempo com o tempo, nem ando a correr com ele como se fosse fugir de mim amanhã. Prefiro gozar os minutos, às horas e os dias às semanas.

Desfruto bem mais os pequenos instantes que os grandes momentos. Os primeiros, aprendi a perpetuá-los e aos outros a dar-lhes a efemeridade que me merecem. Mas nem sempre soube disto.

Agora fico quieta quando chega o sol baixo e me toca a cara, não sinto frio quando arrefece ao fim da tarde de Outono, nem me queixo se a chuva resolveu salpicar-me o dia. Escolho o espaço que não tem sombra, rio-me das cócegas da brisa e agradeço à chuva o cheiro que deixou quando regou a terra. E pelo meio destas escolhas, entre estes pormenores de como gosto de ser, também descubro que sempre detestei o provérbio, mais vale um pássaro da mão que dois a voar.

É mentira. Não vale nada.

Se não podemos ficar com os dois, não temos que necessariamente ficar com o pássaro que ficou para trás, o que voa pouco, com o que sobra daquilo que tão benevolamente nos deixam, criando-nos a falsa ilusão de que é melhor termos qualquer coisa, que coisa nenhuma.

domingo, 19 de outubro de 2008

sábado, 18 de outubro de 2008

[11] ´tou no ir...de fim de semana


Bom dia vizinhança, hoje acordei sendo mãe da adolescente Beatriz, que faz 13 anos.

Oh meu Deus, eu tenho quase a certeza que foi ontem que esterelizei catrefadas de biberões, enchi armários com sacos de fraldas, que me sujei de Halibut, Brufen e de papa Cerelac.

Ainda ontem lavei babygrows, dobrei cueiros e pu-la a dormir a sesta. Ajeitei-lhe os lençóis bordados do berço, fiz cuchi-cuchi, disse um palavrão pela enéssima vez, por causa da gaita do carrinho que não se dobra como deve de ser e andei de cócoras a espreitar para baixo do sofá, em busca das quinze chuchas dela.

Sirvam-se, sirvam-se que eu vou directa para um spa dar cabo destas rugas todas que me nasceram durante a noite.
Adenda:
Pronto, está aqui. Encomenda especial para a vizinhança que chegou um pouco atasada.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

cartas de amor

foto minha

Comprei noutro dia num alfarrabista de Lisboa, este livro antigo e maravilhoso de cartas para namorados, arranjar marido e arranjar esposa, tal e qual como consta do sub título no interior. São dezenas delas com respostas e negações das pretendidas aos seus candidatos. Escolhi uma que achei uma delícia, desde as palavras respeitosas do rapaz, à envergonhada resposta dela e terminando na carta em que ele pede aos pais dela, para que estes os autorizem a conversar.

São cartas de outros tempos que me deixaram perdida de riso e ao mesmo tempo admirada e sensibilizada com este tipo de linguagem.

Carta do pretendente:

Exma. Sra.

Apesar de a conhecer há muito tempo, só hoje me atrevi a escrever-lhe.

Vivia amando-a em silencia, e sempre temi dirigir-lhe a menor frase de amor. Acanhamento meu, fruto da sua mesma timidez e do meu enorme respeito.

Agora não posso mais calar este afecto que me domina e que é razão de ser da minha própria vida.

Não me dê uma resposta negativa. Pense bem, muito antes de me escrever, mas conceda-me a graça de esperar o seu afecto, mesmo que eu tenha de lhe demonstrar, à força de sacrifícios, que ninguém mais a amará como eu a amo.

Espero cheio de temor e ansiedade a sua carta

Francisco

Resposta da menina:

Exmo. Sr.

Após ter mostrado a meus pais a carta que V. Exa. me escreveu, e animada pelos seus conselhos e porque também eu o estimo com bastante sinceridade, venho assim tranquilizar o seu coração alvoraçado.

Meus pais conhecem-no um pouco e isso é uma garantia para o nosso amor.

Ser-me-ia doloroso simpatizar com alguém a quem os meus olhassem com maus olhos. Felizmente dá-se o contrário e isso é uma grande felicidade para nós.

Veremos se não terei de me arrepender pela facilidade com que acreditei nas suas boas expressões.

Sem mais, creia-me com toda a consideração.

Madalena

Pedido de namoro aos pais:

Exmos. Srs.

Há tempo já, que estou para me dirigir pessoalmente a V. Exas. Uma timidez grande me tem embaraçado. Vencida hoje, em parte, essa timidez, resolvi escrever a V. Exas., pedindo-lhes que me concedam a suprema ventura de falar com a filha de V. Exas.

Repugna à lealdade do meu carácter amá-la e falar-lhe, sem que os pais o saibam.

V. Exas. Dirão o que se lhes oferecer sobre o assunto, uma vez tomadas as informações que julguem necessárias a meu respeito.

De V. Exas, At.e Ven. e Obgº

Francisco

Isto não é incrível?

Está bom assim, Vera?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

já cá canta

foto minha

Bom dia, sei que não é permitido fotografar na FNAC, mas preciso mesmo de tirar uma foto aquele escaparate do “Jogo do Anjo”, pergunte lá à pessoa que manda aqui, se me faz o jeitinho.

E fez.

E “O Jogo do Anjo” começa assim:

1º capítulo – A Cidade dos Malditos


“UM ESCRITOR nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá.

Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem um preço”.

E lá estava eu, tontinha na fila da caixa a devorar a primeira página.

A senhora, se faz favor …

(continuação do post anterior)

carlos ruiz zafón


Foi assim. Eu conto.

Ouvi alguém lá muito ao fundo na televisão, dizer que o livro assim e que o livro assado. Que era um livro que falava de livros. Que prendia no primeiro parágrafo, que era mágico, único, deslumbrante. Um livro mágico? Sobre livros? Arrebitei as orelhas.

Livros com alguma magia conheço vários, agora livro mágico só conheço um e coloquei-o ali, na minha coluna do lado direito.

Estavam dadas as directrizes para a ‘je’ ir à livraria mais próxima.

Tudo para mim foi especial neste livro, até a compra. Bom dia, vinha à procura da “Sombra do Vento”, do Zafón.

Sombra do vento….., sombra do vento……, zafónnnnn, ah, parece que vieram poucos, mas acho que está com sorte, porque penso ter ali um dentro guardado já nem sei porquê.

Mas sabia eu, estava à minha espera, como descobri mais tarde quando o li.


E um dos livros da minha vida, começa assim:


1º capítulo – Cemitério dos Livros Esquecidos

“Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias de Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.

- Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel - advertiu o meu pai - Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.

(…)

- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. (…) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos que chegue aqui. Neste lugar, os livros de quem já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. (…)


(…) talvez o acaso ou o seu parente de gala, o destino, mas naquele mesmo instante soube que já tinha escolhido o livro que ia adoptar. Ou talvez devesse dizer o livro que me ia adoptar a mim”.

Quando o terminei, voltei impulsivamente à primeira folha e li tudo de novo. Nunca antes o tinha feito.

Totalmente inebriante.

Arroubo de sentimentos.

Exame de consciências.


Quase durante dois anos e meio, o livro andou esquecido pelas livrarias e de repente em 2007, parece que o descobriram. Todos falaram nele, todos o leram, emprestaram e ofereceram. Banalizou-se. Paciência. Se calhar é esse mesmo o seu destino de um livro. Ser lido por todos.


Disseram-me que hoje sairá em português o “Jogo do Anjo”, o último livro do Zafón.


Não quero saber do preço. Não quero saber das filas. Não quero saber do populismo e das massas. Se saiu hoje, já é meu. Se sair amanhã ou depois, também.



quarta-feira, 15 de outubro de 2008

oh mulher, cala-te


E quando lemos ou ouvimos frases cretinas, vindas de supostos profissionais competentes? A última que li, foi proferida por uma psicóloga, que ao que parece era especialista em comportamento infantil e tinha até umas quantas regras de um cessar-fogo entre crianças e pais.

A dita senhora assina uma rubrica, chamada “Educar bem” e informou-me, com todas as letras e do alto da sua sabedoria e agora peço que se sentem para não desfalecerem, que se eu ou vocês, nos voltarmos para as nossas inocentes criancinhas e dissermos “não me respondas dessa maneira”, estaremos a inibir a comunicação e a ensinar uma lição errada aos nossos filhos!

Pronto, eu espero um bocadinho para que possam revirar os olhos, sair do blog, desmaiarem, tomarem cafeína e atirarem um grito. Mas só vos peço que não perturbem os vossos meninos com impropérios destes, por favor.

Ah pois é, sua cambada de pais inúteis, agressivos, profanadores de memórias futuras, seus castradores de infâncias felizes, seus educadores reprimidos, não fiquem chocados com a senhora, ela tem toda a razão. Vocês são todos uns ditadores de domicílio e adoram falar para as crianças daquela maneira violenta, “ não me respondas dessa maneira”! Isso é coisa que se diga a um filho?

Coitadinhas das crianças. Agora já não podem fazer nada, é? Não nos podem falar como lhes dá na gana, já não podem exigir toda atenção do mundo, a toda a hora, estão impedidos de pedir o carmo e a trindade, têm de dar satisfações de toda a espécie, são obrigados a ter horários, já não podem comer o que lhes apetece, nem mandar na nossa vida?

Que insensibilidade da vossa parte meus senhores, que papel tão vil o vosso que torturam desta forma ignóbil os vossos filhos.

A tratá-los desta forma “não me respondas desta maneira”.

Tzz, tzz, tzz. Feio. Muito feio.

Fora de brincadeiras, será possível nos dias que correm, em que cada vez temos mais exemplos, de miúdos que fazem o que querem dos pais, que mandam neles, que falam sem maneiras e sem respeito, que alguém no seu perfeito juízo venha dizer, que uma simples chamada de atenção em relação à forma como um filho responde a um pai, é inibidor da comunicação?

Os pais têm filhos, mas não têm tempo nem paciência para eles. Tapam os buracos do afecto com presentes, dinheiro e muitas vezes com total indiferença. Noutro dia, um pai na reunião de turma da Beatriz, ficou muito espantado ao saber que o filho tinha trabalhos de casa! Será normal?

Cada vez é maior a distância existente entre pais e filhos, nalguns é quase um fosso intransponível.

Os pais estão cada vez mais ocupados com o trabalho, com outros assuntos e consigo próprios, em desfavor dos filhos e estes vivem praticamente sozinhos e entregues à sua sorte, são donos e senhores do seu tempo, do seu espaço e têm tudo quanto pedem para se calarem e não darem trabalho.

Numa total ausência de pais, criam-se pequenos vilões e se alguém se lembra de os repreender ainda ouve lições de moral de uma idiota de uma psicóloga, com cházinhos e dicas da tanga, que nem sequer para aplicar em recém-nascidos servem.

Educar dá muito, muito trabalho. Doses e doses de perseverança, muita atenção, cuidado e dedicação. Mas há momentos de chatices e aborrecimentos, falta de paciência, zangas, castigos. Levanta-se a voz se for caso disso e diz-se que não. Os filhos por muito bons que sejam, também precisam de puxões de orelhas, reprimendas, limites e castigos. O que não precisam é que os tratemos como débeis mentais e com receio de os enfrentar, porque não vá dar-se o caso de ficarem traumatizados com o tom de voz.

“Não me respondas dessa maneira”, estaremos a inibir a comunicação e a ensinar uma lição errada aos nossos filhos?

Oh mulher, cala-te!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

premonições - #8


As rosas do meu canteiro sempre acharam que eram melhores que as outras flores. Peneiras que têm, antes mesmo do milagre surpreendente de Isabel, quando enganou o autoritário do Dinis. E depois, com aquilo de terem espinhos, ninguém as cala. Ah e tal, que como nenhuma outra flor se aproxima delas, podem ter mais realce lá no canteiro, que o perfume delas é famoso, têm uma água como seu nome, aguentam-se firmes no Inverno, são as preferidas dos apaixonados, cada cor sua tem um significado muito próprio, acompanham quase sempre champanhe e caixas de bombons e até os humanos lhes têm respeito quando as vão colher.

Resumindo, são umas insuportáveis e aquilo enerva-me.

Há flores muito mais bonitas do que as rosas, lá no meu canteiro. Então e os amores-perfeitos, as minhas deslumbrantes violetas, os brincos-de-princesa, as buganvílias, as estrelícias, os gladíolos e as dálias pom-pom?

Sempre que cuido das outras flores, lhes corto as folhas mortas e lhes renovo o adubo, tento fazer-lhes ver que se deviam impor perante as tontas das rosas. Trato das rosas de forma igualzinha, só não lhes faço festas.


O problema maior é com os amores-perfeitos e as minhas violetas; até metem dó. Como são baixinhas, ficam intimidadas com toda aquela prepotência. As outras, as estrelícias, os gladíolos, as buganvílias, os brincos-de-princesa e até as simples dálias, chegam bem para as rosas, essas não me preocupam. Atiram-lhes para cima da vaidade, com a originalidade das suas formas, a altura do seu caule e com a exclusividade da sua espécie e as outras, apesar de manterem com as peneiras e os picos, param logo de fazer gracinhas.

Mas fiquei com um problema; como é que ia fazer, para que as minhas flores baixinhas e frágeis, acreditassem que para mim, eram as mais bonitas de todas?

Comecei pelos amores-perfeitos e tentei explicar-lhes, que até a cor preta, arrogante e com manias de superioridade e que raramente se mistura com as outras cores, porque acha que por si só, é a elegância em pessoa, se rendeu ao mundo da botânica e escolheu os rasteirinhos amores-perfeitos, para dar o braço a torcer e aceitar de bom grado fazer pendant com o amarelo, o azul, o castanho, o encarnado, o roxo e sei lá mais com quem. Que queridos os amores-perfeitos, puseram-se logo a espreitar de uns para os outros, à procura de quem tinha mais preto na pele.

E o vosso nome, continuei eu, há lá nome mais bonito para uma flor? Só uma muito especial poderia ser chamada assim.

E fiz mais. Para as mimar, retirei-as do canteiro e coloquei-as em vasinhos de terracota. Distribuí-as pelo parapeito da janela da cozinha, para poderem dizer adeus às amigas, amparei-as ente os meus livros preferidos e perfumaram-me as histórias, ouviram a banda sonora do Moulin Rouge, enfeitei com elas o quarto da Beatriz e à noite acendi-lhes uma vela especial sem perfume, para terem companhia e lhes iluminar as cores.

Só lhes digo que parecem outras. Espreitam pela janela para as invejosas das rosas e pelas frechas das portadas, atiram dicas e conselhos de ânimo, aos jovens amores-perfeitos, que entretanto semeei. Estão portanto em convalescença, mas com alento para voltarem ao seu verdadeiro ecossistema; a terra, o sol, a chuva, o frio e o calor, o vento e para junto das amigas coloridas.


Com as minhas violetas, foi mais difícil. Coitadinhas, são muito sensíveis e com qualquer simples aborrecimento, deixam logo cair a flor e já nem sei se, ou quando voltarão a florir. Peguei nelas com muito jeito e acariciei-lhe o pelo, devagar. Ah pois, o pelo. Quantas flores existem com pelo nas folhas? Poucas, aposto. Isso é característica de humanos e do reino animal. E também das minhas violetas, que são especiais com penugem nas folhas fortes e macias, que crescem em forma de rodízio e servem de amparo para a flor linda que vai nascer no seu centro. E disse-lhes para o caso de não saberem, que mais nenhuma flor recém-nascida, é tão bonita como uma baby-violet. As violetas escondem de nós segredos coloridos, pois só elas sabem a cor da flor que aí vem. E que cores! Roxo, branco, anil, tons transparentes de lilás, cor-de-rosa e …violeta. Pois é meninas, vocês são nome de cor e de gente. Violeta! Parece impossível, mas elas tinham tão baixa a auto-estima, que pensavam que só as tontas das rosas tinham direito a tal privilégio. Até se lhes arrepiaram os pelos das folhas, tal foi a euforia e a algazarra entre todas. Gritinhos para ali, gritinhos para ali. E ainda há mais, continuei eu, há rosas amarelas, rosas encarnadas, rosas brancas, rosas cor-de-rosa, mas nunca viram rosas violetas…só de estufa e mesmo assim deve ser um violeta muito do desbotadinho.

As outras empertigadas, ouviram tudo lá de fora e começaram a observar-se com descrição. Realmente, rosa violeta nenhuma era e ainda por cima, já não bastava as simplórias das margaridas darem nome aos humanos, agora também havia mais estas minorcas e rasas com nome de gente. Isto foi imediatamente motivo para grande estardalhaço no canteiro. As escandalosas das estrelícias, armaram logo barraca com sonoras gargalhadas ao ver a cara de ofendidas das outras. Os gladíolos, que traziam flores quase até ao solo, cochicharam com as térreas violetas e trocaram segredinhos à vontade, sem qualquer receio dos espinhos que as espreitavam, sempre de extremidade pontiaguda e ameaçadora em riste. As buganvílias, com aquele frondoso corpo carregado de cor, conseguiram chegar até à janela da minha cozinha e era vê-las a serem informadas de todas as curiosidades, contadas pelos amores-perfeitos, sobre o que se passava do interior da minha casa.

As dálias pom-pom, que têm um certo prestígio lá no canteiro, porque eu lhes corto o pé com frequência para enfeitar a minha sala, juntaram-se aos brincos-de-princesa, que são flor com estatuto de nobreza e trataram logo de por as rosas no seu lugar. Disseram-lhes que a partir de agora, acabassem com as pinderiquices, com as desfeitas a torto e a direito às flores pequeninas, frágeis e desprotegidas, que até os simplórios dos cravos encarnados iriam ter melhor futuro que elas, que pusessem de parte a megalomania, porque qualquer dia só prestavam para logótipo rasca e descorado, de um partido político que governaria um qualquer país minorca e foleiro, que terá tudo, menos aspecto de canteiro florido.

fotos de ana cotta e cláudio marcon


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

quem vê o quê a quem


Fico a pensar que sim. Que se olha muito para fora. Demasiado até. Avalia-se sobejamente o exterior, os outros. Também o faço, confesso. Frequentemente. Esqueço-me é da parte do avaliar, porque lanço logo o espírito em fantasias. E quem sou eu para esticar o dedo indicador...

Prefiro perder-me na expressão distraída da mulher, que sentada na esplanada desfolha uma revista, nos dedos do homem que mexem e remexem o açúcar do café e que deixa fugir o olhar para o infinito, na conversa sussurrada do casal de velhos, acolhidos no banco do jardim e no saco de miolo de pão seco que ela, com a mão trémula de veias grossas e azuis, oferece devagar aos pombos do jardim.

Depois lembro-me da minha primeira bicicleta de rodinhas, comprada em Espanha na loja Las Tres Campanas, enquanto sigo o olhar pelo caminho em linha muito recta, que faz a menina que tem uma cor-de-rosa parecida com a minha. Fixo-me na mãe dela, que saiu de casa à presa e se esqueceu de si e de se arranjar, um pouco que fosse, sorrio para dentro a pensar, porque são na maioria os homens, quem queda parado a ler as gordas dos jornais expostos no quiosque da rua, não imagino há quanto tempo, dorme no passeio o velho alcoolizado, ainda me apercebo do ar enfastiado e do pensamento a quilómetros de mim, daquela miúda nova que serve na minha esplanada e tenho pena do balão lilás, que fugiu da mão do menino de caracóis pretos e que seguiu em direcção ao céu. Ouço o tom de voz do marido, da mãe cansada, que se esqueceu de se arranjar, que chega nas calmas de sábado à tarde com a Bola debaixo do braço e lhe pergunta com comando na voz, já pediste para mim?

E tenho, duas mesas à frente da minha, um bebé a rir-se da minha cara.

Ainda há aquele homem que fala sozinho e acho que se responde. O outro que grita ao telemóvel, enquanto deita um olho aos filhos que se esticam para dentro do lago, os namorados que estão zangados, os que estão calados, os que estão apaixonados e os três estudantes, que suspiram com a quantidade de calhamaços que acartam e ainda não descobriram que este, vai ser um dos seus melhores tempos.

Depois passeio pela rua, com este sol belíssimo que me afaga a cara, entro na loja preferida e trago comigo mais duas peças de roupa da nova colecção, parecida com as outras que já lá tenho no cabide, rio e quase canto, durante o filme que escolhi ver, entro e saio num instante da mercearia tradicional, porque só preciso das minhas tenras couves de Bruxelas e chego a casa ao fim do dia, novamente mais completa.

Mais inteira de pormenores sem importância, que nem sequer são meus, de vivências simples a que dou imenso valor e de olhares ao redor que me enriquecem o dia. E a angústia do tempo que passa, dissipasse.

E quando me sento no cadeirão de orelhas, sobre as pernas dobradas para começar a ler, atiro primeiro uma e depois outra gargalhada. Quem está à minha frente, só levanta os olhos, não reage e já não estranha, lá está ela de novo, de certeza que ficou presa a alguma coisa que viu hoje.

A primeira gargalhada, vai para os que tiram rápidas ilações e supõem que quando nos sentamos a observar a vida que vai à nossa volta, a atitude de quem o faz nunca é de humildade, mas sempre de fagocitose.

A segunda gargalhada é mais amiga. É a pensar nos que até me conhecem, mas que me dizem, nas vezes que me apanham nas minhas observância do quotidiano, pronto, já estás perdida no teu mundo, mergulhada nos teus motivos, dentro de ti novamente.

Afinal, pensava eu que a minha cabeça era promiscua de divagações e devaneios, que errava perdida pelos bocados de vida que os outros me mostravam sem saber, que passeava durante todo este tempo no espaço exterior, a interpretar e ouvir o que quase não era dito entre eles e afinal, dizem-me agora aqueles que me estão mais perto, que a minha cabeça é monógama e que fico muito metida comigo mesma, quando me dedico a este espiar em jeito de mirone, do eu dos outros.

domingo, 12 de outubro de 2008

aviso à vizinhança

foto minha, linhares da beira
Vizinhança, temos gente nova no blogobairro. Nova vizinha à janela.

E gente do melhor que há.

Com sentido de humor, de frase afirmativa, raciocínio lúcido, verdadeira e emotiva.

É a Si, do blog de Si para si.

Vão dar-lhe as boas vindas, como boa vizinhança que são e vão ver, que não se irão arrepender do que ali vos vai ser dado a ler e pensar, a cada momento.

Mais uma vez, bem vinda, querida Si.

[27] há coisas fantásticas, não há?


Às festas das crianças, assistem pais, irmãos, amigos e quase sempre os avós.

Nesta festa foi diferente. Os protagonistas são outros. Estão sentados, porque se cansam e uns já utilizam oxigénio como auxiliar.

A idade que avança, a saúde que desvanece, a doença que chega, a fraqueza que mora, o tempo que urge.

E a vida, que enquanto for presente, tem sempre muito para dar e vale sempre a pena, até ao último suspiro.

Jamais desistir.

Dos exemplos mais magníficos que vi.

Quero lá chegar assim.


Refrão:
Lights will guide you home
And ignite your bones

And I will try to fix you
(Coldplay)


(a seguir a este, talvez seja este o vídeo mais emotivo, da rubrica ‘coisas fantásticas, que aqui já coloquei).