
As rosas do meu canteiro sempre acharam que eram melhores que as outras flores. Peneiras que têm, antes mesmo do milagre surpreendente de Isabel, quando enganou o autoritário do Dinis. E depois, com aquilo de terem espinhos, ninguém as cala. Ah e tal, que como nenhuma outra flor se aproxima delas, podem ter mais realce lá no canteiro, que o perfume delas é famoso, têm uma água como seu nome, aguentam-se firmes no Inverno, são as preferidas dos apaixonados, cada cor sua tem um significado muito próprio, acompanham quase sempre champanhe e caixas de bombons e até os humanos lhes têm respeito quando as vão colher.
Resumindo, são umas insuportáveis e aquilo enerva-me.
Há flores muito mais bonitas do que as rosas, lá no meu canteiro. Então e os amores-perfeitos, as minhas deslumbrantes violetas, os brincos-de-princesa, as buganvílias, as estrelícias, os gladíolos e as dálias pom-pom?
Sempre que cuido das outras flores, lhes corto as folhas mortas e lhes renovo o adubo, tento fazer-lhes ver que se deviam impor perante as tontas das rosas. Trato das rosas de forma igualzinha, só não lhes faço festas.

O problema maior é com os amores-perfeitos e as minhas violetas; até metem dó. Como são baixinhas, ficam intimidadas com toda aquela prepotência. As outras, as estrelícias, os gladíolos, as buganvílias, os brincos-de-princesa e até as simples dálias, chegam bem para as rosas, essas não me preocupam. Atiram-lhes para cima da vaidade, com a originalidade das suas formas, a altura do seu caule e com a exclusividade da sua espécie e as outras, apesar de manterem com as peneiras e os picos, param logo de fazer gracinhas.
Mas fiquei com um problema; como é que ia fazer, para que as minhas flores baixinhas e frágeis, acreditassem que para mim, eram as mais bonitas de todas?
Comecei pelos amores-perfeitos e tentei explicar-lhes, que até a cor preta, arrogante e com manias de superioridade e que raramente se mistura com as outras cores, porque acha que por si só, é a elegância em pessoa, se rendeu ao mundo da botânica e escolheu os rasteirinhos amores-perfeitos, para dar o braço a torcer e aceitar de bom grado fazer pendant com o amarelo, o azul, o castanho, o encarnado, o roxo e sei lá mais com quem. Que queridos os amores-perfeitos, puseram-se logo a espreitar de uns para os outros, à procura de quem tinha mais preto na pele.
E o vosso nome, continuei eu, há lá nome mais bonito para uma flor? Só uma muito especial poderia ser chamada assim.
E fiz mais. Para as mimar, retirei-as do canteiro e coloquei-as em vasinhos de terracota. Distribuí-as pelo parapeito da janela da cozinha, para poderem dizer adeus às amigas, amparei-as ente os meus livros preferidos e perfumaram-me as histórias, ouviram a banda sonora do Moulin Rouge, enfeitei com elas o quarto da Beatriz e à noite acendi-lhes uma vela especial sem perfume, para terem companhia e lhes iluminar as cores.
Só lhes digo que parecem outras. Espreitam pela janela para as invejosas das rosas e pelas frechas das portadas, atiram dicas e conselhos de ânimo, aos jovens amores-perfeitos, que entretanto semeei. Estão portanto em convalescença, mas com alento para voltarem ao seu verdadeiro ecossistema; a terra, o sol, a chuva, o frio e o calor, o vento e para junto das amigas coloridas.
Com as minhas violetas, foi mais difícil. Coitadinhas, são muito sensíveis e com qualquer simples aborrecimento, deixam logo cair a flor e já nem sei se, ou quando voltarão a florir. Peguei nelas com muito jeito e acariciei-lhe o pelo, devagar. Ah pois, o pelo. Quantas flores existem com pelo nas folhas? Poucas, aposto. Isso é característica de humanos e do reino animal. E também das minhas violetas, que são especiais com penugem nas folhas fortes e macias, que crescem em forma de rodízio e servem de amparo para a flor linda que vai nascer no seu centro. E disse-lhes para o caso de não saberem, que mais nenhuma flor recém-nascida, é tão bonita como uma baby-violet. As violetas escondem de nós segredos coloridos, pois só elas sabem a cor da flor que aí vem. E que cores! Roxo, branco, anil, tons transparentes de lilás, cor-de-rosa e …violeta. Pois é meninas, vocês são nome de cor e de gente. Violeta! Parece impossível, mas elas tinham tão baixa a auto-estima, que pensavam que só as tontas das rosas tinham direito a tal privilégio. Até se lhes arrepiaram os pelos das folhas, tal foi a euforia e a algazarra entre todas. Gritinhos para ali, gritinhos para ali. E ainda há mais, continuei eu, há rosas amarelas, rosas encarnadas, rosas brancas, rosas cor-de-rosa, mas nunca viram rosas violetas…só de estufa e mesmo assim deve ser um violeta muito do desbotadinho.
As outras empertigadas, ouviram tudo lá de fora e começaram a observar-se com descrição. Realmente, rosa violeta nenhuma era e ainda por cima, já não bastava as simplórias das margaridas darem nome aos humanos, agora também havia mais estas minorcas e rasas com nome de gente. Isto foi imediatamente motivo para grande estardalhaço no canteiro. As escandalosas das estrelícias, armaram logo barraca com sonoras gargalhadas ao ver a cara de ofendidas das outras. Os gladíolos, que traziam flores quase até ao solo, cochicharam com as térreas violetas e trocaram segredinhos à vontade, sem qualquer receio dos espinhos que as espreitavam, sempre de extremidade pontiaguda e ameaçadora em riste. As buganvílias, com aquele frondoso corpo carregado de cor, conseguiram chegar até à janela da minha cozinha e era vê-las a serem informadas de todas as curiosidades, contadas pelos amores-perfeitos, sobre o que se passava do interior da minha casa.
As dálias pom-pom, que têm um certo prestígio lá no canteiro, porque eu lhes corto o pé com frequência para enfeitar a minha sala, juntaram-se aos brincos-de-princesa, que são flor com estatuto de nobreza e trataram logo de por as rosas no seu lugar. Disseram-lhes que a partir de agora, acabassem com as pinderiquices, com as desfeitas a torto e a direito às flores pequeninas, frágeis e desprotegidas, que até os simplórios dos cravos encarnados iriam ter melhor futuro que elas, que pusessem de parte a megalomania, porque qualquer dia só prestavam para logótipo rasca e descorado, de um partido político que governaria um qualquer país minorca e foleiro, que terá tudo, menos aspecto de canteiro florido.
fotos de ana cotta e cláudio marcon