Estive ali durante toda a minha vida e a dela. A partir de uma certa idade, tentei espreitar mais para fora, de maneira a conhecer os meus outros companheiros de mastigações e nessa altura levei logo com a alcunha de semi-incluso. Como se eu não tivesse já nome de Siso! Eu, o dente mais independente e marialva da sua dentadura. O único da minha espécie, que nas próximas décadas irá entrar
Ontem de manhã foi o veredicto final e a minha hostess, a Patti, que já estava com um otite externa, diagnosticada 1h antes que a pôs quase surda, ficou de rastos quando soube tal como eu, que ia ser sujeita a uma cirurgia, ‘in a moment’!
O aparato de aparelhinhos e apalherómetros na mesa do gabinete médico, mais parecia um show-room de fornecedores de consultórios de estomatologia. O barulho tlim-tlim, que fazem aquelas ferramentas umas nas outras, ao saírem de dentro de saquinhos azuis impolutos, é arrepiante.
Eu, cheio de peneiras pela importância que me estavam a dar, fiz tanto esforço para espreitar cá para fora, que até consegui ver a radiografia que o médico lhe mostrava com a minha cara. Lindo eu, só vos digo! Foi o momento alto da minha vida quando me vi reflectido naquela película negra. E depois …
… depois tudo acabou para mim, no momento em que aquela finíssima e pontiaguda agulha, carregadinha de um líquido acre que cuspiu sem piedade, me perfurou a raiz sem qualquer hesitação, uma e outra vez, deixando-me completamente abananado e sem saber onde estava, só conseguindo ouvir muito ao longe, o riso dos outros dentes, troçando da minha sorte.
O pior dos horrores ainda estava para chegar e sem sequer ter tempo de entender o que me estava a acontecer, um luzidio apetrecho de metal, frio e aguçado, começou a abrir caminho e a esburacar em volta de mim, ferindo de morte a minha grande amiga gengiva cor-de-rosa, que coitada, não tendo nada a ver com o assunto, sangrava e chorava de dor, perfeitamente desesperada e perdida naquele ataque surpresa.
Depois chegou outro aparelho, ainda mais grosso e forte que o primeiro, mas nessa fase a martirizada gengiva cor-de-rosa, já tinha desfalecido de todo e eu cada vez mais dopado, só rezava para que aquilo tudo terminasse rapidamente.
Mas não. Resolveram descansar uns minutos e deixaram-me ali, integralmente descarnado, com as minhas partes pudendas, vergonhosamente expostas aos olhos de todos os interessados da cavidade. Foi só ouvi-los a gozarem-me; a doida varrida da língua, a irrequieta da saliva, os meus quase ex-companheiros, as parvinhas das gémeas amígdalas e acho que ainda ouvi uma piadinha obscena, lá das profundezas do esófago.
E finalmente, com uma força sobre-humana, atirou-se a mim o mastronço, o alicate arrogante, que sádico ainda me disse: foste!
E fui.
Fui pousado em cima de uma gaze imaculada, onde mostrei ao mundo as minhas duas desmedidas raízes. Abandonado e ao frio naquela mesinha, juntamente com os aparelhos metálicos, carrascos sangrentos, responsáveis pela minha morte precoce e injusta, ainda pude ver a minha antiga dona, que de olhos muito fechados, levava cinco profundos pontos, cosidos e apertadinhos por mãos ágeis, com a linha de pesca mais grossa que eu já vi.











