quarta-feira, 12 de novembro de 2008

ermos

foto minha

Gosto de conhecer, de me relacionar, de me por à conversa, de discussões saudáveis. E ouvir. Gosto de gente.

Mas o meu grupo etário preferido são os velhos, já aqui o disse mais do que uma vez. E uso a palavra velho, porque gosto do que ela encerra.

Quando estou com eles, observo muito, ouço mais e fico atenta a tudo. Aos gestos, às palavras, às expressões, aos movimentos lentos, às mãos, ao sorriso brando, ao fechar dos olhos sempre que descansam acordados.

Este foi um monólogo, que a D. Rosarinho teve sentada ao meu lado, enquanto esperava pela sua consulta, na mesma sala da clínica onde eu também aguardava.


A minha casinha era no Algueirão, sabe? Não há nada como a nossa casinha. Eu tinha para lá muita criação, dois cães e nove gatos muito amigos, mas estava sozinha e quando fiquei doente, tive de deixar tudo.

Sinto falta das minhas vizinhas, que me ajudavam a estender a roupa no quintal e a fazer a cama todos os dias. Tenho saudades da visita do carteiro e do senhor Abílio, que me trazia a botija do gás todos os meses e um dia até me arranjou a fechadura do portão.

Olhe e agora, estou para aqui perdida, longe das minhas coisinhas. Sei que sou muito bem tratada lá no lar, mas não tenho ninguém.

Não há nada como a nossa casinha.

Venha Rosarinho, é a sua vez, disse a empregada do lar que a acompanhava à consulta e ajudando-a a levantar, deu-lhe um beijinho na testa.

Beijinho que valeu ouro para mim.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

responsabilidades de adolescente


Que maçada Beatriz, logo hoje tínhamos de marcar a tua consulta para colocares o aparelho, mesmo na véspera do teste de físico-química. E o dentista disse que deve ser p’rái uma hora e meia de boca aberta.

Bom, vamos então, que enquanto tu estás na consulta eu vou ao supermercado e à farmácia e assim vimos logo para casa, para não perderes mais tempo.

Só vos digo que ficou giríssima, de brackets novos e com cor roxa. Modas! E ela adorou.

Vá, vamos lá para casa, que tens de acabar de estudar com calma.

Sem stress mãe, estive a rever mentalmente a matéria do teste todinha, refastelada na cadeira e já está tudo sabido.

Ai Dona Lurdes, a senhora não merece estudantes responsáveis e aplicados como esta!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

cozinha vudu


Tralará, tralará, tralará, lá ia eu mais animada neste domingo, pois a minha cara já não se assemelhava tanto a um Basset Hound, quando tiro a galinha da embalagem para fazer um almoço simples-simples, como aquele do franguinho ‘à maricas’ que a Ka, tanto se chocou com o nome de baptismo.

Quando me atiro ao bicho, não é que das profundezas de uma entranha, que não faço a mais pequena ideia qual foi, me sai de lá um pescoço enorme, mole e frouxo, com a cabeça do falecido agarrada, de olhos arregalados de espanto a olhar para mim, bico aberto prestes a fazer có-có-ró-có-có e crista encarnadinha da silva?

Voou imediatamente das minhas mãos. Não porque também viesse com asas, mas porque do susto o atirei ao ar. E juro que a bicha se mexeu!

Mas quem é que cozinha cabeças de galinha com olhos abertos ou fechados - é indiferente - bicos amarelos, quase com grãos de milho na ponta e cristas empinadas?

Cristas? Oh valha-me Deus, quem é que come cristas?

Eu sei que a nossa gastronomia tem comidas suspeitas, tais como línguas, orelhas, pézinhos e mãozinhas, caras, unhas, túbaros, tripas, pescoços e mais não sei o quê.

Mas cristas, nunca vi!

E desculpe lá, oh senhor que embala os frangos no supermercado, o que é que eu fazia com a cabeça da ave, para ali pendurada? Canjinha de crista com olhos? Bicos de fricassé com molho de crista? Ou olhos salteados, com panadinhos de pescoços?

Com o chilique, mais os ais e os uis, acordei o prédio. Talvez o bairro. Provavelmente o concelho.

‘Ca nojo.

domingo, 9 de novembro de 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

[14] ´tou no ir...de fim de semana


Ontem e hoje de manhã, acordei assim.

Mas com um descair bastante mais acentuado para o lado direito da bochecha.

O que vale, é que esta é uma das minhas raças preferidas.

Bom fim-de-semana a todos, que eu vou ficar esticadinha no meu rico e enorme sofá, de pilha de livros e revistas ao lado, acompanhados de Häagen Dazs de doce de leite e pachos de gelo na cara ou no focinho, se olharmos à fotografia, claro.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

rápidas melhoras


Estive ali durante toda a minha vida e a dela. A partir de uma certa idade, tentei espreitar mais para fora, de maneira a conhecer os meus outros companheiros de mastigações e nessa altura levei logo com a alcunha de semi-incluso. Como se eu não tivesse já nome de Siso! Eu, o dente mais independente e marialva da sua dentadura. O único da minha espécie, que nas próximas décadas irá entrar em extinção.

A partir dessa primeira e única espreitadela sou: “o semi-incluso que não está ali a fazer nada e poderá muito rapidamente tornar-se num foco de infecção, como aliás já está a acontecer”. Foi o início de uma campanha contra mim, baixa, mesquinha e cheia de golpes sujos.

Ontem de manhã foi o veredicto final e a minha hostess, a Patti, que já estava com um otite externa, diagnosticada 1h antes que a pôs quase surda, ficou de rastos quando soube tal como eu, que ia ser sujeita a uma cirurgia, ‘in a moment’!

O aparato de aparelhinhos e apalherómetros na mesa do gabinete médico, mais parecia um show-room de fornecedores de consultórios de estomatologia. O barulho tlim-tlim, que fazem aquelas ferramentas umas nas outras, ao saírem de dentro de saquinhos azuis impolutos, é arrepiante.

Eu, cheio de peneiras pela importância que me estavam a dar, fiz tanto esforço para espreitar cá para fora, que até consegui ver a radiografia que o médico lhe mostrava com a minha cara. Lindo eu, só vos digo! Foi o momento alto da minha vida quando me vi reflectido naquela película negra. E depois …

… depois tudo acabou para mim, no momento em que aquela finíssima e pontiaguda agulha, carregadinha de um líquido acre que cuspiu sem piedade, me perfurou a raiz sem qualquer hesitação, uma e outra vez, deixando-me completamente abananado e sem saber onde estava, só conseguindo ouvir muito ao longe, o riso dos outros dentes, troçando da minha sorte.

O pior dos horrores ainda estava para chegar e sem sequer ter tempo de entender o que me estava a acontecer, um luzidio apetrecho de metal, frio e aguçado, começou a abrir caminho e a esburacar em volta de mim, ferindo de morte a minha grande amiga gengiva cor-de-rosa, que coitada, não tendo nada a ver com o assunto, sangrava e chorava de dor, perfeitamente desesperada e perdida naquele ataque surpresa.

Depois chegou outro aparelho, ainda mais grosso e forte que o primeiro, mas nessa fase a martirizada gengiva cor-de-rosa, já tinha desfalecido de todo e eu cada vez mais dopado, só rezava para que aquilo tudo terminasse rapidamente.

Mas não. Resolveram descansar uns minutos e deixaram-me ali, integralmente descarnado, com as minhas partes pudendas, vergonhosamente expostas aos olhos de todos os interessados da cavidade. Foi só ouvi-los a gozarem-me; a doida varrida da língua, a irrequieta da saliva, os meus quase ex-companheiros, as parvinhas das gémeas amígdalas e acho que ainda ouvi uma piadinha obscena, lá das profundezas do esófago.

E finalmente, com uma força sobre-humana, atirou-se a mim o mastronço, o alicate arrogante, que sádico ainda me disse: foste!

E fui.

Fui pousado em cima de uma gaze imaculada, onde mostrei ao mundo as minhas duas desmedidas raízes. Abandonado e ao frio naquela mesinha, juntamente com os aparelhos metálicos, carrascos sangrentos, responsáveis pela minha morte precoce e injusta, ainda pude ver a minha antiga dona, que de olhos muito fechados, levava cinco profundos pontos, cosidos e apertadinhos por mãos ágeis, com a linha de pesca mais grossa que eu já vi.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

when Obama wins


Raramente falo de política por aqui. É opção. Chega-me bem os muito bons posts nos blogs dos outros. Se já estiveram enjoados como eu, com a histeria de posts sobre Obama e as eleições americanas, podem passar à frente sem ler este também.

O meu candidato sempre foi Hillary e não compartilho nada da ideia de ambiciosa tresloucada, fria e calculista que passa por cima da família só para ser presidente da América e tudo o mais que lhe queiram atribuir. Leiam a biografia dela “Living History” e depois falamos. Ou será que alguém ainda tem dúvidas de quem foi a grande humilhada no episódio Lewinsky, por muito seca, dura e ambiciosa que fosse? Tínhamos ganho dois presidentes, ideia que partilho com o Luís Castro. Mas o povo é soberano.

Gosto de Obama e gostava de McCain, que no seu digníssimo discurso de derrota, do qual os políticos portugueses deviam beber as palavras, para saber como se perde com honraria e se ama de verdade o país onde se nasce, mostrou-me que não estava enganada acerca dele, é um homem bom, nobre. Quem achar o contrário que se justifique, o dizer mal por dizer não me chega. McCain acartou consigo dois erros que lhe foram fatais: ser o sucessor de Bush e dos vómitos das suas desgraças e Sara Paula!

Numa tentativa estratégica de conquistar o eleitorado de Hillary, escolheram-lhe o seu oposto. Saiu gorado. Quem ama uma, odeia a outra. Vivemos no séc. XXI, onde nem as mulheres estúpidas se deixam enganar com essa facilidade. Não basta trocar uma mulher por outra e para quem ainda não sabe isso, não sabe nada! Temos dois olhinhos na cara e servem nem que seja para distinguir na mesa de voto, que uma é loura e a outra é morena. Uma é Hillary e a outra é Sara Paula.

No entanto, achei repugnante a forma como a imprensa e todos a atacaram, quando se soube que tinha concorrido ao concurso de Miss Qualquer Coisa, que a filha adolescente estava grávida, que tinha muitos filhos e era mãe de família e se orgulhava muito disso. Achei essa estratégia abominável. Nojenta, mesmo. Só prova que a América e o mundo ainda são completamente mentecaptos quando uma mulher, que ainda nem abriu a boca é atacada desta forma, só porque é bonita. Dos poucos a portar-se à altura e a desmarcar-se destas cenas tristes, foi Obama que não se deixou levar pelo preconceito, tal qual fizeram com ele, por ser preto.

Depois desta peixeirada sem cabimento, surgiram finalmente os ataques políticos, os legítimos ataques, esses sim os que interessavam para a história. Atiraram-se ao seu conservadorismo, às ideias que tem sobre a venda de armas nos EUA, à sua postura face ao aborto e o diabo a sete. Assim já falamos a mesma língua: o seu a seu dono.

Ainda sobre Sara Paula, é estúpido cuspir e arrotar no seu radicalismo e seguir como se ela fosse só uma louca isolada que veio de lá dos ‘cafundós’ do Alasca e não tivesse importância nenhuma para a equação.

Sara Paula, representa milhões de mulheres americanas que pensam exactamente como ela e é tacanhez não levar esta realidade em linha de conta. Temos a mania ingénua e ridícula de nos deixar apaixonar pelos actores do cinema americano e pensar que é tudo como no Sexo e a Cidade. Quando se fala em candidatos, esquece-se quase sempre que eles representam milhões de pessoas por trás, iguaizinhos a eles, sem tirar nem por! Foi assim com a maioria dos ditadores, tomaram-nos com um único Eu: erro crasso!

Ressalto ainda duas situações de tudo isto e a primeira é o papel racista da comunicação social durante estas eleições, em que de repente invadem as televisões, rádios e imprensa escrita com entrevistas a populares negros, nas ruas da América, como se eles nunca tivessem existido. Porquê? Não me digam que nas outras eleições americanas, os negros da América estavam escondidos? Não votavam? Não interessavam? Saíram da toca só em 2008? Eram uma minoria?

A segunda é o virem dizer aos quatro ventos que os americanos deram uma lição de moral ao mundo. Aqueles americanos que votaram na borrada do Bush duas vezes seguidas? Aqueles americanos que o elegeram novamente, depois da mentira do Iraque estar confirmada à frente do nariz, para assistirem ao horror do Katrina, ao vivo e a cores? Os americanos dão-me muita coisa; cinema, teatro, escritores, música, arte, paisagens lindas, povo encantador algumas vezes, boas universidades e até junk food da boa e da gordurosa, mas lições de moral muito poucas vezes.

Obama venceu. A palavra que mais se ouve é mudança e ainda bem. A primeira mudança será zarpar com Bush de lá para fora, para Guantanamo, quiçá. Ou melhor ainda, e já que o sonho é possível e tornou-se real, fazer um rewind e colocá-lo no epicentro do Katrina, que ele tratou com tanto carinho e atenção.

A mudança maior não vai ser para já e Obama sabe-o bem. Deve ter a sala oval cheia de papelada até ao topo, de assuntos tão prementes e diversos como terrorismo, economia interna e mundial, dívidas deixadas por Mr. Bush, segurança social, educação e saúde, preocupações ambientais, petróleo, desemprego, bloqueios económicos, Iraque, Guantanamo, Afeganistão, Irão e América Latina.

Foi a mais disputada eleição americana de sempre, em que venceu o preconceito racial contra o herói de guerra que os americanos tanto amam e idolatram.

Eu por mim aguardo sem euforias. O que é que ele tem de diferente de qualquer outro homem? Até agora nada. Veremos daqui para a frente. E como é humano como todos nós e ainda bem, também nos irá desiludir em alguma coisa, pois será de todo impossível agradar a gregos e troianos para sempre.

Sou por natureza optimista, mas nada dada a messianismos.

Comam lá um bolinho, vá lá não se acanhem.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

às vezes só basta ser feliz - # 11


Oh valha-me Deus, gritou Priscila Vanessa, atirando com o telefone e saiu a correr rua abaixo, direitinha à casa da vizinha fina lá do bairro, onde a mãe, D. Vina fazia umas horas. Ai rapariga, que susto me pregaste. ‘Qué lá esses guinchos, tu ‘tá-me calada filha que a D. Alzira não gosta nade de excessos, como ela diz.
Era impossível não gritar, tinha conseguido a vaga de ajudante para o cabeleireiro no shopping “Estrela da Noite” e não era coisa pouca, não senhora! Ali varriam-se cabelos das senhoras ‘como deve de ser’ lá da zona, daquelas madames muito louras que se gabavam dos maridos trabalharem e elas não, enfeitavam-se vitrinas com boiões gordos, com letras douradas de produtos estrangeiros de nomes difíceis, cheios de ‘k’s’, ‘y’s’ e ‘w’s’, podia-se pintar os olhos com aquelas sombras lindas, de azuis e verdes brilhantes, como via nas balconistas das outras lojas do shopping, trocavam-se opiniões animadas sobre os desgraçadinhos e as fofocas cor-de-rosa do programa da D. Fátima e ainda tinha hipótese de ganhar uma comissãozita, se aprendesse a lavar cabeças como a Beta.
Ai Priscila, que alegria me dás e vês filha que eu tinha razão quando te dizia para fazeres o 9º ano? Que surpresa vai ter o teu pai mal chegar a casa e vir que temos iscas com elas para o jantar. Vai perceber logo que estamos a festejar e quando vir o pudim de ovos, então? E não é que a D. Vina acertou. O senhor Rocha até chorou de alívio ao ver a filha encaminhada na vida, agora só lhe faltava arranjar um rapaz jeitoso, trabalhador e sério, para ele poder partir em paz.
Priscila Vanessa teve logo sucesso junta da patroa. Era bem mandada e fazia o que lhe pediam, mas despertou inveja na Ivete manicura, na Olga da caixa e na tal da Beta lava cabeças. E porquê? Porque Priscila Vanessa era gira que se farta e pronto! Tinha assim uma carinha de anjo, redonda com duas saudáveis rosáceas, olhos pestanudos e azuis, boquinha de rosa e narizito arrebitado, enfeitado com algumas sardas. E mais, era dotada de uma cabeleira selvagem, loura e farta, até ao meio das costas, muito bem tratada com muito amor pela D. Vina, que lhe aparava as pontas uma vez por ano, mesmo antes de irem a banhos para a Fonte da Telha em Agosto.
Cabeleira cobiçada por todas as invejosas do shopping “Estrela da Noite”; balconistas modernas, engomadeira da 5 a Sec, ucranianas do minimercado, a Dra. da empresa de contabilidade e de venda de impressos para as finanças, a brasileira da boutique ‘Tininha’, a dona da capelista e até pela cigana Almerinda, que vendia pólos Sácoste à entrada do shopping.
Priscila Vanessa, rapariga muito bem criada pela mãe Vina, mulher-a-dias com muita honra e pelo pai Rocha, pintor da construção civil, com muito orgulho, nem se apercebia dos sentimentos mesquinhos que despertava nas outras, nem achou estranho que a Beta nunca tivesse tempo para lhe ensinar a lavar cabeças, nem desconfiou quando a vassoura desapareceu uma manhã inteira, ou que os boiões da vitrina aparecessem todos desordenados. Estava feliz com aquele emprego promissor e isso bastava-lhe e mal sabia que o melhor ainda estava para chegar à sua vida, para a modificar para sempre.
Já tinha ouvido várias vezes, as colegas falarem do Joca da transportadora "Não Esperes Muito”, mas ainda não o conhecia. Mal o rapaz punha o pé fora da carrinha das entregas, era um corrupio e uma excitação de gritinhos em todas as lojas daquele shopping, nunca visto em nenhuma outra altura do dia.

Bom dia Joca, olá Joca, como vais Joca, estás bom Joca, trazes alguma coisa para mim Joca, hoje vens carregado Joca, estás atrasado Joca… ele de olhos no chão só devolvia o bom dia. Não era de todo rapaz dado a confianças.
Foi como se o fogo de artifício anual da colectividade lá do bairro, tivesse explodido sem aviso. Quando Joca lhe passou a caixa dos cremes de abacate contra as rugas para as mãos e os seus olhares se cruzaram, o coração de Priscila Vanessa subiu-lhe às faces, os frascos de champôs tremeram na prateleira, a caldeira pifou e as clientes atiraram berros com a água gelada, a Beta louca da vida e possuída pela raiva, arrancou cabelos à madame loura que lavava a cabeça, a manicura apanhou uma cutícula extra à cliente ficando sem gorjeta e as luzes das invejosas do shopping fundiram todinhas de uma vez.

Joca, até então rapaz seguro de si e nada dado a grandes conversas com o mulherio assanhado que o abordava constantemente, ficou perdido naqueles olhos azuis, apaixonado por aquela carinha laroca e deslumbrado com o louro-dourado, mais bonito que tinha visto na vida.
Amou desde logo o nome que ela nervosamente assinou no recibo e jurou a si mesmo que Priscila Vanessa seria a mãe dos seus filhos.

O namorico começou com sorrisos envergonhados, olhares de soslaio e mãos que se tocavam ao de leve quando da entrega das caixas de cremes, champôs e ceras depilatórias. Tudo no maior recato, obviamente.
Ai menina, que sorte tu tens. O Joca nunca olhou para ninguém neste shopping e nunca lhe vimos um namoro sequer. Priscila Vanessa totalmente pura e novata nestas lides, tremia tanto, que sempre que ele estava para chegar, precisava de se refrescar com o secador no programa frio, não fosse dar-lhe um fanico no meio do salão.
Posso esperar por ti, à saída do trabalho? perguntou-lhe ele, depois de dois meses de flirt e sorrisos respeitosos.
E assim, iniciaram um namoro sério e respeitador, com a aprovação dos felizes D. Vina e senhor Rocha.
Priscila Vanessa não descurou do seu trabalho no cabeleireiro e nunca permitiu que as entregas diárias de um Joca apaixonado, interferissem com o seu desempenho. Foi promovida a lava cabeças e tudo, pois era rapariga séria e trabalhadora.
Todos os dias, esperava por ela à saída do salão com uma flor que lhe oferecia para enfeitar o cabelo louro e dava-lhe um beijo suave e respeitoso, pegando-lhe na mão e conversavam pelo caminho até casa.
Os fins-de-semana eram os grandes dias do namoro. Ao sábado, depois de ajudar a mãe nas compras da feira, Priscila Vanessa tinha autorização para sair até às sete e meia. Os namorados almoçavam num grande centro comercial de Lisboa, viam as montras e iam ao cinema carregados de pipocas barulhentas e colas com palhinha. Em sábados de sol, passeavam abraçados junto ao rio, trocavam segredos em bancos de jardim ou à sombra de um jacarandá em flor, comiam pastéis de Belém e no caminho de volta, cantavam de cor as músicas de Barry Manilow.
Ao domingo, Priscila Vanessa assistia sempre aos jogos da bola e fazia parte da entusiasta claque feminina, que apoiava a equipa onde Joca era trinco. Seguia-se uma feijoada entre todos os sócios do clube, respectivas famílias e equipa adversária e à tarde as raparigas trincavam pevides salgadas, entre conversas de novelas e enxovais, enquanto os namorados se entretinham em animadas partidas de bilhar e disputadíssimos campeonatos de matrecos, acompanhados de minis e tremoços. Juntavam-se aos pais dela, ao fim do domingo para jantarem todos juntos e enquanto Priscila Vanessa e a D. Vina arrumavam a cozinha, Joca e o senhor Rocha discutiam os resultados da última jornada.
Em semana de santos populares, Joca carregava com o andor do santo na procissão, fazia parte da comissão das festas e ainda tinha tempo de ajudar Priscila Vanessa e a D. Vina a enrolar as centenas de rifas em papelinhos coloridos, que ela vendia na quermesse da paróquia.
Agradeciam na missa campal o amor com que foram abençoados e à noite rendiam-se ao paganismo, saltando fogueiras lascivas, escondendo os olhos em máscaras diabólicas, não resistindo à tentação da gula na barraca dos doces caseiros e dançando agarradinhos no bailarico, com as músicas românticas do cantador contratado.
Depois de um ano de namoro, começaram a usar uma aliança fininha de prata que reforçava o compromisso, abriram uma conta conjunta na Caixa, arrendaram o T2 mesmo ao lado da mãe Vina e do pai Rocha, deram a primeira entrada para os móveis e electrodomésticos na Conforama e decidiram que depois de casar iam ter um casalinho.
Joca disse imediatamente, a menina será igualzinha à mãe, rosadinha e de cabelos louros como um anjo, tal e qual tu, minha querida Priscila Vanessa.
E até hoje, sei que têm sido muito felizes para sempre.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

oferece-se post a quem precisar


Vai. Pega na tua vida e segue com ela e vai. Agarra a chance de mudar e parte. Está alguém à espera? Não importa. Existem muitas almas gémeas que te vão encontrar um dia. Mas vai. Comete erros, falhas, asneiras, tropeça e cai, bate com a cabeça, mas nunca fiques; vai!

Podes ser feliz ou derramar lágrimas, mas vive a vida da tua vida. Só tens uma e é esta. Mas vai.

Por isso segue a viagem já, apresenta-te, mostra-te, avança, caminha e vai.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

algumas certezas


Sentia falta de encostar o nariz na vidraça e saber que apesar do céu limpo e do sol alto, estava frio lá fora.

São os melhores sábados do ano, aqueles que se levanta mais tarde da cama quente, veste o roupão branco e fofo e liga a música baixo para não despertar a casa. Passeia de meias grossas, rega as plantas, prepara o leite morno com mel e volta para a cama onde lê tudo e se espreguiça até onde lhe apetecer.

Que saudades dos vestidos de malha fina que se vestem com collants opacos, dentro de botas altas e que com pashminas longas de angorá, leva a almoços tardios de sábado, com amigos.

Os melhores raios de calor são os da quatro da tarde, que a faz fugir das sombras finas que nesta época descem cedo à terra, escolhendo os cantos da rua que o sol vem aquecer.

São dois eclairs, duas broas de erva–doce, duas delícias de amêndoa com ovos moles e pode acabar de encher a caixa com aqueles bolinhos de chocolate cheios de compota cor-de-rosa. E já agora, um bolo-rei pequeno, se faz favor.

No fim da tarde, arranja-se o tabuleiro grande que se trás cheio para a mesa do sofá. Aquece as mãos geladas em chávenas de chá preto e belisca aqui e ali, com os olhos fixos no filme que passa na tv e que a faz rir e chorar.

Enquanto lhe derretem na boca pedaços de alcaçuz com recordações de infância, de lareira já acesa, com a manta de pelo grosso encostada a si e com aponta do nariz sempre frio, tem mais uma vez certeza que pertence muito mais a esta época do ano do que a outra qualquer.

domingo, 2 de novembro de 2008

[30] há coisas fantásticas, não há?




Fazem o favor de dizer 'santinho(a)' ao bebé!

sábado, 1 de novembro de 2008

[13] ´tou no ir...de fim de semana


Será, que se tivéssemos espalhado pelas nossas ruas esta ideia fantástica, que alguém se lembrou de inventar, seríamos menos porcalhões?

O que seria dos nossos passeios e ruas, sem pastilhas elásticas e beatas de cigarros pelo chão?

Imaginem lá os tugas, com coisinhas destas distribuídas pelo país...eu acho que ia resultar.

'Bora fazer uma petição?


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

o meu café com letras

fotos gi e patti

Quando entrou na sala da biblioteca, para o nosso café com letras, foi imediatamente aplaudido. Ficou envergonhado e deitou-nos a língua de fora. Avisou-nos que falava baixo, o que é verdade, pois algumas vezes o micro não foi suficiente para a sua voz chegar a todos.

Começou por dizer ao Carlos Vaz Marques, que quando iniciou este livro, o Arquipélago da Insónia, não tinha nada, mas depois apareceu-lhe uma voz, a voz que lhe foi dizendo o que escrever. E é assim que tem sido com os seus últimos livros, chama-lhes as vozes do eu, vozes sem nome e que estão dentro de nós.

Noutros tempos, fazia um plano de escrita para os livros e muitas vezes saía furado. Agora não, vai atrás dele, do livro e é este que lhe diz o que deve escrever.

“Um bom livro, é um livro que foi escrito só para mim, com o qual eu tenho uma relação pessoal e afectiva. Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria e também sofrimento, mas é a minha sina”.

Fica espantado quando lhe dizem, ah o seu livro é tão complicado. Não compreende quando alguém da plateia afirma, que as suas últimas obras são labirínticas. “Labirinto? Que palavra tão estranha! Aquilo é tudo tão claro, tão óbvio”. O público ri. Não é assim tão fácil e este último não foge à regra, mas eu sigo o conselho dele quando nos diz: “Se deixarmos os sentidos pensarem, começamos a gostar de livros bons. É preciso ter vivido para escrever, mas também é preciso ter vivido para ler”. Também já lhe disseram que o livro é triste. Não acha nada. É alegre porque se sente a felicidade da mão do autor. É assim que entende, que este é um livro feliz.


"Gostava de cada vez mais, encher os livros de silêncios; silêncios para os leitores os preencherem como quisessem. Temos de aspirar ao silêncio, para conseguirmos escrever livros a sério. O leitor é que é importante, não o escritor". Diz da acusação de falta de pontuação, “ela está lá, apesar de não a verem; está nos espaço e no tempo da escrita, façam-na". "Sinatra foi quem foi, pelos intervalos de respiração, pelas paragens que fazia quando cantava”.

Falou do que pensa acerca da avalanche de publicações em Portugal, que se faz sem qualquer critério de escolha, pré-revisão ou qualidade. Nos EUA, tal não acontece com as editoras. O rigor é grande e existe uma peneira.

A discrepância é tão abismal, que isto diz tudo da maneira de como cá se publica um livro.

Quanto ao Nobel, tema que já é de praxe, ALA tem uma opinião com a qual eu corroboro na íntegra, “toda a gente faz apostas para o Nobel da Literatura, todos falam dos escritores nomeados, todos têm uma opinião a dar, mas ninguém dá sugestões, opiniões ou pareceres, acerca dos outros prémios e dos seus possíveis vencedores; do Nobel da Economia, da Medicina, ou da Física. Falam de Literatura como se fosse coisa que todos entendessem. Não é.

A Literatura é outra coisa. É estar entre os homens, no meio deles, não é contar-lhes histórias".

Agora faz o que os livros querem. “Sabemos muito pouco do que é escrever, assim como sabemos muito pouco do que é viver”.

Já foi mal-educado noutros tempos, já pediu desculpas e recebeu lições de boa educação de quem ofendeu. Do excelente poeta Vasco Graça Moura, por exemplo. Ri ao lembrar-se que chamou gorda à Natália Correia num programa de televisão, mas arrepende-se. Diz imensas piadas pelo meio, tem muito sentido de humor, peculiar, mas tem, fala das mulheres, conta-nos que prefere escrever na cozinha, que divide o atelier onde escreve, com um pintor de quem gosta muito, que no bairro castiço onde vive, é tratado de senhor António, por gentes a quem, se nota na forma como fala deles, tem afeição. Diz que protegem a sua morada dos curiosos. Vai à mercearia do senhor Cardoso, dedica-se ao trabalho treze horas por dia e folga aos sábados a partir das quatro: “tal qual as sopeiras e os magalas”. Ao domingo volta de novo ao trabalho.


Falou dos amigos Júlio Pomar e José Cardoso Pires. Gosta de ler Céline, Flaubert, Garcia Marquez, Simenon, Philip Roth e Gonçalo M. Tavares.

Citou Oscar Wilde, interpretou Hemingway, falou de Bovary, entristeceu-se com a morte de Paul Newman, “um homem único e de uma enorme bondade”, comoveu-se com as lágrimas e a tristeza de Robert Redford, quando da morte do amigo, que viu numa entrevista na televisão, quando esteve em Nova Iorque, lembrou-se da sua doença, admirou a coragem das pessoas que com ele partilharam a enfermaria do hospital público onde esteve internado, durante um período muito duro da sua vida e que estava a meio deste livro, falou da fragilidade que lhe trouxe a morte do pai.

Falou de muitas, muitas coisas, impossível eu referir todas.

Coça a nuca, coloca as mãos atrás da cabeça ou apoia o queixo na mão, gestos inatos e descontraídos quando fala para nós, mas raramente fixa o olhar nas centenas de pessoas que ali foram para ouvir, pensar e rir com ele. Só nos olha nos olhos, quando lhe fazemos uma pergunta directa, como fez comigo quando o questionei se ele tinha noção do momento em que o livro deixava de ser dele autor, e passava a pertencer a ele próprio, livro.

“Sabe que eu demoro muitíssimo tempo, meses até, para escrever a primeira parte dos meus livros. Escrever é muito difícil. São capítulos e capítulos que escrevo e reescrevo vezes sem conta, passo a limpo e torno a ler. A partir daí, da metade do livro, ele segue o seu caminho sozinho”. E termina com um grande sorriso para mim, como quem diz, entendeu?

É um sedutor e sabe-o bem.


Antes de se despedir de nós, ainda disse, “Só começo um livro, quando tenho a certeza de que não sou capaz de o fazer. É um desafio. Não parto com vantagem nenhuma”.

E enquanto fumava o seu tão apetecido cigarro, autografou-nos os livros que carregávamos numa fila pouco ordenada, por assim dizer.

Acho-lhe piada, gosto-lhe dos disparates, das suas verdades muito próprias, do ar displicente e despreocupado, da vaidade camuflada, dos olhos azuis, da voz uniforme, do rosto sério que de repente se altera para um enorme sorriso. Gosto de discordar dele. Gosto das suas contradições. Gosto dele, pronto.

E o seu sentido de humor apurado? Vão saber dele aqui, à minha companheira de tertúlias. E logo estaremos aqui.



o meu 'Arquipélago' a ser assinado

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

caderno a lápis

foto de fernanda fonseca

Preenche-me sempre a lápis porque gosta de apagar, rasurar, desenhar asteriscos, fazer setinhas de ligação, sublinhar, escrever notas de cabeçalho e de rodapé.

Faz-me desenhos nos cantos superiores, enquanto espera que a imaginação chegue para escrever em seguida nas linhas que lhe coloco à disposição e que esperam pacientes para serem preenchidas.

Quando está mais lenta dobra-me os cantos, brinca com a borracha entre os dedos e fixa o olhar em mim como se me visse a folha seguinte à transparência. No fundo, despe-me.

Nos dias em que está com o tema na ponta da lapiseira, arranha-me com força, ri dos disparates que me escreve ou fica séria quando têm gravidade. Vira-me e revira-me as folhas constantemente, lê-me e relê-me.

Não lhe interessa a confusão, as vozes ao fundo, os ruídos de base, a presença dos outros, a televisão ou a música. Gosta de barulho à volta, que de todas as vezes lhe fez companhia e sempre soube encontrar o seu silêncio nele. Eu também acabei por me habituar, aos locais inusitados que ela escolhe para me sacar da carteira e começar-me a escrever. E lá vou eu outra vez, sem horários. sem rumo, sem saber. Tenho passeado muito, já lhe conheço o carro, o escritório, a casa, o picadeiro ao domingo de manhã, a esplanada junto ao cais, o bar da praia, a espreguiçadeira da piscina e noutro dia até adormeceu comigo na cama e só acordamos depois do sol.

Eu, um simples caderno de linhas.