quarta-feira, 29 de outubro de 2008

consórcios

Entram sempre sem olhar para ninguém. Senta-se um e depois o outro. Um olha para a televisão e outro não olha para nada. E depois trocam. Lêem a ementa com calma e em silêncio, escolhem o de sempre e um olha para a televisão e outro não olha para nada. E depois trocam.


Ela abre o patê, barra-lhe uma tosta estaladiça e coloca-lhe no prato, come uma azeitona sem caroço e pede uma água fresca. Serve-se do queijo fresco, que só tempera com pimenta e na última fatia junta sal e oferece-lho. Ele aceita e continua a olhar para a televisão e ela não olha para nada e depois trocam. Chega a espetada de tamboril, colocada ao lado dele que a serve primeiro. Pimento e cebola não, não gosta e ele já sabe. Estende-lhe o prato e ela estica a mão, enquanto olha para a televisão e ele não olha para nada. E depois trocam. Um café e um brandy e uma mousse de maracujá, que ela não come até ao fim, pois duas colheres são para ele, que já sentado de lado na cadeira com o balão entre os dedos, olha para a televisão e ela não olha para nada. E depois trocam.

Surge a conta e finalmente daquele casal sai um som, alcançando o pico mais alto do seu dia, o clímax, vamos?

Ela levanta-se e nem responde a olhar para a televisão e ele não olha para nada. Afinal em casa também têm televisão e depois lá trocam.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

broken wings - #10



Vivia-se bem no planeta Jubilo. Tão perto do céu, como da terra. Os mortais usufruíam de uma existência mágica, com os seus deuses sempre por perto.

Os incêndios eram extintos com sopros vindos de cima, as maleitas desfeitas com sorrisos de deusas douradas, os desgostos do coração eram substituídos por novo amor, pela mão de um deus encantado, as zangas esquecidas com olhares reprovadores de deuses de barba longa e branca, o nascimento presenciado por um deus sábio, que atribuía dons e a morte era conduzida para o céu, ao colo de deuses jovens e renovadores. As crianças-deuses, andavam na escola do paraíso, onde aprendiam a arte de socorrer a mágoa nos animais.

Os humanos tinham características especiais e uma delas, única, herdada pelos pais no dia do nascimento. Visão extra, pisar sobre a água, ouvir o pensamento, falar a língua dos animais e um sem fim de capacidades muito especiais.

Missi podia voar como a mãe. Possuía asas gigantes de penas longas e brilhantes que quase lhe tocavam nos pés, oferecidas por um deus sábio que testemunhou o seu nascimento e que se esmerou na beleza e na imensidão daquelas asas.

Missi quase se esquecia que podia andar e voava para todo o sítio, longe e perto. Em criança imitava os voos dos pardais do jardim, mais tarde o das pombas nos telhados e finalmente os voos altos das águias e falcões.

Disparava rumo ao nada e sumia-se no azul. Competia com as aves de rapina, fazia corridas com as andorinhas, os patos-reais e os flamingos quando das suas migrações e planava tão bem como o grande pássaro, o condor.

Conheceu-o quando chocaram no céu, numa altura em que ela, aproveitando brisas de calor que a sustentavam no ar como uma cama de rede, pairava de olhos fechados.

Perderam o equilíbrio, desarranjaram as asas e foi uma nuvem de penas pelo ar. Atrapalhados, ajudaram-se um ao outro, pousaram na montanha e só nessa altura ela reparou quem ele era. Um dos deuses do planeta Jubilo

Tinha ficado magoado na asa direita, mas a ferida curou-se lentamente. Imunidades de quem vinha do céu. Mas ficou a cicatriz dorida daquele embate.

Com um sopro, afastou-lhe algumas penas do cabelo e disse o nome, sou o Don.

Deste encontro resultaram afinidades singulares, exclusivas e perpétuas. Nascia neles o supremo sentimento. Tinham a paixão do voo e juntos desidratavam-se entre os fenómenos de calor e luz, no meio da atmosfera rarefeita do éter.

Missi desconhecia, mas Don sabia que uma relação emocional entre deuses e mortais era proibida, pois um dos dois arriscava-se a perder o seu dom. Mas os deuses ali não eram perfeitos e ele deixou-se ir com Missi ao sabor das brisas e ventos.

Combinavam encontros nos ninhos abandonados dos pássaros vadios, no cimo das nuvens mais pesadas ou no extremo dos arco-íris.

Almas gémeas nas nortadas, nos suestes e nas monções. Respiravam correntes de ar e ventos leste e abraçavam-se ao sabor do barlavento. Nunca souberam o que era um furacão ou um tornado, preferiram ventanias e redemoinhos mais ligeiros. Mas o ciclone deu-se e os deuses descobriram a sua ligação.

Um dia Missi caiu e as asas pararam, não lhe obedeceram, estancaram de repente e embateu com toda a força num enorme raio de sol que a destroçou para sempre. Sem saber como, entendeu tudo nos olhos de Don, quando ele a segurou e impediu que se extinguisse do desgosto. O sol zangou-se e num golpe anoiteceu o dia mais cedo que o costume, o vento que com ela convivia desde as primeiras asas, expeliu fortes rabanadas que gritaram de sofrimento e as nuvens autocarregaram-se de humidade cinzenta, para chorarem lágrimas grossas de tristeza, imitando o dilúvio do primeiro Livro.

Leva as minhas assas partidas e trata-me delas, senão nunca mais conseguirei voar. Não consigo pensar, não consigo ser, não consigo viver. E ele assim fez. Dobrou-as com jeito e envolveu-as em si próprio, recolheu ainda algumas penas que flutuavam à roda deles e partiu rumo ao céu, para mais uma missão etérea.

O céu estava trancado. Portas, janelas e qualquer frecha. Era o castigo. Depois do concílio, fora Missi a escolhida por decreto ficando privada do dom de voar. Não por pensarem ser ela a maior responsável da tragédia, antes pelo contrário, mas Dom sim. E a dor dela seria o seu castigo.

Os deuses nunca são misericordiosos com as leis que impõem. Não abrem excepções, são duros e intransigentes. Escrevem leis para a alma em livros grossos, como se o que nos nasce de dentro tivesse nome e pudesse ser julgado assim, levianamente, por árbitros que só entendem de estabelecer sistemas de regras reguladoras e imutáveis.

Com Eva aconteceu o mesmo no planeta do lado, só que o homem que a deveria ter amparado era fraco e não foi escolhido por ela, impuseram-no. Não tinha a mesma força do homem de Missi, que a salvou, que não deixou que o erro da sua fraqueza fosse fatal para ela. Missi nunca foi apontada, excluída e diminuída e nunca acartou no seu nome e no seu sexo, o peso de uma má reputação de séculos e séculos. Como Eva.

“Leva as minhas asas partidas e trata-me delas”, ele tratou e viveram perpetuamente à bolina.

Don carrega-a nos braços, ao colo, nas costas ou empresta-lhe uma asa. A asa que ele feriu quando se viram pela primeira vez. É uma asa sofrida que entende a dor de Missi, quando ela agora voa, lesa e mutilada.

É deles que nascem cúpidos. Querubins gordos, que na ponta das flechas cheias de amor que disparam contra nós, herdam a salvação dos pais e guardam o caminho da Árvore da Vida.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

às vezes sou muito feia e má também


Definitivamente, o conviver forçado não é para mim. A excepção são as feiras, já sabem.

Vem uma e atira um grito à criança, que feliz na sua tarde de soltura dá cambalhotas no tapete sujo da loja, chama-lhe de Igor José, oferece-lhe uma ipsis verbis lambada na tromba e diz para mim já completamente íntima, raios partam os sacanas dos putos que dão cabo da gente. Depois há outra, que embora seja da fila do lado, encosta-se ao meu ombro qual gémea siamesa e mete o bedelho para ler o título do meu livro, só não se desequilibra e cai estatelada porque as filas são muito apertadinhas com gente que tem medo de perder a vez e que a amparam do tombo. Atrás de mim, tenho uma jovem com pretensões a grávida mas sem bebé na barriga, que além de ter a dita pança exposta para o público apreciar sem qualquer tipo de pejo, ainda me roça com ela nos rins, cada vez que se vira para enfiar dedos nas orelhas do namorado. Não me perguntem para quê. Também não percebi. Nem quis. A da frente, dança o Vira na fila e sempre que o faz, sacode a cabeleira oleosa no meu nariz, vem a amiga que me passa literalmente por cima sem pedir licença e atira-lhe com mais não sei quantos livros de auto-ajuda para dentro do cesto e começa desenfreada a ler em voz alta a sinopse mantra-zen de todos eles, para os ursos infelizes que aguardam naquela fila estúpida de domingo, como eu.

domingo, 26 de outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

[12] ´tou no ir...de fim de semana


foto da Gi

Achamos estes carros giros, quando fomos à aventura por Lisboa no outro dia e a Gi tirou a foto.

Dois dias depois num post do blog Caixa de Costura, descobri para que serviam os carrinhos amarelos.

E não é que a descoberta foi bestial!

São os GoCar e servem para passear por Lisboa, em percursos turísticos pré-estabelecidos, como a Baixa-centro, Belém e Expo.

Ao mesmo tempo que os guiamos, vai-nos sendo explicado tudo o que estamos a ver, têm ainda um GPS que nos deixa tranquilos com o trajecto e depois é só seguirmos as instruções.

O mínimo de tempo de aluguer é de uma hora, mas pode ir até um dia inteiro.

Eu estou mesmo tentada, antes que venha a chuva.


Então, não se animam também? Espreitem aqui.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

post s.o.s.


Preciso da vossa ajuda. Desculpem-me o sacrifício daquilo que vos vou pedir, mas sinto-me atarantada e sem saber como agir.

Há umas semanas a esta parte, que tenho vindo a ser abordada via e-mail por homens que me são totalmente estranhos e que pretendem saber como é que se ouve música no blog, como se colocam fotografias nos posts, se eu penso que o template é importante para a imagem do mesmo, se devem postar todos os dias … bom é um chorrilho de questões que nunca mais acabam.

Ainda assim e mesmo com falta de tempo, decidi ajudar os coitados dos rapazes, pois os pobres sentem-se perdidos perante toda esta parafernália de opções, confusos com tantos links e realmente têm razão; é muito post, muito post, muito post. Estejam à vossa vontade. Podem deixar e-mail, nº de telemóvel, morada, link do vosso blog ... olhem meninas o que quiserem.

Aceitam-se notas numa escala de 0 a 5, mas por favor ajudem-me, começo por dar explicações a qual?


Gabriel Aubry


Reinaldo Gianecchini



Patrick Dempsey


Olivier Martinez

Roque Santa Cruz


Jim Caviezel


Richard Gere


este não sei quem é, mas penso ser alguém para o post sobre
o casamento entre homossexuais
e a t-shirt é gira



Nota: homens comentadores, não se ponham com frases do tipo, 'ai eu não aprecio homens e tal', que não lhes perdoo se não me ajudarem nesta aflição! Façam de conta que estão a escolher o noivo da vossa filha, pronto.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

não metam o bedelho na minha cozinha

foto de carl warner

Não me lixem. Já vos disse que não troco as minhas colheres de pau por aquelas outras de plástico branco e insípido. Mas eu quero lá saber, que o tacho de barro da minha avó tenha chumbo! Estou-me nas tintas que a clara de ovo frito fique esturricada e aviso já que quando estou na cozinha ponho as mãos em tudo. Que se lixem essas luvas maricas de silicone e os destrói-bactérias com nomes estrangeiros impronunciáveis que viraram moda.

‘Tá bem abelha, é que me estão mesmo a ver a borrifar a gaita da alface com aquele spray estranho que agora vendem nos supermercados e que as meninas das hortaliças enfiam para lá no meio dos legumes para ver se nos enganam. Engolir minhocas nunca fez mal a ninguém, deve é servir de laxante. Da primeira vez até lhes disse, oh menina esqueceu-se aqui do limpa-vidros, entre o alho-porro e a beringela.

Raios partam as normalizações de Bruxelas, vê-se mesmo que não sabem o que é um bom prato de janquinzinhos fritos com arroz de tomate. Aliás, de tomates percebem muito pouco.

Vocês devem estar a gozar com a minha cara, quando me espetam com saquinhos chics de coentros e salsa no supermercado, a 1€. Mas eu tenho uma varanda enorme, num último andar cheio de sol para quê? Para me suicidar quando vir a conta do supermercado ou para a enfeitar com vasinhos saloios de coentros, salsa, hortelã, louro e alecrim, como boa portuguesa que sou? E se me chateiam muito a molécula, ainda faço contrabando com a vizinha, que tem um morangueiro, um tomateiro bebé e uma planta de haxixe que lhe ofereceu o namorado que é rastafari.

Só falta mesmo virem agora com ideias e dizer que também tenho de comer o pão e os espargos com faca e garfo. E por falar em talheres, devem estar à espera que eu em casa os utilize nas minhas divinais churrascadas para comer a bela coxa de galinha, as costeletazinhas sumarentas de borrego ou o entrecosto na brasa, com aquela carninha maravilhosa, agarradinha aos ossos. E mais, no final chupo os dedos e não é um nem são dois…são todos!
E olhem que já estive mais longe de organizar uma manif, equipada de fisgas à miúdo rufia e com troços de torresmos gordurentos.
É estufa para isto, é estufa para aquilo, qualquer dia tenho de comer vestida de astronauta para não apanhar nenhuma doença contagiosa, ou então ponho-me aos gritos a correr pela mercearia cá do bairro afora, só porque vendem melancias crescidas ao ar livre e maçãs apanhadas nas árvores.
Estupores dos homens, não tarda nada tenho de andar de bloco de notas em punho, com dois separadores; isto posso, isto não posso - isto posso, isto não posso.

Bem, é assim … se me inventam alguma anormalidade para os doces conventuais, eu juro que vos ponho a meter ovos pelos buracos do nariz e a chocá-los entre as pernas e as dobras dos joelhos.
Mas é que nem se atrevam a acabar com o arroz de galo pica no chão! E depois eu ia ao Minho e comia o quê? Cuscuz de galarucho benzoca que se passeia em fofa alcatifa de pura lã australiana?
Oh gentinha pindérica e mal nutrida, saiam da minha terra e vão lá para a vossa cozinha imaculada e muito zen, fazer uma grande rave party, com batidos de oxigénio e sandes de rúcula, enquanto eu tiro os restos de comida seca que ficou presa nas fendas das minhas ricas e toscas colheres de pau. Algumas até já estão pretas da velhice e do uso.

Ai que horror. Ai credo. Ai que nojo. Ai coitada.

Ai que parvalhões!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

[3] figuras tristes, as minhas

foto blog cupcakes
Beatriz, o que é que tens na boca?

É uma goma, mãe.

Uma goma? Mas vamos agora mesmo almoçar. E hoje não é dia de doces.

Oh mãe, estava com fraqueza e foi só uma para me subirem os açúcares.

É bem feita. Quem me manda a mim mentir-lhe e dizer que preciso de açúcar por causa da tensão baixa, quando sou apanhada a sair da despensa com uma tablete de chocolate de 250gr. na mão? Castigo meu por enganar a criança, infligido pelos glúcidos que me perseguem a linha e me comprometem com todas as suas maléficas calorias, a firmeza dentro da minha ganga.

Mulher fraca, sem vontade, corrompida pelo prazer da gula. Educadora sem escrúpulos, modelo de mãe a não seguir, mulher de valores insignificantes.

Esta sou eu.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

a cor de Purple - #9

foto da Gi

Tinha mãos feitas de sonhos. Herdadas da mãe que fora a parteira mais solicitada da zona. Nunca perdera um bebé, nem o da vaca do Sr. Francisco quando o veterinário não pode lá ir.

Mas as mãos dela nasceram para outro fim, tão nobre como o de dar oportunidade à vida como fazia a mãe. Desenhava futuros felizes.

No meio da vida difícil e pobre do bairro, Purple tinha sempre uma folha colorida do seu bloco de desenho para oferecer a alguém. Eram desenhos de esperança e alento e sempre sem a cor preta. Nunca coloria nada a preto. Na caixa dos lápis, no estojo dos guaches, na palete de aguarelas, o preto estava sempre novo. Intocável.

Alguns pretos até secavam e morriam.

Uma vez, regressava a Sra. Joana exausta das horas extra que fazia a dias e já Purple a esperava com uma folha na mão, preenchida com aviões, malas de viagem, sacos brilhantes do freeshop e ursos de peluche. Tu não me digas que o meu filho vai voltar? E trás as minhas netas? E já não sabia se havia de rir ou chorar, ou gritar, ou correr para casa, ou ligar o telemóvel ou …

Noutro dia foi o Jonas, que quando se preparava para sair de casa com a prancha de surf às costas, a viu sentada no passeio em frente à porta dele com o bloco de cavalinho nos joelhos encolhidos e a dar os últimos retoques na colunata coríntia do Templo de Diana. Évora? Évora, Purple? Eu entrei em Évora? Largou a prancha no chão e abraçou-a até sempre.

Os recém-casados que moravam ao lado dela, também foram presenteados com um dos seus desenhos. Folha ocupada de cálculos matemáticos de todas as cores, que saltitavam entre percentagens e gráficos de probabilidades até 2038. Zé! Oh Zé, anda cá ver isto! Olha o que a Purple nos trouxe. O banco vai conceder-nos o empréstimo para a casa!

Fora este o dom com que a vida a dotara. Pintar a cores o futuro dos outros.

Frequentava pois está claro, Belas Artes e era a aluna preferida do velho professor Gil na disciplina de Composição-Pintura. O traço inato que saia das suas mãos sem qualquer pretensão ou inquietação com o seu futuro, comoviam-no ao ponto de ter emoldurado alguns dos seus desenhos e tê-los espalhado pela sua casa. Ele já tinha ouvido falar da predestinação dos desenhos, mas a grande admiração começou quando um dia Purple lhe ofereceu uma folha desenhada com bigodes compridos e finos, todos sujos de leite. Apareceu o Sebastião, Purple? Ai que susto me pregou aquele gato fujão! Ficaram amigos.

Como não sabia desenhar feio, triste e mau, nada pintou no seu bloco quando a doença espreitou pelo professor Gil adentro, gostou do que viu, entrou e ai se instalou. Para crescer.

Mas Purple sentiu-lhe o ar cansado, os olhos tristes, a pele baça e a voz baixa. Sacava do bloco irritada, olhava para aquelas folhas brancas e nada. Distribuía os lápis à sua volta, espremia bisnagas de tinta, lavava pincéis de pelo de marta, desenroscava boiões de tinta, raspava lápis de cera, aguava as suas aguarelas e nada de nada!

Tornou-se impossível saber o que se passava com o professor e não conseguia entender o seu decair e a sua fraqueza. Também não soube, que naquela segunda-feira ele não ia estar pela primeira vez, desde que ensinava a disciplina de Composição-Pintura. A faculdade informou os alunos que o professor Gil se encontrava de baixa para fazer exames e provavelmente iria ser sujeito a uma cirurgia ao coração. Delicada, mas decisiva. Era então a doença, a razão das suas folhas continuarem vazias. O preto nunca lhe saía nos desenhos de futuros promissores e dos outros futuros ela não sabia desenhar.

Numa enorme tristeza continuou a desenhar a felicidade de todos, só porque lhe era inato. Quando nesse dia regressou a casa, fez festas ao gato bebé que comia os restos do lixo e deixou-lhe pintado no passeio com batom, uma criança sorridente de braços estendidos. Passou por uma jovem que esperava à porta do cinema e deu-lhe para a mão uma rosa amarela, desenhada no verso do bilhete do autocarro. Com o cor-de-rosa e o azul claro, pintou duas chuchas enormes, que ofereceu à empregada do talho. Pegou ainda nas cores das férias de Verão e emoldurou uma enorme folha de papel desenhada por si, cheia de um verde mar, areia fina e brilhante e presenteou os pais no jantar de comemoração de quarenta anos de casados. E para o professor Gil, passaram-se dias de agonia em que nada pintava.

Até que chegou o dia em que o bloco de cavalinho lhe implorou que o abrisse, os lápis trocavam de lugar na caixa num enorme frenesim, os guaches auto espremiam-se cuspindo cores sem direcção certa, as aguarelas transformaram-se numa sopa policromática e os lápis de cera derreteram-se de excitação.

Mas o que era aquilo? Nunca as suas cores se tinham portado daquela forma alucinada. E o papel então? O papel gritava pelo nome dela, Purple, Purple! Tens de nos entender!

E ela entendeu. Abriu a janela para o rio e as cores saíram disparadas rumo ao céu, uniram-se em arco e falaram com o pai-íris. Conversaram. E mais calmas, ouviram conselhos sobre tonalidades, sombras, texturas, luz e reflexos, matizes e gradações, desde as cores primárias às terciárias. Regressaram para a caixa, Purple pegou nelas e saiu desembestada para a rua em direcção ao hospital.

Oh Purple, tanto que esperei para que me trouxesses uma das tuas pinturas com futuro. Olhou para ele com uma enorme alegria e com cuidado colocou-lhe em cima as folhas brancas e vazias todas desirmanadas, a caixa dos lápis, as bisnagas de guaches, os frascos e tinta, o estojo das aguarelas e as lascas dos lápis de cera.

Vim desenhar para o pé de si.

Não conseguiste não foi? Não há esperança para mim?

Nada disso, professor.

A mão dela nunca deslizava para o feio e o disforme e muito menos para o lúgubre ou o sombrio.

Não sei pintar o que ali dentro se vai passar. Não conheço, não sei do que se trata e nunca lidei com o preto da vida. Mas os seus médicos sim, professor. Nasceram com o dom de correr com ele para fora da nossa existência e com capacidade de ver para além da bacidez da peçonha. As minhas cores estão tão aflitas com o poder do preto, que quase ficaram sem tom de tanto me implorarem para que as trouxesse até aqui. As folhas do bloco soltaram-se da lombada, tal era a excitação de quererem acompanhar as cores até si. Quase que não me deixaram entregar uma folha ao motorista do autocarro, com o desenho da fábrica de portões abertos e cadeados no chão, onde trabalha a mulher dele.

Elas acham que juntas vão vencer o preto. Nunca ele me toldou tanto a visão, como neste seu futuro, que nem sequer me deixa alcançar a simples matiz de uma qualquer cor. Mas não se preocupe, porque sinto que vou conseguir desenhar para si.

No final.

A equipa médica aproximou-se e imediatamente imagens de luz chegaram às mãos de Purple com tanta veemência, que receou não ter trazido consigo cores suficientes e papel que chegasse, para libertar o desenho mais bonito que jamais algum dia criara. Mas o pai-irís brilhava por toda a cidade, mais intensamente que nunca.

Espere um momento Dr., trouxe de casa um desenho para si. E de dentro da sua mala de pintura, retirou um maço sem fim de folhas soltas, que estendeu ao chefe da equipa médica. Ele desfolhou-as uma a uma e apreciou agradecido, aquela mancha de cor. Distribuiu cada uma delas por toda a sua equipa, que partiu para a sala de operações seguida pela maca do professor Gil, que a tudo assistiu em silêncio de entendido.


E cada um deles levou consigo, dobrado e guardado no bolso esquerdo da bata junto ao coração, um desenho de Purple, inundado de sorrisos perfeitos com todas as cores do arco-íris.




mais fotos do arco-íris aqui

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

das pequenas coisas

foto de sianto

Também já não perco muito tempo com o tempo, nem ando a correr com ele como se fosse fugir de mim amanhã. Prefiro gozar os minutos, às horas e os dias às semanas.

Desfruto bem mais os pequenos instantes que os grandes momentos. Os primeiros, aprendi a perpetuá-los e aos outros a dar-lhes a efemeridade que me merecem. Mas nem sempre soube disto.

Agora fico quieta quando chega o sol baixo e me toca a cara, não sinto frio quando arrefece ao fim da tarde de Outono, nem me queixo se a chuva resolveu salpicar-me o dia. Escolho o espaço que não tem sombra, rio-me das cócegas da brisa e agradeço à chuva o cheiro que deixou quando regou a terra. E pelo meio destas escolhas, entre estes pormenores de como gosto de ser, também descubro que sempre detestei o provérbio, mais vale um pássaro da mão que dois a voar.

É mentira. Não vale nada.

Se não podemos ficar com os dois, não temos que necessariamente ficar com o pássaro que ficou para trás, o que voa pouco, com o que sobra daquilo que tão benevolamente nos deixam, criando-nos a falsa ilusão de que é melhor termos qualquer coisa, que coisa nenhuma.

domingo, 19 de outubro de 2008

sábado, 18 de outubro de 2008

[11] ´tou no ir...de fim de semana


Bom dia vizinhança, hoje acordei sendo mãe da adolescente Beatriz, que faz 13 anos.

Oh meu Deus, eu tenho quase a certeza que foi ontem que esterelizei catrefadas de biberões, enchi armários com sacos de fraldas, que me sujei de Halibut, Brufen e de papa Cerelac.

Ainda ontem lavei babygrows, dobrei cueiros e pu-la a dormir a sesta. Ajeitei-lhe os lençóis bordados do berço, fiz cuchi-cuchi, disse um palavrão pela enéssima vez, por causa da gaita do carrinho que não se dobra como deve de ser e andei de cócoras a espreitar para baixo do sofá, em busca das quinze chuchas dela.

Sirvam-se, sirvam-se que eu vou directa para um spa dar cabo destas rugas todas que me nasceram durante a noite.
Adenda:
Pronto, está aqui. Encomenda especial para a vizinhança que chegou um pouco atasada.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

cartas de amor

foto minha

Comprei noutro dia num alfarrabista de Lisboa, este livro antigo e maravilhoso de cartas para namorados, arranjar marido e arranjar esposa, tal e qual como consta do sub título no interior. São dezenas delas com respostas e negações das pretendidas aos seus candidatos. Escolhi uma que achei uma delícia, desde as palavras respeitosas do rapaz, à envergonhada resposta dela e terminando na carta em que ele pede aos pais dela, para que estes os autorizem a conversar.

São cartas de outros tempos que me deixaram perdida de riso e ao mesmo tempo admirada e sensibilizada com este tipo de linguagem.

Carta do pretendente:

Exma. Sra.

Apesar de a conhecer há muito tempo, só hoje me atrevi a escrever-lhe.

Vivia amando-a em silencia, e sempre temi dirigir-lhe a menor frase de amor. Acanhamento meu, fruto da sua mesma timidez e do meu enorme respeito.

Agora não posso mais calar este afecto que me domina e que é razão de ser da minha própria vida.

Não me dê uma resposta negativa. Pense bem, muito antes de me escrever, mas conceda-me a graça de esperar o seu afecto, mesmo que eu tenha de lhe demonstrar, à força de sacrifícios, que ninguém mais a amará como eu a amo.

Espero cheio de temor e ansiedade a sua carta

Francisco

Resposta da menina:

Exmo. Sr.

Após ter mostrado a meus pais a carta que V. Exa. me escreveu, e animada pelos seus conselhos e porque também eu o estimo com bastante sinceridade, venho assim tranquilizar o seu coração alvoraçado.

Meus pais conhecem-no um pouco e isso é uma garantia para o nosso amor.

Ser-me-ia doloroso simpatizar com alguém a quem os meus olhassem com maus olhos. Felizmente dá-se o contrário e isso é uma grande felicidade para nós.

Veremos se não terei de me arrepender pela facilidade com que acreditei nas suas boas expressões.

Sem mais, creia-me com toda a consideração.

Madalena

Pedido de namoro aos pais:

Exmos. Srs.

Há tempo já, que estou para me dirigir pessoalmente a V. Exas. Uma timidez grande me tem embaraçado. Vencida hoje, em parte, essa timidez, resolvi escrever a V. Exas., pedindo-lhes que me concedam a suprema ventura de falar com a filha de V. Exas.

Repugna à lealdade do meu carácter amá-la e falar-lhe, sem que os pais o saibam.

V. Exas. Dirão o que se lhes oferecer sobre o assunto, uma vez tomadas as informações que julguem necessárias a meu respeito.

De V. Exas, At.e Ven. e Obgº

Francisco

Isto não é incrível?

Está bom assim, Vera?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

já cá canta

foto minha

Bom dia, sei que não é permitido fotografar na FNAC, mas preciso mesmo de tirar uma foto aquele escaparate do “Jogo do Anjo”, pergunte lá à pessoa que manda aqui, se me faz o jeitinho.

E fez.

E “O Jogo do Anjo” começa assim:

1º capítulo – A Cidade dos Malditos


“UM ESCRITOR nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá.

Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem um preço”.

E lá estava eu, tontinha na fila da caixa a devorar a primeira página.

A senhora, se faz favor …

(continuação do post anterior)