
O Livro apaixonara-se por ela, desde que vira Clara a desenhar as vogais na primária, com a professora Gabriela.
Criava a bolinha do ‘a’ muito perfeita e redondinha e esticava-lhe as perninhas, uma para cada lado, com um imenso cuidado, para não aleijar a primeira letra.
Ao ‘e’, imaginava-o na sua cabeça de seis anos, como um ponto de crochet e depois como se tivesse uma agulha, igual à da avó Maria, apanhava-o numa ponta, dava-lhe a volta certa e aí estava ele, o ‘e’.
O ‘i’, lembrava-lhe o plie, que tinha aprendido na classe de ballet. Era a sua letra preferida, ouvia o toque do piano na ponta do lápis, pegava no ‘i’, ajudava-o ao plie e acrescentava-lhe uma pinta, como se fosse o pompom do penteado, preso com uma fina rede.
O Livro assistia a tudo de longe e com paciência ficava quieto no seu canto, a imaginar o dia em que ela o fosse escrever. E Clara seguia sem saber do talento.
O ‘o’ punha-a a sonhar. Aquela perninha que saia da bola redonda em direcção ao céu, puxava-lhe pela imaginação e pensava logo que o ‘o’ não andava por ali sozinho com as outras vogais. Estava certa, que aquela perninha voltada para cima ansiava por mais letras. Perguntou à professora se havia outras para juntar aquelas. Espera e verás, primeiro tens de aprender a fazer estas muito bem e depois logo brincas com todas.
O ‘u’, lembrava-lhe o cadeirão de orelhas do avô Mário, de assento fundo e com dois braços grandes, onde ele se apoiava para ler o jornal e ela se enterrava naquele colo, onde ouvia histórias sem fim.
O caderno de linhas de Clara era um brinco de asseio, onde quase nenhuma borracha se tinha alguma vez esfregado. As vogais vinham todas atrás umas das outras, perfeitas como se as tivesse pintado toda a sua vida. Quando chegaram as outras letras, foi uma alegria enorme e inventava uma razão de ser para a existência de cada uma delas.
O ‘s’, era a cauda de um papagaio de papel ao vento, na praia no Inverno, o ‘p’, amigo do soldadinho de chumbo, da história do avô, o ‘q’, um gato de costas, amuado com o rabo descaído, o ‘f’, o pente do namorado da mulher-a-dias, o ‘g’, um anzol igualzinho ao que o pai usava no barco, o ‘m’, as montanhas das férias na neve, o ‘v’, o fundo do vale da casa dos avós e o ‘z’, os desenhos geométricos que a mãe fazia nascer na prancheta.
O Livro deleitava-se de prazer. Continuava a ansiar pelo dia em que Clara o iria descobrir, abri-lo e saber que tinha de o preencher. Mas teve ainda de esperar pelas cópias, ditados, redacções, testes de língua portuguesa, o assimilar de normas e regras da língua, para encadear todas aquelas letras.
E depois o ler. Clara tinha ainda de ler muito, antes de ir ter com ele.
Precisava de crescer primeiro, com todos os outros livros.
Com os contos de Perrault, de Andersen, de La Fontaine e dos Grimm, saber das histórias da Sophia, de sonhar com a Colecção Azul, viver as aventuras da Enyd e conhecer os Cinco, os Sete e o Gordo do mistério, imitar as peripécias das gémeas em Santa Clara e as partidas da Diana e das outras raparigas nas Quatro Torres.
Conhecer o Zé Colmeia, o Gasparzinho, a força da Bolota, os milhões e a bondade do Riquinho e a Brotoeja das bolinhas. Criticar o Patinhas, adorar o mau feitio do Donald e invejar o talento da Vovó Donalda. Trocar o ‘l’ como o Cebolinha e lavar o Cascão bem lavado. Acreditar que existem super heróis como o Fantasma, o Mandrake, o Quarteto Fantástico. e Thor. Rir com o Tom e o Huck, chorar com o Pai Tomás e com o Zezé e os seus queridos amigos, o Portuga e o meigo pé de laranja-lima.
Partir no sonho e ser levada pela imaginação, com o Júlio na volta ao mundo, conhecer as pupilas e a morgadinha, saber dos amores infelizes de Teresa e Simão, de Carlos e Eduarda, de Pedro e Inês, namorar com Garrett, Florbela e o Luís. Multiplicar-se com o Fernando.
Apaixonar-se por Heathcliff!
Investigar com Poirot, Maigret, Perry Mason e Nero Wolf e depois perder-se à vontade e ter Grandes Esperanças.
Lançar-se aos livros e fazer escolhas, seleccionar autores, preferir formas de escrita, envolver-se no ritmo, na entoação, na trama, na viagem, na criação e no talento de muitos.
Tanto para fazer, até chegar o dia em que conhece um Livro em branco, um Livro que nem sequer linhas tem, que ninguém ainda escreveu e que chegará até si na altura certa.
Que sempre a esperou.
O Livro que surge numa altura, em que Clara cheia de saudades das pernas delicadas do ‘a’, das voltas do ‘e’, do plie do ‘i’, da altivez do ‘o’ e do cadeirão do ‘u’, os irá voltar a desenhar, como o mesmo amor de antes.