sexta-feira, 10 de julho de 2009

'tou no ir ... de férias II

Bem, deixa-me ir, tenho de voltar à vidinha própria desta saison, fazer as malas e começar a pensar na mansidão e languidez dos dias; nos pequenos-almoços tardios na marina, nos almoços tardios na esplanada da praia, nos jantares tardios na esplanada da praia, nos não horários, no não sei que horas são isto, no depois vê-se, no agora não posso, no vou dormir e quando a maré subir acordem-me, no não sei qual o dia do mês e no má que jête, 'tou marafada.
O sítio é o mesmo do costume, barlavento, Lagos-Sagres, junto com passeios imprevistos de descoberta, subindo até Aljezur.
Umas óptimas férias para todos, bem gozadas e principalmente descansadas.

lagos-ponta da piedade

Adeus meu blogobairro querido, vou ter saudades mas voltarei lá pelos finais de Agosto.
:-)


quinta-feira, 9 de julho de 2009

do terceiro grau

mértola-alentejo, foto minha

Conheci-o num dos meus fins de tarde preferidos; abafo de início de verão, carrego de nuvens pesadas onde se sente haver alguma coisa a romper. E não é o sol, e nem a chuva e nem sequer o vento; e não se sabe o quê, e nem quando, e nem onde e muito menos porquê. Tempo hostil, agressor de almas delicadas que em nada atinge a minha.
Tardes de mistério em que algo se propaga pelo ar, mas que na verdade só os animais pressentem e serão muito poucos os humanos, a gozarem o privilégio de o testemunhar.
Aconteceu comigo; encontrei uma alma gémea suspensa no alto da colina, a conversar com o céu. Quando me viu, pediu por favor que apenas registasse o seu lado direito. Foi o que fiz, fotografei-o mil vezes e nunca se mexeu; nem um pêlo da crina se levantou, uma orelha estremeceu, a cauda se agitou ou a narina
resfolegou.
Creio mesmo que ainda lá está, ao pé da urze que se torcia debaixo dos seus cascos, escutando a música no cimo do altar, que escolheu para me encontrar.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

forma nominal do verbo

mértola-alentejo, fotos minhas

Há milhares de anos, no meio de uma terra inóspita, exigente e crua, surgiu um céu, que mostrando por vezes uma espécie de amarelando, outras encarniçando, algumas acinzentando, azulando e até branqueando, acabou tudo colorando.
Houve até quem inspectando, fosse testemunhando que o vira já prateando, esverdeando e por uma ocasião, criando um alaranjando-ocreando num negrando-enferrujando, como um destruidor fogueando, originando um verbo começando.


E apresentado: Gerúndio, muito prazer, aqui vos encantando!
(clicar para aumentar)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

missão: personagens III


Pela rua estreitinha, de casinhas branquinhas e baixinhas, de janelinhas com rendinhas e vasinhos de florinhas amarelinhas, vinha subindo eu, serena e orgulhosa, com a pauta de notas da Beatriz nas mãos.
Eis que ele me surge na sua janela aberta de par em par e espreguiçando-se num impudico cumprimento, abraçando todo o planeta terra, emite um sonoro aiiiiiiiiii e saúda a vida.
Talvez perturbado, por ter dado pela minha repentina presença,
numa altura íntima da sua rotina matinal, diz-me atrapalhado, bom dia! E eu, que nunca fui rapariga de virar a cara a cumprimentos, nem nada que se pareça e apesar de nunca ter visto o Adérito na minha vida, também me saiu pela boca, bom dia, isso é que foi dormir, ah!
Corou, claro está. Também, quem me manda a mim ter sempre a resposta pronta na ponta da língua?
Exibia para a vizinhança um visual ensonado de olhos estremunhados, cabelo sem pente, agudos vincos vermelhões na face direita, deixados por uma almofada engelhada.
Com o meu carro estacionado a dois metros, deixo-me ficar por ali numa vontade súbita de dar um jeito no porta-bagagens, no porta-luvas, fazer uma selecção aos cd e até sacudir os tapetes, porque não?
Por detrás dos meus óculos escuros, admiro-lhe a camisola de alças donde emergia uma intensa e conturbada cabelagem negra, cuja monotonia cromática era quebrada subtilmente, pelo brilho do crucifixo que trazia na correntinha ao pescoço. Do tempo em que havia madrinhas...
Oh homem, ainda 'tás nesses trajes? Não me queres dar uma ajuda aqui com o estendal?
Era a Alzirinha; a mulher laboriosa com quem casou, que já andava a pé desde o arrebol do crepúsculo e tinha lavado e estendido duas máquinas de roupa e engomado outras tantas; coseu cinco pares de meias, no calcanhar e no dedo grande; fez as camas dos filhos de lavado; limpou o pó a preceito; regou os vasos do quintal; assistiu ao programa da dona Fátima; lamentou-se mais uma vez da telefonia já não dar nada de jeito, como no tempo do senhor Sala e da dona Olga Cardoso; cortou as couves para o caldo verde; chorou de saudades das netinhas emigradas na Venezuela, disse olá à velhota do lado e que, num tarda nada já lhe levo as sopinhas de leite; ajeitou a roupa para o seu Adérito vestir; amanhou as pescadinhas de rabo na boca para o almoço e maravilha das maravilhas: cortou os coentros fininhos, fininhos para juntar ao arroz de feijão, que já apurava no fogão.
E é quando o cheirinho do tacho da Alzira fluindo pela janela, esquecida escancarada pelo meu amigo Adérito, que o descalabro se dá, e a minha imaginação inicia o seu verdadeiro processo criativo.
No meio do meu turbilhão de imagens gastronómicas em 3D, onde abundavam suculentas pataniscas de bacalhau, arrozinho de tomate, peixinhos da horta (oh meu Deus, o que eu tenho em consideração os peixinhos da horta!), jaquinzinhos fritos, costeletinhas de borrego grelhadas, batata albardada; salada de pimentos; morcela de arroz; linguiça frita; broa de milho; azeitonas com orégãos; queijo seco amantizado no colorau; papos-de-anjo; trouxa-de-ovos; pudim de Abade de Priscos; toucinho-do-céu e glaciais copos de sangria tinta, ainda consegui ouvia-la exclamar, oh filho, tu corre-me lá dentro e baixa o lume, que ainda se nos queima o almocinho.
Oh menina, oh menina, sente-se bem? Era a Alzira, coitada; aflita com o escancarar das minhas narinas na direcção da sua janelinha, com vidraça de rendinhas, enfeitada com vasinhos de florinhas amarelinhas.
Solícita, levou a mão ao bolso da bata de axadrezado miudinho e retirou de lá um lencinho de um branco impoluto, com que limpou a saliva que ainda me escorria da boca e gritou para dentro de casa, Adérito filho, traz um copo de água com açúcar e avia-te homem, que aqui a menina 'tá sem cor!
Acabei sentada na salinha da família, a recompor-me do fanico gastronómico. Observei a colecção de elefantes de porcelana azul e branca, que num crescendo de seis peças, enfeitavam o topo do televisor (ao terceiro e ao quinto, faltavam-lhes a tromba, e o primeiro e o último tinham uma pata lascada), passei as mãos pelos naperons de croché, enroscados com amor nos braços do meu sofá de veludo verde, elogiei para dentro, a inexistência de um único grão de pó nas camélias de plástico, deleitei-me pela segunda vez e agora mais calma, com o cheirinho emanado da cozinha da Alzirinha, aceitando desde logo o convite para o almoço, devia comer qualquer coisinha menina, está tão pálidazinha ... olhe que lhe fazia bem.
Mas principalmente, renovei um princípio e uma ideia antiga de admiração, de muito respeito e alguma comoção perante a genuína simplicidade dos outros.

Só recusei a bebida incolor servida num cálice riscado, que o Adérito cognominou de cheirinho.

personagens I e I I

quarta-feira, 1 de julho de 2009

verão em lisboa II

parque eduardo vii, foto minha

Aparentemente, uma estátua de pedra, inerte, sem emoções ou sentimentos. Mas na verdade, é que com esta não acontecia nada disso, coisa que me apercebi mal passei por ela nos costumeiros passeios tardios, feitos com o meu pai pelo parque das nossas vidas.
Conversávamos pois, e dizia-me que possuía alma e coração quente.

Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas no instante em que colocaram o seu pedestal no espaço reservado naquele jardim para ela ser edificada, Camila, assim se chamava, adquiriu vida interior.
Será que foi, porque em tempos muito antigos e já sem memória ou repetição, habitaram por aqui seres especiais como os famosos pirilampos cantores, os conciliadores abraços apertados, lusos corações poetas e os verdadeiros sonhos realizados e que te deixaram na terra esta herança do sentir?, perguntei-lhe logo eu, que guardava comigo estas estórias mágicas que o meu pai me contava todas as noites.
Talvez, pois Camila alimentava-se do sentir as garras afiadas dos pássaros coçarem-lhe a cabeça e os ombros, deliciava-se com o pousar suave de borboletas e abelhas nas suas pestanas, agradecia ao vento que lhe penteava o cabelo e à brisa, por lhe limpar o pó cinzento que lhe poluía a pele-mármore.
Escutava segredos sussurrados e juras apaixonadas, de namorados que se acomodavam aos seus pés e perdia o sorriso lá para os lados da estufa fria, onde nos baloiços crianças como eu, espalhavam gritos estridentes de felicidade.
Passei lá outra vez, quando da Feira do Livro e fui cumprimentá-la.
Hoje, já velha e escurecida, com rugas sulcadas pelo efeito das rachas fundas no tempo, vive todas as manhãs a sua preferida e mais deslumbrante emoção: o gozo da vida, com o mesmo entusiasmo da primeira vez, no memorável dia em que para ali foi ganhar raízes.
Essa vida que ela testemunha logo na aurora, contém tons de azul, ou de verde, ou de cinzento, ou ainda prateado, mas é sempre lisa e calmante com nome de rio. E quando esse rio se aproxima da profundidade dorida, tão própria do nosso grande oceano, aceita-o com paixão, transformando-se num exclusivo apelido de mar da palha.
Bom dia Camila, salpica-lhe ele lá de baixo, ainda perdida nos teus pensamentos sobre a razão das coisas, minha amiga?
Claro querido Tejo, ninguém me tira a ideia de que esse oceano que te abraça diariamente, é a razão da melancolia deste povo lusitano.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

secretíssimo, recôndito e encoberto

alfama, foto Luísa

Fui subornada, comprada e corrompida pela Luísa, embora a responsabilidade de cair na tentação seja toda minha, pois fui avisada entre parêntesis "a menina está à vontade e só responde se quiser", para revelar o mais secreto que há em mim, em troca deste prémio.
E seguem-se os meus segredos:

Mania: nunca sair de casa sem óculos escuros, inverno ou verão;
Pecado: gula, pois 'tá claro! Eu penso até, que na outra vida fui abade;
Melhor cheiro do mundo: os do campo no outono e os croissants da Bénard;
Se dinheiro não fosse problema: doava em causas humanitárias de apoio aos animais e à pobreza como esta do americano Greg Carr, no Parque da Gorongosa, e de apoio às mulheres subjugadas como esta, da Solar Cooking;
Caso de infância: nunca mais esqueci o dia em que pisei um caracol e ainda hoje, mal começa o tempo húmido, eu ando de olhos fixos na calçada aos saltinhos para me desviar deles e não interferir com as suas lentas passeatas. Se tiver oportunidade, vou-os apanhando pelo caminho e atiro-os para a relva, para mais ninguém os matar;
Habilidade como dona de casa: eu sou uma autêntica fada do lar, ah pois é, aqui ninguém me apanha em falta;
Não gosto de fazer em casa: limpar o pó;
Frase: o dia de amanhã ninguém o viu;
Passeio para o corpo: enveredar por caminhos inesperados, a meio de percursos previamente definidos. No fundo, a surpresa da descoberta inusitada;
Passeio para a alma: esplanar e fazer como a Luísa: subir e descer o meu/nosso Chiado;
Irrita-me: pessoas que não se desviam do caminho e se movem sempre a direito e aos encontrões nos outros e pessoas alucinadas, que andam a correr pelo supermercado e agarram no primeiro carrinho de compras que lhes aparece pela frente (geralmente o meu, descansado a um canto), fugindo com ele para a caixa, sem sequer olharem para confirmarem se aquelas são ou não as suas compras;
Frase ou palavra muito usada: no verão - Uma caipirinha, com açúcar amarelo, por favor, ou, Tem sangria?
Palavrão mais usado: Gaita e bolas.
Desço do salto, subo o morro e rodo a baiana: quando guio e deparo com a selvajaria da classe condutora;
Perfume: sou muito fiel aos mesmos há muitos anos e raramente vario, deve ser das poucas coisas em que não gosto nada de mudanças. No verão, Ô de Lâncome e no inverno, Pamplelune de Guerlain e Gucci II;
Elogio favorito: fico sempre muito pouco à vontade com eles, da mesma forma que também fico pouco à vontade com pessoas que fazem o inverso, isto é, que provocam os elogios, que se fazem a eles descaradamente, fingindo modéstia;
Talento oculto: eu sei cantar (sem modéstia nenhuma)!
Nem que fosse a última moda eu não usaria nunca: roupa transparente;
Queria ter nascido sabendo: falar todas as línguas.

E passo este questionário à minha querida e muito antiga vizinha, Blue Velvet, que julgo saber gosta muito de desafios e está a precisar de se distrair e alegrar um pouco. E ao também meu querido e antigo vizinho Paulofski, que anda a precisar de um empurrãozito nas letras.
Preguiças veraneias, é o que é!
E a música é para a Pitanga e para a Luísa, num dia especial.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo

Para quem o apreciava como talento indubitável que era, foi muito complicado gerir todas aquelas suspeitas e acusações de pedofilia, a aberração de algumas atitudes, as suas múltiplas excentricidades e continuar a manter intacta, a admiração pelo seu génio artístico.
Há um pequeno truque, que apesar de queimar na pele, se for conseguido até resulta: separar o homem do artista. Se assim não for, perder-se-á muito do talento da humanidade. A admiração que temos por alguém que leva a arte a planos do inatingível, implica grandes riscos e arcar sem pieguices com os pecados do artista; também eles muitas vezes incompreensíveis.
Ainda na semana passada, eu percorri durante duas ou mais horas os seus vídeos no youtube, com a Beatriz ao meu lado pasma de admiração, uau mãe, que pinta; excelente este passo; deixa-me ver outra vez o moonwalk; ele aqui ainda era tão bonito; e sabias todas as coreografias?; mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo.

Ontem a Beatriz ficou tão triste como eu e eu ..., eu voltei a ter treze anos.
Depois da morte, espero que a excelência do seu talento, a renovação e a inovação que trouxe à pop e a magia do seu trabalho que tivemos o privilégio de testemunhar, sejam sempre recordados quando se falar do Michael Jackson artista.
O Michael Jackson homem já foi acusado, julgado e condenado e ainda o será, para quem acredita no julgamento divino, que não é de todo o meu caso.
Mas cenas do outro mundo, foi mesmo o que ele nos deu, principalmente nos anos 80 e 90.
Ícones destes são perpétuos, como Elvis, Sinatra, Lennon e Freddie.

E ele não é só do meu tempo, Beatriz. Vai ser do tempo de toda a gente.


foto daqui

De fundo, não a mais inovadora, mas a minha música preferida, Dirty Diana

quinta-feira, 25 de junho de 2009

eça no feminino


Ontem sabia que a tarde ia ser difícil; já estava prometido há mais de um mês, três horas de martírio na cadeira da minha querida dentista.
Lá fui eu, qual miserável a arrastar-me pelo passeio, com o pensamento fixo em anestesias azedas, brocas e broquinhas, espátulas, espelhos, aspiradores ruidosos, moldes coloridos, ceras quentes, simpósios, segundas opiniões e sempre de boca bem aberta, com dois pares de olhos em cima.
Enfim, tudo passou e já eram seis da tarde quando saio do Instituto de Implantologia, assim com a boca meio de lado num grande reboliço interior, mas que felizmente de fora mal se notava e se não a abrisse para falar com ninguém, a coisa até correria benzinho... e se eu ainda desse um saltinho ao Chiado, à Bertrand, para ouvir a Maria Filomena Mónica e o Eça?
Eu merecia uma recompensa, ainda para mais inesperada, depois de toda aquela invasão metálica na minha embocadura e fui e fui mesmo, de cara à banda e tudo.
As pessoas que dizem o que pensam frontalmente, sempre me atraíram, mesmo que discorde totalmente delas. Geralmente caracterizam-se por um certo pessimismo, antagónico à minha maneira de ver o mundo, mas não deixam por isso de ter razão na maior parte das vezes em que fazem as suas apreciações.
A Maria Filomena Mónica é um desses casos; extremamente crítica da nossa sociedade, talvez pouco crente no género humano, tuga principalmente, mas sempre certeira, incisiva, mordaz e com um sentido de humor irónico, por vezes cínico, de que eu sou fã; no fundo, ela tem um grande pedaço de Eça dentro de si.
São de um enorme rigor e de um trabalho genuíno e muito profissional, as suas várias biografias e os seus livros de retrato da sociedade portuguesa, mas é ouvi-la falar, ler as suas crónicas e os seus livros mais pessoais, como "Vida Moderna", "Os Sentimentos de uma Ocidental" e o corajoso autobiográfico "Bilhete de Identidade" que mais me delicio e ontem, no pouco tempo que durou esta apresentação alterada, da 5ª edição da biografia do Eça (que eu ainda não possuía), não foi excepção: igual a si própria.
E já comecei a ler, claro está.

fotos minhas
Sobre a obra, vão ao blog da Quetzal, aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2009

locais no avesso de nós


Por vezes, muitas vezes mesmo, viver não será somente nascer, existir e desaparecer.
Há tantos lugares em nós a despertar todos os dias...
Lugares que envelhecem, os que desaparecem, outros que apodrecem, aqueles que amadurecem e a maioria que simplesmente renasce.
Pena é, que pouca gente repara nisso. Em si própria; e quando o faz já há tão pouco para renovar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

verão em lisboa I

foto luís ponte

Em Junho, quando terminavam as aulas, por vezes não tomávamos o pequeno-almoço em casa e de mãos dadas combinadas com muita conversa, estórias de pai que entravam nos meus ouvidos para nunca mais saírem e porquês cheios de curiosidade, descíamos a pé a Avenida pelo passeio do Tivoli. Momentos antes cumprimentávamos o Garrett e o meu pai dizia, um dia vais saber tudo das viagens da terra dele. Adivinhou.
A meio caminho, atravessávamos para o outro lado e quando chegávamos perto da Praça da Alegria, aqui foi...já sei pai, foi onde conheceste a mãe e depois passeavam no Jardim Botânico.
Baptizávamos os patos, dávamos pão seco aos pombos e eu contava pelos dedos da mão, a quantidade de pessoas a quem ele dizia bom-dia, até chegarmos ao Rossio.
Comíamos na esplanada da Suíça; torradas aparadas, chá fresco com limão e café de saco para ele. No fim, o prémio incongruente do qual trago o sabor na boca até hoje, impróprio para uma mãe, mas digno de um pai que se preze: um gelado de máquina, morango e baunilha, que descia numa perfeita espiral dançante até ao cone fino de bolacha estaladiça, terminando numa ponta finíssima em caracol. Lembram-se?
Depois de almoço posso comer o de chocolate? Claro que podia!
E as perfumadas velhas da mesa ao lado, com cabelos enlacados de um encantador branco-lilás, olhavam-no de lado e escondendo-se atrás de leques rendados, com desenhos de sevilhanas vestidas de bolinhas pretas, cochichavam entre si, parece impossível!
Ele ria-se, piscando-me o olho; rasgava-me as 7 Diferenças do jornal e voltava à leitura do seu Diário Popular, enquanto lhe engraxavam os sapatos.
Eram os melhores pequenos-almoços do mundo, tinham o gosto do proibido e um toque de segredo totalmente interdito de ser revelado, nunca digas à mãe que comes gelados ao pequeno-almoço.
Prometo.
E até hoje nunca disse.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

vírus* num blog sério e familiar #6


Bom fim-de-semana!
(agradeço que não revirem com muita violência e sofreguidão o pescoço do rapaz)

* ainda bem que comprei pomada voltarene

quarta-feira, 17 de junho de 2009

biografias # 4


Aurélio Madeira ganhou o vício do palitamento em equilíbrio na beiça grossa, com o pai taberneiro e desde o primeiro momento em que este o autorizou a colocar estrategicamente o dito ao canto da boca, Aurélio Madeira nunca mais o largou.
A tradição era já ancestral; sempre conhecera o seu pai no domínio perfeito da técnica da palitagem, tinha ainda vagas memórias fumarentas da boca do avô, onde palito e cigarros enrolados, conviviam primorosamente controlados com perícia e sabia de cor a árvore genealógica, com mais de 180 anos, da arte de palitar dos Madeira.
Quando chegou o seu grande dia, anda cá Aurélio, toma lá o teu primeiro palito e estima-o como a um filho, disse-lhe o pai comovido, ainda com as palavras do seu próprio pai presentes na memória: tens de morrer com um palito na boca!
Apesar de vários anos de observação meticulosa, a coisa não foi assim tão fácil como parecera. Primeiro teve de sofrer um pouco, até conseguir acamar o palito e reservar-lhe lugar numa fenda da gengiva. Demorou uns tempos para vincar essa brecha sangrenta, mas finalmente fixou o palito na abertura da pele, no canto extremo direito da boca.
Depois deste saber o seu lugar, foi a vez de aprender a manusear o fiambre, isto é a língua.
É que aquilo não era só chegar ali, fixar o pedaço de madeira e vamos embora com a dança. Nada disso, um verdadeiro expert do palitamento teria de aparentar uma certa descontracção no seu manejo; enquanto comia; nas conversas; durante uma bebida; a dormir, até! O segredo estava na manobra da língua, era ela a ágil alavanca, a grande aliada de todo o processo de palitagem na família Madeira.
O mais complicado para Aurélio, foi mesmo dominar a técnica da conversa e em simultâneo, prender o palito ao canto da boca, sem que este nunca se desviasse da fenda gengival, conseguida à custa de muito sacrifício, dores e cicatrizes. Mas uma vez conseguido, não fosse ele um Madeira legítimo, tudo iria correr sem percalços. E foi o que aconteceu.
Com os anos, o branco da boca passou a amarelo tabaco, as gengivas escureceram, exibindo várias tonalidades do espectro, que iam do violácea ao cinza escuro, passando pelo laranja ocre, e um hálito poderoso já há muito se entranhara nas paredes da taberna, deixando Aurélio Madeira rejubilando de orgulho.
Era uma questão de imagem, de honra familiar, de dignidade histórica! Todos os Madeira morreram fétidos e contaminados pela lei do palitar e ele não seria diferente.
Aliás, até desconfiava que um nível de putrefacção como o dele, nenhum antepassado tinha atingido.
E soube que tudo correria bem e que a sua hora se aproximava em glória, quando vieram as cáries nascidas dos petiscos da taberna; as lascas dos pastéis de bacalhau ficavam presas nos entremeios do esmalte da dentadura e aí apodreciam; pequenos fragmentos de casca de azeitona verde, aninhavam-se nos buracos da dentina exposta e por lá fossilizavam; minúsculos ossinhos, quase microscópicos, de passarinhos mortos com a pressão de ar, esventravam a fenda da gengiva descendo até à raiz; pedaços de suculento torresmo mal mastigado, acamavam e abcessavam virulentos; gordurinha excedente das moelas e dos pipis, iam preenchendo os espaços livres deixados por dentes em falta, originando em toda a placa bolinhas de matéria purulenta, pequenos quistos ensanguentados e uma ou outra larva mais atrevida e perdurável.


biografia #1, biografia #2, biografia #3

segunda-feira, 15 de junho de 2009

missão: personagens II


Oh Célia, não há de frango, queres de atum? Incomodou-me uma voz varonil a berrar.
'Na gostas? Olhe então são só duas bejecas fresquinhas, fáxavor.
Quero desde já deixar bem claro, que eu não estava em missão de descoberta de personagens, nem nada que se parecesse. Encontrava-me sim, na esplanada da minha praia num fim de tarde aprazível lendo o meu admirável Tchékhov e só desejava mesmo, sossego e pouca distracção.
Pois, tenho destes desvarios, gosto de ler os russos no verão. Deve ser a melancolia do frio que tanto aprecio. Ninguém é perfeito. Adiante.
Encho-me de vergonha e aceito a punição, mas nem o puro realismo contido nos contos de um génio como Tchékhov, fez com que me abstraísse daquele, Oh Célia, vociferado com poder másculo.
Do gelo de Moscovo, incisivo e letal, salto de imediato para um não menos fatal calor ibérico, mais propriamente na Caparica, que queima como tições cozinhados em labaredas. O contraste foi brusco, mas não tive outro remédio senão adaptar-me rapidamente. Precisava de conhecer a Célia.
Pousei o meu clássico na sombra e enquanto lhe fazia festas, prometendo que a ele voltaria mal tivesse oportunidade, escorreguei ligeiramente pela cadeira, baixei os óculos escuros e coloquei-me em posição de vigilância.
Como que desmaiada de barriga para baixo, à sombra de um multicolor guarda-sol que exibia gratuitamente as letras garrafais cor-de-laranja, Trifene 200, encontrava-se a Célia. Sem demora, juntei-lhe um segundo nome próprio para ficar mais compostinha: Gorete. Célia Gorete e por favor pronunciem com acento no primeiro o: Gó-re-te!
A tatuagem arrogante de caracteres celtas, ou hindus, ou cirílicos, ou chineses ou lá o que raio era aquilo, desenhada primeiramente ao nível dos rins, já vira melhores dias. Também as leis da física, com o correr dos anos haviam sido fatais para Célia Gorete. Os refegos cilíndricos, assim como as pregas nascidas pós-tatuagem devido aos abusos de uma nutrição irresponsável, provocaram dilatações no corpinho, fazendo espalhar o desenho que escorregava agora ao longo do pneu sobejado.
Perante tal visão, encolhi os meus abdominais e prometi a mim mesma, talvez pela décima quarta vez, que era desta que largaria a droga; os chocolates, diga-se.
Entretanto, o par de Célia Gorete, um cepo robusto esculpido numa peça única, bronzeado o ano inteiro e coberto de pêlos género matagal intenso, a quem baptizei sem hesitações de Leandro, já se dirigia direitinho ao guarda-sol, onde a sua sereia o aguardava necessitada de beber.
Pôs-se a jeito para o repasto, largou a Nova Gente, sacudiu a areia da toalha e finalmente expôs o figurino para satisfação de gente indiscreta como eu, cujo interesse como sabem, era da mais pura investigação, não deixando também de atiçar outros desejos masculinos, bem menos prosaicos que o meu.
Não vale a pena pôr-me com coisas, mas verdade seja dita, lá que a rapariga era maciça, ai lá isso era. Ignorando o aviso dos michelin laterais, que nos calham a todas se não tivermos juízo, a alvenaria dela era cheia e sólida. Uma massa compacta bem torneada sob alicerces consistentes, quase inabaláveis que tinham término nuns pés nédios de unhas de tom escarlate, capaz de fazer corar o manto rubro de um qualquer pastor da igreja universal.
Deixando de lado o palavreado alambicado, assumo a gíria de uma vez por todas e para que ninguém fique com dúvidas, Célia Gorete era acima de tudo aquilo que se chama, uma grande cavalona!
Só lamento não ter enxergado com o devido rigor, o modelito da tanga que envergava. Mas era tão demasiadamente reduzido e escondido entre as bochechas dançantes, que só lhe percebi o padrão: tigresse.
Houve até um senhor, coitado, que ficou com os glúteos da rapariga fixos na pupila, que teimavam em não se descolar. Ainda estive mesmo para o ajudar e dizer-lhe, o senhor desculpe, mas tem o biquíni da Célia Gorete dentro do olho e se ali o cepo do Leandro vê, não há-de ficar lá muito satisfeito.
Mas calei-me, os clack-clack dos fechos da lancheira fluorescente do parzinho, estrondeavam no areal, chamando-me de novo. E ele era gordas coxas de frango, louros rissóis de camarão, pála-pála das onduladas, suculentas talhadas de melão que se colavam aos dedos e o cacho portentoso de belas uvas brancas, cujas grainhas eram cuspidas com destreza para a areia em brincadeiras parvas de namorados, provocando-lhes sonoras e impudicas gargalhadas, mas tremores no meu
Tchékhov.
Enjoei confesso e a minha saudável garrafa de frize limão encolheu-se de recato, sentindo-se como ré perante aquele repasto, onde não se admitia qualquer carência de nutrientes.
Resolveram depois ir a banhos, não sem antes Leandro exibir um mergulho acrobático perante as hostes adeptas do passeio à beira-mar e molhar Célia Gorete, que largou um estridente, ai que estúpidoooooooo!
Entre gritinhos histéricos de ais e uis, frases assustadoras como, olha o tubarão, vou-te papar, anda cá minha patanisca e oh parvalhão já te disse para me deslargares e anda masé espalhar-me o creme nas costas, dei por concluída a minha missão e propus novamente deliciar-me com o
Tchékhov.

Encontrei-o amuado comigo e com menos falas que o costume. Fingi não perceber o seu ciúme, nascido da atenção que dei à Célia Gorete e ao Leandro e ignorei as acusações que me fez, à medida que eu avançava nos seus contos: que eu exagerava na adjectivação, nas metáforas e nas comparações e que nos meus textos me perdia na ironia, descambando por ai abaixo demonstrando uma total falta de imparcialidade. Uma reles emotiva, era o que eu era. Uma total ignorante do verdadeiro realismo.
Disso já eu sabia, não me deu ele nenhuma novidade, sou mesmo assim um pouco para o exagerada. Mas continuei a lê-lo calada, como se nada fosse e a pouco e pouco sossegou, permitindo que me perdesse novamente nas suas palavras absolutas, na sua escrita única, sem excessos, sem interpretações, sem críticas inerentes ou pareceres coniventes.
Uma escrita que à primeira vista parece não possuir quase nada, mas que afinal tem tudo, escondido atrás de uma subtileza ímpar.

E o perfume a óleo de coco foi-se dissipando pelo ar ...

terça-feira, 9 de junho de 2009

coisas de miúdos


Pisos anti-choque com sistema de amortecimento de quedas, materiais sintéticos, vedações, capacetes ergonómicos, cotoveleiras, joelheiras, caneleiras. Não existem joelhos arranhados e pinturas tribais desenhadas a mercurocromo, já ninguém parte a cabeça, esfola o queixo, raspa os cotovelos, exibe lindas e coloridas nódoas negras ou tem galos na testa. Raramente se vêem pensos rápidos, ou se ouvem gabarolices de pontos cosidos a frio.
Uma monotonia.
Agora já não há baloiços de madeira pendurados em elos de metal ferrugento, rangendo de sofrimento num ritmo exacto, que nos conduziam direitos ao céu e nos devolviam de regresso à terra. Deixavam-nos as palmas das mãos cor-de-laranja de ferrugem e cheias de calos orgulhosos.
Baloiçávamo-nos num tal para cima e para baixo, em velocidades galopantes que exigiam gritos estridentes de prazer, onde era tão fácil imaginar que seria mesmo possível voar. Bastava soltar as mãos das correias, lançarmo-nos para a frente, acreditar, conceber e sobretudo sonhar.
Não voaram tantas vezes assim?
Que pena aos nossos filhos já não nascerem asas.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

guilty pleasure II

Olá, o meu nome é Patti e não fumo há dois anos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

feeling good


A minha escrita é feita de pequenos e discretos roubos, de observação minuciosa que intencionalmente surripio aqui e ali. É uma escrita de delitos leves, cometidos com um aproveitamento desavergonhado das distracções humanas. Escrita apoiada em crimes ingénuos, quase sem pena prevista na lei, mas planeados à minúcia com o objectivo claro de saquear às minhas vítimas, os seus sentimentos e emoções.
Esta vil gatunagem furtada aos inofensivos comportamentos alheios, mais não é do que uma forma muito pessoal de me representar na caneta e no papel.
Todas as palavras que me lêem resultam portanto, da mais pura fraudulência, de uma criminosa e muito trabalhosa actividade de plagiato humano, que por vezes me consome e me leva as energias.
Ora, qualquer ladrão que se preze, necessita também de evoluir, buscar novos recursos, pesquisar outras metodologias, praticar diferentes técnicas de assalto, concentrar-se nos objectivos e ponderar sobre a actividade, para continuar a usufruir do gozo que a ladroagem lhe proporciona. Em suma, carece de uma benéfica pausa.
No meu caso, assumida aqui perante vocês como uma ladra de almas inocentes, que vagueiam distraidamente ao meu redor, desconhecendo que lhes sugo o sangue para poder escrever, dizia eu no meu caso, essa pausa saudável chegou.
Neste tempo, tenho muitas coisas que quero e vou fazer.
Muitos eus
que se têm dispersado e que me aguardam pacientemente e sem queixas, para os reorganizar e reunir. Mas sobretudo, preciso muito de voltar a ler como antes lia. Sem distracções. E a partir de agora mais ainda. Sinto muita falta desse pedaço de mim. Desse eu, que sempre me foi especial e que me torna melhor pessoa nas outras tantas partes de mim.

Tentarei voltar, mas não prometo, lá pelas calendas de Junho.

"It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good"

terça-feira, 19 de maio de 2009

ser adolecentA aos 13 é ...

Oh mãe coitadinha da Ana, mora nos Açores e ainda para mais na ilha Terceira.
Mas o que é que isso tem de mal Beatriz? Todas as ilhas dos Açores são lindas e a Terceira não deve ser excepção.
Mas mãe, como é que ela consegue viver? Só a ilha de S. Miguel é que tem a Berska!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

vírus* num blog sério e familiar #5

vírus acanhado; aparentemente inofensivo, que quando menos se espera ataca a memória ram, a rom e a outra;


vírus folgazão; domina componentes electrónicos, circuitos, placas gráficas, artérias, veias, epiderme e o cérebro de uma forma geral;


vírus assassino; especialista na destruição de sistemas informáticos, sistemas binários, sistemas financeiros e sistemas nervosos.

(Gabriel Aubry)


Bom fim-de-semana!
(agradeço que me deixem pelo menos um dos aubry, pois tenho um anti-vírus novo para testar)

* eu não mereço tanto

quarta-feira, 13 de maio de 2009

linhas de pensamento


Agora, colocam-me aqui ao lado destas amostras de criadas; desta gentalha sem tradição, que mal se aguentam numa casa por mais de três ou quatro meses, sem carinho nenhum pelos senhores ou pelos meninos.
Onde é que já se viu tamanho desmando? Sabem lá elas o que é governar uma casa, orientar um lar, apoiar uma família. Nem sequer sabem pregar um simples botão!
Nada entendem de cozinhados saborosos, confeccionados à base de amor e dedicação, cheios de temperos secretos, ancestrais
receitas herdadas, manjares únicos.
E as limpezas? Uma vergonha.
Saberão elas a diferença entre prata e inox, cristal e pirex, pau-cetim e pinho, seda e poliéster? Nada.
Andam por ali com aqueles espanadores modernos, aspiradores eléctricos e esfregonas que vêem nos anúncios da televisão, desconhecendo o que é o verdadeiro esfregar, a nobreza do polir ou o vigor de um encerar.
E a roupa então, é um ver se te avias. Não há cá preceito algum nos vincos, dobras, pregas, direitos e avessos, gomas e borrifos, punhos e colarinhos.
Flausinas.
...
Olha p'ráquela, parece um pinguim expulso do pólo norte, ou será do pólo sul? Que se lixe, é 'masé ali do oceanário e já é muito bom.
Coitada, lá porque tem um avental de linho e golinha com goma, deve pensar que é melhor do que eu. Ao menos dispo a bata, quando faço recados à patroa.
E aquelas unhas, rentes e sem verniz? A lojinha do chinês já te fazia jeito, oh simplória. E um saltinho na chanata, também ia bem não ia, ou faz-te doer os joanetes?
Lorpa, nem deve sonhar que eu folgo todos os fins-de-semana, faço compras no shopping nas mesmas lojas dos bosses e chamo os putos deles, pelo nome próprio.
Ah e não sou uma ilitrada como tu, ou lá como é que se diz; tenho o oitavo quase todo... falta-me p'rái matemática, português e outra tanga qualquer, mas leio muito o jornal da região, a revista Certa do continente e os boletins da farmácia, enquanto espero que me gritem pela gaita da senha.
Atão e o teu magala, agora escreve-te donde, de Timor ou do Afeganistãni?
...
Dusssss, o que uma gaja tem de sofrer para pagar as props da faculdade. Mas o que é que eu estou aqui a fazer, metida no meio destas duas mulheres-a-dias?
Será que aquela parvalhona onde eu trabalho, a Judite, a Paula, a Sónia ou lá como é que aquela estúpida se chama, acha que sou criada dela?
Cum caraças, como se já não me bastasse aturar os chavalos dos filhos, ver se não bebem, se não fumam, se não metem lá garinas em casa, se trocam de calças, ou se não me deitam os olhos p'ró decote.
E eu estudo para os exames quando, pode-se saber?
Antes ou depois de encomendar as pizzas p'rá janta, antes ou depois do imbecil do tipo da engomadoria, me entregar a roupa da madama, antes ou depois de levar o porcalhão do cão à rua, antes ou depois de fazer as encomendas do super pela net, antes ou depois do namoradinho da Judite, da Paula ou da Sónia, ou lá como é que aquela monga se chama, me atirar bocas porcas e olhares lambidos?
Bom, esta tipa de preto só pode ser figurante de alguma novela. Que cena marada man, esta gaja não existe de certeza.
E a outra das florinhas? Amiga, é que não enganas ninguém com esse perfumezinho roscofe, oh chavala.

terça-feira, 12 de maio de 2009

e fui mesmo

foto minha, parque eduardo vii

De todos os livros que comprei ontem, quatro encheram-me as medidas.

"O Meu Amigo Eça"- António dos Reis Ribeiro,
edição 1946
/ 5€

...
Um pequeno livro, comprado num pavilhão alfarrabista, que conta passagens maravilhosas e reveladoras da vida de Eça, como esta, numa carta que Eça escreve, já doente, a Oliveira Martins:
"A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um dêsses sujeitos, que, no tempo de Molière, freqüentavam a sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom - tão bom, que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me ser um mendigo da ignorância".

"Correspondência de Mário de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa (1912-1914)" - Relógio D'Água / 5€.
...
Estas cartas, são qualquer coisa de fantástico. Deixo-vos duas passagens.
"Paris, 25 de Março 1913
Meu querido Fernando Pessoa,
Recebi hoje a sua carta que muito e muito agradeço. Eu não sei mesmo como agradecer-lhe todas as suas gentilezas. Percorrendo a sua carta eis o que tenho a dizer-lhe sobre cada um dos seus parágrafos:
- É muito verdadeiro e lúcido o que você diz acerca do cubismo. Plenamente de acordo. Desse Amadeu Cardoso tenho ouvido falar muito elogiosamente e vi uns quadros dele, sem importância e disparatados, no Salão de Outono. Tratava-se duma turbamulta de bonecos - era um inferno, um purgatório ou qualquer coisa assim. Sei que é um tipo blagueur, snob, vaidoso, intolerável, etc, etc.
Parece que não se pode ser cubista sem se ser impertinente e
blagueur".
E diz ainda Mário de Sá-Carneiro, sobre a Ode de Álvaro de Campos:
"Meu querido Fernando Pessoa,
Não sei em verdade como dizer-lhe todo o meu entusiasmo pela ode do Álvaro de Campos que ontem recebi. É uma coisa enorme, genial, das maiores entre a sua obra - deixe-me dizer-lhe imodesta mas muito sinceramente: do alto do meu orgulho, esses versos, são daqueles que me indicam bem a distância que, em todo o caso, há entre mim e você.
(...) Não tenho dúvida em assegurá-lo meu Amigo, você acaba de escrever a obra-prima do Futurismo. (...) Depois de escrita a sua ode, meu querido Fernando Pessoa, eu creio que nada mais de novo se pode escrever para cantar a nossa época - serão tudo (...) em suma: variações sobre o mesmo tema".

"Entrevistas com António Lobo Antunes (1979-2007)" - Almedina / 20€
...
Entrevista conduzida por Batista-Bastos, em 1985:
"ALA: Na última vez que estive fora, na Finlândia, dei por mim a ter enormes saudades de Portugal. O primeiro ameaço desta 'doença' foi na RDA. E eu, cuja família vem do Brasil, descobri-me, de repente, tão lisboeta, que me custa, agora, estar muito tempo fora de Lisboa."
...
Entrevista conduzida por Francisco José Viegas, em 1997:
"ALA: (...) Nunca tive muitos amigos, de resto. E amigos íntimos, quem tenho eu? O Ernesto Melo Antunes, o Zé Cardoso Pires, o Daniel Sampaio, não tenho mais... Há, é claro, pessoas que eu estimo, de quem eu sou amigo, mas não com esse lado de intimidade.
...
Entrevista conduzida por Maria Augusta Silva, em 2003:
"ALA: Não sou grande fã do Camilo. (...). E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. (...) Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente.
Tem esses desplantes, coisa que seriam um erro num principiante. Por exemplo: "Eu possuo preciosamente um amigo", uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto".
...
Entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, em 2006:
"ALA: Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém nunca me vê nos sítios".

"Os Alfacinhas" - Alfredo de Mesquita,
edição 1910 /
7€

...
"Há janelas em Lisboa que são jardins, outras que são quintais, com árvores de fruto e seu pedaço de horta. A nespereira, por exemplo, dá-se excelentemente nas janelas de sacada, bem como a couve galega, criada em caixotes com adubo de gato. O vaso de manjerico, tão cheiroso, e tão igual no viço da folha miudinha, é ornamento modesto das de peitoril. À hora da rega, quem tem a sorte de passar por baixo, salta do passeio para o meio da rua mais fresco que uma alface em manhã de orvalho. As ceroulas, as fraldas, até os lençóis que se lavam em casa e se estendem a enxugar à janela, perfazem-lhe a paisagem peculiar."

Boas leituras; eu hoje não durmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

sopa de letras ou açorda de papel?

Com esta chuva magnífica, será que eu hoje vou conseguir passar uma tarde feliz na Feira do Livro?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

contratempo


Se houve coisa, que até a uma dada altura eu sempre tive, foi tempo. Tempo para isto, tempo para aquilo, tempo para aqueloutro. Tempo para tudo e tempo para nada. No fundo, tempo.
E planeava porque tinha tempo, esperava porque tinha tempo, adiava porque tinha tempo e até desisti porque tive tempo. Por vezes, algo falhava com o passar do tempo, corria menos bem ou até acabava por não acontecer. Mas não tinha importância nenhuma, pois o que eu mais tinha era tempo.
E com tempo tudo se conseguia, tudo se resolvia, tudo se esquecia, tudo se curava.
Tudo ao sabor do tempo. Até mesmo o tempo.
Ah, isso passará com o tempo!
Mas dei demasiado tempo ao tempo e o tempo, também teve o seu tempo. E o tempo passou.
Hoje, já não tenho tempo de perder tempo, nem tão pouco tenho tempo, para deixar passar tempo.
Faço por ter tempo, por ganhar tempo e não ter tempo perdido. Não dou tempo ao tempo.
Eu e o tempo, já tivemos mais tempo. Mas ainda estamos muito a tempo.
É tudo uma questão de tempo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

missão: personagens I


Eu gosto de passear pelos corredores do supermercado, naquelas horas onde praticamente só existem eu, o carrinho, meia dúzia de clientes e os empregados.
Ando por ali nas calmas, vejo cada prateleira com atenção, leio os rótulos de fio a pavio, descubro produtos que nem sabia que existiam e muito menos que me faziam falta e compro-os, lembro-me de verificar prazos de validade, as compras ficam simetricamente arrumadas, tipo puzzle, encho sem culpas e vergonhas o carrinho de M-Joy de Caramelo, sem ser preciso disfarçá-los entre as palettes do leite e ninguém me acusa e diz, apanhada!
Fico meia hora no expositor do Douro, sem que alguém pense que me meto nos copos, não preciso de pedir licença, nem desculpas, ou correr atrás daquelas loucas esgrouviadas do fim-de-semana que andam sempre à pressa, sem nunca saberem onde deixam as compras e dizer-lhes ameaçadora,
olhe esse carrinho é meu!
E ontem foi uma dessas tardes.
Lá andava eu a desfilar pelo pavimento deslizante e enquanto esperava que me cortassem o pão de cereais em fatias, mas bem fininhas, se faz favor, veio-me a ideia à cabeça: aquele era o sítio ideal para eu escolher uma vítima e transformá-la em personagem, nas minhas incursões de pretensão literária!
Ah e ali estava ela, no balcão da peixaria a dois passos de mim.
Cabelo farto, madeixado de ruivo e apanhado no alto da cabeça, com uma enorme mola roxa. Daquelas personagens ricas e lindas de morrer, mesmo ao meu gosto.
A expressão dos olhos atentos e o franzir do sobrolho, enquanto observava atenta a peixeira a amanhar-lhe o pargo mulato, revelavam alguém que sabia da coisa, e não me deixes escamas debaixo da barriga do peixe, que da outra vez o mê Augusto até se engasgou, grita ela para a romena espantada, cuspindo perdigotos de uma boca cor-de-rosa, daquelas mesmo pink-pink.
Eu deliciada com a cena e muito concentrada, a ver se nada me escapava dos seus atributos físicos; mas porque raio não trouxe o meu bloco de notas na carteira?
Ora descansava um pé sobre o outro, ora punha a mão na anca, ora via se tinha alguma chamada no telemóvel, ora riscava a lista e dizia em voz alta, deixa cá ver... deixa cá ver.
Parecia meio hippy, meio abandalhada ou melhor, a vestimenta era uma tentativa de qualquer coisa zen, que nem ela sabia bem o quê. Arrastou a saia indiana colorida até à fruta, acompanhada por um ritmo achinelado de toc-toc, toc-toc e num grande à vontade apalpou laranjas, cheirou morangos, dividiu cachos de bananas, franziu a cara aos melões e ... já? Não devem saber a nada. Melões nesta altura, isso é que era doce! Uma bela porcaria.
E o empregado, coitado, não sei dizer-lhe minha senhora, eu sou do corredor dos alguidares, só estou aqui a substituir um colega que está com febre.
Febre? grita a SÓraia, chamando a atenção de mais três gatos pingados, que andavam de volta da promoção do abacaxi.
SÓraia sim, nesta altura já a minha personagem foi baptizada por mim, com um nome sonante daqueles que vos vou deixando por aqui. E diz-se SÓraia, com acento no 'O'!
Oh filho, tu não me digas que é aquela doença dos porcos, lá da República Dominicana? Ele não sabia, mas achava que não, o colega vivia no Ramalhal e só tinha ainda viajado até Espanha.
Menos mal e lá foi ela, direita aos congelados. E eu também, para não perder pitada. Afinal, eu encontrava-me em missão.
Sem hesitar, abriu uma série de portas da câmara frigorífica e sacou tudo quanto era pizza: a pizza de atum para o Miguelinho; a de bacon para o Jonas; as Picolinas(?) para a Nhocas; a pizza de ananás com cogumelos para o namorado da Nhocas; os crocantes de galinha para o jantar; as patinhas de marisco para a festa da prima e o bacalhau à braz da marca %$&/#"?&, que era uma verdadeira maravilha!
Avançou direita para a caixa vazia, onde a empregada adormecida despertou em sobressalto, tal foi o estrondo que o carrinho da SÓraia fez ao embater no tapete rolante.
E atirando com tudo para cima da caixa, lá ia dizendo em voz alta e muito sorridente, olhando para a bela adormecida esgazeada de sono, ai filha deixa-me lá ir, deixa-me lá ir que daqui até Linda-a-Pastora, é um trânsito do caneco e ainda se me descongelam as caixas.

Um espectáculo, a minha SÓraia!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

da pesada


Há uns meses, o meu vizinho adolescente igual a tantos outros, iniciou-se nas aulas de música.
Viola. Clássica. Muito louvável.
Vem praticando no seu quarto, dia após dia. Bastante empenhado, diga-se.
Depois, ofereceram-lhe uma guitarra eléctrica. Muito louvável também.
E logo a seguir um amplificador. Aliás, um potente de um amplificador.
Mas neste feriado, 1 de Maio, não foi Santana que ele descobriu. Com enorme alegria e pujança, o mancebo despertou para o heavy metal.

Quanto a mim sinto, jamais serei a mesma.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

vírus* num blog sério e familiar #4

olivier martinez

Bom fim-de-semana!
(agradeço que não me dêem cabo do botão do play)

* oh rapaz, 'tá 'sogado que me pões tonta

quarta-feira, 29 de abril de 2009

,e (com vírgula antes)


E depois eu andava sempre descalça, sem que nada me magoasse os pés, e vestia roupa larga e leve para poder voar, e pousava nos ramos dos ciprestes, e dormia toda a manhã sem ninguém para me acordar, e almoçava pipocas salgadas, batidos de amoras negras e pizzas de amores-perfeitos, e conseguia ler enquanto dormia, e construía ninhos de alfazema, e soprava bolas de nevoeiro, e escondia-me no buraco sem ozono, e as cerejas é que eram como as conversas, e as melancias nasciam sem pevides, e os bebés andavam sempre ao meu colo, e flutuava sobre nenúfares com motor, e encolhia de tamanho para empurrar as bolas com os escaravelhos, e apanhava bolachas oreo na areia da praia, e fazia corridas com as lagartixas, e os cornetos eram todos de chocolate, e os caramelos não se pegavam aos dentes, e os arranhões não ardiam, e escolhia o final dos filmes, e proibia os cães e os gatos vadios, e abandonava os humanos nas férias, e o ALA contava-me crónicas para eu adormecer, e ninguém escrevia lol, e eu tinha uma colecção de penas raras, e pensava livros com os olhos, e nabos, agriões e courgetes nunca tinham existido, e comprava uma casa de algodão cor-de-rosa, e o guardador de rebanhos era meu vizinho, e o preconceito era mentira, e os animais também mandavam, e o leite de coco não engordava, e afinal valia rir no jogo das estátuas, e escrever era muito fácil, e nadava ao lado dos peixes azuis, e plantava chupas de morango no meu jardim, e tinha caracóis de estimação, e as abelhas não picavam, e as baratas não voavam, e as cobras não eram bífidas, e os avós nunca morriam, e pedia às nuvens que chovessem quente e aos homens que existissem de verdade e aos poetas que mentissem com sinceridade.
E não era?

terça-feira, 28 de abril de 2009

biografias # 3

foto etsy blog - clicar para aumentar

No centro da foto de 'família', sentada no meio das suas meninas, encontra-se a portuguesa Maria Leocádia da Silva Alvarenga, proprietária da mais refinada casa de alterne do estado do Texas.
Viúva de um português rico, aventureiro e mulherengo, que numa das suas viagens ao Canadá, visitando as famosas cataratas do Niagára, se arriscou demais no passeio para impressionar a sua então amante e caiu, partindo para sempre deste mundo, junto com a queda da água para nunca mais ser encontrado.
Maria Leocádia, que o aguardava na sua fazenda em El Paso, recebeu a notícia do seu desaparecimento e pior ainda, que toda a suposta fortuna fora desbastada pelas inúmeras amantes do marido.
Vendeu tudo o que tinha, pagou dívidas, calotes e hipotecas do estupor com quem fora casada e abriu no centro da cidade, o Salão Social e Recreativo: Leocadia Falls.

E da esquerda para a direita temos ...
1ª- Filha adoptiva de fazendeiros do Mississipi, mortos por escravos revoltos, escapou por um triz à chacina, por andar nesse momento a cantarolar perdida no meio dos campos de algodão.
Arranjou trabalho na cidade, cantando em velórios, casamentos e baptizados. As músicas que saíam de dentro dela chegaram aos ouvidos de Leocádia, que logo tratou de lhe oferecer salário dobrado e protecção.
Os clientes mais sensíveis e refinados, perdiam-se de amores por aquela voz rouca e sensual, que aquecia os seus corações, entoando melodias aprendidas entre os negros das plantações, com letras cheias de conotações amorosas e sexuais.
Era ver os homens de Pulquéria Blueswoman, a suplicarem-lhe uma breve nota musical, uma simples frase mal cantada ou mesmo um som vago e mal definido e já os deixava em êxtase total. Nos seus aposentos vivia-se um ambiente de pré Rhytm and Blues.

'Açoites Cantados no Tronco' era o serviço que prestava, com mais sucesso entre os seus clientes.

2ª- Descendente de índios, mendigava esfarrapada pela cidade e em troca de comida, previa o futuro
aos habitantes fazendo leituras em pêlo de búfalo.
Leocádia apanhou-a uma noite a vasculhar no lixo do salão, no beco das traseiras. O seu olho para o negócio, viu naquele rosto exótico um excelente investimento. Recolheu-a, amparou-a ofereceu-lhe protecção e decidiu chamar-lhe Hedviges Arizona.
A índia encantava os clientes, entoando cânticos em dialecto indígena, bamboleando o corpo com danças tribais e contando histórias sobre as antigas crenças do seu povo.
Envolvidos naquele ambiente pagão, mas ao mesmo tempo ignorantes e receosos do poder de toda aquela mística, que não sabiam ser muito bem encenada por Hedviges Arizona, era vê-los agora, pobres colonizadores, prestarem-lhe vassalagem e esquecendo guerras territoriais reduziam-se a meros objectos sexuais.
O fetiche mais requisitado pelos clientes era a 'Escalada ao Totem'.

3ª- Fora criada no coração de uma seita religiosa semi-secreta, no Utah. Fugiu, no mesmo dia em que soube ter sido escolhida para ser a 16ª mulher, do octogenário líder religioso e chefe da sua pequena comunidade.
Entrou no salão de Leocádia, altiva e dominadora, disposta a que jamais algum homem lhe desse ordens.
As exigências que fazia a todos aqueles que requisitassem os seus serviços, eram extremamente rigorosas. Os clientes teriam de jejuar durante quatro dias, construir-lhe um pequeno altar, chamá-la de Zita a Nova Luz e prostrarem-se sempre de joelhos diante de si.

Só assim poderiam subir aos seus aposentos, onde todos os serviços prestados eram realizados num ambiente negro e pesado, carregado de cheiro a incenso e iluminado aqui e ali por uma vela de luz ténue.
O fetiche eleito era 'Ao Encontro do Apocalipse'.

4ª- Descendente directa dos primeiros colonos ingleses do
Massachusetts, exibia um sotaque britânico perfeito. O seu nível cultural era tão alto, que não conseguiu arranjar trabalho em nenhum lado e só Leocádia lhe estendera a mão, alcançando de imediato que ela seria a perdição total, do pequeno grupo de clientes masoquistas do salão.
Aquele restrito número de clientes cowboys e perversos, encontrava-se desejoso de sofrer nas suas mãos todas as injúrias, humilhações e punições, ao som de ordens pronunciadas no inglês mais puro e arcaico, soletrado pela voz de Gertrudes New England.
Gritos irados de stupid cowboys, you smell like a fucking cow, God save our king and not your president e british boys do it better, vinham do seu quarto, satisfazendo as delícias e os desejos dos clientes vaqueiros sado-maso.
A depravação eleita por aqueles genuínos cowboys era, 'Please, send me an Apple Pie'

5ª- Trazia uma única e minúscula pepita de ouro nos bolsos rotos do vestido, quando bateu à porta do salão de Leocádia, pedindo guarida. Viúva de um antigo garimpeiro de Sacramento, foi abandonada à sua sorte sem nada de seu, quando lhe assassinaram o marido numa rixa de ganância provocada pelo mineral brilhante.
Saturada de rios e correntes de água, peneiras e gravilha, escavações e dinamites, que lhe tiraram anos de vida e a obrigaram a uma existência de quase escravatura, Bonifácia Golden Stone era a perita do salão de Leocádia, em extorquir aos clientes pequenas fortunas.
Elaborava jogos eróticos sismológicos, brincadeiras sexuais tectónicas e galhofas de aluvião, que apimentava com um vocabulário técnico da mais pura geologia, deixando-os literalmente petrificados e duros como uma rocha.
'A Grande Corrida ao Minério' era o serviço mais pedido.

Links: biografia #1, biografia #2