segunda-feira, 20 de abril de 2009

sabor a sossego

foto blomsterverkstad

Era a nova dona daquela velha casa e da antiga drogaria do rés-do chão, que toda a vida nos vendera os mais diversos tipos de produtos. Mas só a conheci, quando abriu a boutique das flores.
A nostalgia da velha loja do senhor João, depressa foi substituída pela curiosidade de admirarmos a inusitada montra da semana.
A harmonia era perfeita, nada morria ou murchava, tudo se renovava naquela loja. Quem passava por lá todos os dias, depressa se apercebeu que não existia qualquer tipo de rivalidade entre as várias espécies ou desdém entre as flores.
Todas as semanas eu lá entrava e não resistia em trazer um ramo novo.
Não havia disputa entre os gladíolos e as estrelícias, nem picardias de imagem com as margaridas e as calêndulas, ou altivez e olhares de cima abaixo das rosas, para as flores rasteiras.
Quando lhe perguntei o que tinha feito com o castiço quintal das traseiras, respondeu-me, para o mês que vem já vais saber.
E foi o que aconteceu, em Fevereiro começou a vender na loja pequenos vasos de produtos hortícolas e tudo quanto era hortaliça, convivia ali de forma pacífica.
Nunca as alfaces, os feijões, os tomates-cereja ou as favas-anãs, pretenderam distinguir-se das demais parceiras de cultivo. E até as abóboras, sempre com aquela mania de nobre superioridade, só porque se transformam em carruagens para princesas, jamais tiveram qualquer tipo de peneiras.
Diz quem ali mora paredes meias, que ouve de noite muitas vozes sussurradas, timbres distintos e até risadas dissimuladas. E minha senhora, o barulho vem todo do quintal das traseiras!
E eu acredito, claro.
Não sei que tipo de fenómeno se passa na loja dela, o que é facto é que a venda dos legumes foi também um sucesso. E até eu, que em minha casa nem a salsa mais vulgar se aguenta, me vi a braços com vasos de alecrim, coentros, hortelã e uma ervilheira, imagine-se!
Já somos amigas há muito tempo e noutro dia avisou-me, temos surpresa para meados de Abril.
E na segunda-feira, apareceram por lá os chás de violeta contra a enxaqueca, o bolo de limão com sementes de papoila, para dar brilho à pele do rosto, as beringelas-bebé gratinadas, salpicadas de raspa de toranja para limpar o intestino, tisana de jacinto com duas gotas de uva branca, para sorrirmos mais vezes, tarte de rosa com calda de espinhos, anti-arrelias, queques de orquídea branca, servidos em folha de mandioca para despertar a paixão e pãezinhos de hibisco com doce de calêndula, para realizar pequenos desejos.
Fiquei embasbacada, oh meu Deus, mas o que é que andaste a fazer todo o fim-de-semana?
Fiz mais um bocado da minha tranquilidade, respondeu e voltando-me as costas, ainda a vi de lado a piscar o olho a uma camélia branca.

Juro que vi!


sexta-feira, 17 de abril de 2009

vírus* num blog sério e familiar #3

hugh jackman

Após a polémica têxtil na loja do cidadão de Faro, foi aprovado por unanimidade e com efeitos imediatos o novo funcionário-tipo, a ser admitido em todas as repartições públicas deste país.
Esclarece-se também, que não foi encontrado nos manuais de atendimento, qualquer item contra:
cabelo comprido;
olhar mortífero;
tom de pele com muita saúde;
barba de quatro dias.


Bom fim-de-semana!
(
agradeço que não arranhem ninguém, enquanto permanecerem neste blog)


* praze the Lord! (que é como quem diz: benzóDeus!)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

incumbências

foto dezeen

Costumava pontapear, literalmente, com a ponta dos pés as sombras que se atravessavam no seu passeio e que podiam manchar-lhe o polido da calçada.
Incomodavam-na como poucas coisas na vida, as silhuetas que se interpunham entre ela e a luz, que se recusavam a avançar e que subsistiam à custa do que alguém, piedosamente deixava sobrar para elas.
Mas não nasceu assim, resistente. Fez-se desta forma por opção.
Tudo o queria era ser diferente das outras, daquelas que em tempos sonharam ... e muito.
Mas a razão porque sonhavam, foi a mesma que as impediu de o fazer; o precisar, numa dada altura da vida permanecerem mais presas ao chão.

E com os anos, a desilusão de não viverem os seus sonhos fez com que parassem de os sonhar.
Faltou-lhes a inconsciência dos loucos, o atrevimento dos ousados, a agonia dos génios e a bravura dos intrépidos.
A vida, que as continuou a enredar com baraços de açoites e insistia em vigiá-las de longe, foram-na elas logrando com atitudes terrenas de delírio consciente, tresvarios, exaltações e vibrares de coração.
E disfarçavam para os outros e para si próprias, momentos de felicidade.
Tudo menos sonhar.

Poucas vezes souberam, que há instantes onde da troca de palavras, do cruzar de olhares, da descoberta de cumplicidades, de apertos de mão com um estranho, de encontros breves de almas gémeas e de se fazer o que se diz, se lucram os dias da vida toda!
E que esses dias podem marcar anos. E esses minutos durar horas. E serem únicos. E os melhores de todos.
Momentos que se guardam em segredo e se colocam numa pausa sem limites e sem medidas. E que se pode começar outra vez.
Muitas vezes. Tantas. As que se quiser.

Assustadora sina aquela, de terem ido contra o que mais desejaram, contra aquilo que lhes gritou para irem.
Para irem ...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

amor é ...


Dora nascera gorda, crescera gorda, adolescera gorda e ficara para sempre gorda. Rapariga optimista, alegre e bem disposta, já se habituara com essa realidade e convivia bem com o seu físico.
Numa das suas habituais incursões a uma conhecida cadeia de fast food, decorada a encarnado sangue, que como já é sabido trata-se da cor que excita o apetite, conheceu entre os frascos de molho brilhante, o gás da cola e a gordura do hamburguer, aquele que viria a ser o amor da sua vida.
Chamava-se Rufino, trabalhava como caixa do restaurante desde que este abrira e era o único funcionário com contrato efectivo, pois nem num bife untado, aquela alminha jamais havia tocado e o gerente levara aquilo como uma verdadeira atitude com vista ao lucro.
O que não sabiam é que Rufino era vegan e por isso, incapaz de tocar em qualquer produto de origem animal. Ficava-se pelas insípidas saladinhas, bebia um copo de água e voltava para a registadora. Impoluto, aquele espírito.
Nunca houve explicação para a paixão súbita e visceral que nasceu imediatamente ali, entre a troca do nervoso talão da despesa e a consistente nota de vinte euros.
Facto é, que aqueles dois jovens foram atraídos como ímanes de tal maneira, que nem Newton saberia explicar. E nunca mais se largaram.
Namoraram intensamente durante um ano, recheado de trocas e juras, versos, sms's e emails de amor, passeios no shopping e refeições no fast food encarnado.
O problema da comida nunca chegou a sê-lo, verdade seja dita, visto que Dora comia sempre tudo e de tudo e Rufino, nada de nada.
Quando decidiram casar, Rufino fez-lhe a surpresa de convidar o seu amigo sueco, Jan-Olov um conhecido criador de moda, para que desenhasse o enorme e difícil vestido de noiva, para a sua superabundante-amada Dora.
Ela ficou delirante, pois sentia-se perfeitamente à vontade com Jan-Olov, o que lhe permitia fazer todo o tipo de pedidos exuberantes, muito próprios do seu carácter efusivo.
Mas... eis que tudo se desmoronou nas vésperas da boda. Depois das análises e exames da praxe, a que todos os nubentes responsáveis devem ser sujeitos, Dora ficou a saber que sofria de uma doença rara e fatal, não para si, mas sim mas para Rufino. Tinha o enorme e científico nome de: mantimentus.contra.vegan.bacchteris.phatalis.mortis. Resumindo, se a Dora lhe tocasse com um dedo que fosse, o rapaz ia desta para melhor.
Ela chorava desesperada por perder o amor da sua vida, mas não havia mais nada a fazer senão terminar aquela relação; o médico fora irredutível quanto à inevitabilidade das consequências e Rufino apercebendo-se do sentimento de desonra da sua amada, aguentou-se firme e hirto e decidiu resolver a situação à sua maneira.
Depois de colocado um anúncio no jornal, onde vendiam o vestido de noiva por estrear, Dora partiu para parte incerta.
Rufino reuniu toda a família e os amigos mais chegados no seu apartamento, recebendo-os demasiado excitado para o seu temperamento e em trajes desapropriados: havaianas coloridas, short de licra brilhante e camisola de alças justinha, a vincar-lhe a magreza do tórax pobremente desenvolvido do veganismo.

Ria nervosamente, enquanto a melena loura, trabalhada várias horas para dar credibilidade à sua explicação, lhe caía brincalhona para os olhos.
Acompanhado de alguns trejeitos exagerados, mas convincentemente ensaiados, despejou a notícia de um golpe só, enquanto limava uma unha falhada que insistia em deixar puxões na licra inusitada da sua vestimenta.
"Durante as várias provas do vestido de noiva da Dora, eu e o Jan-Olov descobrimos que nos amávamos loucamente e já não há mais casamento para ninguém".

E assim termina mais um documentário do Canal Relíquias Históricas, apresentado-vos aquele que se julga ter sido, o primeiro cavalheiro conhecido do século XXI.

Adenda: Versão para chorar, aqui.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

corín tellado

foto corín tellado
A Maria dos Anjos foi nossa empregada durante muitos anos. Chegou até nós com dezasseis ou dezassete anos, vinda da 'terra' para Lisboa. Da terra dela, que eu nunca soube qual era.
Dizia muitas vezes 'valhameDeusmeninatejaquietinhasenãodigoàmãezinha'; assim, tudo pegado e todos ríamos com ela.
Era pouco mais velha que a minha irmã, que a ensinou a ler e a aperfeiçoar a letra tremida e irregular. Adorou!
Agora que já consegues ler melhor, Maria dos Anjos, vamos à papelaria comprar uma revista e escolhes o que quiseres para ti. A sério, menina?
Claro que é a sério, Maria dos Anjos.
Eu trouxe a minha revista do Mandrake, a minha irmã a Burda, o meu pai o maço de tabaco Porto e o jornal e a Maria dos Anjos, apaixonou-se pela prateleira onde estavam dispostos e impecavelmente alinhados, os pequenos livros de romances de amor a cordel, da Corín Tellado.
Depois desse dia, Maria dos Anjos gastava o que lhe sobrava do ordenado, do qual enviava uma parte para a mãe que vivia ainda na 'terra', em Corín Tellado Já sabíamos que tinha terminado de ler o último dos seus livrinhos, quando vagueava pela casa de olhar perdido, sorriso disfarçado e se esquecia de nos pregar raspanetes e fazer queixas à nossa mãezinha.
Escrevia cartas de amor ao noivo, de fazer inveja a qualquer heroína dos seus romances melados, dizia-nos a minha irmã depois de fazer a revisão, a pedido da Maria dos Anjos.
Ah conta lá, conta lá o que ela escreve ao Alfredo. Nem pensem!
E nunca nos contou.
Numa das nossas visitas a Badajoz, o meu pai viu que estava no cinema um filme da Corín Tellado, "Tengo que Abandonarte"
. Comprou dois bilhetes, um para a Maria dos Anjos e outro para a minha mãe, que lá fez o sacrifício de lhe servir como tradutora. A minha irmã bem que pediu para ir também, mas o filme era para maiores de dezoito.
Quando duas horas depoise, a Maria dos Anjos entrou nas Galerias Preciados, vinha lavada em lágrimas, de braço dado com a minha mãe, que a muito custo punha um semblante bastante sério, ouvindo-a a repetir sem parar, 'aisenhoravalhameDeusquecoisamaisboniaoamordaquelesdois'.
Uns anos mais tarde, partiu de novo para a 'terra' para se casar com o Alfredo. Oferecemos-lhe uma caixa cheia de Corín Tellado e ainda hoje tenho dúvidas, se em Santa Apolónia ela chorou mais com pena de nos deixar ou da emoção, quando viu o presente das patroinhas.

A escritora espanhola Corín Tellado morreu no sábado. Escreveu mais de quatro mil livros e vendeu mais de quatrocentos milhões de exemplares. Em Espanha, só Cervantes terá sido mais lido do que ela.
E eu lembrei-me de imediato da nossa querida Maria dos Anjos. Que será feito dela?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

[16] ´tou no ir...de fim de semana

foto liberty post blog
É só meter na mala as havaianas, o biquíni, o protector solar, as calças largas e a túnica comprida, o chapéu, os óculos de sol, a máquina fotográfica, os três livros, o iPod, o bloco e a lapiseira, um casaco para o frio do barlavento, o marido e a filha e uma grande vontade de me praiar, esplanar, planar e porque não vadiar ... seja!
Lá pela hora do almoço, parto para aqui.

Feliz Páscoa para todos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

leite derramado

foto Babá, livraria da travessa-leblon

Mal li a notícia, de que este senhor ia lançar o seu último livro, "Leite Derramado", em todo o Brasil no dia 28 de Março, fiquei em pulgas. Eu já tinha adorado ler "Budapeste", ouvir aqui.
E em Portugal, quando será editado? Ah, talvez no fim do ano. Credo, mas ainda faltam nove meses, isso é quase uma gravidez!
É que o Chico, não tem só uma voz maravilhosa, não tem só um timbre de fazer estremecer as pedras do calçadão, não escreve só letras de sonho, não compõe só músicas eternas, não é só dono de uns olhos sem definição de azul. Não.
O Chico escreve, canta e compõe, com uma delicadeza e com uma sensibilidade sobre nós mulheres, que não é para qualquer um.
E o mulherio apaixona-se, o que é bastante compreensível.
Eis que, no meio da minha angústia sem tamanho, a minha querida sobrinha Babá, me comunica que vai de férias para o Rio, com regresso a Portugal dois dias depois do lançamento do livro nas livrarias.

sobre o livro, aqui

E cá está ele vizinhança, ainda por ler mas já folheado e cheirado e manuseado e assinado. E meuzinho e tudo.
Pronto vá lá, eu sou simpática e até vos dou a ouvir um bocadinho do meu Chico, lendo as preliminares do "Leite Derramado", aqui.

E você Nina e você Luz, já têm? E tu, já o compraste Pitanga?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

escrever com morfeu

foto apartment therapy main

Começou a ser difícil escrever enquanto sonhava.
A princípio, uma palavra, uma intenção ou pensamento e até uma frase curta, eu conseguia guardar num canto da memória, até despertar pela manhã.
Trazia-a depois do esconderijo que a protegera durante a noite, passava-a a limpo para o bloco de notas breves e ali ficaria impressa e segura, até que algo me fizesse pensar nela para a reescrever, mas desta vez já acordada.
Acontece, que há noites de ventura em que a minha cabeça adormecida escreve sem parar; cria personagens, baptiza-as com nomes inusitados, cria-lhes biografias, dá-lhes vida e imagina-lhes enredos.
Como se não bastasse, assenta datas, toma notas, sublinha, desenha setas e asteriscos e ordena a paginação em folhas imaginárias, que nada têm de palpável.
É no entanto um facto incontestável, que eu folheio estas páginas de manhã em pensamento, disso não tenho dúvida. Mas é também verdade que quando acordo, perante a falta de um registo físico, perco-me no enredo sonhado, esqueço-me dos nomes escolhidos, não encontro os apontamentos e as notas, deixados durante o sono no canto da folha e com muita pena minha a história perde-se.
Então, numa destas noites decidi durante o meu sonho, criar ao lado da minha cama uma mesa branca bem iluminada, onde apoiei o meu pc portátil imune a vírus, passwords e sonambulismos.
Adormecida, deslizo agora da altura do meu colchão, apoio a ponta dos pés no quente do tapete e despejo as histórias sonhadas, que me aparecem escritas na cabeça que segue desta vez mais descansada.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

vírus* num blog sério e familiar #2

patrick dempsey

Bom fim-de-semana!
(agradeço que deixem os Ray Ban intactos)

*ah bom! 'Tava a ver que não havia mais.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

arriscar

foto arts&ghosts

Duas irmãs, gémeas siamesas, unidas apenas por um fio de cabelo, caminhavam sempre juntas, tomando a mesma direcção e sentido, rumo definido sem sobressaltos, apesar da primeira se chamar Frente e a segunda, Atrás.
Uma seguindo a outra, mantinham-se alinhadas no percurso imposto sem grandes alternativas de fuga, desvios ou mudança de orientação. Nunca houve dúvidas, hesitações ou paragens. O caminho era aquele e assim se cumpriria.
Quando a cabeleireira distraída, lhes cortou a ténue ligação capilar, perderam-se uma da outra. E ambas de toda a gente. Nunca mais ninguém as viu.
Reza a lenda, que se fartaram de inverter o sentido, mudaram constantemente de direcção, contrariaram linhas perpendiculares e paralelas, encurvaram rectas, desistiram de alinhamentos, desviaram-se de vias com saídas fáceis e em várias ocasiões, apagaram as luzes ao fim dos túneis, mas chegaram onde queriam, de todas as vezes que se fizeram à vida.
Agradeceram sempre o corte de cabelo, que lhes inibira a ousadia, impedira a aventura e lhes castrara a surpresa da viagem. Se bem que por caminhos rectos, sem obstáculos ou imprevistos, chegariam sempre intactas, amparadas pela certeza, ao fim de qualquer trajecto.
Mas a verdade é que no risco do incerto, em algum sacrifício e na luta contra as adversidades, os objectivos alcançados souberam-lhes sempre muito melhor.
Souberam a si.

terça-feira, 31 de março de 2009

palitar

foto toothpicks cube

É um esmiuçar a fundo, um esgravatar com rigor na busca de pedaços moribundos, que quando se alcançam por fim, atinge-se uma sensação de vitória, de missão cumprida. Alívio.
Perfeitamente compreensível este estado de consolação, que se obtém com o prazer do palitar e não, nada tem de repulsivo, pois a procura exaustiva de defuntos fragmentos em cavidades íntimas, mais não é, que uma tentativa puramente cultural de aproximação a ancestrais rituais indígenas, isto é, o ensaio de tornar a dar vida ao que já se foi.
A fracção de comida putrefacta presa entre dois molares cariados, emite uma mensagem de angústia claustrofóbica, e é então que o proprietário da cavidade bocal, perante a agonia da prisão e o desejo de liberdade daqueles restos mortais de bife, desespera.
A sua coerência é rapidamente toldada e a ele qualquer frágil lima de unhas, encerra em si a capacidade de serrar o ferro das barras da cela. Entrega-se ao momento numa dedicação única e torna-se um expert no manejo do simplório palito de madeira, acreditando ser capaz de um eficaz e complexo tratamento de higienização, desvitalização e quiçá ortodontia, à laia de pé de cabra.

Ahhhhh, rumoreja satisfeito.
O protagonista deste espectáculo descai agora da cadeira, encosta-se em jeito de sesta domingueira e de palito ao canto da boca que dança mais calmo, para baixo e para cima, arrota fundo e finalmente realizado.

sexta-feira, 27 de março de 2009

jovens decisões


Seleccionou-as com rigor, favorecido pela primeira luz da manhã.
Optou pelas que nasceram com o botão mais perfeito e ainda aconchegado, entre finas fatias de jovens pétalas por desabrochar.
Preferiu as pálidas de tom, como que hesitantes na escolha da cor com que se pintariam para o resto da vida.
Cortou-lhes o caule, com a convicção de que os espinhos lhe golpeavam a ansiedade e elegeu aquelas, onde a transparência das lágrimas de orvalho lhe reflectiam sem nenhuma espécie de engano, a enorme importância do acto que estava prestes a arriscar.
Afinal, era aquela a primeira vez que se iria declarar.

quarta-feira, 25 de março de 2009

dois amores

foto terillo

Já lá vão oito anos de dança e a convivência com o ritmo, que lhe vibra os movimentos em todos os instantes onde exista melodia.
Sendo cada vez mais evidente esta afeição pela dança, seguimos por uma escola séria: cinco anos intensos, logo para começar, programa de acordo com a RAD, método, rigor, trabalho sério. E quanto mais sério mais ela gosta, definindo-se logo um amor para a vida.
Mas a menina revelou ambivalência nas paixões e mal as delicadas sapatilhas de pele lhe deslizam e se soltam do pé, este vai até ao fundo de um cano alto de cabedal, rude e másculo, onde brilha uma espora prateada que o remata no final.
O pompom perfeito, enrolado pacientemente numa rede fina, quase tecida por dotadas aranhas, é desfeito sem dó e da cabeça,
assustados com o repentino do gesto, soltam-se mil ganchos, antes sabiamente dissimulados entre as melenas.
De imediato, o cabelo comprido é negligentemente apanhado com o primeiro elástico que surgir à mão, num insípido rabo-de-cavalo e toda a cabeça se protege e esconde sob um salvador e clássico toque de veludo.
As linhas elegantes do jovem corpo, que no espaço de dois ou três anos serão chamadas de curvilíneas, não se perdem entre a passagem do maillot para as estreitas calças de montar, vulgo breeches.
Agora, o som dos cascos da égua Nur, substitui com nobreza rural, a anterior melodia cortesã das leves teclas do piano afagadas por Miss Caroline e a imensurável força do corpo, que era obrigatoriamente ocultada, no rigor de movimentos falsamente leves e subtis como plumas, é neste momento brutalmente evidente na pujança de uma cedência à perna, que se quer executada na perfeição que um Lusitano merece, sob o comando de uma voz austera inspiradora na confiança e no saber.
Já não se ouve Mozart, Chopin ou jazz, mas sim a dor do fado e o orgulhoso flamenco.
E assim se passam anos, onde comungam em harmonia splits, hops, amalgamations, kicks e tendus por entre trabalhos em encurvação, mudanças de mão, trotes médios, encostos à rédea de fora, cabeças ao muro, passos largos e galopes contra o vento.

segunda-feira, 23 de março de 2009

porcos, feios e maus


Na disciplina de História, aprendíamos as características das várias classes sociais: povo, burguesia, clero e nobreza. Hoje em dia muitas mais existem; a classe dos condutores, dos políticos, dos fãs de hipermercados, das toupeiras dos centros comerciais, dos consumidores de junk food, dos pais demissionários, a malta do futebol e venha o Diabo e escolha.
Poucas coisas me repugnam mais em Portugal, do que o mundo do futebol. Não há quase nada, ou quase ninguém que escape.
Para já é um 'desporto' para maricas, pieguinhas e meninos da mamã mimados e malcriados. Fiteiros de primeira, passam a vida no chão aos gritos, agarrados ao tornozelo, a escarrar para o ar, a berrar palavrões, a pregar rasteiras ao adversário e a crescer para cima do árbitro.
Dão socos nos árbitros nos mundiais, cospem na cara do adversários em frente às câmaras, insultam os adeptos com as mãos, atiram medalhas e taças para o chão, racham cabeças, provocam lesões graves intencionalmente, espetam murros aos seleccionadores se não os convocam e depois como castigo, ficam sem jogar dois ou três joguinhos, vão para a comunicação social mandar bocas e são os heróis dos seus adeptos mentecaptos.
Têm um óbvio problema com disciplina, formação básica e profissionalismo. São o exemplo perfeito para mostrarmos aos nossos filhos e daí eu ser apologista o mais possível, de que se leve cada vez mais as criancinhas ao futebol. Não existe ecossistema melhor, para a formação do Homem.
Burgessos ao mais alto nível, não há como eles para saber como misturar em harmonia a enorme fivela do cinto Dolce e Gabbana, com um cap Gucci, uns jeans Armani e um polo Ralph Lauren.
Os treinadores idem. Na maioria são uns incompetentes com o rei na barriga, incitadores a desavenças, antipáticos, com um nível de formação no mesmo patamar dos seus pupilos, quase nenhum tem um penteado que se aproveite e falam um dialecto estranho, quase incompreensível.
São sempre os primeiros a falar do árbitro, mesmo que o jogo ainda não tenha sido realizado.
Depois a subclasse de presidentes de clubes, dirigentes de federações, de ligas e ligas e ligas e mais ligas.
Cambada de corruptos, mentirosos e impostores, novos ricos, histéricos, palhaços de passado suspeito, com pretensões campónias de governarem uma mini-nação, só porque na escola básica nunca foram escolhidos para delegados de turma e não faziam parte da equipa de futebol, lá do campo de terra.

Passam a vida a ser investigados pela judiciária, fogem do país porque têm informadores no local e na hora certa, passeiam no estrangeiro à vontade, confiscam-lhes bens, vão a tribunal e escapam sempre, mais uma vez ganhando o papel de heróis exemplares perante a obcecada tropa de adeptos.
Os árbitros têm um ar de infelizes que até metem dó. Têm medo dos jogadores, medo dos treinadores, medo dos jantares pagos com os dirigentes dos clubes, ou com os seus mandantes, medo de apitar, medo dos cartões, medo de pisar a relva, medo das 'luvas', medo dos outros árbitros, medo dos adeptos, medo de voltar aos balneários, medo de ir para casa, medo de atenderem o telemóvel, medo de receberem uma sms. Medo, muito medo.
E os jornalistas que entrevistam os jogadores logo a seguir ao jogo? E o comportamento primata dos adeptos, quando após um jogo vêem uma câmara de televisão ou alguém de microfone em riste? E a violência das claques, digna de qualquer guerra de ódio mortal e cego? E os seus cânticos, de fazer inveja ao PNR? E as gordas dos jornais desportivos? E as mortes nos estádios? E quando o início de um telejornal nacional, é uma vulgar notícia sobre futebol?
E finalmente, a creme de la creme: os comentadores desportivos. Mas haverá programa mais desprezível, abjecto, qual varinas na praça, do que aqueles que falam horas a fim, sobre os jogos de futebol?
E gritam, e insultam-se, e zangam-se a sério, e vêem imagens que mais ninguém vê, e sonham, e deliram, e acreditam no que estão a vociferar e são pagos! E são ouvidos! E têm audiências!
E usam gravatas da cor do seu clube! Meus Deus, gravatas da cor do clube!

Oh eruditos colóquios de taberna, nas tardes de domingo, voltem que estão perdoados.

sexta-feira, 20 de março de 2009

vírus* num blog sério e familiar #1

michael vartan

Bom fim-de-semana!
(agradeço que limpem as dedadas do ecrã antes de se retirarem)


*atéquinfim

quinta-feira, 19 de março de 2009

biografias #2


Maria Apolónia nasceu do outro lado do mundo, em Melbourne. Filha de emigrantes portugueses na Austrália que para lá partiram atrás da vã fortuna, mas deixando em Lisboa o coração.
Quando o marido morreu, a mãe resolveu pegar na trouxa e nos filhos, regressando à pátria no primeiro barco.
Maria Apolónia tinha somente a instrução primária, mas como dominava a língua inglesa, arranjou facilmente emprego como mulher a dias na casa de um poeta, que vivera muitos anos na África do Sul e que engraçou com o sotaque dela.
Gostava muito do seu novo trabalho, o patrão pouco mais lhe exigia do que manter a casa limpa e a roupa devidamente tratada. Com as refeições não se preocupasse, pois ele comia quase sempre fora de casa. Só lhe impunha uma rigorosa e única condição; que não tocasse nunca nas centenas de papéis que tinha espalhados pela casa. Era uma espécie de biografia dele, e de um tal de Bernardo e não podia perder nem uma folha.
Credo Sr. Pessoa, Deus que me livre tocar nessa papelada toda cheia de letrinhas inclinadas! Nem eu saberia dar ordem a tanta folha e depois, ainda ficava para aqui com o coração num Desassossego!
Maria Apolónia tinha o patrão como um homem muito educado e calado, tímido até, mas quando recebia os amigos e se fechavam todos no escritório, aquilo eram discussões de meia-noite, vozes alteradas, discursos inflamados, declamações poéticas, enfim, um ror de conversas exaltadas. Como é que um homem tão pacato, se identificava com amigos tão barulhentos e contraditórios?
Muitas vezes diziam palavras e frases que ela não entendia, pois nunca as tinha ouvido na vida, como metafísica, filosofia, engrenagem, via láctea, infausta esfinge, embalsamar ou subjectividade objectiva. Mas noutras alturas, Maria Apolónia compreendia tudinho e até apontava na lista de compras de tão bonitas que eram as expressões que escutava; querer mais é perder isto, Tejo e tudo, todos os sonhos do mundo, verdes campos, os paquetes que entram de manhã na barra, coroai-me de rosas e de folhas breves, a natureza é partes sem um todo e o menino Jesus adormece nos meus braços.
Nunca vira os amigos do senhor Pessoa, quando ela pegava ao serviço eles já lá estavam trancados no escritório com o patrão. Mas sabia identificar cada um deles com todos os pormenores, como se lhes tivesse posto a vista em cima, com os dois que a terra haveria de lhe comer.
O senhor Álvaro era o mais exaltado e parecia-lhe que nunca se sentia bem em lado nenhum, tanta era a refilice. No entanto, achava-lhe alguma piada porque ele dizia muitas palavras em inglês que mexiam com as suas memórias. Passeava-se bastante pela capital, Lisboa Revisited, como ele gostava de repetir sem se cansar e fregueses como ele, também devia haver muito poucos, pois gastava sempre, sempre na mesma Tabacaria.
Era um pouco cínico e até houve aquela vez, que troçou das cartas de amor que o senhor Pessoa escrevia à sua amada, a menina Ofélia, chamando-lhes de Ridículas! Mas se o patrão não se ralava, também não era ela que se ia incomodar com o assunto.
Ao médico, o senhor Ricardo, achava-o muito gentil e tinha a certeza que ele sentia uma enorme paixão pela botânica, pois falava muito de flores, grinaldas, folhas, primavera, magnólias e a sua voz enchia-se sempre que falava de rosas. Ou se calhar, arranjara um namorico com alguma vendedeira da ribeira. Fosse o que fosse, os outros chamavam-lhe de bucólico e quem era ela para os contradizer.
Mudou-se para o Brasil, que aquilo de repúblicas não era nada com ele. Nunca, mas nunca mais soube nada do senhor doutor, nem sequer quando morreu.
E o senhor Alberto?
Ai o senhor Alberto... que criatura encantadora! O que Maria Apolónia o venerava.
Via-se logo que era um homem simples, mas todos lhe tinham grande respeito, ah pois! Mal ele começava com aquelas poesias sobre os pastorinhos e os rebanhos, fazia-se um silêncio profundo naquela casa e as suas palavras ecoavam por todo o bairro. Maria Apolónia é que não era mulher dada a ocultismos e astrologias como o senhor Pessoa, senão, até podia jurar que aqueles versos iriam voar através dos tempos.
Conseguia imaginar a cara de espanto daqueles amigos, fechados no escritório e deliciados a escutar tamanha beleza.
Era um Mestre o senhor Alberto, oh se era!


terça-feira, 17 de março de 2009

rosa

foto fanciful twist

Há muitos anos que não vejo telejornais e se eles, matreiros, me apanham distraída e se intrometem no meu caminho, troco-lhes as voltas, tiro-lhes o som, ponho alto um cd, mudo de canal, desligo a televisão.
Esta minha negação assumida, de impedir que a realidade me entre pela vida adentro a toda a hora e sempre que lhe apetece, faz-me recordar a Rosa das saias de folhos.
Era uma 'maluquinha' que durante muitos anos passava à porta da nossa casa, rindo sempre alto, tinha conversas desconexas consigo mesma, criava vozes, respondia-se, dançava à volta das crianças, abraçava os animais, nunca fez mal a uma mosca.
Vestia sempre compridas e rodadas saias de folhos, lenços no cabelo, colares de mil voltas e pulseiras barulhentas. Toda ela era uma festa.
Nunca ninguém a evitou, teve medo dela, enxotou ou sequer lamentou. Rosa era quase igual a todos que morávamos naquela rua, com a única diferença de que era mais feliz que nós. Mas pouco ou nada a entendíamos.
Um dia regressou de um dos seus habituais períodos de internamento, totalmente diferente.
Depois de uma crise mais forte que o habitual, teve de ser medicada com uma dose de peso. Passeava agora na nossa rua de cabeça sempre baixa, roupa discreta e sem folhos, rezava baixinho, não nos conhecia, não brincava com as crianças e fugia dos cães.
Às vezes levantava a cabeça para o céu, andava à roda sem parar e dizia a chorar, ai mundo que não gosto nada de ti desta maneira.
Foi essa a única vez que a percebemos e tivemos pena dela.
E penso que de nós também.

quinta-feira, 12 de março de 2009

a lírica


Naquela manhã, o poeta acordou entusiasmado pela primeira vez em muitos anos; vivo e inspirado.
Sonhara com Lianor, a donzela do pote equilibrado na cabeça, que seguia formosa e desta vez muito segura e confiante, direita à fonte onde combinara encontrar-se com ele.

Lianor, a linda e bucólica Lianor, que se passeia descalça pela verdura; Lianor de olhos cândidos, onde aliviado lê o amor que ela lhe tem, Lianor que o aguarda a meio dos seus versos.
O poeta saiu de casa a correr e numa alegria exultante, cumprimentou de forma efusiva todos os vizinhos, todas as crianças, todos os animais...as pedras da calçada. Ria de tudo e de nada, o amor viera finalmente fazer as pazes consigo sem sofrimentos, sem cativeiros e sem coisa alguma de fatalismos ou desgraças.
E mil versos perfeitos já lhe desciam ao pensamento, definidos nas rimas emparelhadas, interpoladas e cruzadas, para jogarem com mestria em composições líricas de erotismo comedido.
Eis que distinguiu Lianor junto da fontana fria, que de cabelo de ouro entrançado mas totalmente encharcado, se encontrava estatelada no chão segurando nas mãos de prata, a fita de cor de encarnado.
E rodeada dos cacos do pote, gritava furiosa: ai malditas abelhas que não largais nunca a fresca água da fonte; pragas demoníacas que já me fustigastes a manhã; oh maldito poeta, que não soubestes escolher outra estrofe menos escorregadia deste poema, para vos encontrardes comigo!

E Luís, perante o estrondo que aquelas palavras provocaram na sua alma, ainda há minutos em pleno júbilo, pegou entristecido na pena e no papel e em agonia principiou a escrever...

Aquela triste e leda madrugada
cheia toda de mágoa e piedade
...
...

quarta-feira, 11 de março de 2009

percepções II

foto style files

Tem sido nas dúvidas e nas hesitações, no inusitado de inesperadas circunstâncias e até no receio de cometer um equívoco, que dou por bem empregue o tempo em que venho fazendo companhia a mim mesma.
Sigo, questionando-me em diversas ocasiões e nem sempre me consigo responder, mas cada vez menos me engano a mim própria.
E a moral da história nem sequer pretende ser muito sabedora ou pretensiosa, simplesmente sei que comigo estou segura.

terça-feira, 10 de março de 2009

por dentro

ilustração de matthew woodson

Carregamos muitos defeitos, o que não deve ser um problema se os trouxermos devidamente identificados.
A preocupação estará nas qualidades que desconhecemos possuir, porque ainda não buscámos uma oportunidade de as demonstrar.

domingo, 8 de março de 2009

solar cooking (dia internacional da mulher)



A necessidade vital de sair dos campos de refugiados, para procurar lenha para cozinhar, será dos maiores perigos que as mulheres que estão no Darfur, ou nos campos do vizinho Chade, enfrentam diariamente.
Tornam-se presas fáceis e vulneráveis perante os constantes ataques, espancamentos, raptos e violações das milícias rebeldes. Assim, o simples acto de aprovisionamento de um bem primário e primordial à sobrevivência da família, torna-se no maior dos riscos.
Os fogões solares foram introduzidos nos campos, num esforço de reduzir a dependência da lenha e melhorar a segurança destas mulheres. Têm ainda a capacidade de pasteurizar a água potável, reduzindo o risco de doenças, principalmente nas crianças, evitam os incêndios e reduzem os danos que o fumo provoca na saúde.
Este projecto, da responsabilidade da Jewish World Watch com sede na Holanda, protege as mulheres dos ataques fora dos campos e fornece-lhes outras oportunidades, como produzirem elas próprias os fogões solares, que têm de ser substituídos cada seis meses, ajudar outros a aprender a cozinhar desta maneira inovadora e tornarem-se assim formadoras.
Dois fogões solares são o equivalente à poupança de uma tonelada de lenha por ano.

A cozinha solar salva vidas!


Hoje não quero caixas de bombons, ramos de flores, jantares especiais, cartões com pieguices; não preciso.
Neste campo de Iridimi, vivem mais de 17.000 mulheres e crianças e enquanto houver uma só
mulher discriminada, este dia faz todo o sentido para mim, não devia ser questionado e tenho arrumada a questão.

sexta-feira, 6 de março de 2009

sorrisos desde Darfur


"O Tribunal Penal Internacional de Haia, deu ordem de prisão contra Omar el-Bashir, presidente do Sudão, por crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Darfur. Um feito sem precedentes na história deste conflito; é a primeira ordem de prisão do TPI contra um chefe de Estado, desde que o tribunal começou a funcionar em 2002.
Omar el-Bashir derrubou o governo democraticamente eleito de Sadek el-Mahdi num golpe de Estado em 30 de Junho de 1989, apoiado pelo Frente Islâmica Nacional.
Desde 2003 que a população do Sudão tem sofrido, indefesa e vulnerável, todo o tipo de crimes por parte das forças governamentais e das milícias yanyawid: contam-se 300.000 mortos e cerca de 2.5 milhões de desalojados, já para não falar na violência contra mulheres e meninas.
Tudo isto, perante uma comunidade internacional que não só não soube reagir a tempo, como, no caso da China e da Rússia, forneceram armamento, violando o embargo de armas decretado pela ONU.
Durante estes anos, a Amnistia Internacional colocou todos os seus esforços na tentativa de mobilização de todos os cidadãos possíveis, para exigir a protecção da população civil, o cessar fogo, o embargo de armas, através de campanhas de pressão política que levaram a sua secretária geral, Irene Khan, a missões de alto nível na zona, em várias ocasiões.
A Amnistia espera que Omar el-Bashir se entregue imediatamente para ser julgado. Se assim não for, as autoridades sudanesas devem assegurar que seja detido e entregue de imediato perante o Tribunal Penal Internacional.
E garante que seguirá este assunto de perto, porque não só afecta o Sudão, como todos os habitantes do planeta".

Mensagem recebida hoje do site da Amnistia, ao qual me associei há três anos.
Mais novidades da Amnistia sobre Darfur, aqui.

Eu queria muito acreditar que sim; que ainda é possível fazer-se alguma justiça neste mundo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

biografias #1

foto apartment therapy

Jessica Soraia, portuguesa emigrada no Reino Unido em Lincolnshire, é uma empresária de sucesso no ramo das compotas e fundou a Pear Rocha Jam, sem rival em todo o condado.
Jessica Soraia, nasceu prematura na húmida aldeia de Nadrupe, na freguesia da Lourinhã e nem houve cá tempo para berços, cueiros ou choros, que a mãe tinha a lida do campo nas costas e precisava de sustentar a família.
Aconchegou-a ali no momento, dentro do cabaz de vime, com as mesmas mantas que tinham servido
para os irmãos e pôs-se a mexer, direita aos seus pomares de Pêra Rocha, a fruta rainha que exportava para Inglaterra.
Jessica Soraia, que desde nova demonstrou mão para a terra, para o negócio e para o cabo da enxada, sonhava ir atrás das camionetas que levavam as pêras e inscreveu-se num curso intensivo de inglês, onde aprendeu a dizer entre outras palavras, jam, land, pound, my dear, princess Diana, Cristiano Ronaldo e mind the gap.
Quando tinha dezoito anos, foi pedida em casamento pelo 'Toino José que estava de visita à terra em Agosto, altura das festas em honra de Nossa Senhora da Graça.
Era rapaz com poses, filho de emigrantes no Reino Unido que tinham investido as suas economias na indústria panificadora.
Vivem hoje em Lincoln
, numa grande propriedade rural, estão plenamente integrados na comunidade e os filhos Samantha Raquel e William Augusto, frequentam colégios privados.
Na foto, podemos ver Jessica Soraia com a sogra, Maria Adozinda com quem criou recentemente uma forte parceria, exibindo a sua nova e revolucionária aposta; pêra rocha em conserva para uso exclusivo em tartes macias.
Com este novo produto, Jessica Soraia pretende destronar a ancestral e poderosa apple pie.

-.-.-.-.-.-.-.-.
Digo eu, sei lá...

quarta-feira, 4 de março de 2009

de comer com os olhos


Há momentos em que pura e simplesmente estaco. Literalmente.
Arregalo os olhos e esfrego as mãos.
Nunca sei por onde começar e muito menos terminar.
Na distância entre o corante e o conservante, tudo me pertence.

E vocês? Não resistem a quê?

terça-feira, 3 de março de 2009

os descompensados

foto liberty blog

Até podia ter sido um dia perfeito, agasalhado de sol e de céu sem mancha, não fora a paisagem humana que resolveu toldar-me o mar.
Desfile antecipado de corpos incautos passeando pela esplanada, que sofismados pela chegada do verão em fevereiro, patenteavam pernas desbotadas, cambiadas aqui e ali com manchas avermelhadas de uma depilação histérica, executada com uma urgência caseira no duche daquela manhã.
Rabos descaídos de semblante triste, que pouco tonificados das escassas horas de ginásio, se lamentavam desconsolados por não caberem ainda na tanga brasileira do agosto decorrido. Bochechas flácidas, ainda ontem reprimidas, contudo protegidas pelo vigor da ganga, eram agora apanhadas de surpresa pelas picadas da areia e gritavam suplicantes, porquê, porquê; oh meu Deus porquê?
Infelizmente, também eu apavorada por me encontrar presente na primeira fila de um espectáculo para o qual não comprei bilhete, não lhes soube responder.
O estrado de madeira onde assenta esta minha esplanada favorita, foi sadicamente arranhado e marcado sem remorso, por calcanhares de escama grossa, que maturados e conservados durante mais ou menos cinco meses, dentro do calçado fungíco de inverno, se assemelhavam em cor e textura ao popular queijo parmesão.
Tops, vestidos de alças e biquínis nitidamente amarfanhados e com uma familiar fragrância, própria de quem esteve muitos meses em clausura no fundo de um qualquer armário, mal conseguiam dissimular o cruel castigo infligido às axilas, sofrivelmente depenadas.

Eu também vesti roupa mais fresca nesse sábado, usei chapéu, peguei no carrego de livros, no lápis e no bloco de linhas e saí de casa mais cedo, para aproveitar ao máximo o presente do bom tempo e esplanar até fartar. Mas toda a vida janeiro foi janeiro, fevereiro foi fevereiro e março foi março, mesmo que houvesse neles belíssimos dias de sol.
Há qualquer coisa de pré-histerismo, um início de propensão ao desequilíbrio, um desarranjo que começa a ser notório neste meu país.
As pessoas gritam por socorro, só que não se ouve.
Ou será que não? Que não gritam e que se estão nas tintas e que venha o que vier?

segunda-feira, 2 de março de 2009

depende

foto de su blackwell

Escrever será um quase tudo de muito esforço e um quase nada de talento.
Depois virão a imaginação e a criatividade, que apesar de já lá estarem, só entrarão mais tarde.
Ou antes de tudo.
Ou então ao mesmo tempo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

quem é amiga, quem é? #3


O site brasileiro Domínio Público, é uma biblioteca digital de software livre, isto é, tem disponível gratuitamente na internet e de uma forma legal, livros para download
, colocados à disposição de todos os utilizadores a nível mundial.
O Alessandro, no seu blog Livros e Afins, fez uma escolha dos 1.997 livros mais 'baixados' e vocês podem ir buscá-los aqui e imprimir.
São livros e livros que nunca mais terminam, cujos autores permitiram que chegassem a toda a gente, ou de autores que morreram há mais de 70 anos.
É facílimo. Vão .
Bom Carnaval e até Março.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

desafio


Tomei a decisão de não aceitar mais desafios ou correntes, mas tenho alguns em atraso e este é um deles. A simpática de dentro da fora, a quem se juntou a querida Luísa, pediram-me que do livro que eu tivesse à mão, transcrevesse a 6º frase da página 161.
Sempre tive o hábito de ler vários ao mesmo tempo, sem que histórias e personagens se metessem na vida uns dos outros e entre esses estão sempre os livros que gosto de reler. E então foi num desses que peguei, já pela terceira vez na minha vida e que faz parte da minha lista top 10: O Retrato de Dorian Gray.
E diz assim a 6ª linha (e já agora a 7ª e a 8ª) da página exigida: "Mas que importava? Que tinha Dorian Gray a ver com a morte de Sibyl Vane? Não havia nada a temer. Dorian Gray não a tinha assassinado".

À boa maneira de Wilde (onde ele próprio também se inclui), dos melhores a retratar a vaidade, a futilidade, a hipocrisia e o culto da falsa aparência, que o Homem tanto pratica no dia a dia, este livro terá sempre a capacidade de resistir ao tempo.
Podia ter sido escrito hoje.
Dorian Gray, será uma cópia de tantas pessoas que pensamos conhecer, mas que depois revelam ou deixam a descoberto os mais inusitados e até desagradáveis aspectos do seu interior, persistindo contudo em encapotá-los.
Este livro continua a ser extraordinário, porque a cada releitura de uma nova página, descubro sempre novas analogias, paralelos e imagens à vida e às pessoas de todos os dias.
Ainda bem que não sou nada de deslumbramentos ou de criar grandes expectativas salvo claro está, um bom prato de comida e os olhos dos animais.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

bestseller


Um brinco de pérola antigo, sem par; um alfinete-de-ama que já não prende fraldas de pano; uma fivela baça de um cinto que nunca serviu de castigo; um frasco de cristal com terra negra; o vinil quebrado daquela música pop; um molho de carta enamoradas, ainda perfumadas; uma chave ferrugenta de um coração fugitivo; um cadeado que trancava desgostos; um gancho que sustentava paixões; um botão sem casa própria; um pedaço de âncora com pouco fundo; um anel de compromisso que nunca foi assinado; um par de botões de punho por estrear; uma moeda de vinte centavos; um livro de poemas sublinhado; uma fita de cetim branca; duas fotografias sépia de uma casa colonial; uma roca de prata com cabo de marfim; um desbotado passaporte para São Tomé e um caracol louro bebé, guardado num medalhão.

Pequenos objectos sem valor dentro daquela caixa de charão, foi o que recebeu como herança e sem esperar, um homem simples que andava em busca de si.
Folheou peça a peça como se fossem páginas cheias de história, identificou cada nota musical que soava dos objectos e avistou no fundo de cada um, vidas guardadas pelo tempo.
Diz quem sabe das coisas, que é assim que nascem os grandes livros.
Aparentemente do nada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

percepções I

Cada vez mais, penso que me vou conhecendo melhor, quando dou de frente com pedaços de mim pendurados e semeados pelo caminho. Olvidados.
Afinal não era pisar sem rumo. Pontas soltas, que apenas aguardavam em silêncio pelo momento da laçada certa.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

abstinências


Neste domingo, presenteado finalmente com um sol déspota, a menina do bar da praia colocou na minha frente, lá pelas três da tarde, uma taça redonda onde uma alma artista escondida na cozinha, desenhou com rara sensibilidade aquela nutritiva aguarela texturada de sabores.
A emoldurar a tela, finas meias luas de fibrosa manga laranja, minúsculas sementes, quase lágrimas que escorriam do tomate cherry e uma chuva miúda de uva engelhada, chamada de passa doce.

No centro da pintura, desmaiava levemente ébrio do banho de mel de rosmaninho, um generoso pedaço de cândido requeijão, aninhando no seu colo espevitadas nozes douradas, que preocupadas com a eminência de me secarem o prazer da refeição, aconselharam-me com urgência que estivesse devida e prudentemente amparada pela sempre saudosa caipirinha de verão.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

no paraíso


Briolanja Maria era mulher-a-dias, em casa de patroa fina com bastante requisito e trabalhava desde muito nova, para ajudar a levar o pão à boca da família pobre de seis irmãos.
Desembaraçada, lavava o chão à antiga, de joelhos; esfregava tectos trabalhados; areava pratas com história; raspava gordura entranhada das juntas dos azulejos; sacudia tapetes de tamanhos eternos; estendia quilómetros de varais, com roupa cheirosa e deixava para o final da tarde, aquilo que mais gostava de fazer: engomar.
E enquanto investia horas a fio em vincos impolutos, dobras simétricas, pregas desenhadas a preceito e colarinhos honrados, Briolanja Maria, sonhava com o romântico enredo da novela das nove.
Na sua cabeça vazia de novidades, mas plena de rotinas, idealizava o seu próprio argumento dando a si mesma o papel de rapariga protagonista, radical e temerária, numa história de arrojadas aventuras, cheia de desafios intrépidos na natureza.
Imaginava o galã Carlão José, moçoilo vigoroso e condiscípulo de Neptuno, a pegar-lhe ao colo com um só braço e a atirá-la para o meio das ondas, onde lhe ensinava as manobras básicas do surf, drops, cutbacks, duck-dives, off the lips e reentries.

Rebolavam abraçados na areia molhada, comiam peixe cru em folha de palma, sob um sol escaldante, Carlão trepava ágil ao coqueiro da praia e no fim do dia, colocava-lhe uma flor de hibisco no cabelo e segredava-lhe apaixonado, eu tchi amo bêleza!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

do belo


O valor do que se escreve, não está na escolha das palavras, mas sim naquilo que se vê.
E os olhos com que vemos a beleza das coisas, não nos diz respeito a nós, só a elas.
Assim, sem mais explicações.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

comércio tradicional


Olá Sr. João, bom dia, cumprimento-o eu todas as manhãs.
Bom dia menina, ora viva! Trata-me assim, há mais de trinta anos; menina.
Sempre foi velho, mesmo quando não o era.
Senta-se corcunda naquela eterna cadeira de taberna, que ruge guinchos estridentes no chão de pedra mal lavado e encaracola-se sobre a secretária antiga de carvalho gasto, dividida no tampo por uma racha profunda, já negra do tempo.
Diz-me que é a única peça de época; D. José, orgulha-se ele.
Lê fazendo caretas, de óculos empoleirados na ponta do nariz, a secção de obituário do jornal diário.
As velharias, a sucata e os cacos partidos que expõe na loja, são os mesmos de sempre, dispostos sem jeito ou método; amontoados uns sobre os outros, sem qualquer cuidado. Carregados de pó antigo.
Sabe menina, quando eu coloco a quinquilharia toda ao molho, é para espevitar a curiosidade da clientela. Pensam imediatamente que sou um velho tonto e que devo ter para aqui, debaixo deste lixo todo, alguma relíquia perdida sem saber.
E olhe, que acabam sempre por levar qualquer porcariazita, na ilusão que fizeram uma grande compra.
E eu, nem a boca abro.

O pó, soube também eu nessa manhã, faz parte da sua estratégia de marketing de vendas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

hoje não escrevinho nada

Escrevinhem vocês.


"A humanidade leva-se demasiado a sério. É esse o problema original do mundo. Se o homem das cavernas soubesse rir, a História teria sido muito diferente".

Lord Henry, in O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quem é amiga, quem é? #2

Descarreguem a neura, o stress, o chilique, o esgotamento, a síncope, o desânimo, o desvanecimento, a neurose e a apatia que se abate sobre vós, quando o Inverno se instala.
Para os mais controlados, piquem bolha a bolha. Aqueles que têm a mente mais desarranjada do clima, seleccionem Manic Mode e deslizem o rato.

Vá vizinhança, tudo a postos? É só clicar na imagem e bom fim-de-semana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

há quem esteja só de passagem


Caminhou toda a existência de cabeça baixa, habituado a obedecer e servir sem reticências, nunca deu por nada, por coisa nenhuma, sequer deu por si.
Não soube que a vida é um momento breve, a felicidade um instante e a luz do dia um veloz clarão.
Quando o chamaram pelo nome que não sabia ter, nem ligou. Foi preciso insistir, para que acordasse os olhos das pálpebras e olhasse para quem lhe gritava.
Era a vida, que reparando finalmente nele, o vinha chamar para a cumprir.
Morreu de imediato, logo ali, em cinco ou seis segundos.
Chamava-se Efémero.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

vetusto


Órfão triste, de faqueiro de prata antigo, ficara de repente sozinho, depois da última colher de sobremesa se perder e no entanto, conseguia destacar-se ainda no seu posto, pela luz que só os objectos nobres possuem.
Sempre de cabeça erguida, vivia das lembranças dos reais jantares de cerimónia, em que era exibido com orgulho, limpo com cuidado e guardado sobre um estojo de couro perfumado e assento fofo, depois de dignamente alisado o lustro.
Um pouco torto no dente do meio, riscado do tempo nas costas e amolgado das pancadas da vida no cabo amarelecido, não se abatia porém com a velhice e exibia com grande soberba e jactância, a marca contrastante que o diferenciava de todos os outros metais.

(música surripiada, um dia destes na Luísa)