edição 1946 / 5€
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"A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um dêsses sujeitos, que, no tempo de Molière, freqüentavam a sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom - tão bom, que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me ser um mendigo da ignorância".
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"Paris, 25 de Março 1913
Meu querido Fernando Pessoa,
Recebi hoje a sua carta que muito e muito agradeço. Eu não sei mesmo como agradecer-lhe todas as suas gentilezas. Percorrendo a sua carta eis o que tenho a dizer-lhe sobre cada um dos seus parágrafos:
- É muito verdadeiro e lúcido o que você diz acerca do cubismo. Plenamente de acordo. Desse Amadeu Cardoso tenho ouvido falar muito elogiosamente e vi uns quadros dele, sem importância e disparatados, no Salão de Outono. Tratava-se duma turbamulta de bonecos - era um inferno, um purgatório ou qualquer coisa assim. Sei que é um tipo blagueur, snob, vaidoso, intolerável, etc, etc.
Parece que não se pode ser cubista sem se ser impertinente e blagueur".
E diz ainda Mário de Sá-Carneiro, sobre a Ode de Álvaro de Campos:
"Meu querido Fernando Pessoa,
Não sei em verdade como dizer-lhe todo o meu entusiasmo pela ode do Álvaro de Campos que ontem recebi. É uma coisa enorme, genial, das maiores entre a sua obra - deixe-me dizer-lhe imodesta mas muito sinceramente: do alto do meu orgulho, esses versos, são daqueles que me indicam bem a distância que, em todo o caso, há entre mim e você.
(...) Não tenho dúvida em assegurá-lo meu Amigo, você acaba de escrever a obra-prima do Futurismo. (...) Depois de escrita a sua ode, meu querido Fernando Pessoa, eu creio que nada mais de novo se pode escrever para cantar a nossa época - serão tudo (...) em suma: variações sobre o mesmo tema".
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Tem esses desplantes, coisa que seriam um erro num principiante. Por exemplo: "Eu possuo preciosamente um amigo", uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto".
edição 1910 / 7€
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Boas leituras; eu hoje não durmo.





























