segunda-feira, 15 de junho de 2009

missão: personagens II


Oh Célia, não há de frango, queres de atum? Incomodou-me uma voz varonil a berrar.
'Na gostas? Olhe então são só duas bejecas fresquinhas, fáxavor.
Quero desde já deixar bem claro, que eu não estava em missão de descoberta de personagens, nem nada que se parecesse. Encontrava-me sim, na esplanada da minha praia num fim de tarde aprazível lendo o meu admirável Tchékhov e só desejava mesmo, sossego e pouca distracção.
Pois, tenho destes desvarios, gosto de ler os russos no verão. Deve ser a melancolia do frio que tanto aprecio. Ninguém é perfeito. Adiante.
Encho-me de vergonha e aceito a punição, mas nem o puro realismo contido nos contos de um génio como Tchékhov, fez com que me abstraísse daquele, Oh Célia, vociferado com poder másculo.
Do gelo de Moscovo, incisivo e letal, salto de imediato para um não menos fatal calor ibérico, mais propriamente na Caparica, que queima como tições cozinhados em labaredas. O contraste foi brusco, mas não tive outro remédio senão adaptar-me rapidamente. Precisava de conhecer a Célia.
Pousei o meu clássico na sombra e enquanto lhe fazia festas, prometendo que a ele voltaria mal tivesse oportunidade, escorreguei ligeiramente pela cadeira, baixei os óculos escuros e coloquei-me em posição de vigilância.
Como que desmaiada de barriga para baixo, à sombra de um multicolor guarda-sol que exibia gratuitamente as letras garrafais cor-de-laranja, Trifene 200, encontrava-se a Célia. Sem demora, juntei-lhe um segundo nome próprio para ficar mais compostinha: Gorete. Célia Gorete e por favor pronunciem com acento no primeiro o: Gó-re-te!
A tatuagem arrogante de caracteres celtas, ou hindus, ou cirílicos, ou chineses ou lá o que raio era aquilo, desenhada primeiramente ao nível dos rins, já vira melhores dias. Também as leis da física, com o correr dos anos haviam sido fatais para Célia Gorete. Os refegos cilíndricos, assim como as pregas nascidas pós-tatuagem devido aos abusos de uma nutrição irresponsável, provocaram dilatações no corpinho, fazendo espalhar o desenho que escorregava agora ao longo do pneu sobejado.
Perante tal visão, encolhi os meus abdominais e prometi a mim mesma, talvez pela décima quarta vez, que era desta que largaria a droga; os chocolates, diga-se.
Entretanto, o par de Célia Gorete, um cepo robusto esculpido numa peça única, bronzeado o ano inteiro e coberto de pêlos género matagal intenso, a quem baptizei sem hesitações de Leandro, já se dirigia direitinho ao guarda-sol, onde a sua sereia o aguardava necessitada de beber.
Pôs-se a jeito para o repasto, largou a Nova Gente, sacudiu a areia da toalha e finalmente expôs o figurino para satisfação de gente indiscreta como eu, cujo interesse como sabem, era da mais pura investigação, não deixando também de atiçar outros desejos masculinos, bem menos prosaicos que o meu.
Não vale a pena pôr-me com coisas, mas verdade seja dita, lá que a rapariga era maciça, ai lá isso era. Ignorando o aviso dos michelin laterais, que nos calham a todas se não tivermos juízo, a alvenaria dela era cheia e sólida. Uma massa compacta bem torneada sob alicerces consistentes, quase inabaláveis que tinham término nuns pés nédios de unhas de tom escarlate, capaz de fazer corar o manto rubro de um qualquer pastor da igreja universal.
Deixando de lado o palavreado alambicado, assumo a gíria de uma vez por todas e para que ninguém fique com dúvidas, Célia Gorete era acima de tudo aquilo que se chama, uma grande cavalona!
Só lamento não ter enxergado com o devido rigor, o modelito da tanga que envergava. Mas era tão demasiadamente reduzido e escondido entre as bochechas dançantes, que só lhe percebi o padrão: tigresse.
Houve até um senhor, coitado, que ficou com os glúteos da rapariga fixos na pupila, que teimavam em não se descolar. Ainda estive mesmo para o ajudar e dizer-lhe, o senhor desculpe, mas tem o biquíni da Célia Gorete dentro do olho e se ali o cepo do Leandro vê, não há-de ficar lá muito satisfeito.
Mas calei-me, os clack-clack dos fechos da lancheira fluorescente do parzinho, estrondeavam no areal, chamando-me de novo. E ele era gordas coxas de frango, louros rissóis de camarão, pála-pála das onduladas, suculentas talhadas de melão que se colavam aos dedos e o cacho portentoso de belas uvas brancas, cujas grainhas eram cuspidas com destreza para a areia em brincadeiras parvas de namorados, provocando-lhes sonoras e impudicas gargalhadas, mas tremores no meu
Tchékhov.
Enjoei confesso e a minha saudável garrafa de frize limão encolheu-se de recato, sentindo-se como ré perante aquele repasto, onde não se admitia qualquer carência de nutrientes.
Resolveram depois ir a banhos, não sem antes Leandro exibir um mergulho acrobático perante as hostes adeptas do passeio à beira-mar e molhar Célia Gorete, que largou um estridente, ai que estúpidoooooooo!
Entre gritinhos histéricos de ais e uis, frases assustadoras como, olha o tubarão, vou-te papar, anda cá minha patanisca e oh parvalhão já te disse para me deslargares e anda masé espalhar-me o creme nas costas, dei por concluída a minha missão e propus novamente deliciar-me com o
Tchékhov.

Encontrei-o amuado comigo e com menos falas que o costume. Fingi não perceber o seu ciúme, nascido da atenção que dei à Célia Gorete e ao Leandro e ignorei as acusações que me fez, à medida que eu avançava nos seus contos: que eu exagerava na adjectivação, nas metáforas e nas comparações e que nos meus textos me perdia na ironia, descambando por ai abaixo demonstrando uma total falta de imparcialidade. Uma reles emotiva, era o que eu era. Uma total ignorante do verdadeiro realismo.
Disso já eu sabia, não me deu ele nenhuma novidade, sou mesmo assim um pouco para o exagerada. Mas continuei a lê-lo calada, como se nada fosse e a pouco e pouco sossegou, permitindo que me perdesse novamente nas suas palavras absolutas, na sua escrita única, sem excessos, sem interpretações, sem críticas inerentes ou pareceres coniventes.
Uma escrita que à primeira vista parece não possuir quase nada, mas que afinal tem tudo, escondido atrás de uma subtileza ímpar.

E o perfume a óleo de coco foi-se dissipando pelo ar ...

terça-feira, 9 de junho de 2009

coisas de miúdos


Pisos anti-choque com sistema de amortecimento de quedas, materiais sintéticos, vedações, capacetes ergonómicos, cotoveleiras, joelheiras, caneleiras. Não existem joelhos arranhados e pinturas tribais desenhadas a mercurocromo, já ninguém parte a cabeça, esfola o queixo, raspa os cotovelos, exibe lindas e coloridas nódoas negras ou tem galos na testa. Raramente se vêem pensos rápidos, ou se ouvem gabarolices de pontos cosidos a frio.
Uma monotonia.
Agora já não há baloiços de madeira pendurados em elos de metal ferrugento, rangendo de sofrimento num ritmo exacto, que nos conduziam direitos ao céu e nos devolviam de regresso à terra. Deixavam-nos as palmas das mãos cor-de-laranja de ferrugem e cheias de calos orgulhosos.
Baloiçávamo-nos num tal para cima e para baixo, em velocidades galopantes que exigiam gritos estridentes de prazer, onde era tão fácil imaginar que seria mesmo possível voar. Bastava soltar as mãos das correias, lançarmo-nos para a frente, acreditar, conceber e sobretudo sonhar.
Não voaram tantas vezes assim?
Que pena aos nossos filhos já não nascerem asas.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

guilty pleasure II

Olá, o meu nome é Patti e não fumo há dois anos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

feeling good


A minha escrita é feita de pequenos e discretos roubos, de observação minuciosa que intencionalmente surripio aqui e ali. É uma escrita de delitos leves, cometidos com um aproveitamento desavergonhado das distracções humanas. Escrita apoiada em crimes ingénuos, quase sem pena prevista na lei, mas planeados à minúcia com o objectivo claro de saquear às minhas vítimas, os seus sentimentos e emoções.
Esta vil gatunagem furtada aos inofensivos comportamentos alheios, mais não é do que uma forma muito pessoal de me representar na caneta e no papel.
Todas as palavras que me lêem resultam portanto, da mais pura fraudulência, de uma criminosa e muito trabalhosa actividade de plagiato humano, que por vezes me consome e me leva as energias.
Ora, qualquer ladrão que se preze, necessita também de evoluir, buscar novos recursos, pesquisar outras metodologias, praticar diferentes técnicas de assalto, concentrar-se nos objectivos e ponderar sobre a actividade, para continuar a usufruir do gozo que a ladroagem lhe proporciona. Em suma, carece de uma benéfica pausa.
No meu caso, assumida aqui perante vocês como uma ladra de almas inocentes, que vagueiam distraidamente ao meu redor, desconhecendo que lhes sugo o sangue para poder escrever, dizia eu no meu caso, essa pausa saudável chegou.
Neste tempo, tenho muitas coisas que quero e vou fazer.
Muitos eus
que se têm dispersado e que me aguardam pacientemente e sem queixas, para os reorganizar e reunir. Mas sobretudo, preciso muito de voltar a ler como antes lia. Sem distracções. E a partir de agora mais ainda. Sinto muita falta desse pedaço de mim. Desse eu, que sempre me foi especial e que me torna melhor pessoa nas outras tantas partes de mim.

Tentarei voltar, mas não prometo, lá pelas calendas de Junho.

"It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good"

terça-feira, 19 de maio de 2009

ser adolecentA aos 13 é ...

Oh mãe coitadinha da Ana, mora nos Açores e ainda para mais na ilha Terceira.
Mas o que é que isso tem de mal Beatriz? Todas as ilhas dos Açores são lindas e a Terceira não deve ser excepção.
Mas mãe, como é que ela consegue viver? Só a ilha de S. Miguel é que tem a Berska!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

vírus* num blog sério e familiar #5

vírus acanhado; aparentemente inofensivo, que quando menos se espera ataca a memória ram, a rom e a outra;


vírus folgazão; domina componentes electrónicos, circuitos, placas gráficas, artérias, veias, epiderme e o cérebro de uma forma geral;


vírus assassino; especialista na destruição de sistemas informáticos, sistemas binários, sistemas financeiros e sistemas nervosos.

(Gabriel Aubry)


Bom fim-de-semana!
(agradeço que me deixem pelo menos um dos aubry, pois tenho um anti-vírus novo para testar)

* eu não mereço tanto

quarta-feira, 13 de maio de 2009

linhas de pensamento


Agora, colocam-me aqui ao lado destas amostras de criadas; desta gentalha sem tradição, que mal se aguentam numa casa por mais de três ou quatro meses, sem carinho nenhum pelos senhores ou pelos meninos.
Onde é que já se viu tamanho desmando? Sabem lá elas o que é governar uma casa, orientar um lar, apoiar uma família. Nem sequer sabem pregar um simples botão!
Nada entendem de cozinhados saborosos, confeccionados à base de amor e dedicação, cheios de temperos secretos, ancestrais
receitas herdadas, manjares únicos.
E as limpezas? Uma vergonha.
Saberão elas a diferença entre prata e inox, cristal e pirex, pau-cetim e pinho, seda e poliéster? Nada.
Andam por ali com aqueles espanadores modernos, aspiradores eléctricos e esfregonas que vêem nos anúncios da televisão, desconhecendo o que é o verdadeiro esfregar, a nobreza do polir ou o vigor de um encerar.
E a roupa então, é um ver se te avias. Não há cá preceito algum nos vincos, dobras, pregas, direitos e avessos, gomas e borrifos, punhos e colarinhos.
Flausinas.
...
Olha p'ráquela, parece um pinguim expulso do pólo norte, ou será do pólo sul? Que se lixe, é 'masé ali do oceanário e já é muito bom.
Coitada, lá porque tem um avental de linho e golinha com goma, deve pensar que é melhor do que eu. Ao menos dispo a bata, quando faço recados à patroa.
E aquelas unhas, rentes e sem verniz? A lojinha do chinês já te fazia jeito, oh simplória. E um saltinho na chanata, também ia bem não ia, ou faz-te doer os joanetes?
Lorpa, nem deve sonhar que eu folgo todos os fins-de-semana, faço compras no shopping nas mesmas lojas dos bosses e chamo os putos deles, pelo nome próprio.
Ah e não sou uma ilitrada como tu, ou lá como é que se diz; tenho o oitavo quase todo... falta-me p'rái matemática, português e outra tanga qualquer, mas leio muito o jornal da região, a revista Certa do continente e os boletins da farmácia, enquanto espero que me gritem pela gaita da senha.
Atão e o teu magala, agora escreve-te donde, de Timor ou do Afeganistãni?
...
Dusssss, o que uma gaja tem de sofrer para pagar as props da faculdade. Mas o que é que eu estou aqui a fazer, metida no meio destas duas mulheres-a-dias?
Será que aquela parvalhona onde eu trabalho, a Judite, a Paula, a Sónia ou lá como é que aquela estúpida se chama, acha que sou criada dela?
Cum caraças, como se já não me bastasse aturar os chavalos dos filhos, ver se não bebem, se não fumam, se não metem lá garinas em casa, se trocam de calças, ou se não me deitam os olhos p'ró decote.
E eu estudo para os exames quando, pode-se saber?
Antes ou depois de encomendar as pizzas p'rá janta, antes ou depois do imbecil do tipo da engomadoria, me entregar a roupa da madama, antes ou depois de levar o porcalhão do cão à rua, antes ou depois de fazer as encomendas do super pela net, antes ou depois do namoradinho da Judite, da Paula ou da Sónia, ou lá como é que aquela monga se chama, me atirar bocas porcas e olhares lambidos?
Bom, esta tipa de preto só pode ser figurante de alguma novela. Que cena marada man, esta gaja não existe de certeza.
E a outra das florinhas? Amiga, é que não enganas ninguém com esse perfumezinho roscofe, oh chavala.

terça-feira, 12 de maio de 2009

e fui mesmo

foto minha, parque eduardo vii

De todos os livros que comprei ontem, quatro encheram-me as medidas.

"O Meu Amigo Eça"- António dos Reis Ribeiro,
edição 1946
/ 5€

...
Um pequeno livro, comprado num pavilhão alfarrabista, que conta passagens maravilhosas e reveladoras da vida de Eça, como esta, numa carta que Eça escreve, já doente, a Oliveira Martins:
"A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um dêsses sujeitos, que, no tempo de Molière, freqüentavam a sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom - tão bom, que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me ser um mendigo da ignorância".

"Correspondência de Mário de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa (1912-1914)" - Relógio D'Água / 5€.
...
Estas cartas, são qualquer coisa de fantástico. Deixo-vos duas passagens.
"Paris, 25 de Março 1913
Meu querido Fernando Pessoa,
Recebi hoje a sua carta que muito e muito agradeço. Eu não sei mesmo como agradecer-lhe todas as suas gentilezas. Percorrendo a sua carta eis o que tenho a dizer-lhe sobre cada um dos seus parágrafos:
- É muito verdadeiro e lúcido o que você diz acerca do cubismo. Plenamente de acordo. Desse Amadeu Cardoso tenho ouvido falar muito elogiosamente e vi uns quadros dele, sem importância e disparatados, no Salão de Outono. Tratava-se duma turbamulta de bonecos - era um inferno, um purgatório ou qualquer coisa assim. Sei que é um tipo blagueur, snob, vaidoso, intolerável, etc, etc.
Parece que não se pode ser cubista sem se ser impertinente e
blagueur".
E diz ainda Mário de Sá-Carneiro, sobre a Ode de Álvaro de Campos:
"Meu querido Fernando Pessoa,
Não sei em verdade como dizer-lhe todo o meu entusiasmo pela ode do Álvaro de Campos que ontem recebi. É uma coisa enorme, genial, das maiores entre a sua obra - deixe-me dizer-lhe imodesta mas muito sinceramente: do alto do meu orgulho, esses versos, são daqueles que me indicam bem a distância que, em todo o caso, há entre mim e você.
(...) Não tenho dúvida em assegurá-lo meu Amigo, você acaba de escrever a obra-prima do Futurismo. (...) Depois de escrita a sua ode, meu querido Fernando Pessoa, eu creio que nada mais de novo se pode escrever para cantar a nossa época - serão tudo (...) em suma: variações sobre o mesmo tema".

"Entrevistas com António Lobo Antunes (1979-2007)" - Almedina / 20€
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Entrevista conduzida por Batista-Bastos, em 1985:
"ALA: Na última vez que estive fora, na Finlândia, dei por mim a ter enormes saudades de Portugal. O primeiro ameaço desta 'doença' foi na RDA. E eu, cuja família vem do Brasil, descobri-me, de repente, tão lisboeta, que me custa, agora, estar muito tempo fora de Lisboa."
...
Entrevista conduzida por Francisco José Viegas, em 1997:
"ALA: (...) Nunca tive muitos amigos, de resto. E amigos íntimos, quem tenho eu? O Ernesto Melo Antunes, o Zé Cardoso Pires, o Daniel Sampaio, não tenho mais... Há, é claro, pessoas que eu estimo, de quem eu sou amigo, mas não com esse lado de intimidade.
...
Entrevista conduzida por Maria Augusta Silva, em 2003:
"ALA: Não sou grande fã do Camilo. (...). E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. (...) Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente.
Tem esses desplantes, coisa que seriam um erro num principiante. Por exemplo: "Eu possuo preciosamente um amigo", uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto".
...
Entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, em 2006:
"ALA: Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém nunca me vê nos sítios".

"Os Alfacinhas" - Alfredo de Mesquita,
edição 1910 /
7€

...
"Há janelas em Lisboa que são jardins, outras que são quintais, com árvores de fruto e seu pedaço de horta. A nespereira, por exemplo, dá-se excelentemente nas janelas de sacada, bem como a couve galega, criada em caixotes com adubo de gato. O vaso de manjerico, tão cheiroso, e tão igual no viço da folha miudinha, é ornamento modesto das de peitoril. À hora da rega, quem tem a sorte de passar por baixo, salta do passeio para o meio da rua mais fresco que uma alface em manhã de orvalho. As ceroulas, as fraldas, até os lençóis que se lavam em casa e se estendem a enxugar à janela, perfazem-lhe a paisagem peculiar."

Boas leituras; eu hoje não durmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

sopa de letras ou açorda de papel?

Com esta chuva magnífica, será que eu hoje vou conseguir passar uma tarde feliz na Feira do Livro?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

contratempo


Se houve coisa, que até a uma dada altura eu sempre tive, foi tempo. Tempo para isto, tempo para aquilo, tempo para aqueloutro. Tempo para tudo e tempo para nada. No fundo, tempo.
E planeava porque tinha tempo, esperava porque tinha tempo, adiava porque tinha tempo e até desisti porque tive tempo. Por vezes, algo falhava com o passar do tempo, corria menos bem ou até acabava por não acontecer. Mas não tinha importância nenhuma, pois o que eu mais tinha era tempo.
E com tempo tudo se conseguia, tudo se resolvia, tudo se esquecia, tudo se curava.
Tudo ao sabor do tempo. Até mesmo o tempo.
Ah, isso passará com o tempo!
Mas dei demasiado tempo ao tempo e o tempo, também teve o seu tempo. E o tempo passou.
Hoje, já não tenho tempo de perder tempo, nem tão pouco tenho tempo, para deixar passar tempo.
Faço por ter tempo, por ganhar tempo e não ter tempo perdido. Não dou tempo ao tempo.
Eu e o tempo, já tivemos mais tempo. Mas ainda estamos muito a tempo.
É tudo uma questão de tempo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

missão: personagens I


Eu gosto de passear pelos corredores do supermercado, naquelas horas onde praticamente só existem eu, o carrinho, meia dúzia de clientes e os empregados.
Ando por ali nas calmas, vejo cada prateleira com atenção, leio os rótulos de fio a pavio, descubro produtos que nem sabia que existiam e muito menos que me faziam falta e compro-os, lembro-me de verificar prazos de validade, as compras ficam simetricamente arrumadas, tipo puzzle, encho sem culpas e vergonhas o carrinho de M-Joy de Caramelo, sem ser preciso disfarçá-los entre as palettes do leite e ninguém me acusa e diz, apanhada!
Fico meia hora no expositor do Douro, sem que alguém pense que me meto nos copos, não preciso de pedir licença, nem desculpas, ou correr atrás daquelas loucas esgrouviadas do fim-de-semana que andam sempre à pressa, sem nunca saberem onde deixam as compras e dizer-lhes ameaçadora,
olhe esse carrinho é meu!
E ontem foi uma dessas tardes.
Lá andava eu a desfilar pelo pavimento deslizante e enquanto esperava que me cortassem o pão de cereais em fatias, mas bem fininhas, se faz favor, veio-me a ideia à cabeça: aquele era o sítio ideal para eu escolher uma vítima e transformá-la em personagem, nas minhas incursões de pretensão literária!
Ah e ali estava ela, no balcão da peixaria a dois passos de mim.
Cabelo farto, madeixado de ruivo e apanhado no alto da cabeça, com uma enorme mola roxa. Daquelas personagens ricas e lindas de morrer, mesmo ao meu gosto.
A expressão dos olhos atentos e o franzir do sobrolho, enquanto observava atenta a peixeira a amanhar-lhe o pargo mulato, revelavam alguém que sabia da coisa, e não me deixes escamas debaixo da barriga do peixe, que da outra vez o mê Augusto até se engasgou, grita ela para a romena espantada, cuspindo perdigotos de uma boca cor-de-rosa, daquelas mesmo pink-pink.
Eu deliciada com a cena e muito concentrada, a ver se nada me escapava dos seus atributos físicos; mas porque raio não trouxe o meu bloco de notas na carteira?
Ora descansava um pé sobre o outro, ora punha a mão na anca, ora via se tinha alguma chamada no telemóvel, ora riscava a lista e dizia em voz alta, deixa cá ver... deixa cá ver.
Parecia meio hippy, meio abandalhada ou melhor, a vestimenta era uma tentativa de qualquer coisa zen, que nem ela sabia bem o quê. Arrastou a saia indiana colorida até à fruta, acompanhada por um ritmo achinelado de toc-toc, toc-toc e num grande à vontade apalpou laranjas, cheirou morangos, dividiu cachos de bananas, franziu a cara aos melões e ... já? Não devem saber a nada. Melões nesta altura, isso é que era doce! Uma bela porcaria.
E o empregado, coitado, não sei dizer-lhe minha senhora, eu sou do corredor dos alguidares, só estou aqui a substituir um colega que está com febre.
Febre? grita a SÓraia, chamando a atenção de mais três gatos pingados, que andavam de volta da promoção do abacaxi.
SÓraia sim, nesta altura já a minha personagem foi baptizada por mim, com um nome sonante daqueles que vos vou deixando por aqui. E diz-se SÓraia, com acento no 'O'!
Oh filho, tu não me digas que é aquela doença dos porcos, lá da República Dominicana? Ele não sabia, mas achava que não, o colega vivia no Ramalhal e só tinha ainda viajado até Espanha.
Menos mal e lá foi ela, direita aos congelados. E eu também, para não perder pitada. Afinal, eu encontrava-me em missão.
Sem hesitar, abriu uma série de portas da câmara frigorífica e sacou tudo quanto era pizza: a pizza de atum para o Miguelinho; a de bacon para o Jonas; as Picolinas(?) para a Nhocas; a pizza de ananás com cogumelos para o namorado da Nhocas; os crocantes de galinha para o jantar; as patinhas de marisco para a festa da prima e o bacalhau à braz da marca %$&/#"?&, que era uma verdadeira maravilha!
Avançou direita para a caixa vazia, onde a empregada adormecida despertou em sobressalto, tal foi o estrondo que o carrinho da SÓraia fez ao embater no tapete rolante.
E atirando com tudo para cima da caixa, lá ia dizendo em voz alta e muito sorridente, olhando para a bela adormecida esgazeada de sono, ai filha deixa-me lá ir, deixa-me lá ir que daqui até Linda-a-Pastora, é um trânsito do caneco e ainda se me descongelam as caixas.

Um espectáculo, a minha SÓraia!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

da pesada


Há uns meses, o meu vizinho adolescente igual a tantos outros, iniciou-se nas aulas de música.
Viola. Clássica. Muito louvável.
Vem praticando no seu quarto, dia após dia. Bastante empenhado, diga-se.
Depois, ofereceram-lhe uma guitarra eléctrica. Muito louvável também.
E logo a seguir um amplificador. Aliás, um potente de um amplificador.
Mas neste feriado, 1 de Maio, não foi Santana que ele descobriu. Com enorme alegria e pujança, o mancebo despertou para o heavy metal.

Quanto a mim sinto, jamais serei a mesma.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

vírus* num blog sério e familiar #4

olivier martinez

Bom fim-de-semana!
(agradeço que não me dêem cabo do botão do play)

* oh rapaz, 'tá 'sogado que me pões tonta

quarta-feira, 29 de abril de 2009

,e (com vírgula antes)


E depois eu andava sempre descalça, sem que nada me magoasse os pés, e vestia roupa larga e leve para poder voar, e pousava nos ramos dos ciprestes, e dormia toda a manhã sem ninguém para me acordar, e almoçava pipocas salgadas, batidos de amoras negras e pizzas de amores-perfeitos, e conseguia ler enquanto dormia, e construía ninhos de alfazema, e soprava bolas de nevoeiro, e escondia-me no buraco sem ozono, e as cerejas é que eram como as conversas, e as melancias nasciam sem pevides, e os bebés andavam sempre ao meu colo, e flutuava sobre nenúfares com motor, e encolhia de tamanho para empurrar as bolas com os escaravelhos, e apanhava bolachas oreo na areia da praia, e fazia corridas com as lagartixas, e os cornetos eram todos de chocolate, e os caramelos não se pegavam aos dentes, e os arranhões não ardiam, e escolhia o final dos filmes, e proibia os cães e os gatos vadios, e abandonava os humanos nas férias, e o ALA contava-me crónicas para eu adormecer, e ninguém escrevia lol, e eu tinha uma colecção de penas raras, e pensava livros com os olhos, e nabos, agriões e courgetes nunca tinham existido, e comprava uma casa de algodão cor-de-rosa, e o guardador de rebanhos era meu vizinho, e o preconceito era mentira, e os animais também mandavam, e o leite de coco não engordava, e afinal valia rir no jogo das estátuas, e escrever era muito fácil, e nadava ao lado dos peixes azuis, e plantava chupas de morango no meu jardim, e tinha caracóis de estimação, e as abelhas não picavam, e as baratas não voavam, e as cobras não eram bífidas, e os avós nunca morriam, e pedia às nuvens que chovessem quente e aos homens que existissem de verdade e aos poetas que mentissem com sinceridade.
E não era?

terça-feira, 28 de abril de 2009

biografias # 3

foto etsy blog - clicar para aumentar

No centro da foto de 'família', sentada no meio das suas meninas, encontra-se a portuguesa Maria Leocádia da Silva Alvarenga, proprietária da mais refinada casa de alterne do estado do Texas.
Viúva de um português rico, aventureiro e mulherengo, que numa das suas viagens ao Canadá, visitando as famosas cataratas do Niagára, se arriscou demais no passeio para impressionar a sua então amante e caiu, partindo para sempre deste mundo, junto com a queda da água para nunca mais ser encontrado.
Maria Leocádia, que o aguardava na sua fazenda em El Paso, recebeu a notícia do seu desaparecimento e pior ainda, que toda a suposta fortuna fora desbastada pelas inúmeras amantes do marido.
Vendeu tudo o que tinha, pagou dívidas, calotes e hipotecas do estupor com quem fora casada e abriu no centro da cidade, o Salão Social e Recreativo: Leocadia Falls.

E da esquerda para a direita temos ...
1ª- Filha adoptiva de fazendeiros do Mississipi, mortos por escravos revoltos, escapou por um triz à chacina, por andar nesse momento a cantarolar perdida no meio dos campos de algodão.
Arranjou trabalho na cidade, cantando em velórios, casamentos e baptizados. As músicas que saíam de dentro dela chegaram aos ouvidos de Leocádia, que logo tratou de lhe oferecer salário dobrado e protecção.
Os clientes mais sensíveis e refinados, perdiam-se de amores por aquela voz rouca e sensual, que aquecia os seus corações, entoando melodias aprendidas entre os negros das plantações, com letras cheias de conotações amorosas e sexuais.
Era ver os homens de Pulquéria Blueswoman, a suplicarem-lhe uma breve nota musical, uma simples frase mal cantada ou mesmo um som vago e mal definido e já os deixava em êxtase total. Nos seus aposentos vivia-se um ambiente de pré Rhytm and Blues.

'Açoites Cantados no Tronco' era o serviço que prestava, com mais sucesso entre os seus clientes.

2ª- Descendente de índios, mendigava esfarrapada pela cidade e em troca de comida, previa o futuro
aos habitantes fazendo leituras em pêlo de búfalo.
Leocádia apanhou-a uma noite a vasculhar no lixo do salão, no beco das traseiras. O seu olho para o negócio, viu naquele rosto exótico um excelente investimento. Recolheu-a, amparou-a ofereceu-lhe protecção e decidiu chamar-lhe Hedviges Arizona.
A índia encantava os clientes, entoando cânticos em dialecto indígena, bamboleando o corpo com danças tribais e contando histórias sobre as antigas crenças do seu povo.
Envolvidos naquele ambiente pagão, mas ao mesmo tempo ignorantes e receosos do poder de toda aquela mística, que não sabiam ser muito bem encenada por Hedviges Arizona, era vê-los agora, pobres colonizadores, prestarem-lhe vassalagem e esquecendo guerras territoriais reduziam-se a meros objectos sexuais.
O fetiche mais requisitado pelos clientes era a 'Escalada ao Totem'.

3ª- Fora criada no coração de uma seita religiosa semi-secreta, no Utah. Fugiu, no mesmo dia em que soube ter sido escolhida para ser a 16ª mulher, do octogenário líder religioso e chefe da sua pequena comunidade.
Entrou no salão de Leocádia, altiva e dominadora, disposta a que jamais algum homem lhe desse ordens.
As exigências que fazia a todos aqueles que requisitassem os seus serviços, eram extremamente rigorosas. Os clientes teriam de jejuar durante quatro dias, construir-lhe um pequeno altar, chamá-la de Zita a Nova Luz e prostrarem-se sempre de joelhos diante de si.

Só assim poderiam subir aos seus aposentos, onde todos os serviços prestados eram realizados num ambiente negro e pesado, carregado de cheiro a incenso e iluminado aqui e ali por uma vela de luz ténue.
O fetiche eleito era 'Ao Encontro do Apocalipse'.

4ª- Descendente directa dos primeiros colonos ingleses do
Massachusetts, exibia um sotaque britânico perfeito. O seu nível cultural era tão alto, que não conseguiu arranjar trabalho em nenhum lado e só Leocádia lhe estendera a mão, alcançando de imediato que ela seria a perdição total, do pequeno grupo de clientes masoquistas do salão.
Aquele restrito número de clientes cowboys e perversos, encontrava-se desejoso de sofrer nas suas mãos todas as injúrias, humilhações e punições, ao som de ordens pronunciadas no inglês mais puro e arcaico, soletrado pela voz de Gertrudes New England.
Gritos irados de stupid cowboys, you smell like a fucking cow, God save our king and not your president e british boys do it better, vinham do seu quarto, satisfazendo as delícias e os desejos dos clientes vaqueiros sado-maso.
A depravação eleita por aqueles genuínos cowboys era, 'Please, send me an Apple Pie'

5ª- Trazia uma única e minúscula pepita de ouro nos bolsos rotos do vestido, quando bateu à porta do salão de Leocádia, pedindo guarida. Viúva de um antigo garimpeiro de Sacramento, foi abandonada à sua sorte sem nada de seu, quando lhe assassinaram o marido numa rixa de ganância provocada pelo mineral brilhante.
Saturada de rios e correntes de água, peneiras e gravilha, escavações e dinamites, que lhe tiraram anos de vida e a obrigaram a uma existência de quase escravatura, Bonifácia Golden Stone era a perita do salão de Leocádia, em extorquir aos clientes pequenas fortunas.
Elaborava jogos eróticos sismológicos, brincadeiras sexuais tectónicas e galhofas de aluvião, que apimentava com um vocabulário técnico da mais pura geologia, deixando-os literalmente petrificados e duros como uma rocha.
'A Grande Corrida ao Minério' era o serviço mais pedido.

Links: biografia #1, biografia #2

quinta-feira, 23 de abril de 2009

dia internacional do livro e dos direitos de autor

clicar para aumentar

Este é um dos tais dias, que eu comemoro também nos outros trezentos e sessenta e quatro.
Sou uma leitora exagerada, desde que o José Mauro de Vasconcelos entrou na minha vida e leio muitos e muitos livros em simultâneo. Sempre o fiz e não me traz qualquer espécie de confusão ou balbúrdia ao espírito, aliás, não concebo ler de outra forma. É um hábito enraizado que já não tem remédio, esta minha leitura orgíaca, se assim lhe quiserem chamar.
Da fotografia de cima, só iniciei agora o prémio Leya, "O Rastro do Jaguar", do Murilo Carvalho e o "Leite Derramado", do Chico, como sabem acabadinho de chegar do Rio. Todos os outros livros estão praticamente no final e já outra pilha ainda maior, se encontra a postos. E se vocês vissem as minhas listas de livros para comprar ...
Sim, sim é isso mesmo o que estão a pensar, invisto fortunas em livros. Não gasto dinheiro, invisto-o. Opções.
Ah e sapatos. Também invisto muito em sapatos.

E vocês? O que estão a ler?


Estes cinco livros de cima, são os fixos, os meus companheiros eternos, rotineiros e nostálgicos de mesinha de cabeceira. Pobres folhas, odeiam-me de morte. A mim e à minha lapiseira em riste.

Não sou apologista de que o importante é ler e que para isso, qualquer coisa serve. Assim como defendo, que há boa e má literatura, independentemente de se gostar ou não dela e não ao contrário, como muitos afirmam. A qualidade literária de um livro, nada tem a ver com o nosso gosto pessoal. Ela existirá sempre, mesmo que só haja uma única pessoa a gostar desse livro e o resto do mundo a detestá-lo.
Que não se confunda excelência com desfrute.
A Literatura é o principal veículo de qualidade, para a expansão de uma língua. Não a fala, a televisão, a rádio, a imprensa ou os computadores.
Se não fosse a Literatura
, a língua por si só não teria qualquer valor, tornar-se-ia numa série de letras moribundas e acabaria por morrer esquecida, sem direito a funeral.
É a Literatura que perpétua a língua e lhe dá reputação.


quarta-feira, 22 de abril de 2009

nos meus textos


Depois de um dia estafante, sentei-me aqui a pensar no que iria escrever. O cansaço era tanto, que não tinha qualquer disposição para me debruçar sobre um tema, pensar no início, desenvolver, depois divagar e inventar, preparar uma conclusão, escolher a fotografia e o pior, rever tudo à cata de possíveis erros, mau português, frases confusas, texto palha e evitar ao máximo para não fazer quatro coisas:

- escrever uma ',' (vírgula) antes e depois de um 'e'; *
- abusar dos 'que';
- colocar a torto e a direito ',' (vírgulas);
- utilizar '!' a não ser unicamente como excepção;

Preconceito meu? Talvez.
E vocês? Quando escrevem um texto, qual é o 'erro' (exemplo concreto) que têm sempre atenção de não cometer?

* exemplo: 'sentei-me, comi um bife grelhado e, enquanto olhava...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

sabor a sossego

foto blomsterverkstad

Era a nova dona daquela velha casa e da antiga drogaria do rés-do chão, que toda a vida nos vendera os mais diversos tipos de produtos. Mas só a conheci, quando abriu a boutique das flores.
A nostalgia da velha loja do senhor João, depressa foi substituída pela curiosidade de admirarmos a inusitada montra da semana.
A harmonia era perfeita, nada morria ou murchava, tudo se renovava naquela loja. Quem passava por lá todos os dias, depressa se apercebeu que não existia qualquer tipo de rivalidade entre as várias espécies ou desdém entre as flores.
Todas as semanas eu lá entrava e não resistia em trazer um ramo novo.
Não havia disputa entre os gladíolos e as estrelícias, nem picardias de imagem com as margaridas e as calêndulas, ou altivez e olhares de cima abaixo das rosas, para as flores rasteiras.
Quando lhe perguntei o que tinha feito com o castiço quintal das traseiras, respondeu-me, para o mês que vem já vais saber.
E foi o que aconteceu, em Fevereiro começou a vender na loja pequenos vasos de produtos hortícolas e tudo quanto era hortaliça, convivia ali de forma pacífica.
Nunca as alfaces, os feijões, os tomates-cereja ou as favas-anãs, pretenderam distinguir-se das demais parceiras de cultivo. E até as abóboras, sempre com aquela mania de nobre superioridade, só porque se transformam em carruagens para princesas, jamais tiveram qualquer tipo de peneiras.
Diz quem ali mora paredes meias, que ouve de noite muitas vozes sussurradas, timbres distintos e até risadas dissimuladas. E minha senhora, o barulho vem todo do quintal das traseiras!
E eu acredito, claro.
Não sei que tipo de fenómeno se passa na loja dela, o que é facto é que a venda dos legumes foi também um sucesso. E até eu, que em minha casa nem a salsa mais vulgar se aguenta, me vi a braços com vasos de alecrim, coentros, hortelã e uma ervilheira, imagine-se!
Já somos amigas há muito tempo e noutro dia avisou-me, temos surpresa para meados de Abril.
E na segunda-feira, apareceram por lá os chás de violeta contra a enxaqueca, o bolo de limão com sementes de papoila, para dar brilho à pele do rosto, as beringelas-bebé gratinadas, salpicadas de raspa de toranja para limpar o intestino, tisana de jacinto com duas gotas de uva branca, para sorrirmos mais vezes, tarte de rosa com calda de espinhos, anti-arrelias, queques de orquídea branca, servidos em folha de mandioca para despertar a paixão e pãezinhos de hibisco com doce de calêndula, para realizar pequenos desejos.
Fiquei embasbacada, oh meu Deus, mas o que é que andaste a fazer todo o fim-de-semana?
Fiz mais um bocado da minha tranquilidade, respondeu e voltando-me as costas, ainda a vi de lado a piscar o olho a uma camélia branca.

Juro que vi!


sexta-feira, 17 de abril de 2009

vírus* num blog sério e familiar #3

hugh jackman

Após a polémica têxtil na loja do cidadão de Faro, foi aprovado por unanimidade e com efeitos imediatos o novo funcionário-tipo, a ser admitido em todas as repartições públicas deste país.
Esclarece-se também, que não foi encontrado nos manuais de atendimento, qualquer item contra:
cabelo comprido;
olhar mortífero;
tom de pele com muita saúde;
barba de quatro dias.


Bom fim-de-semana!
(
agradeço que não arranhem ninguém, enquanto permanecerem neste blog)


* praze the Lord! (que é como quem diz: benzóDeus!)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

incumbências

foto dezeen

Costumava pontapear, literalmente, com a ponta dos pés as sombras que se atravessavam no seu passeio e que podiam manchar-lhe o polido da calçada.
Incomodavam-na como poucas coisas na vida, as silhuetas que se interpunham entre ela e a luz, que se recusavam a avançar e que subsistiam à custa do que alguém, piedosamente deixava sobrar para elas.
Mas não nasceu assim, resistente. Fez-se desta forma por opção.
Tudo o queria era ser diferente das outras, daquelas que em tempos sonharam ... e muito.
Mas a razão porque sonhavam, foi a mesma que as impediu de o fazer; o precisar, numa dada altura da vida permanecerem mais presas ao chão.

E com os anos, a desilusão de não viverem os seus sonhos fez com que parassem de os sonhar.
Faltou-lhes a inconsciência dos loucos, o atrevimento dos ousados, a agonia dos génios e a bravura dos intrépidos.
A vida, que as continuou a enredar com baraços de açoites e insistia em vigiá-las de longe, foram-na elas logrando com atitudes terrenas de delírio consciente, tresvarios, exaltações e vibrares de coração.
E disfarçavam para os outros e para si próprias, momentos de felicidade.
Tudo menos sonhar.

Poucas vezes souberam, que há instantes onde da troca de palavras, do cruzar de olhares, da descoberta de cumplicidades, de apertos de mão com um estranho, de encontros breves de almas gémeas e de se fazer o que se diz, se lucram os dias da vida toda!
E que esses dias podem marcar anos. E esses minutos durar horas. E serem únicos. E os melhores de todos.
Momentos que se guardam em segredo e se colocam numa pausa sem limites e sem medidas. E que se pode começar outra vez.
Muitas vezes. Tantas. As que se quiser.

Assustadora sina aquela, de terem ido contra o que mais desejaram, contra aquilo que lhes gritou para irem.
Para irem ...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

amor é ...


Dora nascera gorda, crescera gorda, adolescera gorda e ficara para sempre gorda. Rapariga optimista, alegre e bem disposta, já se habituara com essa realidade e convivia bem com o seu físico.
Numa das suas habituais incursões a uma conhecida cadeia de fast food, decorada a encarnado sangue, que como já é sabido trata-se da cor que excita o apetite, conheceu entre os frascos de molho brilhante, o gás da cola e a gordura do hamburguer, aquele que viria a ser o amor da sua vida.
Chamava-se Rufino, trabalhava como caixa do restaurante desde que este abrira e era o único funcionário com contrato efectivo, pois nem num bife untado, aquela alminha jamais havia tocado e o gerente levara aquilo como uma verdadeira atitude com vista ao lucro.
O que não sabiam é que Rufino era vegan e por isso, incapaz de tocar em qualquer produto de origem animal. Ficava-se pelas insípidas saladinhas, bebia um copo de água e voltava para a registadora. Impoluto, aquele espírito.
Nunca houve explicação para a paixão súbita e visceral que nasceu imediatamente ali, entre a troca do nervoso talão da despesa e a consistente nota de vinte euros.
Facto é, que aqueles dois jovens foram atraídos como ímanes de tal maneira, que nem Newton saberia explicar. E nunca mais se largaram.
Namoraram intensamente durante um ano, recheado de trocas e juras, versos, sms's e emails de amor, passeios no shopping e refeições no fast food encarnado.
O problema da comida nunca chegou a sê-lo, verdade seja dita, visto que Dora comia sempre tudo e de tudo e Rufino, nada de nada.
Quando decidiram casar, Rufino fez-lhe a surpresa de convidar o seu amigo sueco, Jan-Olov um conhecido criador de moda, para que desenhasse o enorme e difícil vestido de noiva, para a sua superabundante-amada Dora.
Ela ficou delirante, pois sentia-se perfeitamente à vontade com Jan-Olov, o que lhe permitia fazer todo o tipo de pedidos exuberantes, muito próprios do seu carácter efusivo.
Mas... eis que tudo se desmoronou nas vésperas da boda. Depois das análises e exames da praxe, a que todos os nubentes responsáveis devem ser sujeitos, Dora ficou a saber que sofria de uma doença rara e fatal, não para si, mas sim mas para Rufino. Tinha o enorme e científico nome de: mantimentus.contra.vegan.bacchteris.phatalis.mortis. Resumindo, se a Dora lhe tocasse com um dedo que fosse, o rapaz ia desta para melhor.
Ela chorava desesperada por perder o amor da sua vida, mas não havia mais nada a fazer senão terminar aquela relação; o médico fora irredutível quanto à inevitabilidade das consequências e Rufino apercebendo-se do sentimento de desonra da sua amada, aguentou-se firme e hirto e decidiu resolver a situação à sua maneira.
Depois de colocado um anúncio no jornal, onde vendiam o vestido de noiva por estrear, Dora partiu para parte incerta.
Rufino reuniu toda a família e os amigos mais chegados no seu apartamento, recebendo-os demasiado excitado para o seu temperamento e em trajes desapropriados: havaianas coloridas, short de licra brilhante e camisola de alças justinha, a vincar-lhe a magreza do tórax pobremente desenvolvido do veganismo.

Ria nervosamente, enquanto a melena loura, trabalhada várias horas para dar credibilidade à sua explicação, lhe caía brincalhona para os olhos.
Acompanhado de alguns trejeitos exagerados, mas convincentemente ensaiados, despejou a notícia de um golpe só, enquanto limava uma unha falhada que insistia em deixar puxões na licra inusitada da sua vestimenta.
"Durante as várias provas do vestido de noiva da Dora, eu e o Jan-Olov descobrimos que nos amávamos loucamente e já não há mais casamento para ninguém".

E assim termina mais um documentário do Canal Relíquias Históricas, apresentado-vos aquele que se julga ter sido, o primeiro cavalheiro conhecido do século XXI.

Adenda: Versão para chorar, aqui.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

corín tellado

foto corín tellado
A Maria dos Anjos foi nossa empregada durante muitos anos. Chegou até nós com dezasseis ou dezassete anos, vinda da 'terra' para Lisboa. Da terra dela, que eu nunca soube qual era.
Dizia muitas vezes 'valhameDeusmeninatejaquietinhasenãodigoàmãezinha'; assim, tudo pegado e todos ríamos com ela.
Era pouco mais velha que a minha irmã, que a ensinou a ler e a aperfeiçoar a letra tremida e irregular. Adorou!
Agora que já consegues ler melhor, Maria dos Anjos, vamos à papelaria comprar uma revista e escolhes o que quiseres para ti. A sério, menina?
Claro que é a sério, Maria dos Anjos.
Eu trouxe a minha revista do Mandrake, a minha irmã a Burda, o meu pai o maço de tabaco Porto e o jornal e a Maria dos Anjos, apaixonou-se pela prateleira onde estavam dispostos e impecavelmente alinhados, os pequenos livros de romances de amor a cordel, da Corín Tellado.
Depois desse dia, Maria dos Anjos gastava o que lhe sobrava do ordenado, do qual enviava uma parte para a mãe que vivia ainda na 'terra', em Corín Tellado Já sabíamos que tinha terminado de ler o último dos seus livrinhos, quando vagueava pela casa de olhar perdido, sorriso disfarçado e se esquecia de nos pregar raspanetes e fazer queixas à nossa mãezinha.
Escrevia cartas de amor ao noivo, de fazer inveja a qualquer heroína dos seus romances melados, dizia-nos a minha irmã depois de fazer a revisão, a pedido da Maria dos Anjos.
Ah conta lá, conta lá o que ela escreve ao Alfredo. Nem pensem!
E nunca nos contou.
Numa das nossas visitas a Badajoz, o meu pai viu que estava no cinema um filme da Corín Tellado, "Tengo que Abandonarte"
. Comprou dois bilhetes, um para a Maria dos Anjos e outro para a minha mãe, que lá fez o sacrifício de lhe servir como tradutora. A minha irmã bem que pediu para ir também, mas o filme era para maiores de dezoito.
Quando duas horas depoise, a Maria dos Anjos entrou nas Galerias Preciados, vinha lavada em lágrimas, de braço dado com a minha mãe, que a muito custo punha um semblante bastante sério, ouvindo-a a repetir sem parar, 'aisenhoravalhameDeusquecoisamaisboniaoamordaquelesdois'.
Uns anos mais tarde, partiu de novo para a 'terra' para se casar com o Alfredo. Oferecemos-lhe uma caixa cheia de Corín Tellado e ainda hoje tenho dúvidas, se em Santa Apolónia ela chorou mais com pena de nos deixar ou da emoção, quando viu o presente das patroinhas.

A escritora espanhola Corín Tellado morreu no sábado. Escreveu mais de quatro mil livros e vendeu mais de quatrocentos milhões de exemplares. Em Espanha, só Cervantes terá sido mais lido do que ela.
E eu lembrei-me de imediato da nossa querida Maria dos Anjos. Que será feito dela?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

[16] ´tou no ir...de fim de semana

foto liberty post blog
É só meter na mala as havaianas, o biquíni, o protector solar, as calças largas e a túnica comprida, o chapéu, os óculos de sol, a máquina fotográfica, os três livros, o iPod, o bloco e a lapiseira, um casaco para o frio do barlavento, o marido e a filha e uma grande vontade de me praiar, esplanar, planar e porque não vadiar ... seja!
Lá pela hora do almoço, parto para aqui.

Feliz Páscoa para todos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

leite derramado

foto Babá, livraria da travessa-leblon

Mal li a notícia, de que este senhor ia lançar o seu último livro, "Leite Derramado", em todo o Brasil no dia 28 de Março, fiquei em pulgas. Eu já tinha adorado ler "Budapeste", ouvir aqui.
E em Portugal, quando será editado? Ah, talvez no fim do ano. Credo, mas ainda faltam nove meses, isso é quase uma gravidez!
É que o Chico, não tem só uma voz maravilhosa, não tem só um timbre de fazer estremecer as pedras do calçadão, não escreve só letras de sonho, não compõe só músicas eternas, não é só dono de uns olhos sem definição de azul. Não.
O Chico escreve, canta e compõe, com uma delicadeza e com uma sensibilidade sobre nós mulheres, que não é para qualquer um.
E o mulherio apaixona-se, o que é bastante compreensível.
Eis que, no meio da minha angústia sem tamanho, a minha querida sobrinha Babá, me comunica que vai de férias para o Rio, com regresso a Portugal dois dias depois do lançamento do livro nas livrarias.

sobre o livro, aqui

E cá está ele vizinhança, ainda por ler mas já folheado e cheirado e manuseado e assinado. E meuzinho e tudo.
Pronto vá lá, eu sou simpática e até vos dou a ouvir um bocadinho do meu Chico, lendo as preliminares do "Leite Derramado", aqui.

E você Nina e você Luz, já têm? E tu, já o compraste Pitanga?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

escrever com morfeu

foto apartment therapy main

Começou a ser difícil escrever enquanto sonhava.
A princípio, uma palavra, uma intenção ou pensamento e até uma frase curta, eu conseguia guardar num canto da memória, até despertar pela manhã.
Trazia-a depois do esconderijo que a protegera durante a noite, passava-a a limpo para o bloco de notas breves e ali ficaria impressa e segura, até que algo me fizesse pensar nela para a reescrever, mas desta vez já acordada.
Acontece, que há noites de ventura em que a minha cabeça adormecida escreve sem parar; cria personagens, baptiza-as com nomes inusitados, cria-lhes biografias, dá-lhes vida e imagina-lhes enredos.
Como se não bastasse, assenta datas, toma notas, sublinha, desenha setas e asteriscos e ordena a paginação em folhas imaginárias, que nada têm de palpável.
É no entanto um facto incontestável, que eu folheio estas páginas de manhã em pensamento, disso não tenho dúvida. Mas é também verdade que quando acordo, perante a falta de um registo físico, perco-me no enredo sonhado, esqueço-me dos nomes escolhidos, não encontro os apontamentos e as notas, deixados durante o sono no canto da folha e com muita pena minha a história perde-se.
Então, numa destas noites decidi durante o meu sonho, criar ao lado da minha cama uma mesa branca bem iluminada, onde apoiei o meu pc portátil imune a vírus, passwords e sonambulismos.
Adormecida, deslizo agora da altura do meu colchão, apoio a ponta dos pés no quente do tapete e despejo as histórias sonhadas, que me aparecem escritas na cabeça que segue desta vez mais descansada.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

vírus* num blog sério e familiar #2

patrick dempsey

Bom fim-de-semana!
(agradeço que deixem os Ray Ban intactos)

*ah bom! 'Tava a ver que não havia mais.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

arriscar

foto arts&ghosts

Duas irmãs, gémeas siamesas, unidas apenas por um fio de cabelo, caminhavam sempre juntas, tomando a mesma direcção e sentido, rumo definido sem sobressaltos, apesar da primeira se chamar Frente e a segunda, Atrás.
Uma seguindo a outra, mantinham-se alinhadas no percurso imposto sem grandes alternativas de fuga, desvios ou mudança de orientação. Nunca houve dúvidas, hesitações ou paragens. O caminho era aquele e assim se cumpriria.
Quando a cabeleireira distraída, lhes cortou a ténue ligação capilar, perderam-se uma da outra. E ambas de toda a gente. Nunca mais ninguém as viu.
Reza a lenda, que se fartaram de inverter o sentido, mudaram constantemente de direcção, contrariaram linhas perpendiculares e paralelas, encurvaram rectas, desistiram de alinhamentos, desviaram-se de vias com saídas fáceis e em várias ocasiões, apagaram as luzes ao fim dos túneis, mas chegaram onde queriam, de todas as vezes que se fizeram à vida.
Agradeceram sempre o corte de cabelo, que lhes inibira a ousadia, impedira a aventura e lhes castrara a surpresa da viagem. Se bem que por caminhos rectos, sem obstáculos ou imprevistos, chegariam sempre intactas, amparadas pela certeza, ao fim de qualquer trajecto.
Mas a verdade é que no risco do incerto, em algum sacrifício e na luta contra as adversidades, os objectivos alcançados souberam-lhes sempre muito melhor.
Souberam a si.