quarta-feira, 16 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #2


Há umas semanas que ando a dormir mal. Depois de tomar o meu copo de leite e a bolacha maria, costume a que a minha mãezinha me habituou, adormeço como um passarinho, mas lá pela madrugada acordo afogueada, com os lençóis aos pés da cama, a almofada no chão e toda descabelada. Houve até uma noite, oh valha-me Deus, que despertei com a camisa de noite desabotoada, quase revelando os meus pudores.
Uma pessoa fica assim meio assarapantada com estes sobressaltos nocturnos e não é para menos, pois as novidades não terminam somente nos fanicos, ah pois não.
Então cá vai: ele é o Clooney que me surge no horizonte a servir-me um tofina numa caneca do Bordalo; ele é o Pitt de cabelos ao vento, montado num Mustang gritando na pradaria, anda cá minha poldra, deixa-me pôr-te as rédeas; ele é aquele senhor já de idade, meio careca, que já foi um Bond a oferecer-me um scotch on the rocks no cume das highlands; ele é o Cruise, ai coisa mai linda, com os seus raiban verdes a mostrar-me as potencialidades do F-14, ou 15 ou lá que número tinha a avioneta do rapaz; ele é, vejam bem, aquele mocinho grandalhão que tinha um carro preto que falava com ele e que ultimamente corria pelas praias da América, com uma bóia cor-de-laranja nas mãos e salvava os incautos de afogamentos, lembram-se? Um rapagão de olhos claros, assim corpulento, com uns braços musculados, e umas mãos poderosas, umas pernas torneadas, fazendo-me boca-a-boca o grande calmeirão ... ai nossa Senhora, vou engolir mais umas quantas pedras de gelo.
Bom, adiante. A Lurdinhas
da mercearia disse-me em segredo, que estes sonhos eram próprios da idade e absolutamente normais, para uma pessoa na minha condição de viúva: o meu Alfredo já se foi vai para seis anos; descanse em paz.
Elucidou-me também, que os meus vigores nocturnos tinham até um nome científico; chamavam-se de góticos: sonhos góticos. Que dantes eram só as desavergonhadas e as que não iam à missa que os tinham, mas que agora, segundo ela lera numa revista lá na Zeneide manicure, fizeram-se estudos muito rigorosos que comprovam o contrário: qualquer senhora séria também tem destas coisas; podemos espraiar-nos à vontade, darmos largas à imaginação, estarmos possuídas de emoções marginais e até termos sonhos góticos tal qual os homens, ou lá como é que a Lurdinhas lhes chamou.
Fiquei tão mais leve com a inocência dos meus sintomas, que hoje até fui ao chinês comprar um baibidól mais aliviadinho, daqueles cor-de-rosa porno que eles lá têm com uma etiqueta muito engraçada, que diz em estrangeiro, shake it out baby,
瘋狂瘋狂.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

aprovado


Já arregacei as mangas.
Será com este sabor que vou colorir o meu novo escritório.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

y volver

bairro do eixample, foto minha

E então foi um matar de saudades do salero, das tapas e dos bocadillos, do jarro de sangria gelada na barra da bodega, das cavas nas taças, da crema, do chocolate con churros. Do espalhafato das conversas que eles mantêm em alto, dos boulevard cheios de famílias ao fim da tarde, das velhas empiriquitadas nos bancos dos jardins, das sombras brancas das esplanadas, das bicicletas que nos atravessam o passeio, da intimista Rambla da Catalunya que desce magnífica até à Praça e depois se une na outra Rambla, a turística que eu não aprecio por aí além, para terminar no mar mediterrâneo com o Cristóvão imponente no pedestal, vislumbrando a América a mando da ambígua Isabel, a católica.
Tornei a guardar por dentro a memória das fachadas dos edifícios, que me fixam os olhos sempre para o alto das varandas e balaustradas, para o ritmo das gelosias com carrego de cores sonoras; o encarnado, o baunilha, o cinzento, o branco e o terracota.
Alegrei os pés exaustos pelas ruas sombrias do bairro Gótico da velha Barcino, agarrado ao velho e novo Born onde de novo me extasiei com o jovem Picasso; e que bom voltar a almoçar pelas quatro da tarde e correr para a Bubó antes que me levassem os macarones de sabor a violeta. Únicos.
Ah e chegar à Barceloneta ao crepúsculo, estafada e já quase sem vida para molhar os pés na sauna que é aquele mar que escalda?
E tornar a ver o Gaudi? O que eu morro de amores pela Batló, pelo chão da Gràcia, pelo tracadís do Guel, pelo ferro e pelas chaminés guardiãs da Pedrera. Trouxe-o comigo na bagagem, em formato de mil marcadores de livros, cadernos de páginas incólumes, azulejos de tracadís, curvas em movimento, cristal translúcido e pedaços escorregadios de animalesco ferro torneado.
Antes do voo, ainda corri para ver de perto a resposta que o Domènech deu à Sagrada Família e espirrei três vezes, na esperança de ser atendida neste palácio-hospital.
Quis rebentar com a acústica do Palau, mas nem a Montserrat conseguiu. Y por la calle el Domènech de nuevo...
E fiz tanto, tanto, mas tanto mais, só que há sítios que não cabem noutro lado a não ser no seu próprio local. Ou então eu não sei escrevê-los.
Regresso sempre mais velha das viagens de sonho; uma espécie de sobrecarrego aliviado de ter provado muito em tão pouco tempo.
E não acredito nada naquela do não voltarmos nunca mais ao local onde fomos felizes.
Tretas, lérias, falácias: eu volto sempre.

sábado, 5 de setembro de 2009

adiós guapos


Oh p'ra mim, num dos boulevard mais bonitos da Europa:
El Passeig de Gràcia.

Besitos; me voy por la calle de compras, de juerga y de copas y de tapas.
Hasta luego.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #1

Talvez alguns de vocês não saibam, mas quando entram no Ares, entram também no blogobairro. Ou seja, aqui, uma comunidade de bloggers, vizinhos de patamar, companheiros de elevador, colegas do passeio com o cão, camaradas do aperto de mão, sócios do clube de dominó, compinchas de morada, inquilinos do prédio, habitantes do bairro, amigos do café, condóminos da administração, cúmplices da postagem blogosférica.
E eu sou a PresidentA desta gente toda, ora pois!

Não houve eleições, sei bem, nem haverá. Tomei posse, assim por dá cá aquela palha e aqui estou firme no meu palanque, a vigiar o blogobairro, gerindo e administrando, cumprindo à risca todas as burocracias que uma responsabilidade deste gabarito acarreta e principalmente, tomando conta das finanças e dos impostos que infligo aos meus condóminos, quando eles saem da casca com postagens e fotos onde não abundam a moral, os bons costumes e sobretudo, onde a pudicícia, a honra e a castidade desta família blogobairrense é posta em causa.
Mas sou uma PresidentA muito compreensiva, generosa, trabalhadora e quase não tenho dias de férias, tal é a minha dedicação a esta gente postadora. Como qualquer moura de trabalho, não chego a todos os cantos e por vezes, necessito de pedir uma ajuda, quase inútil é um facto, a outro elemento do blogobairro; a minha assitentA. E também tenho os serviços de uma advogadA, ena, ena!
'Taditas, elas até se esforçam; são vigilante na captura atenta de indecências como esta e que me vão enchendo o saco azul, que tenho só e unicamente para as minhas obras de caridade, como é do conhecimento público.
Por vezes, há uns elementos do blogobairro, por coincidência são quase sempre os mesmos, que se distraem e postam imagens de pouca vergonha como esta mocinha toda encardida ou estas que se puseram ao fresco. E depois têm o despautério, o atrevimento de me caluniar, como aqui. Resultado: 500€ de coima valente. Pimba.
Como já viram, sou um exemplo de PresidentA, um SIS da net, uma câmara vigilante e atenta que zela pela vossa saúde emocional. E se tinham dúvidas no modo como foi feita a minha eleição, deixaram com certeza de as ter, perante esta
modesta e humilde demonstração de capacidades acima da média que aufiro.
E como não sou PresidentA de sentimentos mesquinhos, ressentimentos devoradores ou sequer defensora de um regime ditatorial, desde que seja sempre eu a mandar obviamente, peço-vos que hoje, ide todos dar os parabéns a um dos condóminos mais antigos do blogobairro.
Ide, ide que há festa seguramente. E dupla.
Mas não vos esqueceis de observar tudinho com olhos de lince e se por um acaso, repararem em algo insólito como um mocho de nome Sebastião a fumar erva, uma tal de Brites amalucada em monoquini, cenas tristes com um taxista alcoolizado, umas moças descascadas, um papalagui fala-barato e sobretudo um dialecto visigótico totalmente em desuso e proibido nos dicionários civilizados e contemporâneos, avisai-me de imediato meu blogobairro querido, que eu entrarei de rompante na festarola com o meu kit de cobranças.
Correi, apressai-vos e festejai com ele.

p.s. ah, vá lá, façam o favor de deixarem pelo menos um eurito no saquito azul. Sim, esse mesmo aí do lado
.











Ass: A PresidentA, vitalícia, claro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

no confessionário aos 40 #1


Quando esta manhã acordei, reparo de imediato que aquela ruga ontem não estava ali. Delgada, é um facto, mas verdade seja dita, era mesmo o meu mais recente vinco de vida. Encolhi os ombros resignada e apresentei-a a outra que me nasceu há seis meses e a mais duas do ano passado. E pronto, ao todo tenho quatro; não me posso queixar.

Como boa anfitriã e apesar dela não ter sido convidada a entrar assim, desta forma abrupta, na minha intimidade, desanuviei-lhe a surpresa do seu descaramento com o meu sabonete que cheira a cor-de-rosa pálido, matei-lhe a sede com um tónico doce que utilizo para ocasiões especiais e ainda lhe fiz um pequeno-almoço altamente nutritivo, reafirmante e rico em colagénio.
Parece que a criatura gostou do tratamento honorífico e referiu que talvez estivesse ali para ficar.
Bom, por mim tudo bem rapariga, instala-te lá onde te der mais jeito, mas nada de te esticares ou de me sulcares a existência. Literalmente.
Espero que me tenha feito entender.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #1


O rapaz que anda à cata do lixo bom na minha rua, sabe da vida de todos os vizinhos através dos nossos restos, das pistas que deixamos sem querer, de pedaços que já não queremos e que despejamos todos os dias nos contentores.
Penso eu, que deve até já ter topado que a sirigaita de carrapito do 4º esquerdo é um pouco para o porca-relaxada; já eu, de desmazelada nada tenho e o sujeito de mim não tem como falar. Aliás, se for homem atento ao que deitamos fora, reparou de certeza que eu passo sempre por água todas as embalagens antes de as colocar no amarelo. E faço o mesmo com os vidros.
Até posso descer à rua de roupão florido de flanela, rolos na cabeça e com o meu salsicha pela trela, mas sempre, sempre de unha arranjada e mais: recolho todos os extras do canito do passeio, naqueles saquinhos que a câmara fornece.
De suja não tenho nada, sou mulher de muito asseio. Ouviste bem, oh flausina?

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

artefactos II

lagos, foto minha

Eu não gosto lá muito de praia. Ou melhor, não gosto da sensação física da praia; do atrevimento da areia imiscuindo-se sem pudor por todo o canto, das dores do sol, do arrepio da água, do sal que me faz rasgos na pele.
Mas gosto da sensação emocional da praia; de chegar e perceber no ar o doce dos cremes, de cheirar o sabor salgado das rochas, de dizer bom dia ao sol, de seguir o trilho deixado pelas gaivotas na areia seca, de prestar atenção ao esmorecer da espuma nos pés. Mas principalmente gosto de decifrar laivos da personalidade de cada um, por exemplo, pela opção que fizeram na escolha do seu guarda-sol.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

vírus* num blog sério e familiar #7

foto josh holloway

Bom fim-de-semana!
(agradeço que se controlem e nada de esgravatarem o rapaz)

* ai que saudades de uma boa virose; qual gripe A, qual quê!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

arbutus unedo


E não é que eu bebi mesmo um café com cheirinho!
Cheirinho a medronho, diga-se. Copo fino de pé alto, café bem quente e uma medida de aguardente de medronho. No topo, pairava um castelo espumante de natas batidas, com as muralhas e as seteiras e ameias salpicadas pela canela moída no momento.
Só vos digo que espanta o frio do barlavento para bem longe; do outro lado do oceano, lá para os lados da vizinha mourama onde lhes refresca o tórrido dos dias.
Não posso jurar, mas tenho a leve impressão que ainda ouvi um chukran ecoado, ali pelas bandas do Alto Atlas.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

uns tristes

lagos, foto minha

E depois existem aqueles cépticos, essa gente peremptória afirmando a pés juntos sobre toda a literatura apesar de ser muito nobre e coiso e tal, é no fundo enganadora. Que não nos devemos deixar envolver por ela em demasia, apaixonarmo-nos por personagens, enlearmo-nos em enredos mirabolantes carregados de mistério e suspense, pois tudo não passa de ilusão, mera ficção aldrabada por criaturas ardilosas com as letras e os seus jogos, que mais não querem do que entupir-nos a mente com quimeras. Blá, blá, blá e mais blá, blá, blá.
Ora, eu queria perguntar a esses perdidos, a essas almas descrentes no vaguear do espírito, a esses entes que julgam que sonham, quem seria aquele ser voante senão o próprio do Fernão Capelo, a Gaivota que antes das nove da manhã do dia 20 de Julho, já planava em voos rasantes e demorados, quase mortais, sobre a minha esplanada edificada no penhasco da praia da D. Ana?

Adenda: música de fundo "ouvida" pela Si.


sábado, 22 de agosto de 2009

artefactos I

lagos, foto minha

As grandes geleiras do areal e quem as carrega, sempre me intrigaram. Oh meu Deus, o que se descobre sobre determinado núcleo familiar pelo tamanho, pela cor e pelo que vem dentro da sua geleira, é algo totalmente inaudito.
Eu, uma observadora nata, praticamente uma profissional do ramo, sempre muito atenta e curiosa ao que ao meu redor se passa, confesso que perante aquilo que emerge das profundezas de uma XL geleira de praia, serei tão somente uma reles amadora, ainda com muito para aprender sobre os da minha espécie.
Iniciemos então este périplo pelas bebidas: latas de cerveja e água fresca serão imprescindíveis, obviamente, aliás geleira sem elas não será uma geleira capaz; sumos, suminhos e sumóis e espantem-se as gentes: caprisones! Alguém sabia que ainda havia caprisones? Não? Pois se usassem geleias a valer, saberiam.
E o sanduichal que para lá cabe? É que não estão bem a ver: ele é sanduíches de queijo, fiambre, mistas, atum, frango, salsichas, presunto, panado de peru, carne assada, disto, daquilo e daqueloutro. Noutro dia até houve uma criancinha que gritava, oh mããããe, ainda há pão com tulicreme? E não é que havia mesmo. Querem lá ver vocês parelha mais catita, do que caprisone com tulicreme?
Sanduíches de salmão fumado, lamento informá-lo caro Pedro, mas é que nem vê-las. Talvez demasiado sensíveis para estas geleiras. Não sei, digo eu.
Depois vem o frutame: uva branca, preta, verde, encarnada e às risquinhas, melancia cortadinha sem pevides e arranjadinha comme il faut, suculentas talhadas de melão a pingar tal e qual o protocolo de Agosto, ameixas gordas, nêsperas da cor do sol e pêssegos hidratados como veludo cristal.
A hora do lanche é também um manancial informativo, no que toca a iogurtes. Cá em casa ninguém gosta de iogurtes, por isso é corredor de supermercado que não frequento, nem lá passo, nem lá espreito, nem lá gasto. Trata-se de uma aversão: leite é leite e é para ser bebido às litradas, se o coalharmos dá em queijo e se formos aplicados e virtuosos resulta em natas ou manteiga para barrar no pão. E pronto.
Tenham lá paciência, mas iogurte é pieguice, coisa de meninos com bibe de xadrez miudinho e um bocado nhonhonhó.
Por isso, é na praia junto de algum vizinho apetrechado de uma generosa geleira familiar, que eu me inteiro das novidades da estação iogurteira. É a bem da verdade, o meu momento "Geleira happy-hour".
Há-os de mil frutos inteiros (caroços e tudo, imagino eu), aos pedaços, esmigalhados, líquidos, em puré, espapaçados e cremosos, vejam só. Os que levam smarties, de apple pie, biscuit, os cheese-cake, os de bolacha maria, de arroz doce, os limpa-intestinos preguiçosos, os da Fátima Lopes e uns mini-potinhos coloridos, que vêm todos agarradinhos para serem engolidos em duas ou três colheradas. Ah, e todos eles existem em versão light e também não. Desculpem lá, mas estão a gozar comigo não estão? É fantástica a capacidade inventiva do homem.
Mas onde é que param os gordos boiões de vidro grosso e pesado, de conteúdo ora branco, ora cor-de-rosa? Não, não é desses que para aí há, de vidro coitadinho que só faz tlim-tlim. Falo daqueles potes obesos e fortes, que falavam e tudo, dizendo-me no final do lanche na pastelaria da esquina, agora Patti, é aquela parte em que podes rapar fundo e fazeres o barulho que quiseres com a colher. E eu fazia, claro está, ignorando os olhares com que a minha mãe me
perscrutava.
Bom, deixemos a iogurtada e regressemos à capacidade logística das geleiras de praia, pois foi esse o post que me trouxe de volta ao meu Ares.
Dizia eu, que lá cabe de tudo e pelo que testemunhei pela família da fotografia, até no fim do dia quando a gentes regressam dos últimos banhos e se enrolam nas toalhas ensopadas, o responsável pela geleira ainda consegue para lá desencantar, entre as placas de gelo já mornas e as caixas plásticas multicolor, uma sandes de chouriço amachucada, três ameixas frouxas e quatro infelizes pastéis de bacalhau.
E eu, invejosa e ao mesmo tempo abismada com o repasto da vizinhança, que durante todo o santo dia desfilou perante os meus olhos incrédulos, engulo a minha última bolacha de água e sal, esmigalhada no fundo da cesta e penso, será que já inventaram Morgado de Amêndoa, Queijo de Figo ou Tarte de Alfarroba em versão iogurte?
Nessa altura, talvez me renda à mariquice e ainda me vão ver de potinho
e de colherzinha em riste.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

'tou no ir ... de férias II

Bem, deixa-me ir, tenho de voltar à vidinha própria desta saison, fazer as malas e começar a pensar na mansidão e languidez dos dias; nos pequenos-almoços tardios na marina, nos almoços tardios na esplanada da praia, nos jantares tardios na esplanada da praia, nos não horários, no não sei que horas são isto, no depois vê-se, no agora não posso, no vou dormir e quando a maré subir acordem-me, no não sei qual o dia do mês e no má que jête, 'tou marafada.
O sítio é o mesmo do costume, barlavento, Lagos-Sagres, junto com passeios imprevistos de descoberta, subindo até Aljezur.
Umas óptimas férias para todos, bem gozadas e principalmente descansadas.

lagos-ponta da piedade

Adeus meu blogobairro querido, vou ter saudades mas voltarei lá pelos finais de Agosto.
:-)


quinta-feira, 9 de julho de 2009

do terceiro grau

mértola-alentejo, foto minha

Conheci-o num dos meus fins de tarde preferidos; abafo de início de verão, carrego de nuvens pesadas onde se sente haver alguma coisa a romper. E não é o sol, e nem a chuva e nem sequer o vento; e não se sabe o quê, e nem quando, e nem onde e muito menos porquê. Tempo hostil, agressor de almas delicadas que em nada atinge a minha.
Tardes de mistério em que algo se propaga pelo ar, mas que na verdade só os animais pressentem e serão muito poucos os humanos, a gozarem o privilégio de o testemunhar.
Aconteceu comigo; encontrei uma alma gémea suspensa no alto da colina, a conversar com o céu. Quando me viu, pediu por favor que apenas registasse o seu lado direito. Foi o que fiz, fotografei-o mil vezes e nunca se mexeu; nem um pêlo da crina se levantou, uma orelha estremeceu, a cauda se agitou ou a narina
resfolegou.
Creio mesmo que ainda lá está, ao pé da urze que se torcia debaixo dos seus cascos, escutando a música no cimo do altar, que escolheu para me encontrar.

(clicar para aumentar)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

forma nominal do verbo

mértola-alentejo, fotos minhas

Há milhares de anos, no meio de uma terra inóspita, exigente e crua, surgiu um céu, que mostrando por vezes uma espécie de amarelando, outras encarniçando, algumas acinzentando, azulando e até branqueando, acabou tudo colorando.
Houve até quem inspectando, fosse testemunhando que o vira já prateando, esverdeando e por uma ocasião, criando um alaranjando-ocreando num negrando-enferrujando, como um destruidor fogueando, originando um verbo começando.


E apresentado: Gerúndio, muito prazer, aqui vos encantando!
(clicar para aumentar)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

missão: personagens III


Pela rua estreitinha, de casinhas branquinhas e baixinhas, de janelinhas com rendinhas e vasinhos de florinhas amarelinhas, vinha subindo eu, serena e orgulhosa, com a pauta de notas da Beatriz nas mãos.
Eis que ele me surge na sua janela aberta de par em par e espreguiçando-se num impudico cumprimento, abraçando todo o planeta terra, emite um sonoro aiiiiiiiiii e saúda a vida.
Talvez perturbado, por ter dado pela minha repentina presença,
numa altura íntima da sua rotina matinal, diz-me atrapalhado, bom dia! E eu, que nunca fui rapariga de virar a cara a cumprimentos, nem nada que se pareça e apesar de nunca ter visto o Adérito na minha vida, também me saiu pela boca, bom dia, isso é que foi dormir, ah!
Corou, claro está. Também, quem me manda a mim ter sempre a resposta pronta na ponta da língua?
Exibia para a vizinhança um visual ensonado de olhos estremunhados, cabelo sem pente, agudos vincos vermelhões na face direita, deixados por uma almofada engelhada.
Com o meu carro estacionado a dois metros, deixo-me ficar por ali numa vontade súbita de dar um jeito no porta-bagagens, no porta-luvas, fazer uma selecção aos cd e até sacudir os tapetes, porque não?
Por detrás dos meus óculos escuros, admiro-lhe a camisola de alças donde emergia uma intensa e conturbada cabelagem negra, cuja monotonia cromática era quebrada subtilmente, pelo brilho do crucifixo que trazia na correntinha ao pescoço. Do tempo em que havia madrinhas...
Oh homem, ainda 'tás nesses trajes? Não me queres dar uma ajuda aqui com o estendal?
Era a Alzirinha; a mulher laboriosa com quem casou, que já andava a pé desde o arrebol do crepúsculo e tinha lavado e estendido duas máquinas de roupa e engomado outras tantas; coseu cinco pares de meias, no calcanhar e no dedo grande; fez as camas dos filhos de lavado; limpou o pó a preceito; regou os vasos do quintal; assistiu ao programa da dona Fátima; lamentou-se mais uma vez da telefonia já não dar nada de jeito, como no tempo do senhor Sala e da dona Olga Cardoso; cortou as couves para o caldo verde; chorou de saudades das netinhas emigradas na Venezuela, disse olá à velhota do lado e que, num tarda nada já lhe levo as sopinhas de leite; ajeitou a roupa para o seu Adérito vestir; amanhou as pescadinhas de rabo na boca para o almoço e maravilha das maravilhas: cortou os coentros fininhos, fininhos para juntar ao arroz de feijão, que já apurava no fogão.
E é quando o cheirinho do tacho da Alzira fluindo pela janela, esquecida escancarada pelo meu amigo Adérito, que o descalabro se dá, e a minha imaginação inicia o seu verdadeiro processo criativo.
No meio do meu turbilhão de imagens gastronómicas em 3D, onde abundavam suculentas pataniscas de bacalhau, arrozinho de tomate, peixinhos da horta (oh meu Deus, o que eu tenho em consideração os peixinhos da horta!), jaquinzinhos fritos, costeletinhas de borrego grelhadas, batata albardada; salada de pimentos; morcela de arroz; linguiça frita; broa de milho; azeitonas com orégãos; queijo seco amantizado no colorau; papos-de-anjo; trouxa-de-ovos; pudim de Abade de Priscos; toucinho-do-céu e glaciais copos de sangria tinta, ainda consegui ouvia-la exclamar, oh filho, tu corre-me lá dentro e baixa o lume, que ainda se nos queima o almocinho.
Oh menina, oh menina, sente-se bem? Era a Alzira, coitada; aflita com o escancarar das minhas narinas na direcção da sua janelinha, com vidraça de rendinhas, enfeitada com vasinhos de florinhas amarelinhas.
Solícita, levou a mão ao bolso da bata de axadrezado miudinho e retirou de lá um lencinho de um branco impoluto, com que limpou a saliva que ainda me escorria da boca e gritou para dentro de casa, Adérito filho, traz um copo de água com açúcar e avia-te homem, que aqui a menina 'tá sem cor!
Acabei sentada na salinha da família, a recompor-me do fanico gastronómico. Observei a colecção de elefantes de porcelana azul e branca, que num crescendo de seis peças, enfeitavam o topo do televisor (ao terceiro e ao quinto, faltavam-lhes a tromba, e o primeiro e o último tinham uma pata lascada), passei as mãos pelos naperons de croché, enroscados com amor nos braços do meu sofá de veludo verde, elogiei para dentro, a inexistência de um único grão de pó nas camélias de plástico, deleitei-me pela segunda vez e agora mais calma, com o cheirinho emanado da cozinha da Alzirinha, aceitando desde logo o convite para o almoço, devia comer qualquer coisinha menina, está tão pálidazinha ... olhe que lhe fazia bem.
Mas principalmente, renovei um princípio e uma ideia antiga de admiração, de muito respeito e alguma comoção perante a genuína simplicidade dos outros.

Só recusei a bebida incolor servida num cálice riscado, que o Adérito cognominou de cheirinho.

personagens I e I I

quarta-feira, 1 de julho de 2009

verão em lisboa II

parque eduardo vii, foto minha

Aparentemente, uma estátua de pedra, inerte, sem emoções ou sentimentos. Mas na verdade, é que com esta não acontecia nada disso, coisa que me apercebi mal passei por ela nos costumeiros passeios tardios, feitos com o meu pai pelo parque das nossas vidas.
Conversávamos pois, e dizia-me que possuía alma e coração quente.

Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas no instante em que colocaram o seu pedestal no espaço reservado naquele jardim para ela ser edificada, Camila, assim se chamava, adquiriu vida interior.
Será que foi, porque em tempos muito antigos e já sem memória ou repetição, habitaram por aqui seres especiais como os famosos pirilampos cantores, os conciliadores abraços apertados, lusos corações poetas e os verdadeiros sonhos realizados e que te deixaram na terra esta herança do sentir?, perguntei-lhe logo eu, que guardava comigo estas estórias mágicas que o meu pai me contava todas as noites.
Talvez, pois Camila alimentava-se do sentir as garras afiadas dos pássaros coçarem-lhe a cabeça e os ombros, deliciava-se com o pousar suave de borboletas e abelhas nas suas pestanas, agradecia ao vento que lhe penteava o cabelo e à brisa, por lhe limpar o pó cinzento que lhe poluía a pele-mármore.
Escutava segredos sussurrados e juras apaixonadas, de namorados que se acomodavam aos seus pés e perdia o sorriso lá para os lados da estufa fria, onde nos baloiços crianças como eu, espalhavam gritos estridentes de felicidade.
Passei lá outra vez, quando da Feira do Livro e fui cumprimentá-la.
Hoje, já velha e escurecida, com rugas sulcadas pelo efeito das rachas fundas no tempo, vive todas as manhãs a sua preferida e mais deslumbrante emoção: o gozo da vida, com o mesmo entusiasmo da primeira vez, no memorável dia em que para ali foi ganhar raízes.
Essa vida que ela testemunha logo na aurora, contém tons de azul, ou de verde, ou de cinzento, ou ainda prateado, mas é sempre lisa e calmante com nome de rio. E quando esse rio se aproxima da profundidade dorida, tão própria do nosso grande oceano, aceita-o com paixão, transformando-se num exclusivo apelido de mar da palha.
Bom dia Camila, salpica-lhe ele lá de baixo, ainda perdida nos teus pensamentos sobre a razão das coisas, minha amiga?
Claro querido Tejo, ninguém me tira a ideia de que esse oceano que te abraça diariamente, é a razão da melancolia deste povo lusitano.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

secretíssimo, recôndito e encoberto

alfama, foto Luísa

Fui subornada, comprada e corrompida pela Luísa, embora a responsabilidade de cair na tentação seja toda minha, pois fui avisada entre parêntesis "a menina está à vontade e só responde se quiser", para revelar o mais secreto que há em mim, em troca deste prémio.
E seguem-se os meus segredos:

Mania: nunca sair de casa sem óculos escuros, inverno ou verão;
Pecado: gula, pois 'tá claro! Eu penso até, que na outra vida fui abade;
Melhor cheiro do mundo: os do campo no outono e os croissants da Bénard;
Se dinheiro não fosse problema: doava em causas humanitárias de apoio aos animais e à pobreza como esta do americano Greg Carr, no Parque da Gorongosa, e de apoio às mulheres subjugadas como esta, da Solar Cooking;
Caso de infância: nunca mais esqueci o dia em que pisei um caracol e ainda hoje, mal começa o tempo húmido, eu ando de olhos fixos na calçada aos saltinhos para me desviar deles e não interferir com as suas lentas passeatas. Se tiver oportunidade, vou-os apanhando pelo caminho e atiro-os para a relva, para mais ninguém os matar;
Habilidade como dona de casa: eu sou uma autêntica fada do lar, ah pois é, aqui ninguém me apanha em falta;
Não gosto de fazer em casa: limpar o pó;
Frase: o dia de amanhã ninguém o viu;
Passeio para o corpo: enveredar por caminhos inesperados, a meio de percursos previamente definidos. No fundo, a surpresa da descoberta inusitada;
Passeio para a alma: esplanar e fazer como a Luísa: subir e descer o meu/nosso Chiado;
Irrita-me: pessoas que não se desviam do caminho e se movem sempre a direito e aos encontrões nos outros e pessoas alucinadas, que andam a correr pelo supermercado e agarram no primeiro carrinho de compras que lhes aparece pela frente (geralmente o meu, descansado a um canto), fugindo com ele para a caixa, sem sequer olharem para confirmarem se aquelas são ou não as suas compras;
Frase ou palavra muito usada: no verão - Uma caipirinha, com açúcar amarelo, por favor, ou, Tem sangria?
Palavrão mais usado: Gaita e bolas.
Desço do salto, subo o morro e rodo a baiana: quando guio e deparo com a selvajaria da classe condutora;
Perfume: sou muito fiel aos mesmos há muitos anos e raramente vario, deve ser das poucas coisas em que não gosto nada de mudanças. No verão, Ô de Lâncome e no inverno, Pamplelune de Guerlain e Gucci II;
Elogio favorito: fico sempre muito pouco à vontade com eles, da mesma forma que também fico pouco à vontade com pessoas que fazem o inverso, isto é, que provocam os elogios, que se fazem a eles descaradamente, fingindo modéstia;
Talento oculto: eu sei cantar (sem modéstia nenhuma)!
Nem que fosse a última moda eu não usaria nunca: roupa transparente;
Queria ter nascido sabendo: falar todas as línguas.

E passo este questionário à minha querida e muito antiga vizinha, Blue Velvet, que julgo saber gosta muito de desafios e está a precisar de se distrair e alegrar um pouco. E ao também meu querido e antigo vizinho Paulofski, que anda a precisar de um empurrãozito nas letras.
Preguiças veraneias, é o que é!
E a música é para a Pitanga e para a Luísa, num dia especial.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo

Para quem o apreciava como talento indubitável que era, foi muito complicado gerir todas aquelas suspeitas e acusações de pedofilia, a aberração de algumas atitudes, as suas múltiplas excentricidades e continuar a manter intacta, a admiração pelo seu génio artístico.
Há um pequeno truque, que apesar de queimar na pele, se for conseguido até resulta: separar o homem do artista. Se assim não for, perder-se-á muito do talento da humanidade. A admiração que temos por alguém que leva a arte a planos do inatingível, implica grandes riscos e arcar sem pieguices com os pecados do artista; também eles muitas vezes incompreensíveis.
Ainda na semana passada, eu percorri durante duas ou mais horas os seus vídeos no youtube, com a Beatriz ao meu lado pasma de admiração, uau mãe, que pinta; excelente este passo; deixa-me ver outra vez o moonwalk; ele aqui ainda era tão bonito; e sabias todas as coreografias?; mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo.

Ontem a Beatriz ficou tão triste como eu e eu ..., eu voltei a ter treze anos.
Depois da morte, espero que a excelência do seu talento, a renovação e a inovação que trouxe à pop e a magia do seu trabalho que tivemos o privilégio de testemunhar, sejam sempre recordados quando se falar do Michael Jackson artista.
O Michael Jackson homem já foi acusado, julgado e condenado e ainda o será, para quem acredita no julgamento divino, que não é de todo o meu caso.
Mas cenas do outro mundo, foi mesmo o que ele nos deu, principalmente nos anos 80 e 90.
Ícones destes são perpétuos, como Elvis, Sinatra, Lennon e Freddie.

E ele não é só do meu tempo, Beatriz. Vai ser do tempo de toda a gente.


foto daqui

De fundo, não a mais inovadora, mas a minha música preferida, Dirty Diana

quinta-feira, 25 de junho de 2009

eça no feminino


Ontem sabia que a tarde ia ser difícil; já estava prometido há mais de um mês, três horas de martírio na cadeira da minha querida dentista.
Lá fui eu, qual miserável a arrastar-me pelo passeio, com o pensamento fixo em anestesias azedas, brocas e broquinhas, espátulas, espelhos, aspiradores ruidosos, moldes coloridos, ceras quentes, simpósios, segundas opiniões e sempre de boca bem aberta, com dois pares de olhos em cima.
Enfim, tudo passou e já eram seis da tarde quando saio do Instituto de Implantologia, assim com a boca meio de lado num grande reboliço interior, mas que felizmente de fora mal se notava e se não a abrisse para falar com ninguém, a coisa até correria benzinho... e se eu ainda desse um saltinho ao Chiado, à Bertrand, para ouvir a Maria Filomena Mónica e o Eça?
Eu merecia uma recompensa, ainda para mais inesperada, depois de toda aquela invasão metálica na minha embocadura e fui e fui mesmo, de cara à banda e tudo.
As pessoas que dizem o que pensam frontalmente, sempre me atraíram, mesmo que discorde totalmente delas. Geralmente caracterizam-se por um certo pessimismo, antagónico à minha maneira de ver o mundo, mas não deixam por isso de ter razão na maior parte das vezes em que fazem as suas apreciações.
A Maria Filomena Mónica é um desses casos; extremamente crítica da nossa sociedade, talvez pouco crente no género humano, tuga principalmente, mas sempre certeira, incisiva, mordaz e com um sentido de humor irónico, por vezes cínico, de que eu sou fã; no fundo, ela tem um grande pedaço de Eça dentro de si.
São de um enorme rigor e de um trabalho genuíno e muito profissional, as suas várias biografias e os seus livros de retrato da sociedade portuguesa, mas é ouvi-la falar, ler as suas crónicas e os seus livros mais pessoais, como "Vida Moderna", "Os Sentimentos de uma Ocidental" e o corajoso autobiográfico "Bilhete de Identidade" que mais me delicio e ontem, no pouco tempo que durou esta apresentação alterada, da 5ª edição da biografia do Eça (que eu ainda não possuía), não foi excepção: igual a si própria.
E já comecei a ler, claro está.

fotos minhas
Sobre a obra, vão ao blog da Quetzal, aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2009

locais no avesso de nós


Por vezes, muitas vezes mesmo, viver não será somente nascer, existir e desaparecer.
Há tantos lugares em nós a despertar todos os dias...
Lugares que envelhecem, os que desaparecem, outros que apodrecem, aqueles que amadurecem e a maioria que simplesmente renasce.
Pena é, que pouca gente repara nisso. Em si própria; e quando o faz já há tão pouco para renovar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

verão em lisboa I

foto luís ponte

Em Junho, quando terminavam as aulas, por vezes não tomávamos o pequeno-almoço em casa e de mãos dadas combinadas com muita conversa, estórias de pai que entravam nos meus ouvidos para nunca mais saírem e porquês cheios de curiosidade, descíamos a pé a Avenida pelo passeio do Tivoli. Momentos antes cumprimentávamos o Garrett e o meu pai dizia, um dia vais saber tudo das viagens da terra dele. Adivinhou.
A meio caminho, atravessávamos para o outro lado e quando chegávamos perto da Praça da Alegria, aqui foi...já sei pai, foi onde conheceste a mãe e depois passeavam no Jardim Botânico.
Baptizávamos os patos, dávamos pão seco aos pombos e eu contava pelos dedos da mão, a quantidade de pessoas a quem ele dizia bom-dia, até chegarmos ao Rossio.
Comíamos na esplanada da Suíça; torradas aparadas, chá fresco com limão e café de saco para ele. No fim, o prémio incongruente do qual trago o sabor na boca até hoje, impróprio para uma mãe, mas digno de um pai que se preze: um gelado de máquina, morango e baunilha, que descia numa perfeita espiral dançante até ao cone fino de bolacha estaladiça, terminando numa ponta finíssima em caracol. Lembram-se?
Depois de almoço posso comer o de chocolate? Claro que podia!
E as perfumadas velhas da mesa ao lado, com cabelos enlacados de um encantador branco-lilás, olhavam-no de lado e escondendo-se atrás de leques rendados, com desenhos de sevilhanas vestidas de bolinhas pretas, cochichavam entre si, parece impossível!
Ele ria-se, piscando-me o olho; rasgava-me as 7 Diferenças do jornal e voltava à leitura do seu Diário Popular, enquanto lhe engraxavam os sapatos.
Eram os melhores pequenos-almoços do mundo, tinham o gosto do proibido e um toque de segredo totalmente interdito de ser revelado, nunca digas à mãe que comes gelados ao pequeno-almoço.
Prometo.
E até hoje nunca disse.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

vírus* num blog sério e familiar #6


Bom fim-de-semana!
(agradeço que não revirem com muita violência e sofreguidão o pescoço do rapaz)

* ainda bem que comprei pomada voltarene

quarta-feira, 17 de junho de 2009

biografias # 4


Aurélio Madeira ganhou o vício do palitamento em equilíbrio na beiça grossa, com o pai taberneiro e desde o primeiro momento em que este o autorizou a colocar estrategicamente o dito ao canto da boca, Aurélio Madeira nunca mais o largou.
A tradição era já ancestral; sempre conhecera o seu pai no domínio perfeito da técnica da palitagem, tinha ainda vagas memórias fumarentas da boca do avô, onde palito e cigarros enrolados, conviviam primorosamente controlados com perícia e sabia de cor a árvore genealógica, com mais de 180 anos, da arte de palitar dos Madeira.
Quando chegou o seu grande dia, anda cá Aurélio, toma lá o teu primeiro palito e estima-o como a um filho, disse-lhe o pai comovido, ainda com as palavras do seu próprio pai presentes na memória: tens de morrer com um palito na boca!
Apesar de vários anos de observação meticulosa, a coisa não foi assim tão fácil como parecera. Primeiro teve de sofrer um pouco, até conseguir acamar o palito e reservar-lhe lugar numa fenda da gengiva. Demorou uns tempos para vincar essa brecha sangrenta, mas finalmente fixou o palito na abertura da pele, no canto extremo direito da boca.
Depois deste saber o seu lugar, foi a vez de aprender a manusear o fiambre, isto é a língua.
É que aquilo não era só chegar ali, fixar o pedaço de madeira e vamos embora com a dança. Nada disso, um verdadeiro expert do palitamento teria de aparentar uma certa descontracção no seu manejo; enquanto comia; nas conversas; durante uma bebida; a dormir, até! O segredo estava na manobra da língua, era ela a ágil alavanca, a grande aliada de todo o processo de palitagem na família Madeira.
O mais complicado para Aurélio, foi mesmo dominar a técnica da conversa e em simultâneo, prender o palito ao canto da boca, sem que este nunca se desviasse da fenda gengival, conseguida à custa de muito sacrifício, dores e cicatrizes. Mas uma vez conseguido, não fosse ele um Madeira legítimo, tudo iria correr sem percalços. E foi o que aconteceu.
Com os anos, o branco da boca passou a amarelo tabaco, as gengivas escureceram, exibindo várias tonalidades do espectro, que iam do violácea ao cinza escuro, passando pelo laranja ocre, e um hálito poderoso já há muito se entranhara nas paredes da taberna, deixando Aurélio Madeira rejubilando de orgulho.
Era uma questão de imagem, de honra familiar, de dignidade histórica! Todos os Madeira morreram fétidos e contaminados pela lei do palitar e ele não seria diferente.
Aliás, até desconfiava que um nível de putrefacção como o dele, nenhum antepassado tinha atingido.
E soube que tudo correria bem e que a sua hora se aproximava em glória, quando vieram as cáries nascidas dos petiscos da taberna; as lascas dos pastéis de bacalhau ficavam presas nos entremeios do esmalte da dentadura e aí apodreciam; pequenos fragmentos de casca de azeitona verde, aninhavam-se nos buracos da dentina exposta e por lá fossilizavam; minúsculos ossinhos, quase microscópicos, de passarinhos mortos com a pressão de ar, esventravam a fenda da gengiva descendo até à raiz; pedaços de suculento torresmo mal mastigado, acamavam e abcessavam virulentos; gordurinha excedente das moelas e dos pipis, iam preenchendo os espaços livres deixados por dentes em falta, originando em toda a placa bolinhas de matéria purulenta, pequenos quistos ensanguentados e uma ou outra larva mais atrevida e perdurável.


biografia #1, biografia #2, biografia #3

segunda-feira, 15 de junho de 2009

missão: personagens II


Oh Célia, não há de frango, queres de atum? Incomodou-me uma voz varonil a berrar.
'Na gostas? Olhe então são só duas bejecas fresquinhas, fáxavor.
Quero desde já deixar bem claro, que eu não estava em missão de descoberta de personagens, nem nada que se parecesse. Encontrava-me sim, na esplanada da minha praia num fim de tarde aprazível lendo o meu admirável Tchékhov e só desejava mesmo, sossego e pouca distracção.
Pois, tenho destes desvarios, gosto de ler os russos no verão. Deve ser a melancolia do frio que tanto aprecio. Ninguém é perfeito. Adiante.
Encho-me de vergonha e aceito a punição, mas nem o puro realismo contido nos contos de um génio como Tchékhov, fez com que me abstraísse daquele, Oh Célia, vociferado com poder másculo.
Do gelo de Moscovo, incisivo e letal, salto de imediato para um não menos fatal calor ibérico, mais propriamente na Caparica, que queima como tições cozinhados em labaredas. O contraste foi brusco, mas não tive outro remédio senão adaptar-me rapidamente. Precisava de conhecer a Célia.
Pousei o meu clássico na sombra e enquanto lhe fazia festas, prometendo que a ele voltaria mal tivesse oportunidade, escorreguei ligeiramente pela cadeira, baixei os óculos escuros e coloquei-me em posição de vigilância.
Como que desmaiada de barriga para baixo, à sombra de um multicolor guarda-sol que exibia gratuitamente as letras garrafais cor-de-laranja, Trifene 200, encontrava-se a Célia. Sem demora, juntei-lhe um segundo nome próprio para ficar mais compostinha: Gorete. Célia Gorete e por favor pronunciem com acento no primeiro o: Gó-re-te!
A tatuagem arrogante de caracteres celtas, ou hindus, ou cirílicos, ou chineses ou lá o que raio era aquilo, desenhada primeiramente ao nível dos rins, já vira melhores dias. Também as leis da física, com o correr dos anos haviam sido fatais para Célia Gorete. Os refegos cilíndricos, assim como as pregas nascidas pós-tatuagem devido aos abusos de uma nutrição irresponsável, provocaram dilatações no corpinho, fazendo espalhar o desenho que escorregava agora ao longo do pneu sobejado.
Perante tal visão, encolhi os meus abdominais e prometi a mim mesma, talvez pela décima quarta vez, que era desta que largaria a droga; os chocolates, diga-se.
Entretanto, o par de Célia Gorete, um cepo robusto esculpido numa peça única, bronzeado o ano inteiro e coberto de pêlos género matagal intenso, a quem baptizei sem hesitações de Leandro, já se dirigia direitinho ao guarda-sol, onde a sua sereia o aguardava necessitada de beber.
Pôs-se a jeito para o repasto, largou a Nova Gente, sacudiu a areia da toalha e finalmente expôs o figurino para satisfação de gente indiscreta como eu, cujo interesse como sabem, era da mais pura investigação, não deixando também de atiçar outros desejos masculinos, bem menos prosaicos que o meu.
Não vale a pena pôr-me com coisas, mas verdade seja dita, lá que a rapariga era maciça, ai lá isso era. Ignorando o aviso dos michelin laterais, que nos calham a todas se não tivermos juízo, a alvenaria dela era cheia e sólida. Uma massa compacta bem torneada sob alicerces consistentes, quase inabaláveis que tinham término nuns pés nédios de unhas de tom escarlate, capaz de fazer corar o manto rubro de um qualquer pastor da igreja universal.
Deixando de lado o palavreado alambicado, assumo a gíria de uma vez por todas e para que ninguém fique com dúvidas, Célia Gorete era acima de tudo aquilo que se chama, uma grande cavalona!
Só lamento não ter enxergado com o devido rigor, o modelito da tanga que envergava. Mas era tão demasiadamente reduzido e escondido entre as bochechas dançantes, que só lhe percebi o padrão: tigresse.
Houve até um senhor, coitado, que ficou com os glúteos da rapariga fixos na pupila, que teimavam em não se descolar. Ainda estive mesmo para o ajudar e dizer-lhe, o senhor desculpe, mas tem o biquíni da Célia Gorete dentro do olho e se ali o cepo do Leandro vê, não há-de ficar lá muito satisfeito.
Mas calei-me, os clack-clack dos fechos da lancheira fluorescente do parzinho, estrondeavam no areal, chamando-me de novo. E ele era gordas coxas de frango, louros rissóis de camarão, pála-pála das onduladas, suculentas talhadas de melão que se colavam aos dedos e o cacho portentoso de belas uvas brancas, cujas grainhas eram cuspidas com destreza para a areia em brincadeiras parvas de namorados, provocando-lhes sonoras e impudicas gargalhadas, mas tremores no meu
Tchékhov.
Enjoei confesso e a minha saudável garrafa de frize limão encolheu-se de recato, sentindo-se como ré perante aquele repasto, onde não se admitia qualquer carência de nutrientes.
Resolveram depois ir a banhos, não sem antes Leandro exibir um mergulho acrobático perante as hostes adeptas do passeio à beira-mar e molhar Célia Gorete, que largou um estridente, ai que estúpidoooooooo!
Entre gritinhos histéricos de ais e uis, frases assustadoras como, olha o tubarão, vou-te papar, anda cá minha patanisca e oh parvalhão já te disse para me deslargares e anda masé espalhar-me o creme nas costas, dei por concluída a minha missão e propus novamente deliciar-me com o
Tchékhov.

Encontrei-o amuado comigo e com menos falas que o costume. Fingi não perceber o seu ciúme, nascido da atenção que dei à Célia Gorete e ao Leandro e ignorei as acusações que me fez, à medida que eu avançava nos seus contos: que eu exagerava na adjectivação, nas metáforas e nas comparações e que nos meus textos me perdia na ironia, descambando por ai abaixo demonstrando uma total falta de imparcialidade. Uma reles emotiva, era o que eu era. Uma total ignorante do verdadeiro realismo.
Disso já eu sabia, não me deu ele nenhuma novidade, sou mesmo assim um pouco para o exagerada. Mas continuei a lê-lo calada, como se nada fosse e a pouco e pouco sossegou, permitindo que me perdesse novamente nas suas palavras absolutas, na sua escrita única, sem excessos, sem interpretações, sem críticas inerentes ou pareceres coniventes.
Uma escrita que à primeira vista parece não possuir quase nada, mas que afinal tem tudo, escondido atrás de uma subtileza ímpar.

E o perfume a óleo de coco foi-se dissipando pelo ar ...

terça-feira, 9 de junho de 2009

coisas de miúdos


Pisos anti-choque com sistema de amortecimento de quedas, materiais sintéticos, vedações, capacetes ergonómicos, cotoveleiras, joelheiras, caneleiras. Não existem joelhos arranhados e pinturas tribais desenhadas a mercurocromo, já ninguém parte a cabeça, esfola o queixo, raspa os cotovelos, exibe lindas e coloridas nódoas negras ou tem galos na testa. Raramente se vêem pensos rápidos, ou se ouvem gabarolices de pontos cosidos a frio.
Uma monotonia.
Agora já não há baloiços de madeira pendurados em elos de metal ferrugento, rangendo de sofrimento num ritmo exacto, que nos conduziam direitos ao céu e nos devolviam de regresso à terra. Deixavam-nos as palmas das mãos cor-de-laranja de ferrugem e cheias de calos orgulhosos.
Baloiçávamo-nos num tal para cima e para baixo, em velocidades galopantes que exigiam gritos estridentes de prazer, onde era tão fácil imaginar que seria mesmo possível voar. Bastava soltar as mãos das correias, lançarmo-nos para a frente, acreditar, conceber e sobretudo sonhar.
Não voaram tantas vezes assim?
Que pena aos nossos filhos já não nascerem asas.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

guilty pleasure II

Olá, o meu nome é Patti e não fumo há dois anos.