terça-feira, 27 de outubro de 2009

[16] boa semana

Eram cartas escritas para dizer que estava vivo, precisava de fazê-lo, de escrever todos os dias para saber que tinha sobrevivido mais uma vez; não podíamos sequer colocar o nome da terra onde estávamos para não dar a conhecer aos do outro lado a nossa localização.
(uma longa viagem com ALA, de joão céu e silva, 09)


Eu sei, já tem quatro anos, mas tem-me valido nalgumas noites brancas de insónia. Apesar da sensação de intenso voyeurismo que sempre me invade, quando o folheio com um imenso pudor.
No mínimo comovente. No limite perturbante. E no íntimo tem muito do António de hoje, mesmo que ele o negue.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

dormir ao contrário


Uma semana, três insónias. Nem os carneiros contados me têm querido valer; ridículas ovelhas tosquiadas muito enfezadas, ovelhas tresmalhadas, ovelhas negras e ovelhas ronhosas a balir. Houve um pouco de tudo, saltando a custo velhas cercas tão ansiosas de descanso quanto eu. Mas aos carneirinhos gordos e alvos, pulando em fila, nem vê-los.
A insónia não passa de uma armadilha de desespero, com cara de falsa calma branca, iludindo-nos nos seus primeiros momentos numa espécie de sugestão à meditação. Leva-nos ao despertar total, forçando-nos a colorir o sono que não vem, com as tonalidades que nos esquecemos de pintar a vida durante o dia. Perdemo-nos em pensamentos, criamos olheiras lívidas e pregas fundas em lençóis de angústia acordada.
Fecho os olhos com força para não despegarem, na esperança vã de guardarem o sono lá dentro. Aferrolhado, preso no intrincado curvo das minhas pestanas, cosido na linha escura da noite. Mas não há forma, a insónia é matreira como aqueles livros maus de capa bonita, que nos forçam a ficar agarrados até à ultima página, numa interrogação aflita de sabermos quando vamos
finalmente começar a sonhar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

crónicas de graça #2


Hippies e Yuppies

No meu tempo fui hippie. Acreditava que o amor tudo podia, que a guerra era o grande erro do homem, a paz a sua salvação e a liberdade, a sua maior conquista. Confiava na não-violência, no amor livre.
E não, o meu mundo dos 60's e 70's, tinha muito pouco de cor-de-rosa, engana-se quem assim o julga. Na Europa imperavam ditaduras obsoletas, o mundo vivendo uma coexistência pacífica durante uma guerra fria, receava um terceiro grande conflito mundial, conservava-se a espada de Hiroshima sobre as nossas cabeças, desconhecia-se o avanço do poder nuclear, mas aqui e ali ouvia-se falar de experiências atómicas no pacífico, praticavam-se diferentes regras sociais entre pretos e brancos e o apartheid, era aceite como algo absolutamente normal. As duas super potências, estendiam viscosamente os seus longos tentáculos até ao fundo da litosfera, dominando, ora disfarçada, ora abertamente, o mundo de então.
Com 19/20 anos nada podíamos fazer, mas tínhamos fé, usávamos a voz, o corpo, a nossa imagem. Possuíamos uma fome intelectual insaciável, acreditávamos na força da música, na palavra dos poetas, na realização de sonhos e exigíamos um futuro diferente.
Verdade será também, que vivíamos existências por vezes psicadélicas, praticávamos actos de loucura inconsequente, tínhamos visões utópicas para o futuro e defendíamos anarquismos impraticáveis. Mas sempre fomos participantes, poucos se demitiam do seu papel de cidadãos do mundo, abraçávamos as causas do nosso tempo, criámos
um símbolo da paz, contestámos os valores tradicionais da nossa sociedade, fizemos frente ao poder económico, militar e político. Vivemos de forma intensa aquele tempo, que era o nosso. Peace and Love. Make Love not War. Flower Power.
Depois fui assentando, casei com um homem quimérico igual a mim e tive um filho, que entreguei aos 80's.

No meu tempo fui yuppie. Depois da licenciatura e da pós-graduação numa universidade impactante, acreditava na bandeira hasteada do sucesso da carreira, na ambição profissional para escalar o organograma empresarial, na competitividade das corporações, no rápido enriquecimento e quem sabe, usufruir alguma vantagem dando um saltinho pela política. No meu special way of life, havia espaço para toda uma parafernália de prazeres materiais que me atribuíam status pessoal. Fato no alfaiate, monograma na camisa, botões de punho, o aparato do primeiro telemóvel, um carro deixando lastro à sua passagem, apartamento design, a ostentação das marcas na roupa casual. O golfe, o squash, o clube, o sushi, o bar da moda, a assinatura anual de uma importante revista empresarial estrangeira.
Não foi fácil. Tivemos de escalar bastante nesta busca desmesurada para alcançar o sucesso, lutar contra aquelas ideias tontas do saber, da ética e dos valores retrógrados. Insanidades ultrapassadas, de que os fins não justificam os meios e ingénuos delírios de que bastava ser e não parecer. Absorver ao limite todas aquelas normas de conduta na sociedade, invisíveis e em nenhum lado escritas, mas onde não se permitiam falhas, percalços ou um ínfimo deslize.
É um facto de que envelheci cedo, o tempo contado ao segundo, o stress causado por esta forma de manutenção da vida, o cansaço mental e físico para manter este estatuto a funcionar, sem intervalos ou descanso. A família onde não investi.
Depois fui assentando, casei com uma mulher carreirista igual a mim e tive uma filha, que entreguei ao segundo milénio.

No meu tempo não sei o que sou. Sinto muito poucas certezas, possuo uma infinidade de questões e dezenas de dúvidas. Não tenho por que lutar, não vejo por onde seguir ou para quê me esforçar.
Tenho avós que transportam em si histórias devaneadoras e uns pais, que me impressionam de sucesso e dinheiro. A avó, diz que hoje não sabemos como se sonha, o pai pensa que somos uns desinteressados e eu, que vivemos desapaixonados.
O ambiente existente é contraditório. Tanto se fala do facilitismo presente, como de um futuro sombrio, que todos os jovens são admitidos na faculdade, mas que só poucos conseguem um emprego promissor, que hoje temos acesso a toda a informação, à internet e ao mundo, bastando tocar numa mera tecla, mas mesmo assim seguimos indolentes e insatisfeitos.

O pai oferece-me mais um gadget e que falamos mais tarde, o que nunca acontece. A avó zanga-se comigo, dizendo que provavelmente a culpa não será toda nossa e que somos uma geração que podia ter o mundo nas mãos, mas que desperdiça um tempo precioso no vazio. Enfiamos a cabeça na areia que tem aspecto de ecrã. Ecrã de televisão, de computador, de consola, de telemóvel. Não entende a nossa apatia, diante este presente tão cheio de problemas como as questões ambientais, a fome no mundo, o envelhecimento da população, a crise geral; esta chata palavra crise; palavra curta mas que repetida até ao infinito se alonga, e alonga, e alonga pelos meus dias.
Parecemos fingir que tudo está no bom caminho, apesar de o sabermos falso, e podemos por vezes parecer ignorantes, mas não o somos. Todos nós escutamos palavras-chave como endividamento, desemprego e despedimentos em massa, falências, corrupção, pobreza crescente, pensões miseráveis, infindáveis listas de espera nos hospitais, medicamentos caros, políticos pouco credíveis...
Talvez um dia eu assente e case com alguém desmotivado igual a mim, mas não sei se terei filhos. Para os entregar a quê?


O que dirá o meu querido parceiro, que talvez tenha vivido alguma destas experiências na primeira pessoa?

Crónicas de Graça #1

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

e veio finalmente

E as camisolas brancas que fazem ninho gordo no pescoço, e os botões apertados até acima, e o chocolate quente na chávena da esplanada, lento e pastoso como aqueles sonhos que se arrastam e não querem despertar, e o frio friccionado na palma das mãos, e as castanhas assadas pelo ar, e os termómetros que cosemos ao corpo em camadas fofas de lá, e o encarnado do chão que fica bem ao amarelo do céu, e o gastar de luz espargido por todas as sombras baixas?
E o rumor que chega das árvores? Foi num dia de outono, que as árvores aprenderam a falar.


E amanhã não esqueçam as Crónicas de Graça.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

[35] há coisas fantásticas, não há?



Imaginemos que todos as nossas escadarias, serão um dia também assim...

(E sigo com problemas na net...).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

quem é amiga, quem é? #4

Comecem lá a semaninha, pondo à prova o vosso português neste teste online. É provável que possam vir a ter algumas surpresas, eu tive dúvidas em duas ou três questões.
Deixem os vossos resultados na caixa dos comentários.
'Bora, é só clicarem na foto.

(Estou com problemas na net, vai ser difícil esta semana, ser assídua nos vossos blogs).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

vírus* num blog sério e familiar #8

foto raoul bova

Bom fim-de-semana!
(Quietas. Tirem os dedos, ele é mesmo assim; despenteado.)

* alguém me vê uns sais de frutos, é que com este calor...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

blog action day


Ele propôs e eu aceitei.
A Blog Action Day é uma iniciativa em toda a blogosfera, que pretende alertar para os problemas ambientais e a minha contribuição, muito insignificantezinha eu sei, é o seguinte truque. Nem sempre as descargas que fazemos no nosso autoclismo, são as necessárias, desperdiçam-se muitos litros de água. Às vezes, só por causa de uma bolinha de algodão, lá descem 5L.
Experimentem colocar no reservatório de água do vosso autoclismo, uma garrafa plástica de 1,5L de um refrigerante, que para fazer peso e assim reduzir o espaço, deve estar cheia de água.
Ao diminuirmos a capacidade de armazenamento de água no depósito, poupamos por ano uns bons litros ao planeta azul.
Ah e as descargas dos futuros jactos de água, continuarão a ser mais do que suficientes, para que tudo siga ligeiro e flua pelo cano abaixo, se é que me entendem...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

no confessionário aos 40 #3


Aquela que de mim já é mulher, põe-se muitas vezes a reparar na outra eu que ficou criança. Recorda com desejo o jogo do elástico, o toca e foge, a mamã dá licença, o jogo das estátuas e o prego na praia. Dos oito saltos da macaca, desenhada a laranja tijolo no alcatrão da rua sem carros e dos concursos do festival da canção, onde a música vencedora era sempre qualquer uma dos greenwindows.
Refrescos de capilé e groselha, carcaças com açúcar e manteiga, papas de banana com bolacha maria e sumo de laranja, bigodes de leite.
Comida de mãe e colo de avós.
Bonecas e bebés-chorões, panelinhas de alumínio e jantarinhos com massa estrelinha, que obrigava o meu pai a comer. Os pais homens gostam muito de ser pais de filhas cor-de-rosa nuvem, amarelo pintainho, branco piquê e azul xadrezinho. São pais que lhes nascem punhos de renda, logo a seguir aos pulsos fortes.
A eu já adulta, agradece à eu criança a fortuna herdada. Que nunca terá preço.

domingo, 11 de outubro de 2009

aqui pelo meu bairro #4


Quando chega a estação do outono, começo a ficar entristecida. Vêm-me à memória aqueles últimos dias ensolarados em que o meu Alfredo se foi de vez; ai homem, tanta falta que tu me tens feito. Fomos tão felizes, não fomos, filho?
Lembro-me como se fosse hoje, aquela tarde no jardim do Torel onde me pediste em casamento, roubando uma rosa amarela ao canteiro e o velho jardineiro furioso, a ameaçar-te com o cabo da enxada e gritando, fora daqui rapaziada danada.
Alugámos esta casinha na Graça, porque tu disseste que a varanda das traseiras era uma maravilha. Podíamos acender um fogareiro à vontadinha e fazer umas belas sardinhadas no verão, febras e entremeadas e assar pimentos para a salada.
Ai Alfredo, e quando tu encheste a parede da varanda, com aquelas andorinhas de louça preta? Toda a vizinhança nos imitou, não podem ver nada que logo se põem com ideias e ainda hoje são assim. Ele há coisas que nunca mudam.
E a decoração da nossa casinha, lembras-te homem? As nossas idas e vindas ao braz e braz e à polux, eram uma grande alegria que me davas. Gasta à tua vontade Amélia, escolhe o que quiseres, para a nossa casa só do bom e do melhor, minha rainha.
E lá seguia eu orgulhosa, elevador acima, elevador abaixo, sobre escada, desce escada, carregada com o serviço de pirex, novidade daquele tempo, branco com florinhas azuis. Ainda me restam dois pratos de sopa, tenho-os ali debaixo dos vasos das sardinheiras, na marquise das traseiras.
Recordo-me tão bem das panelas de esmalte turquesa com riscas coloridas e até me fizeste um escaparate de madeira, para eu as expor na cozinha. O que a Otília do talho se roía de inveja, como o meu moderno trem de cozinha.
A nossa sala também era muito jeitosinha; os sofás de madeira forrados de napa bric, naperons cremes que a tua tia Carmélia nos ofereceu, alinhados na cabeceira e nos braços para os proteger do desgaste, o luxuoso desfile de tapetes, tapetinhos e tapetões floreados de verde pinheiro, para lá de sete ou oito, que mais pareciam uma colecção de selos e que se espalhavam até à passadeira do corredor, os pretos da Guiné que trouxeste da guerra, os meus livros da Modesto e o Pantagruel da minha madrinha, as crónicas femininas na cestinha de verga, sempre à mão, a tua colecção de pacotes de açúcar, canetas bic e caixas de fósforos, tudo alinhadinho dentro da cristaleira e protegido do pó, junto dos cálices de bagaço da Marinha Grande, o cão de louça branca, o quadro de perfil da senhora de vestido cor-de-laranja, a ler um livrinho ...
E a mobília do quarto, Alfredo? Madeira lacada e luzidia, último grito dos Armazéns Peixoto, com as mesinhas-de-cabeceira embutidas? Um luxo.
Lá continua, o nosso leito, sentindo todas as noites a falta de ti, homem. Quando ao anoitecer retiro a sevilhana do centro da cama e puxo a colcha de cetim branco-noiva para trás, aquela grande cheia de folhos farfalhudos que comprámos na lua-de-mel em Badajoz, dizia eu, que quando abro a cama Alfredo, e vejo as nossas duas fronhas juntas, juntinhas, até as bolinhas pretas do vestido da espanhola empalidecem, e o meu coração solitário rasga-se ao meio, saltando-me de lá, sobrecarregada de espinhos sofridos, a rosa amarela do Torel, murcha, murchinha ... a pobrezinha.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

crónicas de graça #1


O Tejo

Diz o Tejo, que anda triste a enlutar o leito de cinza-negro, quando se aproxima do mar para morrer. Já vem assim, entornado e vago, desde muito antes das colunas do cais. Há até quem jure, que o viu na mouraria num lamento pesado, porque há muito que não se escutam as guitarras e as vozes que lhes fazem companhia.
Diz o Tejo, que antes enterrava-se ali muito mais feliz, sem pó nem cascalho, estaleiros, guindastes e contentores, sem homens de costas interminavelmente voltadas para si. Já não sente a mesma vontade de se amadurecer, espalhando-se pelo mar da palha; queixa-se que lhe tirámos os peixes, os golfinhos, até as aves e que em troca o sujamos, o sovamos, o esquecemos.
Eu vou-o escutando, os velhos precisam de investir as memórias em nós, os que ficamos a assistir ao que vai sobrando.
Diz que à noite tem chorado pela mãe, Albarracín.
Sente falta das brincadeiras infantis, quando descia a serra materna a toda a brida, pulando em sulcos e fendas, em desníveis de relevo, levando atrás de si calcário, margas e arenitos que se soltavam com a sua força.
Lembra-se saudoso do encontro com o seu primo direito, Hoz Seca, o primeiro parente a afluentá-lo na sua foz, que o abraça com um emocionado caudal, maior que o próprio Tejo. Nisto, obriga-o a descer na galga, por pronunciadas gargantas encravadas na paisagem órfã de gente. Ao fundo, ainda consegue vislumbrar Guadalajara que lhe acena abalada com a violência do seu percurso; é natural, quase que o viu nascer.
Ali perto, sente-se protegido, valorizado pelas margens bordadas de uma flora rica em pisos bioclimáticos, pelos pinheiros, azinheiras, carvalhos-portugueses e juniperus.
Mais abaixo, quando gira bruscamente, outros rios-primos se aproximam e o afluem, elevando-lhe a altitude orgulhosa. E ufano, gargalha para mim.
Não se incomoda nada de derrapar nas mãos-cheias de barragens, que lhe peiam o caminho e lhe diminuem a cota, pois está a chegar a Aranjuez! Visita o Palácio Real e não se cansa do o fazer de todas as vezes. Repousa o leito estraçoado das linhas do caminho, numa albufeira seiscentista e empurra o caudal para os campos, para as culturas; oferece-se ao povo que o recolhe. No final do dia, o vaidoso, ornamenta em silêncio vegetal as magnólias dos Jardins de Aranjuez. E adormece, verde-claro, com a cadência mágica do pulso allegro e adagio, de Rodrigo na guitarra.
O sol já vai alto e núbio, quando o Tejo parte. Deixa-se levar pela corrente fluvial, pois há que beijar ainda a visigótica Toledo e numa postura monumental, atravessar-lhe as pontes. Diz-me que rio sem pontes, não chega nunca ao mar.
E já segue o meu Tejo a caminho da maioridade, ora girando para oeste, ora para este, recolhendo à esquerda e à direita outros rios que o inclinam, que lhe alteram a direcção, que lhe indicam o rumo, virando-lhe o sentido agora novamente para oeste; rios grandes e pequenos que lhe vão incrementando o caudal e aliviando o peso, às vésperas de inaugurar a estremadura caceriana e os descendentes de Moctezuma.
E lá vem ele, desarvorado por ali afora, para junto de nós povo luso, já de cota baixa, baixa ...
Passa pela velha de Rodão e inclina-se paralelo à beira mais baixa, seguindo para Belver onde a barragem o trava pela enésima vez. Em Abrantes saboreia a palha doce que lhe adoça o meandro em volta da colina da cidade, aguardando o Torto que se lhe junta pela esquerda.
Revela-me que ama profundamente, do fundo das suas águas sombrias, o seu primo Zêzere, grande contador de estórias e aventuras viriáticas. Pândego rio aquele, que o acompanha em noites de insónia; dois velhos que se apoiam um no outro, naquelas horas que já dispensam ao sono. Por isso, vê-se e deseja-se por chegar a Constância, ansioso pelo reencontro. O abraço é indefinível e sentido na pintura de Malhoa.

foto minha

Juntos partem para as muralhas medievais de Almourol, onde o cruel D. Ramiro foi alcaide. Depois de Aranjuez, é aqui onde o Tejo mais almeja repousar. Ignora a maldição do lugar e assiste nas noites de S. João, ao reaparecimento do abraço enamorado do mouro com D. Beatriz, no alto da torre do castelo. Trata-se de um romântico incurável, este rio.
Torna-se apaixonadamente raso, flutuante; mais parece uma ribeira-criança onde rãs se escondem nas pedras e pulgas de água saltitam, deixando para trás perfeitos círculos desenhados sem o auxílio equidistante do compasso. É o meu Tejo perfeito, aquele ali azul-claro, que se queda rente às minhas mãos.
Gosta de se anoitecer em águas de Santarém, prefere lá chegar de noite para assistir à festa dos toiros; é um aficionado, pois então!
Os últimos momentos de prazer vive-os em Alcochete, onde exibe com orgulho um estuário protegido legalmente, repleto de zonas húmidas, ilhotas, lodo, salinas e terrenos agrícolas. Banha-o num cumprimento emotivo, o último. Depois dá-se Lisboa e a conversão em rio-mar.
Mas Tejo, digo-lhe eu admirada, desconhecia esta tua agonia em desaguar na capital.
Baixa-me os olhos de espuma, no momento que atravessa a ponte de Abril e em tom salobre revela-me, são as gentes que se alteraram, já pouco falam ou riem, não se acometem ou arriscam sequer. Sinto falta daqueles outros homens, do audacioso e jovem Vasco, do João, dos Pedros e do Henrique sonhador. Já são muitos séculos a observar este povo que não se chega à margem; à minha, à deles. A nenhuma.
Ou então é de mim, nostalgia minha, já não sei ... pensava ser solamente del salero y de luces, mas não, não sou.
Sou do fado...


E agora, o meu querido parceiro destas crónicas quinzenais, oferece-vos de graça o seu Douro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #3

Vocês tomaram atenção nisto, não sei quê, não sei quê de um grande evento no meu blogobairro? E depois nisto, a dizer que algumas sextas-feiras vão ser diferentes, de novo no meu blogobairro? E agora isto, zappings e blogocomandos?
Mas o que é que ele anda a tramar para as sextas? Não me digam que o senhor CBO quer fazer concorrência
aos magníficos vírus quinzenais, aqui do meu Ares!
Eu sou a PresidentA deste blogobairro e não fui tida nem achada. Isto não fica assim e os meus impostos, o iva, o irc, as gorjetas, as luvas e o meu saquinho azul, como é que é, oh senhor Rochedo? Vamos lá a ver, vamos lá a ver...
Blogobairrenses, todos em estado de alerta nesta sexta! Estais avisados.

Ass: A PresidentA

terça-feira, 6 de outubro de 2009

no confessionário aos 40 #2


Tenho andado de uns tempos para cá, com carteiras cada vez maiores. Cabe-me grande parte da vida lá no fundo e sinto-me precisar cada vez mais de andar com ela atrás. Não que receie que algo me fuja de repente, assim sem eu contar, mas com a vida nunca se sabe. Daí que prefira carregá-la em desafogadas bagagens de mão.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #2

lagos, foto minha

A Associação Zooófila Portuguesa lançou a campanha.
Basta um só telefonema; simples, rápido, sem mais nada e 0.60€+iva, revertem para ajudar centenas de animais doentes, abandonados, mal-tratados, desprezados e escorraçados por nós.
É um palco de cenas, na maior parte, tristes, indignas, revoltantes e ao Homem, tem-lhe cabido quase sempre, o papel de um dos protagonistas da história, o do mau da fita. Tantos, mas tantos casos de negligência extrema. Chocante.
Temos agora todos a oportunidade de fazermos de bons, proporcionando-lhes cuidados veterinários, melhores condições de alojamento, esterilização, alimentação.
Uma sociedade também se mede, pela forma como trata os mais fracos e desprotegidos.
Divulguem e telefonem: 760 50 10 15
.

praia do amado, foto minha

Ass: A PresidentA

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

complicadas, nós? #2


As mulheres quando dizem, é só um instante, estou pronta para irmos jantar fora num minutinho, isso significa na verdade, que estarão arranjadas entre meia hora a quarenta e cinco minutos, no mínimo.
Queridos homens, um minuto, só será na realidade um minuto, quando elas vos derem esse mesmo minuto, para que expliquem porque chegaram atrasados a um encontro e não à hora exacta que elas marcaram.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #3


O Onofre, o padeiro cá do bairro é um bocadinho para o picuinhas, mas não deixa de ser um grandessíssimo sonso, o atrevido. Ai dona Amelinha, não se atire assim para dentro do estabelecimento e limpe os pés antes de entrar, ai dona Amelinha, vá lá trocar o baibidól por uma roupa de jeito, que isso não são modos de uma mulher séria se mostrar na padaria, ai dona Amelinha, não respire dessa forma ávida para cima do balcão que me embacia a vitrina, ai dona Amelinha, não se perfume tanto que se me enjoa a doçaria caseira, ai dona Amelinha, não esbugalhe tanto os olhos que ainda deixa cair pestanas no pão mistura e nas broas de centeio, ai dona Amelinha mainãoseioquêmainãoseiquemais.
Bom, já estão a ver onde é que isto vai dar, não estão? Eu dou mais um exemplo.
Noutro dia, encontrei-o na lavagem de carros, ele mais o seu veículo imaculado, um morris marina cor-de-laranja todo jeitoso. Bem educada como sou e com o recato que me é próprio, fui cumprimentá-lo e lá começou ele com o chorrilho de insinuações libidinosas, todo folgazão para cima de mim. Ai dona Amelinha não se chegue tanto ao pára-brisas que me borra o vidro com batom, ai dona Amelinha, não fique assim tão perto da minha cara que me perdigota as faces, ai dona Amelinha, não se enrosque na chapa que me arranha a tinta, ai dona Amelinha, tire lá a mãozinha do manípulo que me destrava a viatura.
O Onofre da padaria, tem ou não tem uma valente tara por mim?
Eu sei, sempre fui assim, tenho este efeito arrebatador nos homens.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

opressão torácica

foto daqui

A sobranceria deste homem, é assustadora.
Este homem ontem à noite, soltou finalmente a Besta.
O tom eversivo deste homem meteu-me medo.

música de fundo, pesadelo em elm street soundtrack

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

é o jornal a Bola, s.f.f. #1


Nos primórdios da humanidade não existiam sanitas, ou melhor, existir até existiam só que não tinham um nome convencional. Chamar-se-iam arbusto, moita, buraco da caverna, toca de coelho, ou ramo de árvore. Costumes salutares, biodegradáveis, tudo à vontade, na surpresa do relevo, no arejo da natureza.
Na idade média, a meu ver, a coisa ficou bem pior. Fossas expostas à vista de todos e esgotos inexistentes; carreiros escorregadios se formavam. Mas quem sabe, estas condições precárias e deslizantes tenham estado na origem, involuntária obviamente, de algumas modalidades desportivas do nosso tempo, como a patinagem artística, o snowboard, a ginástica acrobática, o salto em comprimento e para os mais porcalhões, o lançamento do peso; ah não, o peso não, esqueçam, esse veio da Grécia.
Bom, eu não faço ideia há quanto tempo o Homem usufrui das benditas sanitas; branquinhas, redondinhas, baixinhas, limpinhas, lisinhas, ainda para mais ultra sofisticadas, pois acompanham-se sempre de um acessório fantástico e indispensável: a tampa.
Grande, larga, resistente, um pouco sonora quando bate, com duas dobradiças que obrigam a dois movimentos repetitivos do ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar e assim pela vida fora até gastar.
Queridos homens, eu soletro: T-A-M-P-A!
Ora L-E-V-A-N-T-A-R, Ora B-A-I-X-A-R.
Eu repito para os mais distraídos: B-A-I-X-A-R!
Estamos entendidos?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

complicadas, nós? #1


As mulheres nunca exigiram aos homens certos tipos de fidelidade.
Assim, perante uma feminina questão frontal, olhos nos olhos, sobrolho assumidamente carregado, numa postura de ameaçadora inquisição como, gostas do meu novo corte de cabelo, o top fica-me bem, estes jeans fazem-me as pernas mais altas, o cor-de-laranja do vestido realça-me o bronze, ou a questão das questões, achas que estou mais gorda, o que devem eles obrigatoriamente responder?
Queridos homens, nestas ocasiões, nunca, mas é que nunca mesmo, sejam verdadeiramente sinceros.
Lamento, não estamos de todo interessadas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

vim só num instante aqui dizer que ...


... por vezes, quando não ando à procura de nada, deparo-me com tudo. E essas são quase sempre as minhas melhores descobertas; aquelas que encontro sem procurar, enquanto buscava por outras que nunca acho.

domingo, 20 de setembro de 2009

[15] boa semana


É a trilogia de que todos falam, eu sei. Mas é inevitável não comentá-la aqui; impossível mesmo.
Como tantos outros milhões pelo mundo fora, fiquei fã de Lisbeth Salander, a protagonista, excêntrica, anti-social, dotada de um QI capaz de arrumar em três tempos qualquer membro da Mensa.
Junto com um jornalista de topo, Mikael Blomkvist, viciam o leitor nas 600 e muitas páginas de cada volume e nem sequer sentimos o peso do calhamaço, tal é a dependência e o modo como nos deixamos prender à história com grilhões. Eu até as chaves das algemas deitei fora; enquanto não acabo de ler um, não respiro de alívio e nem sequer reclamo da comida da cadeia.

Comprei o terceiro e, infelizmente, último volume no sábado e até amanhã tenho de o desbravar; os outros livros que fiquem sossegadinhos nas prateleiras, tenham lá paciência, mas há prioridades pois então.
É certo que este fenómeno editorial, se deve em parte ao seu autor, Stieg Larsson, ter morrido pouco tempo após ter entregue os três volumes na editora e não ter usufruído do sucesso estrondoso da sua obra. Esse facto mexe connosco, cria-nos uma empatia, é verdade, mas não é de todo a razão principal do seu sucesso. O ritmo da narrativa torna-se galopante, à medida que o enredo se desenvolve e num instante já estamos no fim da história, desejosos de começar a ler o próximo volume. Queremos conhecer Lisbeth, dizer que estamos com ela, que é a maior e levá-la em ombros; sabendo claro que nos arriscávamos a ser imediatamente desterrados, se nos atravessemos a tais confianças. É tão antipática, fria e distante, bruta que nem uma porta, que se torna adoravelmente cativante, despertando no leitor um instinto protector.
A trilogia está nos tops de todo o mundo e é com todas as letras, um best-seller sim senhora e merecido, mas nada de comparações com os Dan Browns e as Stephenie Meyers desta vida. É tirar daí a ideia. Ah, e tem um tema central que me é muitíssimo caro, a violência contra as mulheres.
Como disse Vargas Llosa, Lisbeth Salander, deve viver.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #2


Há umas semanas que ando a dormir mal. Depois de tomar o meu copo de leite e a bolacha maria, costume a que a minha mãezinha me habituou, adormeço como um passarinho, mas lá pela madrugada acordo afogueada, com os lençóis aos pés da cama, a almofada no chão e toda descabelada. Houve até uma noite, oh valha-me Deus, que despertei com a camisa de noite desabotoada, quase revelando os meus pudores.
Uma pessoa fica assim meio assarapantada com estes sobressaltos nocturnos e não é para menos, pois as novidades não terminam somente nos fanicos, ah pois não.
Então cá vai: ele é o Clooney que me surge no horizonte a servir-me um tofina numa caneca do Bordalo; ele é o Pitt de cabelos ao vento, montado num Mustang gritando na pradaria, anda cá minha poldra, deixa-me pôr-te as rédeas; ele é aquele senhor já de idade, meio careca, que já foi um Bond a oferecer-me um scotch on the rocks no cume das highlands; ele é o Cruise, ai coisa mai linda, com os seus raiban verdes a mostrar-me as potencialidades do F-14, ou 15 ou lá que número tinha a avioneta do rapaz; ele é, vejam bem, aquele mocinho grandalhão que tinha um carro preto que falava com ele e que ultimamente corria pelas praias da América, com uma bóia cor-de-laranja nas mãos e salvava os incautos de afogamentos, lembram-se? Um rapagão de olhos claros, assim corpulento, com uns braços musculados, e umas mãos poderosas, umas pernas torneadas, fazendo-me boca-a-boca o grande calmeirão ... ai nossa Senhora, vou engolir mais umas quantas pedras de gelo.
Bom, adiante. A Lurdinhas
da mercearia disse-me em segredo, que estes sonhos eram próprios da idade e absolutamente normais, para uma pessoa na minha condição de viúva: o meu Alfredo já se foi vai para seis anos; descanse em paz.
Elucidou-me também, que os meus vigores nocturnos tinham até um nome científico; chamavam-se de góticos: sonhos góticos. Que dantes eram só as desavergonhadas e as que não iam à missa que os tinham, mas que agora, segundo ela lera numa revista lá na Zeneide manicure, fizeram-se estudos muito rigorosos que comprovam o contrário: qualquer senhora séria também tem destas coisas; podemos espraiar-nos à vontade, darmos largas à imaginação, estarmos possuídas de emoções marginais e até termos sonhos góticos tal qual os homens, ou lá como é que a Lurdinhas lhes chamou.
Fiquei tão mais leve com a inocência dos meus sintomas, que hoje até fui ao chinês comprar um baibidól mais aliviadinho, daqueles cor-de-rosa porno que eles lá têm com uma etiqueta muito engraçada, que diz em estrangeiro, shake it out baby,
瘋狂瘋狂.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

aprovado


Já arregacei as mangas.
Será com este sabor que vou colorir o meu novo escritório.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

y volver

bairro do eixample, foto minha

E então foi um matar de saudades do salero, das tapas e dos bocadillos, do jarro de sangria gelada na barra da bodega, das cavas nas taças, da crema, do chocolate con churros. Do espalhafato das conversas que eles mantêm em alto, dos boulevard cheios de famílias ao fim da tarde, das velhas empiriquitadas nos bancos dos jardins, das sombras brancas das esplanadas, das bicicletas que nos atravessam o passeio, da intimista Rambla da Catalunya que desce magnífica até à Praça e depois se une na outra Rambla, a turística que eu não aprecio por aí além, para terminar no mar mediterrâneo com o Cristóvão imponente no pedestal, vislumbrando a América a mando da ambígua Isabel, a católica.
Tornei a guardar por dentro a memória das fachadas dos edifícios, que me fixam os olhos sempre para o alto das varandas e balaustradas, para o ritmo das gelosias com carrego de cores sonoras; o encarnado, o baunilha, o cinzento, o branco e o terracota.
Alegrei os pés exaustos pelas ruas sombrias do bairro Gótico da velha Barcino, agarrado ao velho e novo Born onde de novo me extasiei com o jovem Picasso; e que bom voltar a almoçar pelas quatro da tarde e correr para a Bubó antes que me levassem os macarones de sabor a violeta. Únicos.
Ah e chegar à Barceloneta ao crepúsculo, estafada e já quase sem vida para molhar os pés na sauna que é aquele mar que escalda?
E tornar a ver o Gaudi? O que eu morro de amores pela Batló, pelo chão da Gràcia, pelo tracadís do Guel, pelo ferro e pelas chaminés guardiãs da Pedrera. Trouxe-o comigo na bagagem, em formato de mil marcadores de livros, cadernos de páginas incólumes, azulejos de tracadís, curvas em movimento, cristal translúcido e pedaços escorregadios de animalesco ferro torneado.
Antes do voo, ainda corri para ver de perto a resposta que o Domènech deu à Sagrada Família e espirrei três vezes, na esperança de ser atendida neste palácio-hospital.
Quis rebentar com a acústica do Palau, mas nem a Montserrat conseguiu. Y por la calle el Domènech de nuevo...
E fiz tanto, tanto, mas tanto mais, só que há sítios que não cabem noutro lado a não ser no seu próprio local. Ou então eu não sei escrevê-los.
Regresso sempre mais velha das viagens de sonho; uma espécie de sobrecarrego aliviado de ter provado muito em tão pouco tempo.
E não acredito nada naquela do não voltarmos nunca mais ao local onde fomos felizes.
Tretas, lérias, falácias: eu volto sempre.

sábado, 5 de setembro de 2009

adiós guapos


Oh p'ra mim, num dos boulevard mais bonitos da Europa:
El Passeig de Gràcia.

Besitos; me voy por la calle de compras, de juerga y de copas y de tapas.
Hasta luego.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #1

Talvez alguns de vocês não saibam, mas quando entram no Ares, entram também no blogobairro. Ou seja, aqui, uma comunidade de bloggers, vizinhos de patamar, companheiros de elevador, colegas do passeio com o cão, camaradas do aperto de mão, sócios do clube de dominó, compinchas de morada, inquilinos do prédio, habitantes do bairro, amigos do café, condóminos da administração, cúmplices da postagem blogosférica.
E eu sou a PresidentA desta gente toda, ora pois!

Não houve eleições, sei bem, nem haverá. Tomei posse, assim por dá cá aquela palha e aqui estou firme no meu palanque, a vigiar o blogobairro, gerindo e administrando, cumprindo à risca todas as burocracias que uma responsabilidade deste gabarito acarreta e principalmente, tomando conta das finanças e dos impostos que infligo aos meus condóminos, quando eles saem da casca com postagens e fotos onde não abundam a moral, os bons costumes e sobretudo, onde a pudicícia, a honra e a castidade desta família blogobairrense é posta em causa.
Mas sou uma PresidentA muito compreensiva, generosa, trabalhadora e quase não tenho dias de férias, tal é a minha dedicação a esta gente postadora. Como qualquer moura de trabalho, não chego a todos os cantos e por vezes, necessito de pedir uma ajuda, quase inútil é um facto, a outro elemento do blogobairro; a minha assitentA. E também tenho os serviços de uma advogadA, ena, ena!
'Taditas, elas até se esforçam; são vigilante na captura atenta de indecências como esta e que me vão enchendo o saco azul, que tenho só e unicamente para as minhas obras de caridade, como é do conhecimento público.
Por vezes, há uns elementos do blogobairro, por coincidência são quase sempre os mesmos, que se distraem e postam imagens de pouca vergonha como esta mocinha toda encardida ou estas que se puseram ao fresco. E depois têm o despautério, o atrevimento de me caluniar, como aqui. Resultado: 500€ de coima valente. Pimba.
Como já viram, sou um exemplo de PresidentA, um SIS da net, uma câmara vigilante e atenta que zela pela vossa saúde emocional. E se tinham dúvidas no modo como foi feita a minha eleição, deixaram com certeza de as ter, perante esta
modesta e humilde demonstração de capacidades acima da média que aufiro.
E como não sou PresidentA de sentimentos mesquinhos, ressentimentos devoradores ou sequer defensora de um regime ditatorial, desde que seja sempre eu a mandar obviamente, peço-vos que hoje, ide todos dar os parabéns a um dos condóminos mais antigos do blogobairro.
Ide, ide que há festa seguramente. E dupla.
Mas não vos esqueceis de observar tudinho com olhos de lince e se por um acaso, repararem em algo insólito como um mocho de nome Sebastião a fumar erva, uma tal de Brites amalucada em monoquini, cenas tristes com um taxista alcoolizado, umas moças descascadas, um papalagui fala-barato e sobretudo um dialecto visigótico totalmente em desuso e proibido nos dicionários civilizados e contemporâneos, avisai-me de imediato meu blogobairro querido, que eu entrarei de rompante na festarola com o meu kit de cobranças.
Correi, apressai-vos e festejai com ele.

p.s. ah, vá lá, façam o favor de deixarem pelo menos um eurito no saquito azul. Sim, esse mesmo aí do lado
.











Ass: A PresidentA, vitalícia, claro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

no confessionário aos 40 #1


Quando esta manhã acordei, reparo de imediato que aquela ruga ontem não estava ali. Delgada, é um facto, mas verdade seja dita, era mesmo o meu mais recente vinco de vida. Encolhi os ombros resignada e apresentei-a a outra que me nasceu há seis meses e a mais duas do ano passado. E pronto, ao todo tenho quatro; não me posso queixar.

Como boa anfitriã e apesar dela não ter sido convidada a entrar assim, desta forma abrupta, na minha intimidade, desanuviei-lhe a surpresa do seu descaramento com o meu sabonete que cheira a cor-de-rosa pálido, matei-lhe a sede com um tónico doce que utilizo para ocasiões especiais e ainda lhe fiz um pequeno-almoço altamente nutritivo, reafirmante e rico em colagénio.
Parece que a criatura gostou do tratamento honorífico e referiu que talvez estivesse ali para ficar.
Bom, por mim tudo bem rapariga, instala-te lá onde te der mais jeito, mas nada de te esticares ou de me sulcares a existência. Literalmente.
Espero que me tenha feito entender.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #1


O rapaz que anda à cata do lixo bom na minha rua, sabe da vida de todos os vizinhos através dos nossos restos, das pistas que deixamos sem querer, de pedaços que já não queremos e que despejamos todos os dias nos contentores.
Penso eu, que deve até já ter topado que a sirigaita de carrapito do 4º esquerdo é um pouco para o porca-relaxada; já eu, de desmazelada nada tenho e o sujeito de mim não tem como falar. Aliás, se for homem atento ao que deitamos fora, reparou de certeza que eu passo sempre por água todas as embalagens antes de as colocar no amarelo. E faço o mesmo com os vidros.
Até posso descer à rua de roupão florido de flanela, rolos na cabeça e com o meu salsicha pela trela, mas sempre, sempre de unha arranjada e mais: recolho todos os extras do canito do passeio, naqueles saquinhos que a câmara fornece.
De suja não tenho nada, sou mulher de muito asseio. Ouviste bem, oh flausina?

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

artefactos II

lagos, foto minha

Eu não gosto lá muito de praia. Ou melhor, não gosto da sensação física da praia; do atrevimento da areia imiscuindo-se sem pudor por todo o canto, das dores do sol, do arrepio da água, do sal que me faz rasgos na pele.
Mas gosto da sensação emocional da praia; de chegar e perceber no ar o doce dos cremes, de cheirar o sabor salgado das rochas, de dizer bom dia ao sol, de seguir o trilho deixado pelas gaivotas na areia seca, de prestar atenção ao esmorecer da espuma nos pés. Mas principalmente gosto de decifrar laivos da personalidade de cada um, por exemplo, pela opção que fizeram na escolha do seu guarda-sol.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

vírus* num blog sério e familiar #7

foto josh holloway

Bom fim-de-semana!
(agradeço que se controlem e nada de esgravatarem o rapaz)

* ai que saudades de uma boa virose; qual gripe A, qual quê!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

arbutus unedo


E não é que eu bebi mesmo um café com cheirinho!
Cheirinho a medronho, diga-se. Copo fino de pé alto, café bem quente e uma medida de aguardente de medronho. No topo, pairava um castelo espumante de natas batidas, com as muralhas e as seteiras e ameias salpicadas pela canela moída no momento.
Só vos digo que espanta o frio do barlavento para bem longe; do outro lado do oceano, lá para os lados da vizinha mourama onde lhes refresca o tórrido dos dias.
Não posso jurar, mas tenho a leve impressão que ainda ouvi um chukran ecoado, ali pelas bandas do Alto Atlas.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

uns tristes

lagos, foto minha

E depois existem aqueles cépticos, essa gente peremptória afirmando a pés juntos sobre toda a literatura apesar de ser muito nobre e coiso e tal, é no fundo enganadora. Que não nos devemos deixar envolver por ela em demasia, apaixonarmo-nos por personagens, enlearmo-nos em enredos mirabolantes carregados de mistério e suspense, pois tudo não passa de ilusão, mera ficção aldrabada por criaturas ardilosas com as letras e os seus jogos, que mais não querem do que entupir-nos a mente com quimeras. Blá, blá, blá e mais blá, blá, blá.
Ora, eu queria perguntar a esses perdidos, a essas almas descrentes no vaguear do espírito, a esses entes que julgam que sonham, quem seria aquele ser voante senão o próprio do Fernão Capelo, a Gaivota que antes das nove da manhã do dia 20 de Julho, já planava em voos rasantes e demorados, quase mortais, sobre a minha esplanada edificada no penhasco da praia da D. Ana?

Adenda: música de fundo "ouvida" pela Si.


sábado, 22 de agosto de 2009

artefactos I

lagos, foto minha

As grandes geleiras do areal e quem as carrega, sempre me intrigaram. Oh meu Deus, o que se descobre sobre determinado núcleo familiar pelo tamanho, pela cor e pelo que vem dentro da sua geleira, é algo totalmente inaudito.
Eu, uma observadora nata, praticamente uma profissional do ramo, sempre muito atenta e curiosa ao que ao meu redor se passa, confesso que perante aquilo que emerge das profundezas de uma XL geleira de praia, serei tão somente uma reles amadora, ainda com muito para aprender sobre os da minha espécie.
Iniciemos então este périplo pelas bebidas: latas de cerveja e água fresca serão imprescindíveis, obviamente, aliás geleira sem elas não será uma geleira capaz; sumos, suminhos e sumóis e espantem-se as gentes: caprisones! Alguém sabia que ainda havia caprisones? Não? Pois se usassem geleias a valer, saberiam.
E o sanduichal que para lá cabe? É que não estão bem a ver: ele é sanduíches de queijo, fiambre, mistas, atum, frango, salsichas, presunto, panado de peru, carne assada, disto, daquilo e daqueloutro. Noutro dia até houve uma criancinha que gritava, oh mããããe, ainda há pão com tulicreme? E não é que havia mesmo. Querem lá ver vocês parelha mais catita, do que caprisone com tulicreme?
Sanduíches de salmão fumado, lamento informá-lo caro Pedro, mas é que nem vê-las. Talvez demasiado sensíveis para estas geleiras. Não sei, digo eu.
Depois vem o frutame: uva branca, preta, verde, encarnada e às risquinhas, melancia cortadinha sem pevides e arranjadinha comme il faut, suculentas talhadas de melão a pingar tal e qual o protocolo de Agosto, ameixas gordas, nêsperas da cor do sol e pêssegos hidratados como veludo cristal.
A hora do lanche é também um manancial informativo, no que toca a iogurtes. Cá em casa ninguém gosta de iogurtes, por isso é corredor de supermercado que não frequento, nem lá passo, nem lá espreito, nem lá gasto. Trata-se de uma aversão: leite é leite e é para ser bebido às litradas, se o coalharmos dá em queijo e se formos aplicados e virtuosos resulta em natas ou manteiga para barrar no pão. E pronto.
Tenham lá paciência, mas iogurte é pieguice, coisa de meninos com bibe de xadrez miudinho e um bocado nhonhonhó.
Por isso, é na praia junto de algum vizinho apetrechado de uma generosa geleira familiar, que eu me inteiro das novidades da estação iogurteira. É a bem da verdade, o meu momento "Geleira happy-hour".
Há-os de mil frutos inteiros (caroços e tudo, imagino eu), aos pedaços, esmigalhados, líquidos, em puré, espapaçados e cremosos, vejam só. Os que levam smarties, de apple pie, biscuit, os cheese-cake, os de bolacha maria, de arroz doce, os limpa-intestinos preguiçosos, os da Fátima Lopes e uns mini-potinhos coloridos, que vêm todos agarradinhos para serem engolidos em duas ou três colheradas. Ah, e todos eles existem em versão light e também não. Desculpem lá, mas estão a gozar comigo não estão? É fantástica a capacidade inventiva do homem.
Mas onde é que param os gordos boiões de vidro grosso e pesado, de conteúdo ora branco, ora cor-de-rosa? Não, não é desses que para aí há, de vidro coitadinho que só faz tlim-tlim. Falo daqueles potes obesos e fortes, que falavam e tudo, dizendo-me no final do lanche na pastelaria da esquina, agora Patti, é aquela parte em que podes rapar fundo e fazeres o barulho que quiseres com a colher. E eu fazia, claro está, ignorando os olhares com que a minha mãe me
perscrutava.
Bom, deixemos a iogurtada e regressemos à capacidade logística das geleiras de praia, pois foi esse o post que me trouxe de volta ao meu Ares.
Dizia eu, que lá cabe de tudo e pelo que testemunhei pela família da fotografia, até no fim do dia quando a gentes regressam dos últimos banhos e se enrolam nas toalhas ensopadas, o responsável pela geleira ainda consegue para lá desencantar, entre as placas de gelo já mornas e as caixas plásticas multicolor, uma sandes de chouriço amachucada, três ameixas frouxas e quatro infelizes pastéis de bacalhau.
E eu, invejosa e ao mesmo tempo abismada com o repasto da vizinhança, que durante todo o santo dia desfilou perante os meus olhos incrédulos, engulo a minha última bolacha de água e sal, esmigalhada no fundo da cesta e penso, será que já inventaram Morgado de Amêndoa, Queijo de Figo ou Tarte de Alfarroba em versão iogurte?
Nessa altura, talvez me renda à mariquice e ainda me vão ver de potinho
e de colherzinha em riste.