sexta-feira, 6 de novembro de 2009

crónicas de graça #3

António Lobo Antunes

Provavelmente este texto, não terá perfil de post, seja lá o que isso for. Deveria ser lido com calma. Contra a correria dos dias que carregamos. Com a disponibilidade de uns bons minutos. Com tempo para se poder voltar atrás, num ponto ou noutro. Com a atenção necessária para se ouvir ALA. Para pensar.
São palavras de admiração que há muito se impunham
. Para mais agora, que ALA comemora os 30 anos da publicação dos seus dois primeiros livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas.
Vendo bem, este será até um post muito curto, pois a sua vida é a sua obra, e a sua obra a sua vida. E milhares de horas, foram aquelas que passou a escrever. E que ainda passa. Não cabe tudo aqui. Seria mesmo impossível.
Este texto não tem qualquer pretensão, a não ser o enorme prazer que me deu fazê-lo, assim tanto, como tenho em estudar, ler e ouvir António Lobo Antunes; mesmo quando ele diz que só fala banalidades: "Tenho a sensação de que só digo banalidades. Eu sou um homem banal. Um amigo meu dizia-me que penso como um génio, escrevo como um bom escritor e falo como um débil mental".
(Uma longa Viagem com ALA, de João Céu e Silva
Setembro de 2009).


feira do livro 09, fotos minhas

Querido António,

Ainda não lhe tinha dito e se calhar nem vai ficar nada satisfeito de saber, pois o António diz sempre que o seu melhor livro é o último que escreveu e já vi, que nem vale a pena tentar falar consigo da sua literatura anterior, pois não faz caso algum de nós. Ainda com a agravante de repetidamente nos dizer, que já nada tem daquele homem dos primeiros livros. Mas mesmo assim, eu gostava tanto, mas tanto de ter lido o livro que o António escrevia durante os anos que esteve em África e que provavelmente deve ter destruído...
O livro a que deu o nome de Voo.
Ontem acabei a primeira parte do Voo, comecei a segunda. Após várias tentativas, julgo ter encontrado o que precisava. (...) escrevo literalmente de manhã à noite, numa febre imensa. Reli e corrigi a primeira parte, que está pronta e embalada. Quando a leio irrita-me. Quando me lembro dela gosto muito. Onde estará a verdade?
(cartas de angola 1971)
...
Havia um livro muito comprido que praticamente era o embrião de todos os que foram publicados. Escrevi-o enquanto estive na guerra, e muito antes disso, para aí durante sete ou oito anos.
(entrevista a mário ventura, 1981)
...
Depois passei dez anos com um romance - antes da guerra, durante a guerra, depois da guerra - e fazia romances que não publicava.
Acho que as miúdas têm um. Esse romance era enorme - três vezes o Fado Alexandrino -, porque na guerra eu escrevia todos os dias para mim e isso ajudou-me muito. (...) Eu lembro-me que mandava bocados - era tudo uma merda - e a Zé achava aquilo uma maravilha, para altos voos. Às vezes, eu acreditava, mas na maior parte das vezes não. Estava consciente de que não prestava e que não era o que eu queria fazer.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)

Mais aquele outro, a que o António pensava chamar Depois de Júlia. Que foi feito dele? Chegou a começá-lo?
Meu querido amor
DEPOIS DE JÚLIA: título do calhamaço que se seguirá ao Voo, que eu acho porreiríssimo. Diz o que pensas. Entretanto a carroça pôs-se a andar outra vez. (...) E logo a seguir, depois de um intervalo para respirar, começo esse tal Depois de Júlia (que queres, adoro este título) de que tenho a ideia. Gostas do nome? (...) Gostas de Depois de Júlia, não gostas?
(cartas de angola 1971)

E tantos outros livros - mesmo muitos - que o António deitou para o lixo, antes de o terem publicado pela primeira vez.
As coisas que escrevi antes foram para o lixo. Sempre fiz autos de fé periódicos das coisas que escrevi. Até os rascunhos do novo livro que estou a escrever rasgo com frequência.
(entrevista a josé jorge letria, 1980)
...
Livros, houve uma série deles antes do primeiro ser publicado, e nem chegaram a ser vistos por ninguém. Escrevia-o e deitava-o fora.
(entrevista a mário ventura, 1981)
...
Acabava os livros e deitava-os fora ... Não eram bons ... Tenho pena de um - não sei o que lhe aconteceu - que foi escrito antes do Memória de Elefante, mas não sei o que aconteceu a esse livro.
(um
a longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
E outros também foram para o lixo. Acabava e deitava-o fora, porque a publicação nunca me interessou muito. Eu queria era escrever, porque enquanto escrevia estava mais equilibrado, estava melhor comigo.
A partir da altura em que o Daniel Sampaio leu o manuscrito (Memória de Elefante), deixei de deitá-los fora.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)

Lendo as suas cartas de guerra, sente-se de imediato, já nesta altura com vinte e alguns anos, a presença constante do cruzamento da angústia-prazer, assomando-lhe à mão que desenha as letras, e à cabeça que vela por essa mão.

O pior para mim é que escrever não me dá prazer nenhum! Mas não posso passar sem isto. Os tormentos do parto tiram-me a sensação de estar a fruir o que quer que seja. Mas é horroroso estar sem escrever. Falta-me o ar. É difícil explicar, mas a sensação de frustração é imensa. E quando dou por mim estou a deitar palavras no papel com a ternura de quem deita um filho.
(cartas de angola 1971)
...
É tão misturado com angústia e aflição, durante um livro passa-se por uma gama de emoções muito dispersas.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)

Faz trinta anos que o António foi publicado pela primeira vez. É impressionante que o Memória de Elefante e Os Cus de Judas, continuem a vender-se tão bem como em 1979. São best-sellers, os leitores gostam muito destes dois livros. São uma referência na sua obra.
Eu hesitei muito antes de publicar o livro (...).
Por outro lado, há todo o problema da escrita, que são muitos anos de escrita, hesitações, de dúvidas, de reescrever, muitos anos à procura de uma forma. Acontece que, pela primeira vez com este livro, eu senti que tinha encontrado uma maneira pessoal de dizer as coisas.
(entrevista a rodrigues da silva, 1979)
...
Escrevia há muitos anos, mas nunca tinha pensado em termos de publicação. Os meus amigos nem sequer sabiam que eu escrevia, nunca pensei em fazer uma carreira literária. Por razões várias mostrei Os Cus de Judas a um amigo, um médico, o Daniel Sampaio, que não tinha nada a ver com o meio das letras. Só que ele impressionou-se e tratou de tudo, levou o original ao editor, etc. (...) Memória de Elefante foi o primeiro a sair. Era, no entanto, um livro em que ninguém acreditava, saiu nas férias, em Julho. Quando vim, em finais de Setembro, a primeira edição estava a esgotar-se. Achei estranho, o livro fora lançado por uma pequena editora (...). Foi tudo de facto muito surpreendente pela forma como aconteceu. Depois as edições começaram a sair umas atrás das outras.

Os Cus de Judas, apareceram depois. Se não fosse o Daniel nunca teria publicado nada, teria continuado a escrever como até então, nem sequer para as gavetas, porque não tenho gavetas a não ser as da roupa. Rasgava o que ia fazendo, nem sei, afinal porquê.
(entrevista a fernando dacosta, 1982)
...
Sim, ninguém me queria, mas eu não estava preocupado porque escrevia sem ter pensado em publicar. E achavam que aquilo não era um livro, que era uma coisa muito estranha!
...
Se eu fosse reescrever o Memória de Elefante! Não o posso fazer porque é um livro de um outro, eu já não sou aquele homem, aquele rapaz.
...
Levei anos a levar pancada das pessoas que escreviam nos jornais, dos críticos, disso tudo, e nunca percebi porquê. Mas era pancada, pancada mesmo, porque não me aceitavam. Agora compreendo, pois vendo as coisas no contexto da época, o Memória de Elefante era algo completamente novo numa altura (pós-25 de Abril) em que toda a gente esperava obras-primas que estavam nas gavetas e nada foi publicado.

(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...) E agora olhando para aquilo, porra, eu escrevia aquilo tudo outra vez ou deitava fora, nem publicava. E espanta-me, pois o livro fez agora nova edição de bolso, e continua a vender. É estranho... O que eu vou deixar é isto. Palavras ...
Um autor que ninguém sabia quem era! Lembro-me de ele (o editor) dizer: É melhor tirarmos o Antunes, Antunes é muito feio. Fica só António Lobo.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)


Esse ser-escritor que traz consigo desde sempre, tem vezes que dá mostras que lhe dói, outras que lhe causa uma alegria desmesurável. Um não sei quê que parece só querer minorar, quando o António é o António Lobo Antunes, aquele que assina os livros.
(...) há horas mágicas, há momentos em que se está a escrever e a chorar e não é por ser triste ou alegre, é porque era mesmo aquela palavra que nos visitou e fomos habitados por outra coisa. esses são os momentos mágicos que acontecem nas primeiras versões (...). Nas primeiras versões, sim, há momentos em que, como dizia o García Marquez, parece que temos o berlinde na mão.
(...) O sofrimento não sei de onde ele vem. Lembro-me sempre da minha mãe dizer: "Não percebo porque é que estás sempre triste. Nasceste com tudo". A relação comigo próprio é muito conflituosa, é mesmo conflituosa!
(...) E é tudo tão breve que não temos o direito de ser tristes, porque é uma honra estar vivo. Senti isso depois da operação, quando pensava "afinal respiro" e comecei a tirar prazer das coisas: de estar sentado, de andar e inclusive de respirar, porque antes custava-me cada vez que tossia. (...) É tão bom respirar, e estar vivo é um privilégio.

(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
Prazer dá-me sempre, mas foi tão difícil. É tão misturado com angústia e aflição, porque durante um livro passa-se por uma gama de emoções muito dispersas.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)
...
Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria e também sofrimento, mas é a minha sina.
(entrevista a carlos vaz marques, 2008)

Mas tanto a alegria como a dor da escrita, me parecem deixá-lo só.
Dou-me com muito poucas pessoas. Até porque este tipo de vida é um bocado incompatível com uma vida social. preciso de dez, doze horas para escrever. Não vou ao cinema, a não ser com as minhas filhas, não vou a cocktails, não faço vida social.
(entrevista a ana sousa dias, 1992)
...

(...) Estou todo o tempo com o livro.
Sou uma pessoa muito fechada, tímida, com poucos amigos, não sou muito sociável, não vou a bares, nem a lançamentos. Nunca tive grandes relações com pessoas do meio literário e, normalmente, não vou nessas excursões.
(entrevista a sara bello luís, 2001)
...
Eu sempre fui assim, a minha mãe diz que eu sempre brinquei sozinho e , no entanto, tenho a felicidade de ter bons amigos. Eu gosto de estar sozinho.

O sol dá-me uma alegria muito grande, mas depois vou acumulando culpabilidade, a sensação de que ... sei lá, de que fui acumulando erros ao longo da vida. (...) E isso é complicado para mim. É a primeira vez que estou a falar nisto, nestes períodos entre os livros... Quando estou com um livro, estou tão ocupado com o livro, mas quando fico sozinho comigo mesmo, às vezes é complicado.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)

A sua obra estabeleceu rupturas com o romanesco do século XIX, renovando-o, impondo-lhe um novo género; a sua técnica narrativa, é um dos seus maiores encantos e consiste num desafio constante às nossas expectativas e à literatura actual: as micro-narrativas, as vozes, o exercício constante da memória. O kitsch; o seu apurado kitsch. Esse silêncio que tenta trazer para a escrita, a sua obsessão na procura de uma obra perfeita...
E ainda assim insatisfeito, António?

Porque quero sempre um bocadinho mais. Ir mais longe. Perceber como é que se pode fazer melhor. Eu não quero fazer pior.
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
(...) mas o problema já não é escrever melhor do que os outros, é escrever melhor do que nós, ir mais fundo, tentar aproximar-me do livro ideal - o que trazemos cá dentro - e isso é difícil.
Já justifiquei a minha vida por ter escrito meia dúzia de livros assim e devia sentir-me satisfeito com isso, mas penso que poderia ter feito mais...
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
Vamos lá a ver se ainda sou capaz de fazer alguma coisa de jeito.
É um medo. É um medo, João.
...
Mas queria ir mais fundo neste livro (Arquipélago da Insónia). Isso quero sempre, aproximar-me, sabendo que nunca vou chegar.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)

Sabe António, vejo a sua obra como um tratado de Portugal, dos portugueses, da nossa forma de ser, viver e sentir. Penso sempre que se um estrangeiro quiser entender esta gente lusa, deveria pegar nos seus livros. Como outros pegaram em Camões, Eça e Pessoa.
Escreve-nos por dentro, sabe-nos da alma. Conhece-nos os silêncios.
Na última vez que estive fora, na Finlândia, dei por mim a ter enormes saudades de Portugal. (...) Para um homem como eu, meio-brasileiro, meio-alemão, é o país onde quase não venho e onde sempre estou.
(entrevista a baptista-bastos, 1985)
...
(...) penso que não seria capaz de viver sem a língua portuguesa, sem ouvir falar português. A minha escrita está muito enraizada aqui, nestas gentes, neste país.
Percebo muito bem que os emigrantes só pensem em regressar, mesmo que seja para fazer casas de azulejo: há um charme lento neste país que é irresistível.
(entrevista a miguel sousa tavares, 1988)
...
Das pessoas, da língua, da cor do ar. A gente só se lembra disto quando está no estrangeiro. Pensamos que não temos sentimentos patrióticos, mas temos. E são muitos claros no estrangeiro.
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
Eu tenho muito orgulho do meu país, muito, e cada vez gosto mais do meu país, cada vez gosto mais dos portugueses e cada vez mais sinto que é para os portugueses que eu escrevo. Gosto de Portugal, gosto dos seres da minha terra, gosto do clima, gosto da luz da nossa terra e cada vez mais sinto que é aqui que eu pertenço. Tenho este orgulho! E quando dizem que Portugal é um país pequeno e periférico, fico furioso, porque para mim é grande e chega-me perfeitamente, não preciso de mais terra.

(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...), isto é a minha terra e cada vez estou mais preso a ela.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2009)


São 21 livros publicados. Três livros de crónicas e centenas de crónicas (já sei que não gosta muito delas). É o autor português mais traduzido. O mais premiado. Letras de músicas.
Desde criança que são horas infinitas de escrita e contudo, receia perder a mão.
Mas entre dois livros sinto-me sempre mal: receio não ter ideias ou não conseguir concretizá-los...
(entrevista a luís almeida martins, 1988)
...

(...) medo que tenho de não ser capaz de escrever de novo, um problema que aparece a cada livro que acabo. Será que eu serei capaz de fazer um próximo livro? Ninguém que escreva a sério vai ser capaz de o dizer. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três...
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...

(...) porque cada vez mais penso que - às vezes passa-me isto pela cabeça - uma pessoa nasceu com um determinado número de livros e, acabando isso, a sensação é de medo de estar a rapar o fundo do tacho. De não ter mais nada, ou de começar a imitar-me. A fazer uma espécie de paródia de mim mesmo.
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)



Somos homens simples que lidam com uma criação superior a nós.
(antónio lobo antunes - Boston, 2008)
Obrigada António, tem sido um enorme prazer.


E o que tem o meu querido parceiro, para me dizer do Saramago?

Crónicas de Graça #1, #2.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

[3] dizer bem


Ainda há projectos meritórios. Está em curso um projecto digno de louvar, chamado Limpar as Florestas Portuguesas num só Dia. Uma cópia de algo feito na Estónia, com imenso sucesso, no ano passado. Vejam o vídeo, em apenas cinco horas todas as florestas ficaram limpas.
Existem já alguns milhares de voluntários para a concretização desta acção, mas serão precisos muitos mais.
O dia escolhido será o dia 20 de Março de 2010.
Sempre vi na blogosfera e aqui no meu blogobairro, variadíssimos posts e também comentários de bloggers, preocupados com o que está a acontecer ao meio ambiente e ao nosso planeta.
Ora têm aqui a vossa oportunidade, para que todos possam fazer alguma coisa. E é em Portugal. E basta arregaçar as nossas próprias mangas. E pormo-nos ao trabalho.
Pais, filhos maridos e mulheres, primos, tios e avós. Uma tarefa exemplar para os nossos filhos.
Vamos divulgar este projecto, consultar o site oficial aqui e fazer o registo aqui.
E increvermo-nos também.
Ah e era tão bonito ver este projecto divulgado em mais blogs ...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

é o jornal a Bola, s.f.f. #2


Há objectos nas nossas casas, que mesmo alterando por alguma razão a sua aparência, marca ou tamanho, nunca, mas nunca mudarão de lugar. O seu território, o sítio onde pertencem, será eternamente, para todo o sempre e até ao dia do juízo final, o mesmo local do costume. Estão hoje arrumados onde estiveram nos últimos dez, vinte ou trinta anos.
Assim, queridos homens, altercações de voz grave, para mais grave ainda, questões colocadas em tom sobranceiro, perguntas inúteis e dúvidas dramático-existenciais do tipo, onde raio está a manteiga agora, não encontro as minhas meias, o que é feito do pacote do leite, ou mexeste no meu Record, serão totalmente desnecessárias.
Todos esses objectos estão onde sempre estiveram. No mesmo lugar de sempre. Geralmente em frente dos vossos lindos olhos. Ao alcance fácil de um estender do braço. Ali a olharem para vocês. À mãozinha de semear.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

parasimpattias #1


Exercício: Um velho está em pé numa paragem de autocarro, com uma bengala na mão e um folheto na outra. O dia é frio, chuvoso e triste.

(Narrador na pessoa)

Há uns dias que reparo nele. Olhos entusiasmados - que desejo sinceramente, já tenham tido um destino feminino de rosto meigo. Hoje procuram fixar-se num ponto, num sentido, em algo que não surge. E pela tristeza que pariu este dia, desconfio que não surgirá.
Vem lá do fundo da minha rua, alheio aos primeiros chuviscos, num passo leve mas pesado, como se sentisse profundo o resto do tempo que ainda lhe falta existir. Todos os dias traz a bengala consigo - pega de marfim, cabeça-de-leão - mas não se apoia nela; afasta os empecilhos do caminho com o extremo pontiagudo de aço frio, desviando com a destreza de um profissional de hóquei, todos os estorvos e obstáculos que o impeçam de chegar à baliza: aquela vulgar paragem do autocarro. Igual a tantas outras.
Eu, do outro lado do passeio, sentada na esplanada observo-o no cumprimento de um bom-dia a todos, de sorriso na cara.
Tenho-o como educado, pois repete teimosamente o ritual daquela saudação - em desuso - e parece não se importar com a ausência de resposta. Nem o cão vadio lhe sacode a cauda; só pensa em dormir o pobre animal, exausto da procura da noite: vasculhar
no lixo dos outros, o luxo de uma refeição decente.
O meu velho, aconchega a ruça flanela axadrezada ao pescoço sulcado de passado e esfrega as mãos, termometrando o frio que já vem chegando mais áspero, nestes primeiros bateres de outono. Leva a mão ao bolso do casaco e ...
E depois vem aquela parte que me intriga, que me faz esperar pela sua chegada estes dias, que me espevita a curiosidade; que quase me envergonha, a mim mais a esta minha observância invasiva. Estranho. Não sou nada de meter o nariz na vida dos outros. Acho que simplesmente só gosto de pessoas, de reparar no que os outros não vêem, de imaginar o que há para além do óbvio. Do pormenor. Até a palavra pormenor é bonita: p-o-r-m-e-n-o-r.
Retira o folheto do fundo do forro. A folha do costume; gasta, vincada nas dobras brancas, já sem tinta. Afina o aparelho na orelha. Lê e relê aquele papel. Vira-o e revira-o. Cheira, afaga, sente-o junto do ouvido.
Não distingo nem letras, nem figuras, muito menos o assunto, mas é de certeza o mesmo folheto que lhe tem despertado a atenção todas as manhãs. Também não será hoje que descubro do que se trata, mas aquele seu aproximar da folha do ouvido para lhe saber o som, mexeu comigo.
É então que decido presumir e ponho-me a fantasiar!
Trata-se de uma pauta de música. Está resolvido. Com o seu peculiar traçado, desenhado com bailadores símbolos pretos,
de perninhas, rabinhos e cabecinhas ágeis pintadas nos extremos, que executando passos de dança, cantam uma toada alegre. Uma marcha musical com mais de cento e cinquenta anos. E eis que o meu velho ergue a bengala como uma batuta, iniciando a direcção de uma orquestra obtida nos sons da manhã.
Coloca-se na frente da paragem de autocarro e vai por ali afora, de bastão com cabo de marfim no ar, regendo a parada na execução da sua peça musical. Persegue-o de imediato o rafeiro, animado com aquele sopro de vida, soltando latidos num ritmo cadenciado, e logo dobra a esquina juntando-se a eles, um jovem de iPod, que desperto do marasmo habitual, marca o compasso num puxa e escorrega, com o auxílio dos jeans descaídos, atrás de si surge a secretária de salto agulha, batucando a biqueira sensual no empedrado e abanando os ombros deliciada, depois vem de lá a cabeleireira do salão Peruca Jovem, tesourando o ar com um tac-tac alegre e sonorizado, aparece a mulher da limpeza do armazém dos congelados, empunhando a esfregona e dedilhando nas suas cordas brancas de franjas húmidas, notas de pura sintonia, e os carros apitam, e a menina da farda cinzenta que vai para o colégio dança, as árvores ávidas de pássaros calam-se e escutam-no e até eu, embasbacada com aquela marcha de comemoração, tilinto a colher na chávena do meu café, provocando acústica no copo de água e rumores na lona do guarda-sol, que
ainda há instantes, me protegia do ruído amotinado da rua. Do silêncio ensurdecedor da vida.

Será que é música, o que se passa na cabeça deste velho, Si?

domingo, 1 de novembro de 2009

parasimpattias

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

aqui pelo meu bairro #5


Isto agora do meu Benfica golear tudo e todos, até aborrece, não é? Eu já nasci benfiquista, o meu pai era, o meu avô era e até o meu bisavô já seria. Também, que outra alternativa havia? Aqui no meu bairro só um ou outro foge à regra, com a mania que é visconde ou então para ser do contra, vota azul.
Não me venham cá com coisas, mas o futebol é do povo e o povo é do Benfica, caramba! Na minha rua, do lindo bairro Estrela D'ouro, somos só gente humilde, gente modesta, do tempo do omo lava mais branco e do juá, da medicinal couto e da binaca, da mini, das gasosas e dos pirolitos, do romance do tide na telefonia, da farinha amparo e do grandella.
Do pé direito do nosso pantera negra.
Pois como eu ia dizendo, esta coisa de muito golo, muito golo, muito golo é uma grande alegria, mas até me faz impressão. Uns dizem que é por agora termos um treinador ressuscitado, mas de quem eu gostava mesmo muito, era do Dom Quique. Ai minha Santa Teresa de Ávila, meu Santo Ildefonso de Toledo, meu São Diogo de Alcalá, aqueles olhos verdes, o cabelo azeitona, a pele morena, aquele ar de quem pega de caras, mãos fortes de matador sangrento, ai olé touro, olé e valham-me as castanholas e o meu leque para os calores.
Bom, mas isto dos golos, cá para mim são aqueles senhores do estrangeiro, os fifas, que mandam nestas coisas da bola, que fizeram algumas alterações e toca de mandarem alargar as balizas.
Eles é que têm essas manias esquisitas, de se porem com novidades no futebol, não é? O meu Alfredo dizia que era para ver se intelectualizavam as massas.
Por exemplo, agora os rapazes se despirem as camisolas para festejarem um golo, levam logo com o cartão. Está mal, ora bolas. Então isso faz-se? A rapaziada precisa de se libertar.
No meu tempo era uma satisfação, a gente a admirar aqueles corpos transpirados e másculos, cabeludos como o diabo gosta, vigorosos, enérgicos, robustos e - ai que me sobem os vigores - assim todos jeitosos de peitaça ao sol e à chuva, como o Zé Augusto, o Costa Pereira, o Águas, o Coluna, e porque não o Chalana, o Alves, o Toni, o Bento...
aquelas bigodaças farfalhudas, os cabelos compridos, as pernas peludas...
Agora é tudo muito penteadinho, muito brinquinho, muita badoletezinha, muito fiozinho, muita pulseirinha, muita trancinha, muito magrinho, muito justinho, muito rapadinho.
Ai que rapazes tão jeitosos, eram os jogadores da bola o meu Benfica de antigamente.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

[16] boa semana

Eram cartas escritas para dizer que estava vivo, precisava de fazê-lo, de escrever todos os dias para saber que tinha sobrevivido mais uma vez; não podíamos sequer colocar o nome da terra onde estávamos para não dar a conhecer aos do outro lado a nossa localização.
(uma longa viagem com ALA, de joão céu e silva, 09)


Eu sei, já tem quatro anos, mas tem-me valido nalgumas noites brancas de insónia. Apesar da sensação de intenso voyeurismo que sempre me invade, quando o folheio com um imenso pudor.
No mínimo comovente. No limite perturbante. E no íntimo tem muito do António de hoje, mesmo que ele o negue.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

dormir ao contrário


Uma semana, três insónias. Nem os carneiros contados me têm querido valer; ridículas ovelhas tosquiadas muito enfezadas, ovelhas tresmalhadas, ovelhas negras e ovelhas ronhosas a balir. Houve um pouco de tudo, saltando a custo velhas cercas tão ansiosas de descanso quanto eu. Mas aos carneirinhos gordos e alvos, pulando em fila, nem vê-los.
A insónia não passa de uma armadilha de desespero, com cara de falsa calma branca, iludindo-nos nos seus primeiros momentos numa espécie de sugestão à meditação. Leva-nos ao despertar total, forçando-nos a colorir o sono que não vem, com as tonalidades que nos esquecemos de pintar a vida durante o dia. Perdemo-nos em pensamentos, criamos olheiras lívidas e pregas fundas em lençóis de angústia acordada.
Fecho os olhos com força para não despegarem, na esperança vã de guardarem o sono lá dentro. Aferrolhado, preso no intrincado curvo das minhas pestanas, cosido na linha escura da noite. Mas não há forma, a insónia é matreira como aqueles livros maus de capa bonita, que nos forçam a ficar agarrados até à ultima página, numa interrogação aflita de sabermos quando vamos
finalmente começar a sonhar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

crónicas de graça #2


Hippies e Yuppies

No meu tempo fui hippie. Acreditava que o amor tudo podia, que a guerra era o grande erro do homem, a paz a sua salvação e a liberdade, a sua maior conquista. Confiava na não-violência, no amor livre.
E não, o meu mundo dos 60's e 70's, tinha muito pouco de cor-de-rosa, engana-se quem assim o julga. Na Europa imperavam ditaduras obsoletas, o mundo vivendo uma coexistência pacífica durante uma guerra fria, receava um terceiro grande conflito mundial, conservava-se a espada de Hiroshima sobre as nossas cabeças, desconhecia-se o avanço do poder nuclear, mas aqui e ali ouvia-se falar de experiências atómicas no pacífico, praticavam-se diferentes regras sociais entre pretos e brancos e o apartheid, era aceite como algo absolutamente normal. As duas super potências, estendiam viscosamente os seus longos tentáculos até ao fundo da litosfera, dominando, ora disfarçada, ora abertamente, o mundo de então.
Com 19/20 anos nada podíamos fazer, mas tínhamos fé, usávamos a voz, o corpo, a nossa imagem. Possuíamos uma fome intelectual insaciável, acreditávamos na força da música, na palavra dos poetas, na realização de sonhos e exigíamos um futuro diferente.
Verdade será também, que vivíamos existências por vezes psicadélicas, praticávamos actos de loucura inconsequente, tínhamos visões utópicas para o futuro e defendíamos anarquismos impraticáveis. Mas sempre fomos participantes, poucos se demitiam do seu papel de cidadãos do mundo, abraçávamos as causas do nosso tempo, criámos
um símbolo da paz, contestámos os valores tradicionais da nossa sociedade, fizemos frente ao poder económico, militar e político. Vivemos de forma intensa aquele tempo, que era o nosso. Peace and Love. Make Love not War. Flower Power.
Depois fui assentando, casei com um homem quimérico igual a mim e tive um filho, que entreguei aos 80's.

No meu tempo fui yuppie. Depois da licenciatura e da pós-graduação numa universidade impactante, acreditava na bandeira hasteada do sucesso da carreira, na ambição profissional para escalar o organograma empresarial, na competitividade das corporações, no rápido enriquecimento e quem sabe, usufruir alguma vantagem dando um saltinho pela política. No meu special way of life, havia espaço para toda uma parafernália de prazeres materiais que me atribuíam status pessoal. Fato no alfaiate, monograma na camisa, botões de punho, o aparato do primeiro telemóvel, um carro deixando lastro à sua passagem, apartamento design, a ostentação das marcas na roupa casual. O golfe, o squash, o clube, o sushi, o bar da moda, a assinatura anual de uma importante revista empresarial estrangeira.
Não foi fácil. Tivemos de escalar bastante nesta busca desmesurada para alcançar o sucesso, lutar contra aquelas ideias tontas do saber, da ética e dos valores retrógrados. Insanidades ultrapassadas, de que os fins não justificam os meios e ingénuos delírios de que bastava ser e não parecer. Absorver ao limite todas aquelas normas de conduta na sociedade, invisíveis e em nenhum lado escritas, mas onde não se permitiam falhas, percalços ou um ínfimo deslize.
É um facto de que envelheci cedo, o tempo contado ao segundo, o stress causado por esta forma de manutenção da vida, o cansaço mental e físico para manter este estatuto a funcionar, sem intervalos ou descanso. A família onde não investi.
Depois fui assentando, casei com uma mulher carreirista igual a mim e tive uma filha, que entreguei ao segundo milénio.

No meu tempo não sei o que sou. Sinto muito poucas certezas, possuo uma infinidade de questões e dezenas de dúvidas. Não tenho por que lutar, não vejo por onde seguir ou para quê me esforçar.
Tenho avós que transportam em si histórias devaneadoras e uns pais, que me impressionam de sucesso e dinheiro. A avó, diz que hoje não sabemos como se sonha, o pai pensa que somos uns desinteressados e eu, que vivemos desapaixonados.
O ambiente existente é contraditório. Tanto se fala do facilitismo presente, como de um futuro sombrio, que todos os jovens são admitidos na faculdade, mas que só poucos conseguem um emprego promissor, que hoje temos acesso a toda a informação, à internet e ao mundo, bastando tocar numa mera tecla, mas mesmo assim seguimos indolentes e insatisfeitos.

O pai oferece-me mais um gadget e que falamos mais tarde, o que nunca acontece. A avó zanga-se comigo, dizendo que provavelmente a culpa não será toda nossa e que somos uma geração que podia ter o mundo nas mãos, mas que desperdiça um tempo precioso no vazio. Enfiamos a cabeça na areia que tem aspecto de ecrã. Ecrã de televisão, de computador, de consola, de telemóvel. Não entende a nossa apatia, diante este presente tão cheio de problemas como as questões ambientais, a fome no mundo, o envelhecimento da população, a crise geral; esta chata palavra crise; palavra curta mas que repetida até ao infinito se alonga, e alonga, e alonga pelos meus dias.
Parecemos fingir que tudo está no bom caminho, apesar de o sabermos falso, e podemos por vezes parecer ignorantes, mas não o somos. Todos nós escutamos palavras-chave como endividamento, desemprego e despedimentos em massa, falências, corrupção, pobreza crescente, pensões miseráveis, infindáveis listas de espera nos hospitais, medicamentos caros, políticos pouco credíveis...
Talvez um dia eu assente e case com alguém desmotivado igual a mim, mas não sei se terei filhos. Para os entregar a quê?


O que dirá o meu querido parceiro, que talvez tenha vivido alguma destas experiências na primeira pessoa?

Crónicas de Graça #1

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

e veio finalmente

E as camisolas brancas que fazem ninho gordo no pescoço, e os botões apertados até acima, e o chocolate quente na chávena da esplanada, lento e pastoso como aqueles sonhos que se arrastam e não querem despertar, e o frio friccionado na palma das mãos, e as castanhas assadas pelo ar, e os termómetros que cosemos ao corpo em camadas fofas de lá, e o encarnado do chão que fica bem ao amarelo do céu, e o gastar de luz espargido por todas as sombras baixas?
E o rumor que chega das árvores? Foi num dia de outono, que as árvores aprenderam a falar.


E amanhã não esqueçam as Crónicas de Graça.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

[35] há coisas fantásticas, não há?



Imaginemos que todos as nossas escadarias, serão um dia também assim...

(E sigo com problemas na net...).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

quem é amiga, quem é? #4

Comecem lá a semaninha, pondo à prova o vosso português neste teste online. É provável que possam vir a ter algumas surpresas, eu tive dúvidas em duas ou três questões.
Deixem os vossos resultados na caixa dos comentários.
'Bora, é só clicarem na foto.

(Estou com problemas na net, vai ser difícil esta semana, ser assídua nos vossos blogs).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

vírus* num blog sério e familiar #8

foto raoul bova

Bom fim-de-semana!
(Quietas. Tirem os dedos, ele é mesmo assim; despenteado.)

* alguém me vê uns sais de frutos, é que com este calor...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

blog action day


Ele propôs e eu aceitei.
A Blog Action Day é uma iniciativa em toda a blogosfera, que pretende alertar para os problemas ambientais e a minha contribuição, muito insignificantezinha eu sei, é o seguinte truque. Nem sempre as descargas que fazemos no nosso autoclismo, são as necessárias, desperdiçam-se muitos litros de água. Às vezes, só por causa de uma bolinha de algodão, lá descem 5L.
Experimentem colocar no reservatório de água do vosso autoclismo, uma garrafa plástica de 1,5L de um refrigerante, que para fazer peso e assim reduzir o espaço, deve estar cheia de água.
Ao diminuirmos a capacidade de armazenamento de água no depósito, poupamos por ano uns bons litros ao planeta azul.
Ah e as descargas dos futuros jactos de água, continuarão a ser mais do que suficientes, para que tudo siga ligeiro e flua pelo cano abaixo, se é que me entendem...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

no confessionário aos 40 #3


Aquela que de mim já é mulher, põe-se muitas vezes a reparar na outra eu que ficou criança. Recorda com desejo o jogo do elástico, o toca e foge, a mamã dá licença, o jogo das estátuas e o prego na praia. Dos oito saltos da macaca, desenhada a laranja tijolo no alcatrão da rua sem carros e dos concursos do festival da canção, onde a música vencedora era sempre qualquer uma dos greenwindows.
Refrescos de capilé e groselha, carcaças com açúcar e manteiga, papas de banana com bolacha maria e sumo de laranja, bigodes de leite.
Comida de mãe e colo de avós.
Bonecas e bebés-chorões, panelinhas de alumínio e jantarinhos com massa estrelinha, que obrigava o meu pai a comer. Os pais homens gostam muito de ser pais de filhas cor-de-rosa nuvem, amarelo pintainho, branco piquê e azul xadrezinho. São pais que lhes nascem punhos de renda, logo a seguir aos pulsos fortes.
A eu já adulta, agradece à eu criança a fortuna herdada. Que nunca terá preço.

domingo, 11 de outubro de 2009

aqui pelo meu bairro #4


Quando chega a estação do outono, começo a ficar entristecida. Vêm-me à memória aqueles últimos dias ensolarados em que o meu Alfredo se foi de vez; ai homem, tanta falta que tu me tens feito. Fomos tão felizes, não fomos, filho?
Lembro-me como se fosse hoje, aquela tarde no jardim do Torel onde me pediste em casamento, roubando uma rosa amarela ao canteiro e o velho jardineiro furioso, a ameaçar-te com o cabo da enxada e gritando, fora daqui rapaziada danada.
Alugámos esta casinha na Graça, porque tu disseste que a varanda das traseiras era uma maravilha. Podíamos acender um fogareiro à vontadinha e fazer umas belas sardinhadas no verão, febras e entremeadas e assar pimentos para a salada.
Ai Alfredo, e quando tu encheste a parede da varanda, com aquelas andorinhas de louça preta? Toda a vizinhança nos imitou, não podem ver nada que logo se põem com ideias e ainda hoje são assim. Ele há coisas que nunca mudam.
E a decoração da nossa casinha, lembras-te homem? As nossas idas e vindas ao braz e braz e à polux, eram uma grande alegria que me davas. Gasta à tua vontade Amélia, escolhe o que quiseres, para a nossa casa só do bom e do melhor, minha rainha.
E lá seguia eu orgulhosa, elevador acima, elevador abaixo, sobre escada, desce escada, carregada com o serviço de pirex, novidade daquele tempo, branco com florinhas azuis. Ainda me restam dois pratos de sopa, tenho-os ali debaixo dos vasos das sardinheiras, na marquise das traseiras.
Recordo-me tão bem das panelas de esmalte turquesa com riscas coloridas e até me fizeste um escaparate de madeira, para eu as expor na cozinha. O que a Otília do talho se roía de inveja, como o meu moderno trem de cozinha.
A nossa sala também era muito jeitosinha; os sofás de madeira forrados de napa bric, naperons cremes que a tua tia Carmélia nos ofereceu, alinhados na cabeceira e nos braços para os proteger do desgaste, o luxuoso desfile de tapetes, tapetinhos e tapetões floreados de verde pinheiro, para lá de sete ou oito, que mais pareciam uma colecção de selos e que se espalhavam até à passadeira do corredor, os pretos da Guiné que trouxeste da guerra, os meus livros da Modesto e o Pantagruel da minha madrinha, as crónicas femininas na cestinha de verga, sempre à mão, a tua colecção de pacotes de açúcar, canetas bic e caixas de fósforos, tudo alinhadinho dentro da cristaleira e protegido do pó, junto dos cálices de bagaço da Marinha Grande, o cão de louça branca, o quadro de perfil da senhora de vestido cor-de-laranja, a ler um livrinho ...
E a mobília do quarto, Alfredo? Madeira lacada e luzidia, último grito dos Armazéns Peixoto, com as mesinhas-de-cabeceira embutidas? Um luxo.
Lá continua, o nosso leito, sentindo todas as noites a falta de ti, homem. Quando ao anoitecer retiro a sevilhana do centro da cama e puxo a colcha de cetim branco-noiva para trás, aquela grande cheia de folhos farfalhudos que comprámos na lua-de-mel em Badajoz, dizia eu, que quando abro a cama Alfredo, e vejo as nossas duas fronhas juntas, juntinhas, até as bolinhas pretas do vestido da espanhola empalidecem, e o meu coração solitário rasga-se ao meio, saltando-me de lá, sobrecarregada de espinhos sofridos, a rosa amarela do Torel, murcha, murchinha ... a pobrezinha.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

crónicas de graça #1


O Tejo

Diz o Tejo, que anda triste a enlutar o leito de cinza-negro, quando se aproxima do mar para morrer. Já vem assim, entornado e vago, desde muito antes das colunas do cais. Há até quem jure, que o viu na mouraria num lamento pesado, porque há muito que não se escutam as guitarras e as vozes que lhes fazem companhia.
Diz o Tejo, que antes enterrava-se ali muito mais feliz, sem pó nem cascalho, estaleiros, guindastes e contentores, sem homens de costas interminavelmente voltadas para si. Já não sente a mesma vontade de se amadurecer, espalhando-se pelo mar da palha; queixa-se que lhe tirámos os peixes, os golfinhos, até as aves e que em troca o sujamos, o sovamos, o esquecemos.
Eu vou-o escutando, os velhos precisam de investir as memórias em nós, os que ficamos a assistir ao que vai sobrando.
Diz que à noite tem chorado pela mãe, Albarracín.
Sente falta das brincadeiras infantis, quando descia a serra materna a toda a brida, pulando em sulcos e fendas, em desníveis de relevo, levando atrás de si calcário, margas e arenitos que se soltavam com a sua força.
Lembra-se saudoso do encontro com o seu primo direito, Hoz Seca, o primeiro parente a afluentá-lo na sua foz, que o abraça com um emocionado caudal, maior que o próprio Tejo. Nisto, obriga-o a descer na galga, por pronunciadas gargantas encravadas na paisagem órfã de gente. Ao fundo, ainda consegue vislumbrar Guadalajara que lhe acena abalada com a violência do seu percurso; é natural, quase que o viu nascer.
Ali perto, sente-se protegido, valorizado pelas margens bordadas de uma flora rica em pisos bioclimáticos, pelos pinheiros, azinheiras, carvalhos-portugueses e juniperus.
Mais abaixo, quando gira bruscamente, outros rios-primos se aproximam e o afluem, elevando-lhe a altitude orgulhosa. E ufano, gargalha para mim.
Não se incomoda nada de derrapar nas mãos-cheias de barragens, que lhe peiam o caminho e lhe diminuem a cota, pois está a chegar a Aranjuez! Visita o Palácio Real e não se cansa do o fazer de todas as vezes. Repousa o leito estraçoado das linhas do caminho, numa albufeira seiscentista e empurra o caudal para os campos, para as culturas; oferece-se ao povo que o recolhe. No final do dia, o vaidoso, ornamenta em silêncio vegetal as magnólias dos Jardins de Aranjuez. E adormece, verde-claro, com a cadência mágica do pulso allegro e adagio, de Rodrigo na guitarra.
O sol já vai alto e núbio, quando o Tejo parte. Deixa-se levar pela corrente fluvial, pois há que beijar ainda a visigótica Toledo e numa postura monumental, atravessar-lhe as pontes. Diz-me que rio sem pontes, não chega nunca ao mar.
E já segue o meu Tejo a caminho da maioridade, ora girando para oeste, ora para este, recolhendo à esquerda e à direita outros rios que o inclinam, que lhe alteram a direcção, que lhe indicam o rumo, virando-lhe o sentido agora novamente para oeste; rios grandes e pequenos que lhe vão incrementando o caudal e aliviando o peso, às vésperas de inaugurar a estremadura caceriana e os descendentes de Moctezuma.
E lá vem ele, desarvorado por ali afora, para junto de nós povo luso, já de cota baixa, baixa ...
Passa pela velha de Rodão e inclina-se paralelo à beira mais baixa, seguindo para Belver onde a barragem o trava pela enésima vez. Em Abrantes saboreia a palha doce que lhe adoça o meandro em volta da colina da cidade, aguardando o Torto que se lhe junta pela esquerda.
Revela-me que ama profundamente, do fundo das suas águas sombrias, o seu primo Zêzere, grande contador de estórias e aventuras viriáticas. Pândego rio aquele, que o acompanha em noites de insónia; dois velhos que se apoiam um no outro, naquelas horas que já dispensam ao sono. Por isso, vê-se e deseja-se por chegar a Constância, ansioso pelo reencontro. O abraço é indefinível e sentido na pintura de Malhoa.

foto minha

Juntos partem para as muralhas medievais de Almourol, onde o cruel D. Ramiro foi alcaide. Depois de Aranjuez, é aqui onde o Tejo mais almeja repousar. Ignora a maldição do lugar e assiste nas noites de S. João, ao reaparecimento do abraço enamorado do mouro com D. Beatriz, no alto da torre do castelo. Trata-se de um romântico incurável, este rio.
Torna-se apaixonadamente raso, flutuante; mais parece uma ribeira-criança onde rãs se escondem nas pedras e pulgas de água saltitam, deixando para trás perfeitos círculos desenhados sem o auxílio equidistante do compasso. É o meu Tejo perfeito, aquele ali azul-claro, que se queda rente às minhas mãos.
Gosta de se anoitecer em águas de Santarém, prefere lá chegar de noite para assistir à festa dos toiros; é um aficionado, pois então!
Os últimos momentos de prazer vive-os em Alcochete, onde exibe com orgulho um estuário protegido legalmente, repleto de zonas húmidas, ilhotas, lodo, salinas e terrenos agrícolas. Banha-o num cumprimento emotivo, o último. Depois dá-se Lisboa e a conversão em rio-mar.
Mas Tejo, digo-lhe eu admirada, desconhecia esta tua agonia em desaguar na capital.
Baixa-me os olhos de espuma, no momento que atravessa a ponte de Abril e em tom salobre revela-me, são as gentes que se alteraram, já pouco falam ou riem, não se acometem ou arriscam sequer. Sinto falta daqueles outros homens, do audacioso e jovem Vasco, do João, dos Pedros e do Henrique sonhador. Já são muitos séculos a observar este povo que não se chega à margem; à minha, à deles. A nenhuma.
Ou então é de mim, nostalgia minha, já não sei ... pensava ser solamente del salero y de luces, mas não, não sou.
Sou do fado...


E agora, o meu querido parceiro destas crónicas quinzenais, oferece-vos de graça o seu Douro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #3

Vocês tomaram atenção nisto, não sei quê, não sei quê de um grande evento no meu blogobairro? E depois nisto, a dizer que algumas sextas-feiras vão ser diferentes, de novo no meu blogobairro? E agora isto, zappings e blogocomandos?
Mas o que é que ele anda a tramar para as sextas? Não me digam que o senhor CBO quer fazer concorrência
aos magníficos vírus quinzenais, aqui do meu Ares!
Eu sou a PresidentA deste blogobairro e não fui tida nem achada. Isto não fica assim e os meus impostos, o iva, o irc, as gorjetas, as luvas e o meu saquinho azul, como é que é, oh senhor Rochedo? Vamos lá a ver, vamos lá a ver...
Blogobairrenses, todos em estado de alerta nesta sexta! Estais avisados.

Ass: A PresidentA

terça-feira, 6 de outubro de 2009

no confessionário aos 40 #2


Tenho andado de uns tempos para cá, com carteiras cada vez maiores. Cabe-me grande parte da vida lá no fundo e sinto-me precisar cada vez mais de andar com ela atrás. Não que receie que algo me fuja de repente, assim sem eu contar, mas com a vida nunca se sabe. Daí que prefira carregá-la em desafogadas bagagens de mão.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #2

lagos, foto minha

A Associação Zooófila Portuguesa lançou a campanha.
Basta um só telefonema; simples, rápido, sem mais nada e 0.60€+iva, revertem para ajudar centenas de animais doentes, abandonados, mal-tratados, desprezados e escorraçados por nós.
É um palco de cenas, na maior parte, tristes, indignas, revoltantes e ao Homem, tem-lhe cabido quase sempre, o papel de um dos protagonistas da história, o do mau da fita. Tantos, mas tantos casos de negligência extrema. Chocante.
Temos agora todos a oportunidade de fazermos de bons, proporcionando-lhes cuidados veterinários, melhores condições de alojamento, esterilização, alimentação.
Uma sociedade também se mede, pela forma como trata os mais fracos e desprotegidos.
Divulguem e telefonem: 760 50 10 15
.

praia do amado, foto minha

Ass: A PresidentA

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

complicadas, nós? #2


As mulheres quando dizem, é só um instante, estou pronta para irmos jantar fora num minutinho, isso significa na verdade, que estarão arranjadas entre meia hora a quarenta e cinco minutos, no mínimo.
Queridos homens, um minuto, só será na realidade um minuto, quando elas vos derem esse mesmo minuto, para que expliquem porque chegaram atrasados a um encontro e não à hora exacta que elas marcaram.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #3


O Onofre, o padeiro cá do bairro é um bocadinho para o picuinhas, mas não deixa de ser um grandessíssimo sonso, o atrevido. Ai dona Amelinha, não se atire assim para dentro do estabelecimento e limpe os pés antes de entrar, ai dona Amelinha, vá lá trocar o baibidól por uma roupa de jeito, que isso não são modos de uma mulher séria se mostrar na padaria, ai dona Amelinha, não respire dessa forma ávida para cima do balcão que me embacia a vitrina, ai dona Amelinha, não se perfume tanto que se me enjoa a doçaria caseira, ai dona Amelinha, não esbugalhe tanto os olhos que ainda deixa cair pestanas no pão mistura e nas broas de centeio, ai dona Amelinha mainãoseioquêmainãoseiquemais.
Bom, já estão a ver onde é que isto vai dar, não estão? Eu dou mais um exemplo.
Noutro dia, encontrei-o na lavagem de carros, ele mais o seu veículo imaculado, um morris marina cor-de-laranja todo jeitoso. Bem educada como sou e com o recato que me é próprio, fui cumprimentá-lo e lá começou ele com o chorrilho de insinuações libidinosas, todo folgazão para cima de mim. Ai dona Amelinha não se chegue tanto ao pára-brisas que me borra o vidro com batom, ai dona Amelinha, não fique assim tão perto da minha cara que me perdigota as faces, ai dona Amelinha, não se enrosque na chapa que me arranha a tinta, ai dona Amelinha, tire lá a mãozinha do manípulo que me destrava a viatura.
O Onofre da padaria, tem ou não tem uma valente tara por mim?
Eu sei, sempre fui assim, tenho este efeito arrebatador nos homens.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

opressão torácica

foto daqui

A sobranceria deste homem, é assustadora.
Este homem ontem à noite, soltou finalmente a Besta.
O tom eversivo deste homem meteu-me medo.

música de fundo, pesadelo em elm street soundtrack

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

é o jornal a Bola, s.f.f. #1


Nos primórdios da humanidade não existiam sanitas, ou melhor, existir até existiam só que não tinham um nome convencional. Chamar-se-iam arbusto, moita, buraco da caverna, toca de coelho, ou ramo de árvore. Costumes salutares, biodegradáveis, tudo à vontade, na surpresa do relevo, no arejo da natureza.
Na idade média, a meu ver, a coisa ficou bem pior. Fossas expostas à vista de todos e esgotos inexistentes; carreiros escorregadios se formavam. Mas quem sabe, estas condições precárias e deslizantes tenham estado na origem, involuntária obviamente, de algumas modalidades desportivas do nosso tempo, como a patinagem artística, o snowboard, a ginástica acrobática, o salto em comprimento e para os mais porcalhões, o lançamento do peso; ah não, o peso não, esqueçam, esse veio da Grécia.
Bom, eu não faço ideia há quanto tempo o Homem usufrui das benditas sanitas; branquinhas, redondinhas, baixinhas, limpinhas, lisinhas, ainda para mais ultra sofisticadas, pois acompanham-se sempre de um acessório fantástico e indispensável: a tampa.
Grande, larga, resistente, um pouco sonora quando bate, com duas dobradiças que obrigam a dois movimentos repetitivos do ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar e assim pela vida fora até gastar.
Queridos homens, eu soletro: T-A-M-P-A!
Ora L-E-V-A-N-T-A-R, Ora B-A-I-X-A-R.
Eu repito para os mais distraídos: B-A-I-X-A-R!
Estamos entendidos?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

complicadas, nós? #1


As mulheres nunca exigiram aos homens certos tipos de fidelidade.
Assim, perante uma feminina questão frontal, olhos nos olhos, sobrolho assumidamente carregado, numa postura de ameaçadora inquisição como, gostas do meu novo corte de cabelo, o top fica-me bem, estes jeans fazem-me as pernas mais altas, o cor-de-laranja do vestido realça-me o bronze, ou a questão das questões, achas que estou mais gorda, o que devem eles obrigatoriamente responder?
Queridos homens, nestas ocasiões, nunca, mas é que nunca mesmo, sejam verdadeiramente sinceros.
Lamento, não estamos de todo interessadas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

vim só num instante aqui dizer que ...


... por vezes, quando não ando à procura de nada, deparo-me com tudo. E essas são quase sempre as minhas melhores descobertas; aquelas que encontro sem procurar, enquanto buscava por outras que nunca acho.

domingo, 20 de setembro de 2009

[15] boa semana


É a trilogia de que todos falam, eu sei. Mas é inevitável não comentá-la aqui; impossível mesmo.
Como tantos outros milhões pelo mundo fora, fiquei fã de Lisbeth Salander, a protagonista, excêntrica, anti-social, dotada de um QI capaz de arrumar em três tempos qualquer membro da Mensa.
Junto com um jornalista de topo, Mikael Blomkvist, viciam o leitor nas 600 e muitas páginas de cada volume e nem sequer sentimos o peso do calhamaço, tal é a dependência e o modo como nos deixamos prender à história com grilhões. Eu até as chaves das algemas deitei fora; enquanto não acabo de ler um, não respiro de alívio e nem sequer reclamo da comida da cadeia.

Comprei o terceiro e, infelizmente, último volume no sábado e até amanhã tenho de o desbravar; os outros livros que fiquem sossegadinhos nas prateleiras, tenham lá paciência, mas há prioridades pois então.
É certo que este fenómeno editorial, se deve em parte ao seu autor, Stieg Larsson, ter morrido pouco tempo após ter entregue os três volumes na editora e não ter usufruído do sucesso estrondoso da sua obra. Esse facto mexe connosco, cria-nos uma empatia, é verdade, mas não é de todo a razão principal do seu sucesso. O ritmo da narrativa torna-se galopante, à medida que o enredo se desenvolve e num instante já estamos no fim da história, desejosos de começar a ler o próximo volume. Queremos conhecer Lisbeth, dizer que estamos com ela, que é a maior e levá-la em ombros; sabendo claro que nos arriscávamos a ser imediatamente desterrados, se nos atravessemos a tais confianças. É tão antipática, fria e distante, bruta que nem uma porta, que se torna adoravelmente cativante, despertando no leitor um instinto protector.
A trilogia está nos tops de todo o mundo e é com todas as letras, um best-seller sim senhora e merecido, mas nada de comparações com os Dan Browns e as Stephenie Meyers desta vida. É tirar daí a ideia. Ah, e tem um tema central que me é muitíssimo caro, a violência contra as mulheres.
Como disse Vargas Llosa, Lisbeth Salander, deve viver.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #2


Há umas semanas que ando a dormir mal. Depois de tomar o meu copo de leite e a bolacha maria, costume a que a minha mãezinha me habituou, adormeço como um passarinho, mas lá pela madrugada acordo afogueada, com os lençóis aos pés da cama, a almofada no chão e toda descabelada. Houve até uma noite, oh valha-me Deus, que despertei com a camisa de noite desabotoada, quase revelando os meus pudores.
Uma pessoa fica assim meio assarapantada com estes sobressaltos nocturnos e não é para menos, pois as novidades não terminam somente nos fanicos, ah pois não.
Então cá vai: ele é o Clooney que me surge no horizonte a servir-me um tofina numa caneca do Bordalo; ele é o Pitt de cabelos ao vento, montado num Mustang gritando na pradaria, anda cá minha poldra, deixa-me pôr-te as rédeas; ele é aquele senhor já de idade, meio careca, que já foi um Bond a oferecer-me um scotch on the rocks no cume das highlands; ele é o Cruise, ai coisa mai linda, com os seus raiban verdes a mostrar-me as potencialidades do F-14, ou 15 ou lá que número tinha a avioneta do rapaz; ele é, vejam bem, aquele mocinho grandalhão que tinha um carro preto que falava com ele e que ultimamente corria pelas praias da América, com uma bóia cor-de-laranja nas mãos e salvava os incautos de afogamentos, lembram-se? Um rapagão de olhos claros, assim corpulento, com uns braços musculados, e umas mãos poderosas, umas pernas torneadas, fazendo-me boca-a-boca o grande calmeirão ... ai nossa Senhora, vou engolir mais umas quantas pedras de gelo.
Bom, adiante. A Lurdinhas
da mercearia disse-me em segredo, que estes sonhos eram próprios da idade e absolutamente normais, para uma pessoa na minha condição de viúva: o meu Alfredo já se foi vai para seis anos; descanse em paz.
Elucidou-me também, que os meus vigores nocturnos tinham até um nome científico; chamavam-se de góticos: sonhos góticos. Que dantes eram só as desavergonhadas e as que não iam à missa que os tinham, mas que agora, segundo ela lera numa revista lá na Zeneide manicure, fizeram-se estudos muito rigorosos que comprovam o contrário: qualquer senhora séria também tem destas coisas; podemos espraiar-nos à vontade, darmos largas à imaginação, estarmos possuídas de emoções marginais e até termos sonhos góticos tal qual os homens, ou lá como é que a Lurdinhas lhes chamou.
Fiquei tão mais leve com a inocência dos meus sintomas, que hoje até fui ao chinês comprar um baibidól mais aliviadinho, daqueles cor-de-rosa porno que eles lá têm com uma etiqueta muito engraçada, que diz em estrangeiro, shake it out baby,
瘋狂瘋狂.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

aprovado


Já arregacei as mangas.
Será com este sabor que vou colorir o meu novo escritório.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

y volver

bairro do eixample, foto minha

E então foi um matar de saudades do salero, das tapas e dos bocadillos, do jarro de sangria gelada na barra da bodega, das cavas nas taças, da crema, do chocolate con churros. Do espalhafato das conversas que eles mantêm em alto, dos boulevard cheios de famílias ao fim da tarde, das velhas empiriquitadas nos bancos dos jardins, das sombras brancas das esplanadas, das bicicletas que nos atravessam o passeio, da intimista Rambla da Catalunya que desce magnífica até à Praça e depois se une na outra Rambla, a turística que eu não aprecio por aí além, para terminar no mar mediterrâneo com o Cristóvão imponente no pedestal, vislumbrando a América a mando da ambígua Isabel, a católica.
Tornei a guardar por dentro a memória das fachadas dos edifícios, que me fixam os olhos sempre para o alto das varandas e balaustradas, para o ritmo das gelosias com carrego de cores sonoras; o encarnado, o baunilha, o cinzento, o branco e o terracota.
Alegrei os pés exaustos pelas ruas sombrias do bairro Gótico da velha Barcino, agarrado ao velho e novo Born onde de novo me extasiei com o jovem Picasso; e que bom voltar a almoçar pelas quatro da tarde e correr para a Bubó antes que me levassem os macarones de sabor a violeta. Únicos.
Ah e chegar à Barceloneta ao crepúsculo, estafada e já quase sem vida para molhar os pés na sauna que é aquele mar que escalda?
E tornar a ver o Gaudi? O que eu morro de amores pela Batló, pelo chão da Gràcia, pelo tracadís do Guel, pelo ferro e pelas chaminés guardiãs da Pedrera. Trouxe-o comigo na bagagem, em formato de mil marcadores de livros, cadernos de páginas incólumes, azulejos de tracadís, curvas em movimento, cristal translúcido e pedaços escorregadios de animalesco ferro torneado.
Antes do voo, ainda corri para ver de perto a resposta que o Domènech deu à Sagrada Família e espirrei três vezes, na esperança de ser atendida neste palácio-hospital.
Quis rebentar com a acústica do Palau, mas nem a Montserrat conseguiu. Y por la calle el Domènech de nuevo...
E fiz tanto, tanto, mas tanto mais, só que há sítios que não cabem noutro lado a não ser no seu próprio local. Ou então eu não sei escrevê-los.
Regresso sempre mais velha das viagens de sonho; uma espécie de sobrecarrego aliviado de ter provado muito em tão pouco tempo.
E não acredito nada naquela do não voltarmos nunca mais ao local onde fomos felizes.
Tretas, lérias, falácias: eu volto sempre.

sábado, 5 de setembro de 2009

adiós guapos


Oh p'ra mim, num dos boulevard mais bonitos da Europa:
El Passeig de Gràcia.

Besitos; me voy por la calle de compras, de juerga y de copas y de tapas.
Hasta luego.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

junta de freguesia do blogobairro #1

Talvez alguns de vocês não saibam, mas quando entram no Ares, entram também no blogobairro. Ou seja, aqui, uma comunidade de bloggers, vizinhos de patamar, companheiros de elevador, colegas do passeio com o cão, camaradas do aperto de mão, sócios do clube de dominó, compinchas de morada, inquilinos do prédio, habitantes do bairro, amigos do café, condóminos da administração, cúmplices da postagem blogosférica.
E eu sou a PresidentA desta gente toda, ora pois!

Não houve eleições, sei bem, nem haverá. Tomei posse, assim por dá cá aquela palha e aqui estou firme no meu palanque, a vigiar o blogobairro, gerindo e administrando, cumprindo à risca todas as burocracias que uma responsabilidade deste gabarito acarreta e principalmente, tomando conta das finanças e dos impostos que infligo aos meus condóminos, quando eles saem da casca com postagens e fotos onde não abundam a moral, os bons costumes e sobretudo, onde a pudicícia, a honra e a castidade desta família blogobairrense é posta em causa.
Mas sou uma PresidentA muito compreensiva, generosa, trabalhadora e quase não tenho dias de férias, tal é a minha dedicação a esta gente postadora. Como qualquer moura de trabalho, não chego a todos os cantos e por vezes, necessito de pedir uma ajuda, quase inútil é um facto, a outro elemento do blogobairro; a minha assitentA. E também tenho os serviços de uma advogadA, ena, ena!
'Taditas, elas até se esforçam; são vigilante na captura atenta de indecências como esta e que me vão enchendo o saco azul, que tenho só e unicamente para as minhas obras de caridade, como é do conhecimento público.
Por vezes, há uns elementos do blogobairro, por coincidência são quase sempre os mesmos, que se distraem e postam imagens de pouca vergonha como esta mocinha toda encardida ou estas que se puseram ao fresco. E depois têm o despautério, o atrevimento de me caluniar, como aqui. Resultado: 500€ de coima valente. Pimba.
Como já viram, sou um exemplo de PresidentA, um SIS da net, uma câmara vigilante e atenta que zela pela vossa saúde emocional. E se tinham dúvidas no modo como foi feita a minha eleição, deixaram com certeza de as ter, perante esta
modesta e humilde demonstração de capacidades acima da média que aufiro.
E como não sou PresidentA de sentimentos mesquinhos, ressentimentos devoradores ou sequer defensora de um regime ditatorial, desde que seja sempre eu a mandar obviamente, peço-vos que hoje, ide todos dar os parabéns a um dos condóminos mais antigos do blogobairro.
Ide, ide que há festa seguramente. E dupla.
Mas não vos esqueceis de observar tudinho com olhos de lince e se por um acaso, repararem em algo insólito como um mocho de nome Sebastião a fumar erva, uma tal de Brites amalucada em monoquini, cenas tristes com um taxista alcoolizado, umas moças descascadas, um papalagui fala-barato e sobretudo um dialecto visigótico totalmente em desuso e proibido nos dicionários civilizados e contemporâneos, avisai-me de imediato meu blogobairro querido, que eu entrarei de rompante na festarola com o meu kit de cobranças.
Correi, apressai-vos e festejai com ele.

p.s. ah, vá lá, façam o favor de deixarem pelo menos um eurito no saquito azul. Sim, esse mesmo aí do lado
.











Ass: A PresidentA, vitalícia, claro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

no confessionário aos 40 #1


Quando esta manhã acordei, reparo de imediato que aquela ruga ontem não estava ali. Delgada, é um facto, mas verdade seja dita, era mesmo o meu mais recente vinco de vida. Encolhi os ombros resignada e apresentei-a a outra que me nasceu há seis meses e a mais duas do ano passado. E pronto, ao todo tenho quatro; não me posso queixar.

Como boa anfitriã e apesar dela não ter sido convidada a entrar assim, desta forma abrupta, na minha intimidade, desanuviei-lhe a surpresa do seu descaramento com o meu sabonete que cheira a cor-de-rosa pálido, matei-lhe a sede com um tónico doce que utilizo para ocasiões especiais e ainda lhe fiz um pequeno-almoço altamente nutritivo, reafirmante e rico em colagénio.
Parece que a criatura gostou do tratamento honorífico e referiu que talvez estivesse ali para ficar.
Bom, por mim tudo bem rapariga, instala-te lá onde te der mais jeito, mas nada de te esticares ou de me sulcares a existência. Literalmente.
Espero que me tenha feito entender.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #1


O rapaz que anda à cata do lixo bom na minha rua, sabe da vida de todos os vizinhos através dos nossos restos, das pistas que deixamos sem querer, de pedaços que já não queremos e que despejamos todos os dias nos contentores.
Penso eu, que deve até já ter topado que a sirigaita de carrapito do 4º esquerdo é um pouco para o porca-relaxada; já eu, de desmazelada nada tenho e o sujeito de mim não tem como falar. Aliás, se for homem atento ao que deitamos fora, reparou de certeza que eu passo sempre por água todas as embalagens antes de as colocar no amarelo. E faço o mesmo com os vidros.
Até posso descer à rua de roupão florido de flanela, rolos na cabeça e com o meu salsicha pela trela, mas sempre, sempre de unha arranjada e mais: recolho todos os extras do canito do passeio, naqueles saquinhos que a câmara fornece.
De suja não tenho nada, sou mulher de muito asseio. Ouviste bem, oh flausina?

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)