domingo, 27 de março de 2011

encerramos todos os dias no domicílio


Sentia-se já saturada das caixas e da profissão. Anos de aperto, de cheiro a cartão, de açúcar e bolos, da espera, da posição contorcida.
Esqueci-me de ir ao supermercado. De pagar a água. Da última prestação da máquina da roupa. E do leite em pó do bebé.
Aquelas caixas-presente eram cada vez mais fedorentas. E acanhadas. Muito permeáveis. Absorviam o ar saturado, que de fora lhe chegava espesso da cerveja, emborcada em goles desmedidos.
O cartão deixava passar o cheiro dos charutos beras, mais as viris prosas gargalhantes, que se viviam do lado de lá daquela caixa.
Esqueci-me de ir ao supermercado. De pagar a água. Da última prestação da máquina da roupa. E do leite em pó do bebé.
Depois dos 30, trazia a respiração mais difícil, transpirava como um rio, nasciam-lhe bigodes de suor, o biquíni agregava-se ao seu pregueado corpo ensopado, desatinado por se desapertar. As lantejolas, baças e velhas, soltavam-se, indo-se confundir na repugnante cobertura do bolo que a encobria.
Finalmente o alívio da música. As primeiras notas de uma rapsódia antiga, avisavam-na que iria rebentar pela caixa afora.
Esqueci-me de ir ao supermercado. De pagar a água. Da última prestação da máquina da roupa. E do leite em pó do bebé.
Com um sorriso sedutor imposto pela profissão, deveria procurar um rosto de solteiro atemorizado e dançar para ele. Vagarosamente. Aliciá-lo, provocá-lo, fazê-lo soltar o dinheiro e prendê-lo nas tiras do biquíni.
Não sentia os músculos, não sentia o creme do bolo a desmoronar-se debaixo de si, não se sentia resvalar.
Não se sentiu capitular.
Esqueci-me de ir ao supermercado. De pagar a água. Da última prestação da máquina da roupa. E do leite em pó do bebé.

9 comentários:

Paula disse...

Belos regressos! :)

Justine disse...

Mais uma estória de vida viva, sentida, pungente - em suma, muito bem escrita!

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Patti,
mas uma capitulação que não se sente é, verdadeiramente, uma rendição?
E ao recorrente assalto da falha no tal campo que exclui o descanso semanal, parece ter sobrevindo a tragédia da derrota, mas não a desistência, que mais do que crise, é vergonha sem aflição.

Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Estou a ver que regressa em grande, Patti. este texto fez-me lembar a Amelinha, coitada. Tem aparecido por aí?

f@ disse...

Só o pó do leite e a água podem resvalar no esquecimento...
...
o branco leitoso de sentir...

...
não tenho palavras...

beijinhos Patti

CNS disse...

Muito bom, este texto, Patti.

Alberto Ó disse...

A prosa é fluente, os "separadores repetidos" a preceito e (assim a memória me ajude) passarei por cá mais vezes.

Acho que não me esqueci de nada.

paulofski disse...

Para sintomatologia do mal da demência, a falta de memória não me parece ser diagnóstico neste caso de vida.

Anónimo disse...

Ah! A Patty escreveu!
Vim a correr ler "um texto delicioso". Mto obrigada.
Aida