quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
crónicas de graça # 6
Pois é, eu sou das tais que vivem esta época intensamente; com uma grande alegria. Apesar da falta que o meu Alfredo me faz, já o sabem. Excepto com aqueles que por razão de força maior, como a experiência de uma fatalidade, não vivem bem esta quadra, não tenho a mínima pachorra para os abutres do Natal. Credo! Fechem-se em casa.
Ora embirram com as compras, ora com os doces, ora com a música, ora com as luzes, ora com o trânsito, ora com o pai natal, ora com os frutos secos, ora com o bolo rainha. Livra!
Oh minha gente, embirrem lá mais para o início de Janeiro, que até é um mês estúpido e tudo, e deixem o Natal sossegado. Oh valha-me Deus.
Que há muita desgraça no mundo, muitas crianças com fome, muitas famílias sem tecto, muitas pessoas sozinhas, muitas guerras sem fim. Pois há. Aqui no bairro também, mas não aparecem só no Natal, estão por cá todo o ano. E quanto a mudar o mundo, nada posso fazer. Posso e devo consertar o que me rodeia, na esperança que se repercuta nos outros e assim por diante. Tipo efeito dominó. Se todos plantarmos uma flor no quintal, o vizinho imita-nos e todos os quintais ficarão mais bonitos. Agora, aquela maniazinha de virem só nesta época, chamar a atenção para os problemas do planeta, encanita-me. Mas os problemas não duram todo o ano? Pois se não estão satisfeitos, tentem mudar as coisas, ou não é?
Bom, adiante.A minha azáfama começa logo em finais de Outubro. A família espalhada pelos quatro cantos do país, aterra toda aqui no bairro a partir do dia 22, e há que acomodar esta catrefada de gente na minha casa. Fazer camas, baixar divãs, pedir colchões emprestados, escolher toalhas, cobertores e lençóis. Enfim, um cansaço mas que muito me agrada, não fosse esta a festa da família.
São os meus pais de Mirandela, mais os meus irmãos e as mulheres e a filharada toda, que vêm de lá com o cabrito, o pão, as nabiças e o melhor azeite do mundo; os primos de Gouveia que me trazem as perdizes à moda lá da terra, mais as trutas abafadas; a minha cunhada de Porto Santo, com o bolo de mel, o licor de amoras e os fartos de batata-doce; os meus tios de Serpa, carregando cabazes de papos-de-anjo, a encharcada, a garoupa para a canja, o tinto alentejano e as azeitonas; e finalmente os meus compadres marafados, com o rico polvo, duas caixas de lingueirão e o folar doce do Natal. Aqui a Amélinha, contribui com o bacalhau da rua do Arsenal. Não falho um ano.
Depois, há que dar uma mãozinha ao padre Hipólito, no auxílio às famílias mais pobres do bairro, que em regra têm também muitas crianças. Este ano, calhou-me a partilha da minha ceia de Natal com a família Pereira. Têm cinco filhos, o pai está desempregado e a mãe faz limpezas aqui pelo bairro. Muito humildes, mas gente muito honrada. Portanto, mais pessoal para sentar à mesa. A Zeneide manicure, aquela rapariga moderna que me elucidou acerca dos sonhos góticos, é que me deu a ideia de eu fazer um jantar rolante ou volante, ou andante, ou lá como aquilo se chama. Girante, é isso: um jantar girante. Chic, não acham?
Também adoro aquela parte dos presentes. Não posso gastar muito, já se vê, mas de um giro pelas lojas da baixa, é que eu não abro mão. Era só o que me faltava, falhar com as compras de Natal.
E para quem não anda muito abonado como eu, aconselho ali o território que vai dos Fanqueiros ao Martim Moniz. E não se ponham com caganças de lojas finas, porque a zona de que vos falo é muito catita. Ele é pijamas de seda indiana, dez pares de peúgas a 5€, guarda-chuvas coloridos, caixas de jóias chinesas pintadas à mão, com desenhos de pagodes dourados, despertadores com a música do Pingo-Doce, televisões, rádios, leitores de dvd e consolas, de uma marca muito boa, mas que agora não me lembro o nome porque está em chinês, carteiras de marca, porta-chaves de pele genuína, pauzinhos de incenso e fatos de treino de nylon, muito jeitosos.
E finalmente, os fritos. Os famosos fritos de Natal, pelos quais sou afamada aqui e nos arredores. Todos os anos despacho para fora, quilos e quilos de encomendas que me começam a chegar logo em Novembro.São os sonhos de abóbora, de cenoura, de maçã, de gila e este ano inovei com os de banana: um sucesso! Sou também a melhor nas fatias douradas, pois faço-as com o pão que o meu rico pai me envia lá de Trás-os-Montes. Ficam assim ensopadinhas, ensopadinhas. E os coscorões? Querem lá ver coscorões mais amarelos e estaladiços que os meus? Isso é que era bom. Até o Onofre, o padeiro esquisitinho, mos encomendou este ano porque os dele tinham a textura de trapo. Só vos digo que não há azevias de grão como aqui as da Amélinha. Grão-de-bico! Do bom e verdadeiro, que na comida eu não sou cá mulher de fazer poupanças.
E é tudo amassadinho com as mãos. E não se me estala o verniz, não senhora. Horas e horas de vira e revira, amassa, esmurra, bate, volta e torna a voltar. Quero cá essas modernices de Bimbes e máquinas de pão e mainãoseioquê!
E também não me venham cá com conversas de comer com moderação, um bocadinho ali e um bocadinho aqui, e mais o cuidado com a linha, e mais a boca cosida, e mais a figura e o raio das dietas. Querem lá ver coisa mais disparatada que esta, de fazer restrições na alimentação durante o Natal? É com cada moda que inventam hoje em dia.
Bem, deixa-me lá ir. Ainda tenho duas mantinhas para acabar de tricotar e levar ao gatil, três dúzias de filhoses de abóbora, encomendadas pela Lurdinhas da mercearia, não posso faltar à missa das nove, levar dois aquecedores a óleo ao lar da paróquia, ajudar a vizinha do segundo direito a colocar a estrela no topo do pinheiro e ainda, dar um saltinho à loja do chinês para comprar mais papel de embrulho. Tanta coisa ainda para aprontar.
Mas que o meu jantar girante, vai fazer furor no Natal cá do bairro, ai isso vai.
E o senhor Carlos, o que me diz desta época?
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
no confessionário aos 40 #5
Também por lá paravam o sol obra-prima, aquele sol branco-inverno, picante e fundo, acalentador da nossa pele, nutriente; as ondas-mulher que barafustavam altas e espumosas, desde o fundo do horizonte prata até à praia, onde decidiram estalar o seu sal na areia amarelo-palha; aves marinhas de bico cor-de-laranja e corpo preto, riscado de branco meigo; duas dezenas de apaixonados da água gélida, pontinhos negros, formigas laboriosas, barbatanas de tubarão, que saltavam para o corpo das pranchas, dançando sobre elas sem parar, enquanto houvesse pista para andar.
O mar nunca é tão mar, como quando se funde com o sol do frio-norte.
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sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
sopas de letras portuguesas # 1
Do que me pedes, baixinho
"Não venhas tarde!",
E eu peço a Deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.
Que eu vou p'ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
"Meu amor, não venhas tarde!"
E blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.
Quando era miúda, este fado do Carlos Ramos ouvia-se muito na rádio - ou melhor, na telefonia.
Sempre gostei de fado, é a música da minha terra, mas a este detestava-o - e sigo a detestar.
Primeiro e antes de compreender alguma parte da letra, era a voz do homem que me incomodava: arrastada, falsa melosa, quase suplicante.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Depois, na idade da compreensão passei a antipatizar com o protagonista da história: mas ele tem uma amante? e é casado? e vai ter com outra na cara da legítima? e ainda diz que ela sofre de ciúmes?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
E finalmente, a raiva a esta letra personificou-se na traída: mas a parva ainda lhe diz para ele não vir tarde? e com carinho? sem fazer alarde? sem azedume? e ainda se vai despedir à janela? oh mãe, mas como é que a mulher atura um marido daqueles?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Mas, coitada da desgraçada. Só alguns anos mais tarde entendi que era uma situação comum à época. De educação. De formação. De lei, até. Mulheres em casa com os filhos. Cumpridoras e pacatas. Eles na rua e onde bem lhes apetecesse. Cumpridores também. Mas já não tão pacatos.
Depois, a minha mãe, que felizmente sempre foi muito acima do seu tempo, contou-me que só em 1966, é que a mulher casada teve autorização do marido, para exercer uma profissão liberal ou na função pública. A palavra autorização, é fantástica, não é? Mas alto lá, ele ainda tinha o privilégio de poder denunciar o contrato de trabalho da mulher.
Nesse mesmo ano, a mulher casada alcançou também o direito de ser detentora de património próprio e de poder movimentar contas bancárias. Uma sortuda, já podia ter mealheiro e tudo!
Só em 1969 é permitido à mulher, viajar sem autorização do marido. Influências da ida à lua, só pode!
Até 1975, era multado aquele marido que assassinasse a sua mulher por razões de adultério. Ela ia presa. E upa, upa!
Em 1976, o marido perde o direito de violar a correspondência da mulher. As despesas da capelista, da mercearia e a conta mensal do talho...
Só em 1978, o marido perde o título de "chefe de família".
E eu de boca aberta com o nonsense da coisa.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Assim, não é de estranhar que este detestável fado, tenha sido à época, cantado e recantado vezes sem fim.
Oh Gi, mulher laboriosa com as letras, tu reescreve-me aí estes execráveis versos e desencanita-me o fado, menina!
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terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
aqui vou eu # 2
P'ra lá...
e p'ra cá
E no dia 10, vou estar aqui e ali.
sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
crónicas de graça # 5
Alface vem do árabe e foram os nossos avós mouros, os responsáveis pelo cultivo da planta quando da sua ocupação da Península Ibérica - Al-Hassa.
Há quem fale também de um cerco que a cidade sofreu e que mais não havia para comer, do que alfaces.
Dizia também, Oliveira Marques, que a Lisboa burguesa de finais do século XIX, tinha o costume de nas domingueiras tardes de calor citadino, se reunir em grandes almoçaradas pelas muitas hortas dos arredores de Lisboa. O típico peixe frito era acompanhado, ao que parece, com astronómicas quantidades de salada de alface. Quem vinha de fora, achava tudo aquilo tão pitoresco, que passou de uma moda estranhada a caricaturada.
Eu sou alfacinha de gema. Ali do meu Chiado, logo na sua primeira esquina, a da rua Serpa Pinto.
Os alfacinhas, como tudo na cidade, vêm sofrendo transformações. Não pretendo nenhum relatório, vou falar apenas dos que me lembro; dos do meu tempo, seja ele qual for.
Recordo-me de muitos géneros de alfacinhas. Não havia somente o alfacinha típico, que a maioria fala e conhece a fama.
Aquele bairrista que esfregava o olho mais rápido que o diabo, encostado estrategicamente nas esquinas da avenida, donde atirava piropos às criadas fardadas que passeavam os meninos das casas ricas. Os empolgados aficionados, organizadores dos bailes dos santos populares, com manjericos, flores de papel com quadras populares, alcachofras queimadas à janela, molhos de alfazema e rouxinóis de barro que apitavam na boca das crianças por esta altura, em toda a cidade. Os alfacinhas que discutiam com a varina, o preço do goraz, da posta de pescada e da petinga para o gato. Os que enfeitavam as varandas com vasos cheirosos de sardinheiras encarnadas, que estendiam os tapetes a arejar nos varandins de ferro, que penduravam a gaiola do canário no exterior, que traziam o grelhador para a rua e assavam a sardinha, o bacalhau e o frango assado. O alfacinha malandro e estroina, biscateiro e calão que trazia sempre uma história nova, para enganar o primeiro que encontrasse ao caminho. O fadista marialva e boémio. O alfacinha que se não fosse benfiquista, não era bom chefe de família.
Recordo também muitos outros alfacinhas.
Na entrada do ano, estes alfacinhas compravam o Borda de Água a fim de consultar as festas, os dias dos santos e os feriados sem domingo. Passeavam no Campo Grande, onde se alugavam barcos e bicicletas. Desciam a Avenida em família. Paravam nos Restaurados à conversa. As salas de espectáculos esgotavam e usava-se a palavra matiné para o cinema, o teatro e tardes de dança.
Alfacinhas que lanchavam na concorrida Baixa e faziam refeições tardias, nos muitos restaurantes e cervejarias abertas até desoras. Sem problemas.
Cruzavam-se alfacinhas anónimos, com alfacinhas poetas alfacinhas músicos, alfacinhas actores, alfacinhas atletas, alfacinhas escritores. E acenava-se com a cabeça, num cumprimento educado.
Alfacinhas que enchiam espaços tão distintos como os cafés e esplanadas, livrarias, retrosarias, casas de discos, padarias, jardins, drogarias, hortos, mercearias, jardim zoológico, miradouros, o castelo. Esgotavam-se as ruas.
As alfacinhas e as filhas iam à modista, à capelista e subiam aos grandes armazéns do Chiado e eles, engraxavam os sapatos sussurrando politiquices baixinho.
As empregadas das lojas tinham nome próprio, as vizinhas raminhos de salsa e as caras dos motoristas de táxi, não nos eram estranhas de todo.
Lisboeta. Lisboano. Lisboês. Lisbonense. Lisbonês. Olisiponense. Lisiponense. Lisbonino. Alfacinha.
Alfacinha consagrado por Garrett nas suas Viagens, capítulo VII: "Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare".
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quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
parasimpattias #2

Exercício: Um objecto acompanha desde o início do casamento, a vida conjugal de um casal.
Esta é a sua visão da história.
Acabadinho de sair do forno, fui comprado ainda cachorro por um casalinho de apaixonados, recém-casados. Ai amorzinho que peça mais linda! Ai que ficava tão bem na nossa entrada! Ai que brilha como os teus olhos! Ai que me fazia tão feliz se o levássemos! Ai mais não sei o quê! Ai mais não sei que mais.
Eram assim, a Mariline e o Ismael. Amorzinhos, beijinhos, festinhas, meiguices, pieguices, lambuzices e outras parvoíces. Fiquei um pouco enjoado, confesso. Até para mim, um cachorrinho que adora lambidelas, aquela peganhice toda me parecia um exagero. Mas lá fui. Confiante que de tanto carinho, algum haveria de sobrar para mim. E não me enganei.
Fui colocado no hall, defronte para a porta da entrada, logo ao lado de um belo móvel sapateira, de carvalho polido e ferragens douradas, que faziam clara concorrência ao meu brilho natural.
A minha enigmática postura, impunha-se naquele hall, como um general na frente das suas tropas e espalhava-se por toda a casa. Ninguém me ficava indiferente. Era carismático e possuía uma imagem envolvente, como o amor daqueles dois.
Eu sou um dálmata de nível, sóbrio e com um certo pudor, por isso não me vou pôr aqui a relatar a intimidade dos meus donos. Mas que subiam paredes, ai isso subiam!
Pronto, já que insistem, eu desbronco-me um pouco. Mas só um bocadinho.
Não estou a cometer nenhuma inconfidência - os vizinhos do prédio são testemunhas - se vos disser que havia festa todos os dias. E noites.
Ele era caixas de bombons e ramos de flores exóticas, às sextas; técnicas acrobático-sexuais aos sábados; reflexões tântricas aos domingos e ramboiada da grossa, às segundas e quartas. Nas terças e quintas, jantares românticos em trajes sadomaso e desenvolvimento do léxico amoroso do casal: pombinha, fofinha, pote de mel, arrufada, patanisca, aboborinha e meu rabanete.
Mas não se esqueciam de mim. Era tratado imaculadamente. Davam graxa ao amor deles e puxavam-me o brilho com sonasol verde. Estudavam-se um ao outro e limpavam-me o pó com minúcia. Mergulhavam horas em perfumados banhos de espuma e colocavam-me no buraco que tenho na base, um perfumado sabonete de alfazema.
Todo eu rutilava e o meu corpo mais não era, do que um espelho reflector da feliz vida de casados da Mariline e do Ismael: plena de atenções, excitações, miminhos e beijinhos.
Mas não há fome que não dê em fartura. Com o tempo, fartaram-se da marmelada. Foram escasseando os bombons e as flores. Os dias marcados para as suas loucuras, também sumiram do calendário. Eu ali no meio do hall, já numa posição meio enviesada, como a relação dos meus donos. A cabeça virada para a porta da cozinha. O pó acumulara-se no meu corpo, os ácaros faziam pouco de mim, o brilho da minha louça, outrora o centro nevrálgico daquela decoração, esbateu-se-me, ganhando uma película baça, levemente gordurenta.
Depois começaram a gritar um com o outro, a arremessaram objectos: a colecção das caixas de bombons, os ramos de flores secas, os cintos de ligas, o chicote e as algemas. Esgotadas as peças do seu amor, depressa se voltaram para algo mais prosaico: frigideiras, jarras e comandos de televisão.
Fiquei sem uma orelha, ganhei um buraco no lombo, perdi um olho e esfolei o focinho, ficando marcado para o fim dos meus dias.
Hoje em dia, não me fazem caso. Já não me limpam o pó, ignoram-me a perda do viço, não me lavam e esqueceram-se do último sabonete de alfazema dentro de mim, só resta o invólucro vazio. Arrasaram como o meu orgulho de dálmata autóctone, fazendo-me reduzir a um vulgar enfeite. Um bibelô inútil, sem salvação.
Que saudades dos meus colegas da loja de decoração. Onde estarão todos vocês? Que donos lhes coube? Que vidas presenciaram? A fonte de pedra com o menino a jorrar água pelo cântaro; a sevilhana orgulhosa disposta em cima da cama lacada; os pratos de louça azul, com provérbios e ditos populares; os sofás de veludo verde, em capitonê; os centros de mesa com frutas plásticas. O quadro do menino da lágrima.
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quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
meu o início, vosso o final #1
...e agora, caros leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.
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terça-feira, 24 de Novembro de 2009
complicadas, nós? #3
Assim, muito seria poupado se tomassem em atenção simples frases, proferidas em tom escarninho como: Esquece! Não tenho nada! Deixa que eu faço! Obrigada, eu resolvo!
Queridos homens, desatenções fatais como estas, leva-vos irremediavelmente a escutarem a frase das frases: Precisamos de ter uma conversa!
E neste tipo de conversas, já sabem quem é que ganha sempre...
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segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
exercício #2: suspense?
Retirou do suporte uma faca afiada, daquelas de lâmina luzidia e reflectora, que fazem suster a respiração se empunhadas com destreza. Pôs-se a observá-la com cuidado, subindo-lhe à ponta dos dedos uma tensão nervosa, rogando-lhe que a usasse.
Lapidou a fruta tímida e descolorada, primeiro de forma subtil e delicada, mas à medida que a acústica do silêncio fazia ouvir os silvos do facalhão na bancada de aço inoxidável, fazendo clara concorrência com as estridentes buzinas dos carros, lá fora no vendaval da noite, ele entusiasmou-se e em três golpadas certeiras, desfez carrascamente o aflito fruto em pedaços, provocando-lhe um desmaiar fatal de sumo escorregadio.
A inexperiência fê-lo falhar o último golpe. E no chão de mármore branco impoluto, misturaram-se numa dança lenta, a espessidão encarnada do sangue fresco da sua mão, com a seiva doce da vítima.
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sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
crónicas de graça # 4
São inofensivos. Mas muito felizes, já o testemunhei. Acho-lhes um piadão e por vezes junto-me: também tenho uma t-shirt branca com o I Love NY, caramba!
O verdadeiro turista almoça e janta nos restaurantes de junk food, parece maluquinho na conquista da foto da praxe, com o monumento mastodonte bem ao centro e a sua figurinha de sorriso imbecil lá pespegada, cheia de malas à tiracolo e ainda o saco plástico do duty free.
A sua maior ambição, é portarem-se como um japonês na Europa: aglomerações de gente pequenininha e morena, sempre a sorrir e de passinhos apressados. Pessoinhas miudinhas, que se nos atravessam na frente da lente, quando finalmente conseguimos focar a imagem ideal. E nem dão conta do estrago, seguem em frente, sôfregos, proferindo um encadeamento de frases totalmente onomatopaicas, ditas em tom samurai. Sem pausas para respiração.
São os melhores clientes das excursões organizadas; carregam três ou mais gadgets ao pescoço; observam tudo de corrida e de esguelha com o olhar mais vivo que já vi; acenam com a cabeça a cada explicação e clicam dez fotos da mesma imagem.
Ora bem, eu também turisto alguma coisa, principalmente se não conheço o sítio. Não dou é muito nas vistas, apesar de ter tiques parolos, isto é: se eu vou a um local que nunca visitei, cá ou lá fora, eu quero saber de tudo: vejo e revejo blogs de viagens, google maps, sites oficiais, links vários. Vou do consulado à junta de freguesia; já para não dizer que fico íntima de todos onde busco informações. A páginas tantas, já sou eu a dar dicas aos turistas: uma perfeita parola, portanto.
Há um senão, raramente me meto em excursões cheias de gente. Depois é assim tudo muito à vontade, levamos encontrões, sentam-se quase ao nosso colo, oferecem-nos pastéis de bacalhau, dançam o fandango, beba lá uma pinga oh vizinha... e eu que não gosto nada de vinho de garrafão. Manias.
Outra característica do verdadeiro turista, são as compras. Aí, alto lá: sou imbatível. A rainha das parolas. Não há loja que me escape: da boutique à livraria, do mercado à feira de rua, das lojas de chocolates e compotas, às de chás e cafés, passando pelas lojas de souvenirs dos museus e fundações. E as papelarias e artigos de escrita? Oh senhores, entro em ebulição.
E postais? O que eu trago de postais? Mas Patti, já tiraste duas mil fotografias, para que queres tu tantos postais?
Não percebem nada.
Tem lá algum jeito uma pessoa turistar e não tirar um dia inteirinho para as compras? Um dia e meio, vá. Na pior das hipóteses.
Até ficava maldisposta, poderia dar-me uma apoplexia, uma crise de identidade, uma fraqueza no meu Eu: não saber quem era, perder o rumo, assim, no meio do estrangeiro!
E depois, a segunda mala que levo sempre comigo quase vazia, tornava à pátria cheia de quê? De ar? Que desperdício.
E não preciso de companhia, nem incomodo ninguém. Vou muito bem sozinha.
Mudando o tom para algo mais repousante e antes que ao meu querido parceiro, lhe dê uma travadinha depois de ler o que escrevi acima, direi que viajar, é outra coisa caros leitores.
Eu viajo por defeito, isto é, passeio-me sem rumo, calcorreando ruas e passeios, praças e jardins. Faço-o por costume. Veio-me no adn.
Gosto de olhar para cima; do meio para cima. Observar os traços dos prédios e das casas, as águas furtadas, ver onde chega e bate a copa das árvores, espreitar as cortinas das janelas mais altas, ver quem lá mora e que vigia os que passam em baixo, sem saber que também é notado.
Os espelhos da luz. A diferença dos efeitos que ela provoca. As fugas das gelosias.
Este meu viajar-passear-desfrutar sem norte, é feito de forma mais descontraída, sobretudo nos locais que já conheço. Nos sítios de que mais gosto e onde posso vaguear e me perder, na expectativa semi-secreta de encontrar alguma coisa que ainda desconhecia e que me tenha escapado de outras viagens. E quase sempre encontro. É o usufruir sem compromisso que me atrai, o inusitado da surpresa, o prazer do destapar ainda mais.
Viajar assim, é um estado de zona de conforto, de quase repetição mas com mais bagagem para ir enchendo a memória. Será isso, talvez: um exercício de memória que carrego sempre para onde vou. Sinto muitas vezes que sou o que sou, pela memória que trago.
E depois cair no lugar comum das recordações. Lembrar os locais, os cheiros, as pessoas, a comida, a temperatura, o chão, as vozes. Os pormenores. Falar de como foi a vida, vivida noutro tempo. Noutro lado. Mesmo que esses tempo e lado, tenham sabido e durado pouco.
Mais um pedaço para a memória, registado no meu terceiro braço: a máquina fotográfica.
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quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
exercício #1: afrodisíaco?
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terça-feira, 17 de Novembro de 2009
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
no confessionário aos 40 #4
Poderá ser esse um dos mistérios da palavra escrita.
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
[17] boa semana
De capote, samarra, camisa de quadrados, chapéu e botas altas. Castanhas e água-pé.
É a estreia da Beatriz no Largo do Arneiro, na capital portuguesa do cavalo, numa apresentação de éguas afilhadas da ilha Terceira e num carrossel de quatro elementos. Espécie protegida. Raça Pónei da Terceira.
E a excitação é grande. Ao rubro.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
crónicas de graça #3
São palavras de admiração que há muito se impunham. Para mais agora, que ALA comemora os 30 anos da publicação dos seus dois primeiros livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas.
Vendo bem, este será até um post muito curto, pois a sua vida é a sua obra, e a sua obra a sua vida. E milhares de horas, foram aquelas que passou a escrever. E que ainda passa. Não cabe tudo aqui. Seria mesmo impossível.
Este texto não tem qualquer pretensão, a não ser o enorme prazer que me deu fazê-lo, assim tanto, como tenho em estudar, ler e ouvir António Lobo Antunes; mesmo quando ele diz que só fala banalidades: "Tenho a sensação de que só digo banalidades. Eu sou um homem banal. Um amigo meu dizia-me que penso como um génio, escrevo como um bom escritor e falo como um débil mental".
Setembro de 2009).
(cartas de angola 1971)
...
Havia um livro muito comprido que praticamente era o embrião de todos os que foram publicados. Escrevi-o enquanto estive na guerra, e muito antes disso, para aí durante sete ou oito anos.
(entrevista a mário ventura, 1981)
Acho que as miúdas têm um. Esse romance era enorme - três vezes o Fado Alexandrino -, porque na guerra eu escrevia todos os dias para mim e isso ajudou-me muito. (...) Eu lembro-me que mandava bocados - era tudo uma merda - e a Zé achava aquilo uma maravilha, para altos voos. Às vezes, eu acreditava, mas na maior parte das vezes não. Estava consciente de que não prestava e que não era o que eu queria fazer.
DEPOIS DE JÚLIA: título do calhamaço que se seguirá ao Voo, que eu acho porreiríssimo. Diz o que pensas. Entretanto a carroça pôs-se a andar outra vez. (...) E logo a seguir, depois de um intervalo para respirar, começo esse tal Depois de Júlia (que queres, adoro este título) de que tenho a ideia. Gostas do nome? (...) Gostas de Depois de Júlia, não gostas?
(cartas de angola 1971)
(entrevista a mário ventura, 1981)
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
Lendo as suas cartas de guerra, sente-se de imediato, já nesta altura com vinte e alguns anos, a presença constante do cruzamento da angústia-prazer, assomando-lhe à mão que desenha as letras, e à cabeça que vela por essa mão.
(cartas de angola 1971)
...
Faz trinta anos que o António foi publicado pela primeira vez. É impressionante que o Memória de Elefante e Os Cus de Judas, continuem a vender-se tão bem como em 1979. São best-sellers, os leitores gostam muito destes dois livros. São uma referência na sua obra.Por outro lado, há todo o problema da escrita, que são muitos anos de escrita, hesitações, de dúvidas, de reescrever, muitos anos à procura de uma forma. Acontece que, pela primeira vez com este livro, eu senti que tinha encontrado uma maneira pessoal de dizer as coisas.
(entrevista a rodrigues da silva, 1979)
...
Escrevia há muitos anos, mas nunca tinha pensado em termos de publicação. Os meus amigos nem sequer sabiam que eu escrevia, nunca pensei em fazer uma carreira literária. Por razões várias mostrei Os Cus de Judas a um amigo, um médico, o Daniel Sampaio, que não tinha nada a ver com o meio das letras. Só que ele impressionou-se e tratou de tudo, levou o original ao editor, etc. (...) Memória de Elefante foi o primeiro a sair. Era, no entanto, um livro em que ninguém acreditava, saiu nas férias, em Julho. Quando vim, em finais de Setembro, a primeira edição estava a esgotar-se. Achei estranho, o livro fora lançado por uma pequena editora (...). Foi tudo de facto muito surpreendente pela forma como aconteceu. Depois as edições começaram a sair umas atrás das outras.
Os Cus de Judas, apareceram depois. Se não fosse o Daniel nunca teria publicado nada, teria continuado a escrever como até então, nem sequer para as gavetas, porque não tenho gavetas a não ser as da roupa. Rasgava o que ia fazendo, nem sei, afinal porquê.
(entrevista a fernando dacosta, 1982)
...
Sim, ninguém me queria, mas eu não estava preocupado porque escrevia sem ter pensado em publicar. E achavam que aquilo não era um livro, que era uma coisa muito estranha!
...
Se eu fosse reescrever o Memória de Elefante! Não o posso fazer porque é um livro de um outro, eu já não sou aquele homem, aquele rapaz.
...
Levei anos a levar pancada das pessoas que escreviam nos jornais, dos críticos, disso tudo, e nunca percebi porquê. Mas era pancada, pancada mesmo, porque não me aceitavam. Agora compreendo, pois vendo as coisas no contexto da época, o Memória de Elefante era algo completamente novo numa altura (pós-25 de Abril) em que toda a gente esperava obras-primas que estavam nas gavetas e nada foi publicado.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...) E agora olhando para aquilo, porra, eu escrevia aquilo tudo outra vez ou deitava fora, nem publicava. E espanta-me, pois o livro fez agora nova edição de bolso, e continua a vender. É estranho... O que eu vou deixar é isto. Palavras ...
Um autor que ninguém sabia quem era! Lembro-me de ele (o editor) dizer: É melhor tirarmos o Antunes, Antunes é muito feio. Fica só António Lobo.
(...) O sofrimento não sei de onde ele vem. Lembro-me sempre da minha mãe dizer: "Não percebo porque é que estás sempre triste. Nasceste com tudo". A relação comigo próprio é muito conflituosa, é mesmo conflituosa!
(...) E é tudo tão breve que não temos o direito de ser tristes, porque é uma honra estar vivo. Senti isso depois da operação, quando pensava "afinal respiro" e comecei a tirar prazer das coisas: de estar sentado, de andar e inclusive de respirar, porque antes custava-me cada vez que tossia. (...) É tão bom respirar, e estar vivo é um privilégio.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)
...
Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria e também sofrimento, mas é a minha sina.
(entrevista a carlos vaz marques, 2008)
(entrevista a ana sousa dias, 1992)
...
(...) Estou todo o tempo com o livro.
Sou uma pessoa muito fechada, tímida, com poucos amigos, não sou muito sociável, não vou a bares, nem a lançamentos. Nunca tive grandes relações com pessoas do meio literário e, normalmente, não vou nessas excursões.
(entrevista a sara bello luís, 2001)
...
Eu sempre fui assim, a minha mãe diz que eu sempre brinquei sozinho e , no entanto, tenho a felicidade de ter bons amigos. Eu gosto de estar sozinho.
A sua obra estabeleceu rupturas com o romanesco do século XIX, renovando-o, impondo-lhe um novo género; a sua técnica narrativa, é um dos seus maiores encantos e consiste num desafio constante às nossas expectativas e à literatura actual: as micro-narrativas, as vozes, o exercício constante da memória. O kitsch; o seu apurado kitsch. Esse silêncio que tenta trazer para a escrita, a sua obsessão na procura de uma obra perfeita...E ainda assim insatisfeito, António?
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
Já justifiquei a minha vida por ter escrito meia dúzia de livros assim e devia sentir-me satisfeito com isso, mas penso que poderia ter feito mais...
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
Vamos lá a ver se ainda sou capaz de fazer alguma coisa de jeito.
É um medo. É um medo, João.
...
Mas queria ir mais fundo neste livro (Arquipélago da Insónia). Isso quero sempre, aproximar-me, sabendo que nunca vou chegar.
Sabe António, vejo a sua obra como um tratado de Portugal, dos portugueses, da nossa forma de ser, viver e sentir. Penso sempre que se um estrangeiro quiser entender esta gente lusa, deveria pegar nos seus livros. Como outros pegaram em Camões, Eça e Pessoa.
Escreve-nos por dentro, sabe-nos da alma. Conhece-nos os silêncios.
(entrevista a baptista-bastos, 1985)
(...) penso que não seria capaz de viver sem a língua portuguesa, sem ouvir falar português. A minha escrita está muito enraizada aqui, nestas gentes, neste país.
Percebo muito bem que os emigrantes só pensem em regressar, mesmo que seja para fazer casas de azulejo: há um charme lento neste país que é irresistível.
(entrevista a miguel sousa tavares, 1988)
...
Das pessoas, da língua, da cor do ar. A gente só se lembra disto quando está no estrangeiro. Pensamos que não temos sentimentos patrióticos, mas temos. E são muitos claros no estrangeiro.
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
Eu tenho muito orgulho do meu país, muito, e cada vez gosto mais do meu país, cada vez gosto mais dos portugueses e cada vez mais sinto que é para os portugueses que eu escrevo. Gosto de Portugal, gosto dos seres da minha terra, gosto do clima, gosto da luz da nossa terra e cada vez mais sinto que é aqui que eu pertenço. Tenho este orgulho! E quando dizem que Portugal é um país pequeno e periférico, fico furioso, porque para mim é grande e chega-me perfeitamente, não preciso de mais terra.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...), isto é a minha terra e cada vez estou mais preso a ela.
(entrevista a luís almeida martins, 1988)
...
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...) porque cada vez mais penso que - às vezes passa-me isto pela cabeça - uma pessoa nasceu com um determinado número de livros e, acabando isso, a sensação é de medo de estar a rapar o fundo do tacho. De não ter mais nada, ou de começar a imitar-me. A fazer uma espécie de paródia de mim mesmo.
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)
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quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
[3] dizer bem
Existem já alguns milhares de voluntários para a concretização desta acção, mas serão precisos muitos mais.
O dia escolhido será o dia 20 de Março de 2010.
Sempre vi na blogosfera e aqui no meu blogobairro, variadíssimos posts e também comentários de bloggers, preocupados com o que está a acontecer ao meio ambiente e ao nosso planeta.
Ora têm aqui a vossa oportunidade, para que todos possam fazer alguma coisa. E é em Portugal. E basta arregaçar as nossas próprias mangas. E pormo-nos ao trabalho. Pais, filhos maridos e mulheres, primos, tios e avós. Uma tarefa exemplar para os nossos filhos.
Vamos divulgar este projecto, consultar o site oficial aqui e fazer o registo aqui.
E increvermo-nos também.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
é o jornal a Bola, s.f.f. #2
Todos esses objectos estão onde sempre estiveram. No mesmo lugar de sempre. Geralmente em frente dos vossos lindos olhos. Ao alcance fácil de um estender do braço. Ali a olharem para vocês. À mãozinha de semear.
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segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
parasimpattias #1
Há uns dias que reparo nele. Olhos entusiasmados - que desejo sinceramente, já tenham tido um destino feminino de rosto meigo. Hoje procuram fixar-se num ponto, num sentido, em algo que não surge. E pela tristeza que pariu este dia, desconfio que não surgirá.
Vem lá do fundo da minha rua, alheio aos primeiros chuviscos, num passo leve mas pesado, como se sentisse profundo o resto do tempo que ainda lhe falta existir. Todos os dias traz a bengala consigo - pega de marfim, cabeça-de-leão - mas não se apoia nela; afasta os empecilhos do caminho com o extremo pontiagudo de aço frio, desviando com a destreza de um profissional de hóquei, todos os estorvos e obstáculos que o impeçam de chegar à baliza: aquela vulgar paragem do autocarro. Igual a tantas outras.
Eu, do outro lado do passeio, sentada na esplanada observo-o no cumprimento de um bom-dia a todos, de sorriso na cara.
Tenho-o como educado, pois repete teimosamente o ritual daquela saudação - em desuso - e parece não se importar com a ausência de resposta. Nem o cão vadio lhe sacode a cauda; só pensa em dormir o pobre animal, exausto da procura da noite: vasculhar no lixo dos outros, o luxo de uma refeição decente.
O meu velho, aconchega a ruça flanela axadrezada ao pescoço sulcado de passado e esfrega as mãos, termometrando o frio que já vem chegando mais áspero, nestes primeiros bateres de outono. Leva a mão ao bolso do casaco e ...
E depois vem aquela parte que me intriga, que me faz esperar pela sua chegada estes dias, que me espevita a curiosidade; que quase me envergonha, a mim mais a esta minha observância invasiva. Estranho. Não sou nada de meter o nariz na vida dos outros. Acho que simplesmente só gosto de pessoas, de reparar no que os outros não vêem, de imaginar o que há para além do óbvio. Do pormenor. Até a palavra pormenor é bonita: p-o-r-m-e-n-o-r.
Retira o folheto do fundo do forro. A folha do costume; gasta, vincada nas dobras brancas, já sem tinta. Afina o aparelho na orelha. Lê e relê aquele papel. Vira-o e revira-o. Cheira, afaga, sente-o junto do ouvido.
Não distingo nem letras, nem figuras, muito menos o assunto, mas é de certeza o mesmo folheto que lhe tem despertado a atenção todas as manhãs. Também não será hoje que descubro do que se trata, mas aquele seu aproximar da folha do ouvido para lhe saber o som, mexeu comigo.
É então que decido presumir e ponho-me a fantasiar!
Trata-se de uma pauta de música. Está resolvido. Com o seu peculiar traçado, desenhado com bailadores símbolos pretos, de perninhas, rabinhos e cabecinhas ágeis pintadas nos extremos, que executando passos de dança, cantam uma toada alegre. Uma marcha musical com mais de cento e cinquenta anos. E eis que o meu velho ergue a bengala como uma batuta, iniciando a direcção de uma orquestra obtida nos sons da manhã.
Coloca-se na frente da paragem de autocarro e vai por ali afora, de bastão com cabo de marfim no ar, regendo a parada na execução da sua peça musical. Persegue-o de imediato o rafeiro, animado com aquele sopro de vida, soltando latidos num ritmo cadenciado, e logo dobra a esquina juntando-se a eles, um jovem de iPod, que desperto do marasmo habitual, marca o compasso num puxa e escorrega, com o auxílio dos jeans descaídos, atrás de si surge a secretária de salto agulha, batucando a biqueira sensual no empedrado e abanando os ombros deliciada, depois vem de lá a cabeleireira do salão Peruca Jovem, tesourando o ar com um tac-tac alegre e sonorizado, aparece a mulher da limpeza do armazém dos congelados, empunhando a esfregona e dedilhando nas suas cordas brancas de franjas húmidas, notas de pura sintonia, e os carros apitam, e a menina da farda cinzenta que vai para o colégio dança, as árvores ávidas de pássaros calam-se e escutam-no e até eu, embasbacada com aquela marcha de comemoração, tilinto a colher na chávena do meu café, provocando acústica no copo de água e rumores na lona do guarda-sol, que ainda há instantes, me protegia do ruído amotinado da rua. Do silêncio ensurdecedor da vida.
domingo, 1 de Novembro de 2009
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
aqui pelo meu bairro #5
Não me venham cá com coisas, mas o futebol é do povo e o povo é do Benfica, caramba! Na minha rua, do lindo bairro Estrela D'ouro, somos só gente humilde, gente modesta, do tempo do omo lava mais branco e do juá, da medicinal couto e da binaca, da mini, das gasosas e dos pirolitos, do romance do tide na telefonia, da farinha amparo e do grandella. Do pé direito do nosso pantera negra.
Pois como eu ia dizendo, esta coisa de muito golo, muito golo, muito golo é uma grande alegria, mas até me faz impressão. Uns dizem que é por agora termos um treinador ressuscitado, mas de quem eu gostava mesmo muito, era do Dom Quique. Ai minha Santa Teresa de Ávila, meu Santo Ildefonso de Toledo, meu São Diogo de Alcalá, aqueles olhos verdes, o cabelo azeitona, a pele morena, aquele ar de quem pega de caras, mãos fortes de matador sangrento, ai olé touro, olé e valham-me as castanholas e o meu leque para os calores.
Bom, mas isto dos golos, cá para mim são aqueles senhores do estrangeiro, os fifas, que mandam nestas coisas da bola, que fizeram algumas alterações e toca de mandarem alargar as balizas. Eles é que têm essas manias esquisitas, de se porem com novidades no futebol, não é? O meu Alfredo dizia que era para ver se intelectualizavam as massas.
Por exemplo, agora os rapazes se despirem as camisolas para festejarem um golo, levam logo com o cartão. Está mal, ora bolas. Então isso faz-se? A rapaziada precisa de se libertar.
No meu tempo era uma satisfação, a gente a admirar aqueles corpos transpirados e másculos, cabeludos como o diabo gosta, vigorosos, enérgicos, robustos e - ai que me sobem os vigores - assim todos jeitosos de peitaça ao sol e à chuva, como o Zé Augusto, o Costa Pereira, o Águas, o Coluna, e porque não o Chalana, o Alves, o Toni, o Bento... aquelas bigodaças farfalhudas, os cabelos compridos, as pernas peludas...
Agora é tudo muito penteadinho, muito brinquinho, muita badoletezinha, muito fiozinho, muita pulseirinha, muita trancinha, muito magrinho, muito justinho, muito rapadinho.
Ai que rapazes tão jeitosos, eram os jogadores da bola o meu Benfica de antigamente.
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terça-feira, 27 de Outubro de 2009
[16] boa semana
Eram cartas escritas para dizer que estava vivo, precisava de fazê-lo, de escrever todos os dias para saber que tinha sobrevivido mais uma vez; não podíamos sequer colocar o nome da terra onde estávamos para não dar a conhecer aos do outro lado a nossa localização.(uma longa viagem com ALA, de joão céu e silva, 09)
Eu sei, já tem quatro anos, mas tem-me valido nalgumas noites brancas de insónia. Apesar da sensação de intenso voyeurismo que sempre me invade, quando o folheio com um imenso pudor.
No mínimo comovente. No limite perturbante. E no íntimo tem muito do António de hoje, mesmo que ele o negue.
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
dormir ao contrário
foto the red threadA insónia não passa de uma armadilha de desespero, com cara de falsa calma branca, iludindo-nos nos seus primeiros momentos numa espécie de sugestão à meditação. Leva-nos ao despertar total, forçando-nos a colorir o sono que não vem, com as tonalidades que nos esquecemos de pintar a vida durante o dia. Perdemo-nos em pensamentos, criamos olheiras lívidas e pregas fundas em lençóis de angústia acordada.
Fecho os olhos com força para não despegarem, na esperança vã de guardarem o sono lá dentro. Aferrolhado, preso no intrincado curvo das minhas pestanas, cosido na linha escura da noite. Mas não há forma, a insónia é matreira como aqueles livros maus de capa bonita, que nos forçam a ficar agarrados até à ultima página, numa interrogação aflita de sabermos quando vamos finalmente começar a sonhar.
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sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
crónicas de graça #2
E não, o meu mundo dos 60's e 70's, tinha muito pouco de cor-de-rosa, engana-se quem assim o julga. Na Europa imperavam ditaduras obsoletas, o mundo vivendo uma coexistência pacífica durante uma guerra fria, receava um terceiro grande conflito mundial, conservava-se a espada de Hiroshima sobre as nossas cabeças, desconhecia-se o avanço do poder nuclear, mas aqui e ali ouvia-se falar de experiências atómicas no pacífico, praticavam-se diferentes regras sociais entre pretos e brancos e o apartheid, era aceite como algo absolutamente normal. As duas super potências, estendiam viscosamente os seus longos tentáculos até ao fundo da litosfera, dominando, ora disfarçada, ora abertamente, o mundo de então.
Com 19/20 anos nada podíamos fazer, mas tínhamos fé, usávamos a voz, o corpo, a nossa imagem. Possuíamos uma fome intelectual insaciável, acreditávamos na força da música, na palavra dos poetas, na realização de sonhos e exigíamos um futuro diferente.Verdade será também, que vivíamos existências por vezes psicadélicas, praticávamos actos de loucura inconsequente, tínhamos visões utópicas para o futuro e defendíamos anarquismos impraticáveis. Mas sempre fomos participantes, poucos se demitiam do seu papel de cidadãos do mundo, abraçávamos as causas do nosso tempo, criámos um símbolo da paz, contestámos os valores tradicionais da nossa sociedade, fizemos frente ao poder económico, militar e político. Vivemos de forma intensa aquele tempo, que era o nosso. Peace and Love. Make Love not War. Flower Power.
Depois fui assentando, casei com um homem quimérico igual a mim e tive um filho, que entreguei aos 80's.
No meu tempo fui yuppie. Depois da licenciatura e da pós-graduação numa universidade impactante, acreditava na bandeira hasteada do sucesso da carreira, na ambição profissional para escalar o organograma empresarial, na competitividade das corporações, no rápido enriquecimento e quem sabe, usufruir alguma vantagem dando um saltinho pela política. No meu special way of life, havia espaço para toda uma parafernália de prazeres materiais que me atribuíam status pessoal. Fato no alfaiate, monograma na camisa, botões de punho, o aparato do primeiro telemóvel, um carro deixando lastro à sua passagem, apartamento design, a ostentação das marcas na roupa casual. O golfe, o squash, o clube, o sushi, o bar da moda, a assinatura anual de uma importante revista empresarial estrangeira.
Não foi fácil. Tivemos de escalar bastante nesta busca desmesurada para alcançar o sucesso, lutar contra aquelas ideias tontas do saber, da ética e dos valores retrógrados. Insanidades ultrapassadas, de que os fins não justificam os meios e ingénuos delírios de que bastava ser e não parecer. Absorver ao limite todas aquelas normas de conduta na sociedade, invisíveis e em nenhum lado escritas, mas onde não se permitiam falhas, percalços ou um ínfimo deslize.É um facto de que envelheci cedo, o tempo contado ao segundo, o stress causado por esta forma de manutenção da vida, o cansaço mental e físico para manter este estatuto a funcionar, sem intervalos ou descanso. A família onde não investi.
Depois fui assentando, casei com uma mulher carreirista igual a mim e tive uma filha, que entreguei ao segundo milénio.
No meu tempo não sei o que sou. Sinto muito poucas certezas, possuo uma infinidade de questões e dezenas de dúvidas. Não tenho por que lutar, não vejo por onde seguir ou para quê me esforçar.
Tenho avós que transportam em si histórias devaneadoras e uns pais, que me impressionam de sucesso e dinheiro. A avó, diz que hoje não sabemos como se sonha, o pai pensa que somos uns desinteressados e eu, que vivemos desapaixonados.
O ambiente existente é contraditório. Tanto se fala do facilitismo presente, como de um futuro sombrio, que todos os jovens são admitidos na faculdade, mas que só poucos conseguem um emprego promissor, que hoje temos acesso a toda a informação, à internet e ao mundo, bastando tocar numa mera tecla, mas mesmo assim seguimos indolentes e insatisfeitos.
O pai oferece-me mais um gadget e que falamos mais tarde, o que nunca acontece. A avó zanga-se comigo, dizendo que provavelmente a culpa não será toda nossa e que somos uma geração que podia ter o mundo nas mãos, mas que desperdiça um tempo precioso no vazio. Enfiamos a cabeça na areia que tem aspecto de ecrã. Ecrã de televisão, de computador, de consola, de telemóvel. Não entende a nossa apatia, diante este presente tão cheio de problemas como as questões ambientais, a fome no mundo, o envelhecimento da população, a crise geral; esta chata palavra crise; palavra curta mas que repetida até ao infinito se alonga, e alonga, e alonga pelos meus dias.Parecemos fingir que tudo está no bom caminho, apesar de o sabermos falso, e podemos por vezes parecer ignorantes, mas não o somos. Todos nós escutamos palavras-chave como endividamento, desemprego e despedimentos em massa, falências, corrupção, pobreza crescente, pensões miseráveis, infindáveis listas de espera nos hospitais, medicamentos caros, políticos pouco credíveis...
Talvez um dia eu assente e case com alguém desmotivado igual a mim, mas não sei se terei filhos. Para os entregar a quê?
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tags hippies e yuppies
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
e veio finalmente
E o rumor que chega das árvores? Foi num dia de outono, que as árvores aprenderam a falar.
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tags só meu-outono
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
[35] há coisas fantásticas, não há?
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tags piano na escadaria
segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
quem é amiga, quem é? #4
Deixem os vossos resultados na caixa dos comentários.
'Bora, é só clicarem na foto.
sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
vírus* num blog sério e familiar #8
(Quietas. Tirem os dedos, ele é mesmo assim; despenteado.)
* alguém me vê uns sais de frutos, é que com este calor...
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tags raoul bova
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
blog action day
A Blog Action Day é uma iniciativa em toda a blogosfera, que pretende alertar para os problemas ambientais e a minha contribuição, muito insignificantezinha eu sei, é o seguinte truque. Nem sempre as descargas que fazemos no nosso autoclismo, são as necessárias, desperdiçam-se muitos litros de água. Às vezes, só por causa de uma bolinha de algodão, lá descem 5L.
Experimentem colocar no reservatório de água do vosso autoclismo, uma garrafa plástica de 1,5L de um refrigerante, que para fazer peso e assim reduzir o espaço, deve estar cheia de água.
Ao diminuirmos a capacidade de armazenamento de água no depósito, poupamos por ano uns bons litros ao planeta azul.
Ah e as descargas dos futuros jactos de água, continuarão a ser mais do que suficientes, para que tudo siga ligeiro e flua pelo cano abaixo, se é que me entendem...
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tags poupar água
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
no confessionário aos 40 #3
Refrescos de capilé e groselha, carcaças com açúcar e manteiga, papas de banana com bolacha maria e sumo de laranja, bigodes de leite.
Comida de mãe e colo de avós.
Bonecas e bebés-chorões, panelinhas de alumínio e jantarinhos com massa estrelinha, que obrigava o meu pai a comer. Os pais homens gostam muito de ser pais de filhas cor-de-rosa nuvem, amarelo pintainho, branco piquê e azul xadrezinho. São pais que lhes nascem punhos de renda, logo a seguir aos pulsos fortes.
A eu já adulta, agradece à eu criança a fortuna herdada. Que nunca terá preço.
domingo, 11 de Outubro de 2009
aqui pelo meu bairro #4
Lembro-me como se fosse hoje, aquela tarde no jardim do Torel onde me pediste em casamento, roubando uma rosa amarela ao canteiro e o velho jardineiro furioso, a ameaçar-te com o cabo da enxada e gritando, fora daqui rapaziada danada.
Alugámos esta casinha na Graça, porque tu disseste que a varanda das traseiras era uma maravilha. Podíamos acender um fogareiro à vontadinha e fazer umas belas sardinhadas no verão, febras e entremeadas e assar pimentos para a salada.
Ai Alfredo, e quando tu encheste a parede da varanda, com aquelas andorinhas de louça preta? Toda a vizinhança nos imitou, não podem ver nada que logo se põem com ideias e ainda hoje são assim. Ele há coisas que nunca mudam.
E a decoração da nossa casinha, lembras-te homem? As nossas idas e vindas ao braz e braz e à polux, eram uma grande alegria que me davas. Gasta à tua vontade Amélia, escolhe o que quiseres, para a nossa casa só do bom e do melhor, minha rainha.
E lá seguia eu orgulhosa, elevador acima, elevador abaixo, sobre escada, desce escada, carregada com o serviço de pirex, novidade daquele tempo, branco com florinhas azuis. Ainda me restam dois pratos de sopa, tenho-os ali debaixo dos vasos das sardinheiras, na marquise das traseiras.
Recordo-me tão bem das panelas de esmalte turquesa com riscas coloridas e até me fizeste um escaparate de madeira, para eu as expor na cozinha. O que a Otília do talho se roía de inveja, como o meu moderno trem de cozinha.
A nossa sala também era muito jeitosinha; os sofás de madeira forrados de napa bric, naperons cremes que a tua tia Carmélia nos ofereceu, alinhados na cabeceira e nos braços para os proteger do desgaste, o luxuoso desfile de tapetes, tapetinhos e tapetões floreados de verde pinheiro, para lá de sete ou oito, que mais pareciam uma colecção de selos e que se espalhavam até à passadeira do corredor, os pretos da Guiné que trouxeste da guerra, os meus livros da Modesto e o Pantagruel da minha madrinha, as crónicas femininas na cestinha de verga, sempre à mão, a tua colecção de pacotes de açúcar, canetas bic e caixas de fósforos, tudo alinhadinho dentro da cristaleira e protegido do pó, junto dos cálices de bagaço da Marinha Grande, o cão de louça branca, o quadro de perfil da senhora de vestido cor-de-laranja, a ler um livrinho ...
E a mobília do quarto, Alfredo? Madeira lacada e luzidia, último grito dos Armazéns Peixoto, com as mesinhas-de-cabeceira embutidas? Um luxo.
Lá continua, o nosso leito, sentindo todas as noites a falta de ti, homem. Quando ao anoitecer retiro a sevilhana do centro da cama e puxo a colcha de cetim branco-noiva para trás, aquela grande cheia de folhos farfalhudos que comprámos na lua-de-mel em Badajoz, dizia eu, que quando abro a cama Alfredo, e vejo as nossas duas fronhas juntas, juntinhas, até as bolinhas pretas do vestido da espanhola empalidecem, e o meu coração solitário rasga-se ao meio, saltando-me de lá, sobrecarregada de espinhos sofridos, a rosa amarela do Torel, murcha, murchinha ... a pobrezinha.
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sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
crónicas de graça #1
Diz o Tejo, que antes enterrava-se ali muito mais feliz, sem pó nem cascalho, estaleiros, guindastes e contentores, sem homens de costas interminavelmente voltadas para si. Já não sente a mesma vontade de se amadurecer, espalhando-se pelo mar da palha; queixa-se que lhe tirámos os peixes, os golfinhos, até as aves e que em troca o sujamos, o sovamos, o esquecemos.
Eu vou-o escutando, os velhos precisam de investir as memórias em nós, os que ficamos a assistir ao que vai sobrando.
Diz que à noite tem chorado pela mãe, Albarracín.
Sente falta das brincadeiras infantis, quando descia a serra materna a toda a brida, pulando em sulcos e fendas, em desníveis de relevo, levando atrás de si calcário, margas e arenitos que se soltavam com a sua força.
Lembra-se saudoso do encontro com o seu primo direito, Hoz Seca, o primeiro parente a afluentá-lo na sua foz, que o abraça com um emocionado caudal, maior que o próprio Tejo. Nisto, obriga-o a descer na galga, por pronunciadas gargantas encravadas na paisagem órfã de gente. Ao fundo, ainda consegue vislumbrar Guadalajara que lhe acena abalada com a violência do seu percurso; é natural, quase que o viu nascer.
Ali perto, sente-se protegido, valorizado pelas margens bordadas de uma flora rica em pisos bioclimáticos, pelos pinheiros, azinheiras, carvalhos-portugueses e juniperus.
Mais abaixo, quando gira bruscamente, outros rios-primos se aproximam e o afluem, elevando-lhe a altitude orgulhosa. E ufano, gargalha para mim.
Não se incomoda nada de derrapar nas mãos-cheias de barragens, que lhe peiam o caminho e lhe diminuem a cota, pois está a chegar a Aranjuez! Visita o Palácio Real e não se cansa do o fazer de todas as vezes. Repousa o leito estraçoado das linhas do caminho, numa albufeira seiscentista e empurra o caudal para os campos, para as culturas; oferece-se ao povo que o recolhe. No final do dia, o vaidoso, ornamenta em silêncio vegetal as magnólias dos Jardins de Aranjuez. E adormece, verde-claro, com a cadência mágica do pulso allegro e adagio, de Rodrigo na guitarra.
O sol já vai alto e núbio, quando o Tejo parte. Deixa-se levar pela corrente fluvial, pois há que beijar ainda a visigótica Toledo e numa postura monumental, atravessar-lhe as pontes. Diz-me que rio sem pontes, não chega nunca ao mar.
E já segue o meu Tejo a caminho da maioridade, ora girando para oeste, ora para este, recolhendo à esquerda e à direita outros rios que o inclinam, que lhe alteram a direcção, que lhe indicam o rumo, virando-lhe o sentido agora novamente para oeste; rios grandes e pequenos que lhe vão incrementando o caudal e aliviando o peso, às vésperas de inaugurar a estremadura caceriana e os descendentes de Moctezuma.
E lá vem ele, desarvorado por ali afora, para junto de nós povo luso, já de cota baixa, baixa ...
Passa pela velha de Rodão e inclina-se paralelo à beira mais baixa, seguindo para Belver onde a barragem o trava pela enésima vez. Em Abrantes saboreia a palha doce que lhe adoça o meandro em volta da colina da cidade, aguardando o Torto que se lhe junta pela esquerda.
Revela-me que ama profundamente, do fundo das suas águas sombrias, o seu primo Zêzere, grande contador de estórias e aventuras viriáticas. Pândego rio aquele, que o acompanha em noites de insónia; dois velhos que se apoiam um no outro, naquelas horas que já dispensam ao sono. Por isso, vê-se e deseja-se por chegar a Constância, ansioso pelo reencontro. O abraço é indefinível e sentido na pintura de Malhoa.
Juntos partem para as muralhas medievais de Almourol, onde o cruel D. Ramiro foi alcaide. Depois de Aranjuez, é aqui onde o Tejo mais almeja repousar. Ignora a maldição do lugar e assiste nas noites de S. João, ao reaparecimento do abraço enamorado do mouro com D. Beatriz, no alto da torre do castelo. Trata-se de um romântico incurável, este rio.
Torna-se apaixonadamente raso, flutuante; mais parece uma ribeira-criança onde rãs se escondem nas pedras e pulgas de água saltitam, deixando para trás perfeitos círculos desenhados sem o auxílio equidistante do compasso. É o meu Tejo perfeito, aquele ali azul-claro, que se queda rente às minhas mãos.
Gosta de se anoitecer em águas de Santarém, prefere lá chegar de noite para assistir à festa dos toiros; é um aficionado, pois então!
Os últimos momentos de prazer vive-os em Alcochete, onde exibe com orgulho um estuário protegido legalmente, repleto de zonas húmidas, ilhotas, lodo, salinas e terrenos agrícolas. Banha-o num cumprimento emotivo, o último. Depois dá-se Lisboa e a conversão em rio-mar.
Mas Tejo, digo-lhe eu admirada, desconhecia esta tua agonia em desaguar na capital.
Baixa-me os olhos de espuma, no momento que atravessa a ponte de Abril e em tom salobre revela-me, são as gentes que se alteraram, já pouco falam ou riem, não se acometem ou arriscam sequer. Sinto falta daqueles outros homens, do audacioso e jovem Vasco, do João, dos Pedros e do Henrique sonhador. Já são muitos séculos a observar este povo que não se chega à margem; à minha, à deles. A nenhuma.
Ou então é de mim, nostalgia minha, já não sei ... pensava ser solamente del salero y de luces, mas não, não sou.
Sou do fado...
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tags o tejo e o douro
quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #3
Vocês tomaram atenção nisto, não sei quê, não sei quê de um grande evento no meu blogobairro? E depois nisto, a dizer que algumas sextas-feiras vão ser diferentes, de novo no meu blogobairro? E agora isto, zappings e blogocomandos?Mas o que é que ele anda a tramar para as sextas? Não me digam que o senhor CBO quer fazer concorrência aos magníficos vírus quinzenais, aqui do meu Ares!
Eu sou a PresidentA deste blogobairro e não fui tida nem achada. Isto não fica assim e os meus impostos, o iva, o irc, as gorjetas, as luvas e o meu saquinho azul, como é que é, oh senhor Rochedo? Vamos lá a ver, vamos lá a ver...
Blogobairrenses, todos em estado de alerta nesta sexta! Estais avisados.
Ass: A PresidentA
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terça-feira, 6 de Outubro de 2009
no confessionário aos 40 #2
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tags carteiras grandes
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #2
Basta um só telefonema; simples, rápido, sem mais nada e 0.60€+iva, revertem para ajudar centenas de animais doentes, abandonados, mal-tratados, desprezados e escorraçados por nós.
É um palco de cenas, na maior parte, tristes, indignas, revoltantes e ao Homem, tem-lhe cabido quase sempre, o papel de um dos protagonistas da história, o do mau da fita. Tantos, mas tantos casos de negligência extrema. Chocante.
Temos agora todos a oportunidade de fazermos de bons, proporcionando-lhes cuidados veterinários, melhores condições de alojamento, esterilização, alimentação.
Uma sociedade também se mede, pela forma como trata os mais fracos e desprotegidos.
Divulguem e telefonem: 760 50 10 15.
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quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
complicadas, nós? #2
Queridos homens, um minuto, só será na realidade um minuto, quando elas vos derem esse mesmo minuto, para que expliquem porque chegaram atrasados a um encontro e não à hora exacta que elas marcaram.
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tags é só um minuto
terça-feira, 29 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #3
Bom, já estão a ver onde é que isto vai dar, não estão? Eu dou mais um exemplo.
Noutro dia, encontrei-o na lavagem de carros, ele mais o seu veículo imaculado, um morris marina cor-de-laranja todo jeitoso. Bem educada como sou e com o recato que me é próprio, fui cumprimentá-lo e lá começou ele com o chorrilho de insinuações libidinosas, todo folgazão para cima de mim. Ai dona Amélinha não se chegue tanto ao pára-brisas que me borra o vidro com batom, ai dona Amélinha, não fique assim tão perto da minha cara que me perdigota as faces, ai dona Amélinha, não se enrosque na chapa que me arranha a tinta, ai dona Amélinha, tire lá a mãozinha do manípulo que me destrava a viatura.
O Onofre da padaria, tem ou não tem uma valente tara por mim?
Eu sei, sempre fui assim, tenho este efeito arrebatador nos homens.
segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
opressão torácica
Este homem ontem à noite, soltou finalmente a Besta.
O tom eversivo deste homem meteu-me medo.
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
é o jornal a Bola, s.f.f. #1
Na idade média, a meu ver, a coisa ficou bem pior. Fossas expostas à vista de todos e esgotos inexistentes; carreiros escorregadios se formavam. Mas quem sabe, estas condições precárias e deslizantes tenham estado na origem, involuntária obviamente, de algumas modalidades desportivas do nosso tempo, como a patinagem artística, o snowboard, a ginástica acrobática, o salto em comprimento e para os mais porcalhões, o lançamento do peso; ah não, o peso não, esqueçam, esse veio da Grécia.
Bom, eu não faço ideia há quanto tempo o Homem usufrui das benditas sanitas; branquinhas, redondinhas, baixinhas, limpinhas, lisinhas, ainda para mais ultra sofisticadas, pois acompanham-se sempre de um acessório fantástico e indispensável: a tampa.
Grande, larga, resistente, um pouco sonora quando bate, com duas dobradiças que obrigam a dois movimentos repetitivos do ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar e assim pela vida fora até gastar.
Queridos homens, eu soletro: T-A-M-P-A!
Ora L-E-V-A-N-T-A-R, Ora B-A-I-X-A-R.
Eu repito para os mais distraídos: B-A-I-X-A-R!
Estamos entendidos?
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quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
complicadas, nós? #1
Assim, perante uma feminina questão frontal, olhos nos olhos, sobrolho assumidamente carregado, numa postura de ameaçadora inquisição como, gostas do meu novo corte de cabelo, o top fica-me bem, estes jeans fazem-me as pernas mais altas, o cor-de-laranja do vestido realça-me o bronze, ou a questão das questões, achas que estou mais gorda, o que devem eles obrigatoriamente responder?
Queridos homens, nestas ocasiões, nunca, mas é que nunca mesmo, sejam verdadeiramente sinceros.
Lamento, não estamos de todo interessadas.
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terça-feira, 22 de Setembro de 2009
vim só num instante aqui dizer que ...
domingo, 20 de Setembro de 2009
[15] boa semana
Como tantos outros milhões pelo mundo fora, fiquei fã de Lisbeth Salander, a protagonista, excêntrica, anti-social, dotada de um QI capaz de arrumar em três tempos qualquer membro da Mensa.
Junto com um jornalista de topo, Mikael Blomkvist, viciam o leitor nas 600 e muitas páginas de cada volume e nem sequer sentimos o peso do calhamaço, tal é a dependência e o modo como nos deixamos prender à história com grilhões. Eu até as chaves das algemas deitei fora; enquanto não acabo de ler um, não respiro de alívio e nem sequer reclamo da comida da cadeia.
Comprei o terceiro e, infelizmente, último volume no sábado e até amanhã tenho de o desbravar; os outros livros que fiquem sossegadinhos nas prateleiras, tenham lá paciência, mas há prioridades pois então.
É certo que este fenómeno editorial, se deve em parte ao seu autor, Stieg Larsson, ter morrido pouco tempo após ter entregue os três volumes na editora e não ter usufruído do sucesso estrondoso da sua obra. Esse facto mexe connosco, cria-nos uma empatia, é verdade, mas não é de todo a razão principal do seu sucesso. O ritmo da narrativa torna-se galopante, à medida que o enredo se desenvolve e num instante já estamos no fim da história, desejosos de começar a ler o próximo volume. Queremos conhecer Lisbeth, dizer que estamos com ela, que é a maior e levá-la em ombros; sabendo claro que nos arriscávamos a ser imediatamente desterrados, se nos atravessemos a tais confianças. É tão antipática, fria e distante, bruta que nem uma porta, que se torna adoravelmente cativante, despertando no leitor um instinto protector.
A trilogia está nos tops de todo o mundo e é com todas as letras, um best-seller sim senhora e merecido, mas nada de comparações com os Dan Browns e as Stephenie Meyers desta vida. É tirar daí a ideia. Ah, e tem um tema central que me é muitíssimo caro, a violência contra as mulheres.
Como disse Vargas Llosa, Lisbeth Salander, deve viver.
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #2
Uma pessoa fica assim meio assarapantada com estes sobressaltos nocturnos e não é para menos, pois as novidades não terminam somente nos fanicos, ah pois não.
Então cá vai: ele é o Clooney que me surge no horizonte a servir-me um tofina numa caneca do Bordalo; ele é o Pitt de cabelos ao vento, montado num Mustang gritando na pradaria, anda cá minha poldra, deixa-me pôr-te as rédeas; ele é aquele senhor já de idade, meio careca, que já foi um Bond a oferecer-me um scotch on the rocks no cume das highlands; ele é o Cruise, ai coisa mai linda, com os seus raiban verdes a mostrar-me as potencialidades do F-14, ou 15 ou lá que número tinha a avioneta do rapaz; ele é, vejam bem, aquele mocinho grandalhão que tinha um carro preto que falava com ele e que ultimamente corria pelas praias da América, com uma bóia cor-de-laranja nas mãos e salvava os incautos de afogamentos, lembram-se? Um rapagão de olhos claros, assim corpulento, com uns braços musculados, e umas mãos poderosas, umas pernas torneadas, fazendo-me boca-a-boca o grande calmeirão ... ai nossa Senhora, vou engolir mais umas quantas pedras de gelo.
Bom, adiante. A Lurdinhas da mercearia disse-me em segredo, que estes sonhos eram próprios da idade e absolutamente normais, para uma pessoa na minha condição de viúva: o meu Alfredo já se foi vai para seis anos; descanse em paz.
Elucidou-me também, que os meus vigores nocturnos tinham até um nome científico; chamavam-se de góticos: sonhos góticos. Que dantes eram só as desavergonhadas e as que não iam à missa que os tinham, mas que agora, segundo ela lera numa revista lá na Zeneide manicure, fizeram-se estudos muito rigorosos que comprovam o contrário: qualquer senhora séria também tem destas coisas; podemos espraiar-nos à vontade, darmos largas à imaginação, estarmos possuídas de emoções marginais e até termos sonhos góticos tal qual os homens, ou lá como é que a Lurdinhas lhes chamou.
Fiquei tão mais leve com a inocência dos meus sintomas, que hoje até fui ao chinês comprar um baibidól mais aliviadinho, daqueles cor-de-rosa porno que eles lá têm com uma etiqueta muito engraçada, que diz em estrangeiro, shake it out baby, 瘋狂瘋狂.
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
y volver
Tornei a guardar por dentro a memória das fachadas dos edifícios, que me fixam os olhos sempre para o alto das varandas e balaustradas, para o ritmo das gelosias com carrego de cores sonoras; o encarnado, o baunilha, o cinzento, o branco e o terracota.
Alegrei os pés exaustos pelas ruas sombrias do bairro Gótico da velha Barcino, agarrado ao velho e novo Born onde de novo me extasiei com o jovem Picasso; e que bom voltar a almoçar pelas quatro da tarde e correr para a Bubó antes que me levassem os macarones de sabor a violeta. Únicos.
Ah e chegar à Barceloneta ao crepúsculo, estafada e já quase sem vida para molhar os pés na sauna que é aquele mar que escalda?
E tornar a ver o Gaudi? O que eu morro de amores pela Batló, pelo chão da Gràcia, pelo tracadís do Guel, pelo ferro e pelas chaminés guardiãs da Pedrera. Trouxe-o comigo na bagagem, em formato de mil marcadores de livros, cadernos de páginas incólumes, azulejos de tracadís, curvas em movimento, cristal translúcido e pedaços escorregadios de animalesco ferro torneado.
Antes do voo, ainda corri para ver de perto a resposta que o Domènech deu à Sagrada Família e espirrei três vezes, na esperança de ser atendida neste palácio-hospital. Quis rebentar com a acústica do Palau, mas nem a Montserrat conseguiu. Y por la calle el Domènech de nuevo...
E fiz tanto, tanto, mas tanto mais, só que há sítios que não cabem noutro lado a não ser no seu próprio local. Ou então eu não sei escrevê-los.
Regresso sempre mais velha das viagens de sonho; uma espécie de sobrecarrego aliviado de ter provado muito em tão pouco tempo. E não acredito nada naquela do não voltarmos nunca mais ao local onde fomos felizes.
Tretas, lérias, falácias: eu volto sempre.
sábado, 5 de Setembro de 2009
adiós guapos
El Passeig de Gràcia.
Besitos; me voy por la calle de compras, de juerga y de copas y de tapas.
Hasta luego.
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #1
E eu sou a PresidentA desta gente toda, ora pois!
Não houve eleições, sei bem, nem haverá. Tomei posse, assim por dá cá aquela palha e aqui estou firme no meu palanque, a vigiar o blogobairro, gerindo e administrando, cumprindo à risca todas as burocracias que uma responsabilidade deste gabarito acarreta e principalmente, tomando conta das finanças e dos impostos que infligo aos meus condóminos, quando eles saem da casca com postagens e fotos onde não abundam a moral, os bons costumes e sobretudo, onde a pudicícia, a honra e a castidade desta família blogobairrense é posta em causa.
Mas sou uma PresidentA muito compreensiva, generosa, trabalhadora e quase não tenho dias de férias, tal é a minha dedicação a esta gente postadora. Como qualquer moura de trabalho, não chego a todos os cantos e por vezes, necessito de pedir uma ajuda, quase inútil é um facto, a outro elemento do blogobairro; a minha assitentA. E também tenho os serviços de uma advogadA, ena, ena!
'Taditas, elas até se esforçam; são vigilante na captura atenta de indecências como esta e que me vão enchendo o saco azul, que tenho só e unicamente para as minhas obras de caridade, como é do conhecimento público.
Por vezes, há uns elementos do blogobairro, por coincidência são quase sempre os mesmos, que se distraem e postam imagens de pouca vergonha como esta mocinha toda encardida ou estas que se puseram ao fresco. E depois têm o despautério, o atrevimento de me caluniar, como aqui. Resultado: 500€ de coima valente. Pimba.
Como já viram, sou um exemplo de PresidentA, um SIS da net, uma câmara vigilante e atenta que zela pela vossa saúde emocional. E se tinham dúvidas no modo como foi feita a minha eleição, deixaram com certeza de as ter, perante esta modesta e humilde demonstração de capacidades acima da média que aufiro.
E como não sou PresidentA de sentimentos mesquinhos, ressentimentos devoradores ou sequer defensora de um regime ditatorial, desde que seja sempre eu a mandar obviamente, peço-vos que hoje, ide todos dar os parabéns a um dos condóminos mais antigos do blogobairro.
Ide, ide lá que há festa seguramente. E dupla.
Mas não vos esqueceis de observar tudinho com olhos de lince e se por um acaso, repararem em algo insólito como um mocho de nome Sebastião a fumar erva, uma tal de Brites amalucada em monoquini, cenas tristes com um taxista alcoolizado, umas moças descascadas, um papalagui fala-barato e sobretudo um dialecto visigótico totalmente em desuso e proibido nos dicionários civilizados e contemporâneos, avisai-me de imediato meu blogobairro querido, que eu entrarei de rompante na festarola com o meu kit de cobranças.
Correi, apressai-vos e festejai com ele.
p.s. ah, vá lá, façam o favor de deixarem pelo menos um eurito no saquito azul. Sim, esse mesmo aí do lado
.quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
no confessionário aos 40 #1

Quando esta manhã acordei, reparo de imediato que aquela ruga ontem não estava ali. Delgada, é um facto, mas verdade seja dita, era mesmo o meu mais recente vinco de vida. Encolhi os ombros resignada e apresentei-a a outra que me nasceu há seis meses e a mais duas do ano passado. E pronto, ao todo tenho quatro; não me posso queixar.
Parece que a criatura gostou do tratamento honorífico e referiu que talvez estivesse ali para ficar.
Bom, por mim tudo bem rapariga, instala-te lá onde te der mais jeito, mas nada de te esticares ou de me sulcares a existência. Literalmente.
Espero que me tenha feito entender.
terça-feira, 1 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #1
Penso eu, que deve até já ter topado que a sirigaita de carrapito do 4º esquerdo é um pouco para o porca-relaxada; já eu, de desmazelada nada tenho e o sujeito de mim não tem como falar. Aliás, se for homem atento ao que deitamos fora, reparou de certeza que eu passo sempre por água todas as embalagens antes de as colocar no amarelo. E faço o mesmo com os vidros.
Até posso descer à rua de roupão florido de flanela, rolos na cabeça e com o meu salsicha pela trela, mas sempre, sempre de unha arranjada e mais: recolho todos os extras do canito do passeio, naqueles saquinhos que a câmara fornece.
De suja não tenho nada, sou mulher de muito asseio. Ouviste bem, oh flausina?
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segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
artefactos II
Mas gosto da sensação emocional da praia; de chegar e perceber no ar o doce dos cremes, de cheirar o sabor salgado das rochas, de dizer bom dia ao sol, de seguir o trilho deixado pelas gaivotas na areia seca, de prestar atenção ao esmorecer da espuma nos pés. Mas principalmente gosto de decifrar laivos da personalidade de cada um, por exemplo, pela opção que fizeram na escolha do seu guarda-sol.
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sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
vírus* num blog sério e familiar #7
(agradeço que se controlem e nada de esgravatarem o rapaz)
* ai que saudades de uma boa virose; qual gripe A, qual quê!
quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
arbutus unedo
Cheirinho a medronho, diga-se. Copo fino de pé alto, café bem quente e uma medida de aguardente de medronho. No topo, pairava um castelo espumante de natas batidas, com as muralhas e as seteiras e ameias salpicadas pela canela moída no momento.
Só vos digo que espanta o frio do barlavento para bem longe; do outro lado do oceano, lá para os lados da vizinha mourama onde lhes refresca o tórrido dos dias.
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terça-feira, 25 de Agosto de 2009
uns tristes
Ora, eu queria perguntar a esses perdidos, a essas almas descrentes no vaguear do espírito, a esses entes que julgam que sonham, quem seria aquele ser voante senão o próprio do Fernão Capelo, a Gaivota que antes das nove da manhã do dia 20 de Julho, já planava em voos rasantes e demorados, quase mortais, sobre a minha esplanada edificada no penhasco da praia da D. Ana?
Adenda: música de fundo "ouvida" pela Si.
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sábado, 22 de Agosto de 2009
artefactos I
Eu, uma observadora nata, praticamente uma profissional do ramo, sempre muito atenta e curiosa ao que ao meu redor se passa, confesso que perante aquilo que emerge das profundezas de uma XL geleira de praia, serei tão somente uma reles amadora, ainda com muito para aprender sobre os da minha espécie.
Iniciemos então este périplo pelas bebidas: latas de cerveja e água fresca serão imprescindíveis, obviamente, aliás geleira sem elas não será uma geleira capaz; sumos, suminhos e sumóis e espantem-se as gentes: caprisones! Alguém sabia que ainda havia caprisones? Não? Pois se usassem geleias a valer, saberiam.
E o sanduichal que para lá cabe? É que não estão bem a ver: ele é sanduíches de queijo, fiambre, mistas, atum, frango, salsichas, presunto, panado de peru, carne assada, disto, daquilo e daqueloutro. Noutro dia até houve uma criancinha que gritava, oh mããããe, ainda há pão com tulicreme? E não é que havia mesmo. Querem lá ver vocês parelha mais catita, do que caprisone com tulicreme?
Sanduíches de salmão fumado, lamento informá-lo caro Pedro, mas é que nem vê-las. Talvez demasiado sensíveis para estas geleiras. Não sei, digo eu.
Depois vem o frutame: uva branca, preta, verde, encarnada e às risquinhas, melancia cortadinha sem pevides e arranjadinha comme il faut, suculentas talhadas de melão a pingar tal e qual o protocolo de Agosto, ameixas gordas, nêsperas da cor do sol e pêssegos hidratados como veludo cristal.
A hora do lanche é também um manancial informativo, no que toca a iogurtes. Cá em casa ninguém gosta de iogurtes, por isso é corredor de supermercado que não frequento, nem lá passo, nem lá espreito, nem lá gasto. Trata-se de uma aversão: leite é leite e é para ser bebido às litradas, se o coalharmos dá em queijo e se formos aplicados e virtuosos resulta em natas ou manteiga para barrar no pão. E pronto.
Tenham lá paciência, mas iogurte é pieguice, coisa de meninos com bibe de xadrez miudinho e um bocado nhonhonhó.
Por isso, é na praia junto de algum vizinho apetrechado de uma generosa geleira familiar, que eu me inteiro das novidades da estação iogurteira. É a bem da verdade, o meu momento "Geleira happy-hour".
Há-os de mil frutos inteiros (caroços e tudo, imagino eu), aos pedaços, esmigalhados, líquidos, em puré, espapaçados e cremosos, vejam só. Os que levam smarties, de apple pie, biscuit, os cheese-cake, os de bolacha maria, de arroz doce, os limpa-intestinos preguiçosos, os da Fátima Lopes e uns mini-potinhos coloridos, que vêm todos agarradinhos para serem engolidos em duas ou três colheradas. Ah, e todos eles existem em versão light e também não. Desculpem lá, mas estão a gozar comigo não estão? É fantástica a capacidade inventiva do homem.
Mas onde é que param os gordos boiões de vidro grosso e pesado, de conteúdo ora branco, ora cor-de-rosa? Não, não é desses que para aí há, de vidro coitadinho que só faz tlim-tlim. Falo daqueles potes obesos e fortes, que falavam e tudo, dizendo-me no final do lanche na pastelaria da esquina, agora Patti, é aquela parte em que podes rapar fundo e fazeres o barulho que quiseres com a colher. E eu fazia, claro está, ignorando os olhares com que a minha mãe me perscrutava.
Bom, deixemos a iogurtada e regressemos à capacidade logística das geleiras de praia, pois foi esse o post que me trouxe de volta ao meu Ares.
Dizia eu, que lá cabe de tudo e pelo que testemunhei pela família da fotografia, até no fim do dia quando a gentes regressam dos últimos banhos e se enrolam nas toalhas ensopadas, o responsável pela geleira ainda consegue para lá desencantar, entre as placas de gelo já mornas e as caixas plásticas multicolor, uma sandes de chouriço amachucada, três ameixas frouxas e quatro infelizes pastéis de bacalhau.
E eu, invejosa e ao mesmo tempo abismada com o repasto da vizinhança, que durante todo o santo dia desfilou perante os meus olhos incrédulos, engulo a minha última bolacha de água e sal, esmigalhada no fundo da cesta e penso, será que já inventaram Morgado de Amêndoa, Queijo de Figo ou Tarte de Alfarroba em versão iogurte?
Nessa altura, talvez me renda à mariquice e ainda me vão ver de potinho e de colherzinha em riste.
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sexta-feira, 10 de Julho de 2009
'tou no ir ... de férias II
O sítio é o mesmo do costume, barlavento, Lagos-Sagres, junto com passeios imprevistos de descoberta, subindo até Aljezur.
Umas óptimas férias para todos, bem gozadas e principalmente descansadas.
:-)
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quinta-feira, 9 de Julho de 2009
do terceiro grau
Tardes de mistério em que algo se propaga pelo ar, mas que na verdade só os animais pressentem e serão muito poucos os humanos, a gozarem o privilégio de o testemunhar.
Aconteceu comigo; encontrei uma alma gémea suspensa no alto da colina, a conversar com o céu. Quando me viu, pediu por favor que apenas registasse o seu lado direito. Foi o que fiz, fotografei-o mil vezes e nunca se mexeu; nem um pêlo da crina se levantou, uma orelha estremeceu, a cauda se agitou ou a narina resfolegou.
Creio mesmo que ainda lá está, ao pé da urze que se torcia debaixo dos seus cascos, escutando a música no cimo do altar, que escolheu para me encontrar.
quarta-feira, 8 de Julho de 2009
forma nominal do verbo
Houve até quem inspectando, fosse testemunhando que o vira já prateando, esverdeando e por uma ocasião, criando um alaranjando-ocreando num negrando-enferrujando, como um destruidor fogueando, originando um verbo começando.
segunda-feira, 6 de Julho de 2009
missão: personagens III

Pela rua estreitinha, de casinhas branquinhas e baixinhas, de janelinhas com rendinhas e vasinhos de florinhas amarelinhas, vinha subindo eu, serena e orgulhosa, com a pauta de notas da Beatriz nas mãos.
Eis que ele me surge na sua janela aberta de par em par e espreguiçando-se num impudico cumprimento, abraçando todo o planeta terra, emite um sonoro aiiiiiiiiii e saúda a vida.
Talvez perturbado, por ter dado pela minha repentina presença, numa altura íntima da sua rotina matinal, diz-me atrapalhado, bom dia! E eu, que nunca fui rapariga de virar a cara a cumprimentos, nem nada que se pareça e apesar de nunca ter visto o Adérito na minha vida, também me saiu pela boca, bom dia, isso é que foi dormir, ah!
Corou, claro está. Também, quem me manda a mim ter sempre a resposta pronta na ponta da língua?
Exibia para a vizinhança um visual ensonado de olhos estremunhados, cabelo sem pente, agudos vincos vermelhões na face direita, deixados por uma almofada engelhada.
Com o meu carro estacionado a dois metros, deixo-me ficar por ali numa vontade súbita de dar um jeito no porta-bagagens, no porta-luvas, fazer uma selecção aos cd e até sacudir os tapetes, porque não?
Por detrás dos meus óculos escuros, admiro-lhe a camisola de alças donde emergia uma intensa e conturbada cabelagem negra, cuja monotonia cromática era quebrada subtilmente, pelo brilho do crucifixo que trazia na correntinha ao pescoço. Do tempo em que havia madrinhas...
Oh homem, ainda 'tás nesses trajes? Não me queres dar uma ajuda aqui com o estendal?
Era a Alzirinha; a mulher laboriosa com quem casou, que já andava a pé desde o arrebol do crepúsculo e tinha lavado e estendido duas máquinas de roupa e engomado outras tantas; coseu cinco pares de meias, no calcanhar e no dedo grande; fez as camas dos filhos de lavado; limpou o pó a preceito; regou os vasos do quintal; assistiu ao programa da dona Fátima; lamentou-se mais uma vez da telefonia já não dar nada de jeito, como no tempo do senhor Sala e da dona Olga Cardoso; cortou as couves para o caldo verde; chorou de saudades das netinhas emigradas na Venezuela, disse olá à velhota do lado e que, num tarda nada já lhe levo as sopinhas de leite; ajeitou a roupa para o seu Adérito vestir; amanhou as pescadinhas de rabo na boca para o almoço e maravilha das maravilhas: cortou os coentros fininhos, fininhos para juntar ao arroz de feijão, que já apurava no fogão.
E é quando o cheirinho do tacho da Alzira fluindo pela janela, esquecida escancarada pelo meu amigo Adérito, que o descalabro se dá, e a minha imaginação inicia o seu verdadeiro processo criativo.
No meio do meu turbilhão de imagens gastronómicas em 3D, onde abundavam suculentas pataniscas de bacalhau, arrozinho de tomate, peixinhos da horta (oh meu Deus, o que eu tenho em consideração os peixinhos da horta!), jaquinzinhos fritos, costeletinhas de borrego grelhadas, batata albardada; salada de pimentos; morcela de arroz; linguiça frita; broa de milho; azeitonas com orégãos; queijo seco amantizado no colorau; papos-de-anjo; trouxa-de-ovos; pudim de Abade de Priscos; toucinho-do-céu e glaciais copos de sangria tinta, ainda consegui ouvia-la exclamar, oh filho, tu corre-me lá dentro e baixa o lume, que ainda se nos queima o almocinho.
Oh menina, oh menina, sente-se bem? Era a Alzira, coitada; aflita com o escancarar das minhas narinas na direcção da sua janelinha, com vidraça de rendinhas, enfeitada com vasinhos de florinhas amarelinhas.
Solícita, levou a mão ao bolso da bata de axadrezado miudinho e retirou de lá um lencinho de um branco impoluto, com que limpou a saliva que ainda me escorria da boca e gritou para dentro de casa, Adérito filho, traz um copo de água com açúcar e avia-te homem, que aqui a menina 'tá sem cor!
Acabei sentada na salinha da família, a recompor-me do fanico gastronómico. Observei a colecção de elefantes de porcelana azul e branca, que num crescendo de seis peças, enfeitavam o topo do televisor (ao terceiro e ao quinto, faltavam-lhes a tromba, e o primeiro e o último tinham uma pata lascada), passei as mãos pelos naperons de croché, enroscados com amor nos braços do meu sofá de veludo verde, elogiei para dentro, a inexistência de um único grão de pó nas camélias de plástico, deleitei-me pela segunda vez e agora mais calma, com o cheirinho emanado da cozinha da Alzirinha, aceitando desde logo o convite para o almoço, devia comer qualquer coisinha menina, está tão pálidazinha ... olhe que lhe fazia bem.
Mas principalmente, renovei um princípio e uma ideia antiga de admiração, de muito respeito e alguma comoção perante a genuína simplicidade dos outros.
Só recusei a bebida incolor servida num cálice riscado, que o Adérito cognominou de cheirinho.
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quarta-feira, 1 de Julho de 2009
verão em lisboa II
Conversávamos pois, e dizia-me que possuía alma e coração quente.
Será que foi, porque em tempos muito antigos e já sem memória ou repetição, habitaram por aqui seres especiais como os famosos pirilampos cantores, os conciliadores abraços apertados, lusos corações poetas e os verdadeiros sonhos realizados e que te deixaram na terra esta herança do sentir?, perguntei-lhe logo eu, que guardava comigo estas estórias mágicas que o meu pai me contava todas as noites.
Talvez, pois Camila alimentava-se do sentir as garras afiadas dos pássaros coçarem-lhe a cabeça e os ombros, deliciava-se com o pousar suave de borboletas e abelhas nas suas pestanas, agradecia ao vento que lhe penteava o cabelo e à brisa, por lhe limpar o pó cinzento que lhe poluía a pele-mármore.
Escutava segredos sussurrados e juras apaixonadas, de namorados que se acomodavam aos seus pés e perdia o sorriso lá para os lados da estufa fria, onde nos baloiços crianças como eu, espalhavam gritos estridentes de felicidade.
Passei lá outra vez, quando da Feira do Livro e fui cumprimentá-la.
Hoje, já velha e escurecida, com rugas sulcadas pelo efeito das rachas fundas no tempo, vive todas as manhãs a sua preferida e mais deslumbrante emoção: o gozo da vida, com o mesmo entusiasmo da primeira vez, no memorável dia em que para ali foi ganhar raízes.
Essa vida que ela testemunha logo na aurora, contém tons de azul, ou de verde, ou de cinzento, ou ainda prateado, mas é sempre lisa e calmante com nome de rio. E quando esse rio se aproxima da profundidade dorida, tão própria do nosso grande oceano, aceita-o com paixão, transformando-se num exclusivo apelido de mar da palha.
Bom dia Camila, salpica-lhe ele lá de baixo, ainda perdida nos teus pensamentos sobre a razão das coisas, minha amiga?
Claro querido Tejo, ninguém me tira a ideia de que esse oceano que te abraça diariamente, é a razão da melancolia deste povo lusitano.
segunda-feira, 29 de Junho de 2009
secretíssimo, recôndito e encoberto
E seguem-se os meus segredos:
Melhor cheiro do mundo: os do campo no outono e os croissants da Bénard;
Se dinheiro não fosse problema: doava em causas humanitárias de apoio aos animais e à pobreza como esta do americano Greg Carr, no Parque da Gorongosa, e de apoio às mulheres subjugadas como esta, da Solar Cooking;
Caso de infância: nunca mais esqueci o dia em que pisei um caracol e ainda hoje, mal começa o tempo húmido, eu ando de olhos fixos na calçada aos saltinhos para me desviar deles e não interferir com as suas lentas passeatas. Se tiver oportunidade, vou-os apanhando pelo caminho e atiro-os para a relva, para mais ninguém os matar;
Habilidade como dona de casa: eu sou uma autêntica fada do lar, ah pois é, aqui ninguém me apanha em falta;
Não gosto de fazer em casa: limpar o pó;
Frase: o dia de amanhã ninguém o viu;
Passeio para o corpo: enveredar por caminhos inesperados, a meio de percursos previamente definidos. No fundo, a surpresa da descoberta inusitada;
Passeio para a alma: esplanar e fazer como a Luísa: subir e descer o meu/nosso Chiado;
Irrita-me: pessoas que não se desviam do caminho e se movem sempre a direito e aos encontrões nos outros e pessoas alucinadas, que andam a correr pelo supermercado e agarram no primeiro carrinho de compras que lhes aparece pela frente (geralmente o meu, descansado a um canto), fugindo com ele para a caixa, sem sequer olharem para confirmarem se aquelas são ou não as suas compras;
Frase ou palavra muito usada: no verão - Uma caipirinha, com açúcar amarelo, por favor, ou, Tem sangria?
Palavrão mais usado: Gaita e bolas.
Desço do salto, subo o morro e rodo a baiana: quando guio e deparo com a selvajaria da classe condutora;
Perfume: sou muito fiel aos mesmos há muitos anos e raramente vario, deve ser das poucas coisas em que não gosto nada de mudanças. No verão, Ô de Lâncome e no inverno, Pamplelune de Guerlain e Gucci II;
Elogio favorito: fico sempre muito pouco à vontade com eles, da mesma forma que também fico pouco à vontade com pessoas que fazem o inverso, isto é, que provocam os elogios, que se fazem a eles descaradamente, fingindo modéstia;
Talento oculto: eu sei cantar (sem modéstia nenhuma)!
Nem que fosse a última moda eu não usaria nunca: roupa transparente;
Queria ter nascido sabendo: falar todas as línguas.
E passo este questionário à minha querida e muito antiga vizinha, Blue Velvet, que julgo saber gosta muito de desafios e está a precisar de se distrair e alegrar um pouco. E ao também meu querido e antigo vizinho Paulofski, que anda a precisar de um empurrãozito nas letras.
Preguiças veraneias, é o que é!
E a música é para a Pitanga e para a Luísa, num dia especial.
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sexta-feira, 26 de Junho de 2009
mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo
Ainda na semana passada, eu percorri durante duas ou mais horas os seus vídeos no youtube, com a Beatriz ao meu lado pasma de admiração, uau mãe, que pinta; excelente este passo; deixa-me ver outra vez o moonwalk; ele aqui ainda era tão bonito; e sabias todas as coreografias?; mãe, que sorte tiveste ele ser do teu tempo.
Ontem a Beatriz ficou tão triste como eu e eu ..., eu voltei a ter treze anos.
Depois da morte, espero que a excelência do seu talento, a renovação e a inovação que trouxe à pop e a magia do seu trabalho que tivemos o privilégio de testemunhar, sejam sempre recordados quando se falar do Michael Jackson artista.
O Michael Jackson homem já foi acusado, julgado e condenado e ainda o será, para quem acredita no julgamento divino, que não é de todo o meu caso.
Mas cenas do outro mundo, foi mesmo o que ele nos deu, principalmente nos anos 80 e 90.
Ícones destes são perpétuos, como Elvis, Sinatra, Lennon e Freddie.
De fundo, não a mais inovadora, mas a minha música preferida, Dirty Diana
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quinta-feira, 25 de Junho de 2009
eça no feminino
Ontem sabia que a tarde ia ser difícil; já estava prometido há mais de um mês, três horas de martírio na cadeira da minha querida dentista. Lá fui eu, qual miserável a arrastar-me pelo passeio, com o pensamento fixo em anestesias azedas, brocas e broquinhas, espátulas, espelhos, aspiradores ruidosos, moldes coloridos, ceras quentes, simpósios, segundas opiniões e sempre de boca bem aberta, com dois pares de olhos em cima.
Enfim, tudo passou e já eram seis da tarde quando saio do Instituto de Implantologia, assim com a boca meio de lado num grande reboliço interior, mas que felizmente de fora mal se notava e se não a abrisse para falar com ninguém, a coisa até correria benzinho... e se eu ainda desse um saltinho ao Chiado, à Bertrand, para ouvir a Maria Filomena Mónica e o Eça?
Eu merecia uma recompensa, ainda para mais inesperada, depois de toda aquela invasão metálica na minha embocadura e fui e fui mesmo, de cara à banda e tudo.
As pessoas que dizem o que pensam frontalmente, sempre me atraíram, mesmo que discorde totalmente delas. Geralmente caracterizam-se por um certo pessimismo, antagónico à minha maneira de ver o mundo, mas não deixam por isso de ter razão na maior parte das vezes em que fazem as suas apreciações.
A Maria Filomena Mónica é um desses casos; extremamente crítica da nossa sociedade, talvez pouco crente no género humano, tuga principalmente, mas sempre certeira, incisiva, mordaz e com um sentido de humor irónico, por vezes cínico, de que eu sou fã; no fundo, ela tem um grande pedaço de Eça dentro de si.
São de um enorme rigor e de um trabalho genuíno e muito profissional, as suas várias biografias e os seus livros de retrato da sociedade portuguesa, mas é ouvi-la falar, ler as suas crónicas e os seus livros mais pessoais, como "Vida Moderna", "Os Sentimentos de uma Ocidental" e o corajoso autobiográfico "Bilhete de Identidade" que mais me delicio e ontem, no pouco tempo que durou esta apresentação alterada, da 5ª edição da biografia do Eça (que eu ainda não possuía), não foi excepção: igual a si própria.
E já comecei a ler, claro está.
terça-feira, 23 de Junho de 2009
locais no avesso de nós
Lugares que envelhecem, os que desaparecem, outros que apodrecem, aqueles que amadurecem e a maioria que simplesmente renasce.
Pena é, que pouca gente repara nisso. Em si própria; e quando o faz já há tão pouco para renovar.
segunda-feira, 22 de Junho de 2009
verão em lisboa I
A meio caminho, atravessávamos para o outro lado e quando chegávamos perto da Praça da Alegria, aqui foi...já sei pai, foi onde conheceste a mãe e depois passeavam no Jardim Botânico.
Baptizávamos os patos, dávamos pão seco aos pombos e eu contava pelos dedos da mão, a quantidade de pessoas a quem ele dizia bom-dia, até chegarmos ao Rossio.
Comíamos na esplanada da Suíça; torradas aparadas, chá fresco com limão e café de saco para ele. No fim, o prémio incongruente do qual trago o sabor na boca até hoje, impróprio para uma mãe, mas digno de um pai que se preze: um gelado de máquina, morango e baunilha, que descia numa perfeita espiral dançante até ao cone fino de bolacha estaladiça, terminando numa ponta finíssima em caracol. Lembram-se?
Depois de almoço posso comer o de chocolate? Claro que podia!
E as perfumadas velhas da mesa ao lado, com cabelos enlacados de um encantador branco-lilás, olhavam-no de lado e escondendo-se atrás de leques rendados, com desenhos de sevilhanas vestidas de bolinhas pretas, cochichavam entre si, parece impossível!
Ele ria-se, piscando-me o olho; rasgava-me as 7 Diferenças do jornal e voltava à leitura do seu Diário Popular, enquanto lhe engraxavam os sapatos.
Eram os melhores pequenos-almoços do mundo, tinham o gosto do proibido e um toque de segredo totalmente interdito de ser revelado, nunca digas à mãe que comes gelados ao pequeno-almoço.
Prometo.
E até hoje nunca disse.
sexta-feira, 19 de Junho de 2009
vírus* num blog sério e familiar #6
(agradeço que não revirem com muita violência e sofreguidão o pescoço do rapaz)
quarta-feira, 17 de Junho de 2009
biografias # 4
Quando chegou o seu grande dia, anda cá Aurélio, toma lá o teu primeiro palito e estima-o como a um filho, disse-lhe o pai comovido, ainda com as palavras do seu próprio pai presentes na memória: tens de morrer com um palito na boca!
Apesar de vários anos de observação meticulosa, a coisa não foi assim tão fácil como parecera. Primeiro teve de sofrer um pouco, até conseguir acamar o palito e reservar-lhe lugar numa fenda da gengiva. Demorou uns tempos para vincar essa brecha sangrenta, mas finalmente fixou o palito na abertura da pele, no canto extremo direito da boca.
Depois deste saber o seu lugar, foi a vez de aprender a manusear o fiambre, isto é a língua.
É que aquilo não era só chegar ali, fixar o pedaço de madeira e vamos embora com a dança. Nada disso, um verdadeiro expert do palitamento teria de aparentar uma certa descontracção no seu manejo; enquanto comia; nas conversas; durante uma bebida; a dormir, até! O segredo estava na manobra da língua, era ela a ágil alavanca, a grande aliada de todo o processo de palitagem na família Madeira.
O mais complicado para Aurélio, foi mesmo dominar a técnica da conversa e em simultâneo, prender o palito ao canto da boca, sem que este nunca se desviasse da fenda gengival, conseguida à custa de muito sacrifício, dores e cicatrizes. Mas uma vez conseguido, não fosse ele um Madeira legítimo, tudo iria correr sem percalços. E foi o que aconteceu.
Com os anos, o branco da boca passou a amarelo tabaco, as gengivas escureceram, exibindo várias tonalidades do espectro, que iam do violácea ao cinza escuro, passando pelo laranja ocre, e um hálito poderoso já há muito se entranhara nas paredes da taberna, deixando Aurélio Madeira rejubilando de orgulho.
Era uma questão de imagem, de honra familiar, de dignidade histórica! Todos os Madeira morreram fétidos e contaminados pela lei do palitar e ele não seria diferente.
Aliás, até desconfiava que um nível de putrefacção como o dele, nenhum antepassado tinha atingido.
E soube que tudo correria bem e que a sua hora se aproximava em glória, quando vieram as cáries nascidas dos petiscos da taberna; as lascas dos pastéis de bacalhau ficavam presas nos entremeios do esmalte da dentadura e aí apodreciam; pequenos fragmentos de casca de azeitona verde, aninhavam-se nos buracos da dentina exposta e por lá fossilizavam; minúsculos ossinhos, quase microscópicos, de passarinhos mortos com a pressão de ar, esventravam a fenda da gengiva descendo até à raiz; pedaços de suculento torresmo mal mastigado, acamavam e abcessavam virulentos; gordurinha excedente das moelas e dos pipis, iam preenchendo os espaços livres deixados por dentes em falta, originando em toda a placa bolinhas de matéria purulenta, pequenos quistos ensanguentados e uma ou outra larva mais atrevida e perdurável.
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segunda-feira, 15 de Junho de 2009
missão: personagens II
Quero desde já deixar bem claro, que eu não estava em missão de descoberta de personagens, nem nada que se parecesse. Encontrava-me sim, na esplanada da minha praia num fim de tarde aprazível lendo o meu admirável Tchékhov e só desejava mesmo, sossego e pouca distracção.
Pois, tenho destes desvarios, gosto de ler os russos no verão. Deve ser a melancolia do frio que tanto aprecio. Ninguém é perfeito. Adiante.
Encho-me de vergonha e aceito a punição, mas nem o puro realismo contido nos contos de um génio como Tchékhov, fez com que me abstraísse daquele, Oh Célia, vociferado com poder másculo.
Do gelo de Moscovo, incisivo e letal, salto de imediato para um não menos fatal calor ibérico, mais propriamente na Caparica, que queima como tições cozinhados em labaredas. O contraste foi brusco, mas não tive outro remédio senão adaptar-me rapidamente. Precisava de conhecer a Célia.
Pousei o meu clássico na sombra e enquanto lhe fazia festas, prometendo que a ele voltaria mal tivesse oportunidade, escorreguei ligeiramente pela cadeira, baixei os óculos escuros e coloquei-me em posição de vigilância.
Como que desmaiada de barriga para baixo, à sombra de um multicolor guarda-sol que exibia gratuitamente as letras garrafais cor-de-laranja, Trifene 200, encontrava-se a Célia. Sem demora, juntei-lhe um segundo nome próprio para ficar mais compostinha: Gorete. Célia Gorete e por favor pronunciem com acento no primeiro o: Gó-re-te!
A tatuagem arrogante de caracteres celtas, ou hindus, ou cirílicos, ou chineses ou lá o que raio era aquilo, desenhada primeiramente ao nível dos rins, já vira melhores dias. Também as leis da física, com o correr dos anos haviam sido fatais para Célia Gorete. Os refegos cilíndricos, assim como as pregas nascidas pós-tatuagem devido aos abusos de uma nutrição irresponsável, provocaram dilatações no corpinho, fazendo espalhar o desenho que escorregava agora ao longo do pneu sobejado.
Perante tal visão, encolhi os meus abdominais e prometi a mim mesma, talvez pela décima quarta vez, que era desta que largaria a droga; os chocolates, diga-se.
Entretanto, o par de Célia Gorete, um cepo robusto esculpido numa peça única, bronzeado o ano inteiro e coberto de pêlos género matagal intenso, a quem baptizei sem hesitações de Leandro, já se dirigia direitinho ao guarda-sol, onde a sua sereia o aguardava necessitada de beber.
Pôs-se a jeito para o repasto, largou a Nova Gente, sacudiu a areia da toalha e finalmente expôs o figurino para satisfação de gente indiscreta como eu, cujo interesse como sabem, era da mais pura investigação, não deixando também de atiçar outros desejos masculinos, bem menos prosaicos que o meu.
Não vale a pena pôr-me com coisas, mas verdade seja dita, lá que a rapariga era maciça, ai lá isso era. Ignorando o aviso dos michelin laterais, que nos calham a todas se não tivermos juízo, a alvenaria dela era cheia e sólida. Uma massa compacta bem torneada sob alicerces consistentes, quase inabaláveis que tinham término nuns pés nédios de unhas de tom escarlate, capaz de fazer corar o manto rubro de um qualquer pastor da igreja universal.
Deixando de lado o palavreado alambicado, assumo a gíria de uma vez por todas e para que ninguém fique com dúvidas, Célia Gorete era acima de tudo aquilo que se chama, uma grande cavalona!
Só lamento não ter enxergado com o devido rigor, o modelito da tanga que envergava. Mas era tão demasiadamente reduzido e escondido entre as bochechas dançantes, que só lhe percebi o padrão: tigresse.
Houve até um senhor, coitado, que ficou com os glúteos da rapariga fixos na pupila, que teimavam em não se descolar. Ainda estive mesmo para o ajudar e dizer-lhe, o senhor desculpe, mas tem o biquíni da Célia Gorete dentro do olho e se ali o cepo do Leandro vê, não há-de ficar lá muito satisfeito.
Mas calei-me, os clack-clack dos fechos da lancheira fluorescente do parzinho, estrondeavam no areal, chamando-me de novo. E ele era gordas coxas de frango, louros rissóis de camarão, pála-pála das onduladas, suculentas talhadas de melão que se colavam aos dedos e o cacho portentoso de belas uvas brancas, cujas grainhas eram cuspidas com destreza para a areia em brincadeiras parvas de namorados, provocando-lhes sonoras e impudicas gargalhadas, mas tremores no meu Tchékhov.
Enjoei confesso e a minha saudável garrafa de frize limão encolheu-se de recato, sentindo-se como ré perante aquele repasto, onde não se admitia qualquer carência de nutrientes.
Resolveram depois ir a banhos, não sem antes Leandro exibir um mergulho acrobático perante as hostes adeptas do passeio à beira-mar e molhar Célia Gorete, que largou um estridente, ai que estúpidoooooooo!
Entre gritinhos histéricos de ais e uis, frases assustadoras como, olha o tubarão, vou-te papar, anda cá minha patanisca e oh parvalhão já te disse para me deslargares e anda masé espalhar-me o creme nas costas, dei por concluída a minha missão e propus novamente deliciar-me com o Tchékhov.
Encontrei-o amuado comigo e com menos falas que o costume. Fingi não perceber o seu ciúme, nascido da atenção que dei à Célia Gorete e ao Leandro e ignorei as acusações que me fez, à medida que eu avançava nos seus contos: que eu exagerava na adjectivação, nas metáforas e nas comparações e que nos meus textos me perdia na ironia, descambando por ai abaixo demonstrando uma total falta de imparcialidade. Uma reles emotiva, era o que eu era. Uma total ignorante do verdadeiro realismo.
Disso já eu sabia, não me deu ele nenhuma novidade, sou mesmo assim um pouco para o exagerada. Mas continuei a lê-lo calada, como se nada fosse e a pouco e pouco sossegou, permitindo que me perdesse novamente nas suas palavras absolutas, na sua escrita única, sem excessos, sem interpretações, sem críticas inerentes ou pareceres coniventes.
Uma escrita que à primeira vista parece não possuir quase nada, mas que afinal tem tudo, escondido atrás de uma subtileza ímpar.
E o perfume a óleo de coco foi-se dissipando pelo ar ...
terça-feira, 9 de Junho de 2009
coisas de miúdos
Uma monotonia.
Agora já não há baloiços de madeira pendurados em elos de metal ferrugento, rangendo de sofrimento num ritmo exacto, que nos conduziam direitos ao céu e nos devolviam de regresso à terra. Deixavam-nos as palmas das mãos cor-de-laranja de ferrugem e cheias de calos orgulhosos.
Baloiçávamo-nos num tal para cima e para baixo, em velocidades galopantes que exigiam gritos estridentes de prazer, onde era tão fácil imaginar que seria mesmo possível voar. Bastava soltar as mãos das correias, lançarmo-nos para a frente, acreditar, conceber e sobretudo sonhar.
Não voaram tantas vezes assim?
Que pena aos nossos filhos já não nascerem asas.
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segunda-feira, 8 de Junho de 2009
quarta-feira, 20 de Maio de 2009
feeling good
Esta vil gatunagem furtada aos inofensivos comportamentos alheios, mais não é do que uma forma muito pessoal de me representar na caneta e no papel.
Todas as palavras que me lêem resultam portanto, da mais pura fraudulência, de uma criminosa e muito trabalhosa actividade de plagiato humano, que por vezes me consome e me leva as energias.
Ora, qualquer ladrão que se preze, necessita também de evoluir, buscar novos recursos, pesquisar outras metodologias, praticar diferentes técnicas de assalto, concentrar-se nos objectivos e ponderar sobre a actividade, para continuar a usufruir do gozo que a ladroagem lhe proporciona. Em suma, carece de uma benéfica pausa.
No meu caso, assumida aqui perante vocês como uma ladra de almas inocentes, que vagueiam distraidamente ao meu redor, desconhecendo que lhes sugo o sangue para poder escrever, dizia eu no meu caso, essa pausa saudável chegou.
Neste tempo, tenho muitas coisas que quero e vou fazer.
Muitos eus que se têm dispersado e que me aguardam pacientemente e sem queixas, para os reorganizar e reunir. Mas sobretudo, preciso muito de voltar a ler como antes lia. Sem distracções. E a partir de agora mais ainda. Sinto muita falta desse pedaço de mim. Desse eu, que sempre me foi especial e que me torna melhor pessoa nas outras tantas partes de mim.
Tentarei voltar, mas não prometo, lá pelas calendas de Junho.
"It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good"
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tags só meu-pausa
terça-feira, 19 de Maio de 2009
ser adolecentA aos 13 é ...
Mas o que é que isso tem de mal Beatriz? Todas as ilhas dos Açores são lindas e a Terceira não deve ser excepção.
Mas mãe, como é que ela consegue viver? Só a ilha de S. Miguel é que tem a Berska!
sexta-feira, 15 de Maio de 2009
vírus* num blog sério e familiar #5
vírus acanhado; aparentemente inofensivo, que quando menos se espera ataca a memória ram, a rom e a outra;
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quarta-feira, 13 de Maio de 2009
linhas de pensamento
Onde é que já se viu tamanho desmando? Sabem lá elas o que é governar uma casa, orientar um lar, apoiar uma família. Nem sequer sabem pregar um simples botão!
Nada entendem de cozinhados saborosos, confeccionados à base de amor e dedicação, cheios de temperos secretos, ancestrais receitas herdadas, manjares únicos.
E as limpezas? Uma vergonha.
Saberão elas a diferença entre prata e inox, cristal e pirex, pau-cetim e pinho, seda e poliéster? Nada.
Andam por ali com aqueles espanadores modernos, aspiradores eléctricos e esfregonas que vêem nos anúncios da televisão, desconhecendo o que é o verdadeiro esfregar, a nobreza do polir ou o vigor de um encerar.
E a roupa então, é um ver se te avias. Não há cá preceito algum nos vincos, dobras, pregas, direitos e avessos, gomas e borrifos, punhos e colarinhos.
Flausinas.
...
Olha p'ráquela, parece um pinguim expulso do pólo norte, ou será do pólo sul? Que se lixe, é 'masé ali do oceanário e já é muito bom.
Coitada, lá porque tem um avental de linho e golinha com goma, deve pensar que é melhor do que eu. Ao menos dispo a bata, quando faço recados à patroa.
E aquelas unhas, rentes e sem verniz? A lojinha do chinês já te fazia jeito, oh simplória. E um saltinho na chanata, também ia bem não ia, ou faz-te doer os joanetes?
Lorpa, nem deve sonhar que eu folgo todos os fins-de-semana, faço compras no shopping nas mesmas lojas dos bosses e chamo os putos deles, pelo nome próprio.
Ah e não sou uma ilitrada como tu, ou lá como é que se diz; tenho o oitavo quase todo... falta-me p'rái matemática, português e outra tanga qualquer, mas leio muito o jornal da região, a revista Certa do continente e os boletins da farmácia, enquanto espero que me gritem pela gaita da senha.
Atão e o teu magala, agora escreve-te donde, de Timor ou do Afeganistãni?
...
Dusssss, o que uma gaja tem de sofrer para pagar as props da faculdade. Mas o que é que eu estou aqui a fazer, metida no meio destas duas mulheres-a-dias?
Será que aquela parvalhona onde eu trabalho, a Judite, a Paula, a Sónia ou lá como é que aquela estúpida se chama, acha que sou criada dela?
Cum caraças, como se já não me bastasse aturar os chavalos dos filhos, ver se não bebem, se não fumam, se não metem lá garinas em casa, se trocam de calças, ou se não me deitam os olhos p'ró decote.
E eu estudo para os exames quando, pode-se saber?
Antes ou depois de encomendar as pizzas p'rá janta, antes ou depois do imbecil do tipo da engomadoria, me entregar a roupa da madama, antes ou depois de levar o porcalhão do cão à rua, antes ou depois de fazer as encomendas do super pela net, antes ou depois do namoradinho da Judite, da Paula ou da Sónia, ou lá como é que aquela monga se chama, me atirar bocas porcas e olhares lambidos?
Bom, esta tipa de preto só pode ser figurante de alguma novela. Que cena marada man, esta gaja não existe de certeza.
E a outra das florinhas? Amiga, é que não enganas ninguém com esse perfumezinho roscofe, oh chavala.









































































