Até já, blogobairro querido.
segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
até já
Até já, blogobairro querido.
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Patti
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Ares
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sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
crónicas de graça # 9
A leitura está hoje acima de qualquer outro prazer que eu tenha. Alcançou esse estatuto de soberania com o correr dos anos. Combatendo adversários tão difíceis como passeios, jantares, festas, praia, um cigarro, cinema, esplanar, música, fotografar, simplesmente não fazer nenhum, dormir e nos dois últimos anos, a escrita. Aliás, esta última, foi unicamente uma consequência pura e simples, das exigência e curiosidade com que eu cada vez mais me embalo nas minhas leituras.
Se houve coisa que sempre existiu em nossa casa, foram livros, música e fotografias. Tudo em muito. Depois dos livros de quadradinhos e dos de contos de fadas, não me lembro com grande certeza, qual tenha sido o título do meu primeiro livro a sério. Sei que tudo começou pelos Enid Blyton da minha irmã; páginas e páginas amareladas, preenchidas a letra miúda e apertadinha, igual à que saia da máquina de escrever do meu pai, quando eu brincava às professoras.
Foi este senhor e tudo aquilo que ele concebeu - sim, conceber é o verbo perfeito para tudo o que ele escreveu - o grande responsável para que eu aos oito/nove anos, tenha começado a ler sem parar e começasse a achar, que a leitura seria muito mais do que somente a história. Reparava eu, que por detrás das letras, havia segredos que o escritor tentava passar-nos, isto é, que podíamos aprender a ler através de uma lente, como se filtrando o trivial, buscássemos para além dele.
Depois vieram todos os outros autores, disfarçados de personagens nos seus livros de capa encadernada, lombada grossa, pintada a letras douradas. No tempo em que ainda se tomavam pequenas notas a lápis, se dobrava a ponta para marcar a página e se ofereciam livros com dedicatória sentida.
E quando descobrimos aqueles livros, que parecem ter sido escritos em voz alta? A sonoridade das palavras usadas, a crueza de umas, o lirismo de outras. Que personagens vivas são aquelas, sentadas no mesmo sofá que nós, acompanhando-nos à leitura? Uma extensão da nossa própria experiência, vivendo uma semelhante interpretação da vida, com quem nos identificamos, reproduzindo-nos tantas e tantas vezes.
Já li em muito ambientes, e ainda leio se não tiver outra hipótese, mas actualmente é o silêncio que procuro. A total atenção enquanto folheio o meu livro. Alcançar o porquê da escolha daquela palavra e não de outra, atentar à pontuação - ou à sua ausência - aprender com os diálogos, sempre difíceis de serem naturais, observar a narração dos factos, deliciar-me com o pormenor da descrição, que cada vez mais aprecio, viver as passagens do quotidiano das personagens, que as tornam reais e absolutamente próximas de nós, os leitores, usufruir do impacto emocional que o escritor traz ao papel e descortinar o enredo, obviamente. Mas este, nem sempre já é o mais importante; por vezes tornar-se-á secundário até. Tudo depende do mestre que desenha o livro.Leio para me melhorar a mim própria, me preencher; se calhar, me habilitar na vida. Não sigo modismos, tenho favoritos e cada vez, vasculho mais nos antigos, de todas as nações e épocas. E aprendo tanto. Tudo. Só lucros.
Quando temos a sorte de ler um grande livro, um livro marcante, toda a nossa consciência se altera. Mudamos. Há algo que não permanece com antes. Parece-vos pieguice, exagero, sentimentalismo? Então é porque ainda não encontraram o tal livro.
Escolham um livro, como se escolhessem uma paisagem onde pretendam desfrutar um mês inteiro de prazer.
Ou eu muito me engano, ou com o meu querido parceiro, também será mais ou menos assim.
quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
parasimpattias #4
Ora, esta e muitas outras estórias, podem muito bem ter iludido há muitos anos, as mentes inocentes de nós, pobres e frágeis criancinhas. Mas hoje já adultos, será muito fácil somarmos dois mais dois, juntarmos todas as aventuras que naquele tempo eram vividas nas florestas dos contos de fadas e trazermos ao de cima, o forrobodó que por ali andava.
Para começar, a mãe da Capuchinho Vermelho tinha um negócio muito lucrativo: um curso superior para princesas, filhas de reis falidos. Princesas com vontade de serem mulheres emancipadas, que desejassem encontrar rapidamente um príncipe novo, rico e sobretudo ingénuo. As aulas eram administrados na famosa Casinha de Chocolate. A fama e eficácia dessa licenciatura, vieram de alunas tão famosas como, a Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Princesa Cisne e a Rapunzel. Todas elas umas grandes sonsas que tiraram vinte valores no estágio final.
A Bela Adormecida por exemplo, foi convidada para administrar a Singer e à Rapunzell, até o Vidal Sassoon se lhe prostrou aos pés, para que ela fosse a sua imagem de marca na nova linha de champôs. Diz-se ainda, que a Branca de Neve tem o monopólio da fruta nas estufas de Almeria, e que a Princesa Cisne possui um aviário onde faz experiências transgénicas, em tudo o que é bicho que tenha asas; até melgas, vejam bem.
Bom, a avozinha da Capuchinho, que era sogra da mãe da menina e que nunca vira com bons olhos o casamento do seu filho com ela, descobriu-lhe a universidade clandestina e a ideia perversora do imaginário infantil. A astuta velhinha, também conseguira saber, que o lobo mau estava mancomunado com a megera da nora: era nem mais nem menos, que o reitor da dita espelunca de ensino.Senhora séria das estórias de encantar, vendo a fantasia e o sonhos das crianças à beira da catástrofe, ameaçou-os de que ia fazer queixa deles ao patrão, o senhor Walt Disney.
Os dois impostores, trataram logo de convidar o Winnie the Pooh, mais o João e a Maria, para em três tempos darem cabo da casinha de chocolate, onde era a universidade das princesas. Não podiam deixar qualquer vestígio da tramóia.
O lobo mau, tinha ainda de comer a avozinha, antes que a Capuchinho Vermelho lá chegasse e não ficasse esta também a saber de toda a história: falsas princesas, príncipes enganados, casamentos sem amor, fadas sem poderes e nada de terem muitos meninos.
O caos estava lançado: meninas perdidas no bosque, ursos a comerem universidades de chocolate, princesas interesseiras, lobos a engolirem avozinhas, estúdios de Hollywood metidos ao barulho, mães incautas. A mim ninguém me tira da ideia, que aquilo tudo acabou em bem, com os caçadores à mistura e tudo, porque foi o próprio do Perrault, que não mais se aguentou com a incúria e a libertinagem dos seus personagens e resolveu salvar a honra do convento, dando um final feliz à história, antes que se descobrisse toda aquela farsolice.
Uma verdadeira conspiração infantil, estas pseudo-contos de fadas, essa é que é essa. E nós ali, crianças puras, esponjas da fantasia, ávidas de ficção, todas as noites antes de irmos dormir, escutando estórias de fadas e de suas princesas felizes para sempre.
E do seu imaginário Si, o que resultou para o final da sua estória?
segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
ensaios
Memórias em papel, necessidades fisiológicas do pensamento, despejos pensantes, letras voluntárias.
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sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
vírus* num blog sério e familiar #10
(Parai todas, parai! Se ando eu em privação calórica, também andais vós, pois então)!
* um belo naco de...
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quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
aqui pelo meu bairro # 6
Não, não foi o Onofre, o padeiro. Esse é mais olhares, piropos e insinuações, mas chegar-se à frente que é bom, nada. Foi o Xavier do talho. Um viúvo muito jeitoso, que se mudou para o bairro vai para três anos, mais coisa menos coisa.
Eu já tinha notado que ele me favorecia no peso das entremeadas, no aviamento das iscas e na qualidade dos miúdos para a canja. Até pensei com os meus botões, o homem é novo cá no bairro e quer conquistar a clientela. Nada disso, nessa manhã de sábado, na alvorada do meu ressurgir para a paixão, na redescoberta dos prazeres proscritos a uma viúva respeitosa, confessou-me ele um incólume arrebatamento, no mesmo instante em que me pôs a vista em cima.
E para verem que o namoro é coisa séria e tem futuro, escutem lá isto:
Noutro dia fomos namorar junto ao rio. Os dois juntinhos dentro do carro à beira Tejo, vendo os barcos partirem para o Seixal. Mas nada de poucas-vergonhas, amassos e demonstrações vivaças, nada disso! Ele a ouvir o relato e eu, precavida, concentrada no meu croché a ver se substituía os naperons da televisão lá de casa, que já estão como há-de ir.
Nisto, sabendo para onde eram os naperons, pergunta-me o meu Xavier assim um pouco altercado: para a televisão Amelinha? Quero lá isso de televisões na nossa casa, minha jóia! Na nossa casa, só LSD e mais nada. Fiquei boquiaberta, mas assenti claro está, que uma mulher não se quer respondona como umas e outras e para mais, também não falo estrangeiro e até achei o nome pomposo: LSD.
A Zeneide manicure tratou logo de me explicar, que os LSD eram umas televisões muito modernas e fininhas, que se fixam nas paredes das casas ricas, com uma cola muito especial que nunca despega e que vem não sei donde.
Ainda nem estou em mim da emoção e diga-se de passagem, um bocadinho para o psicadélico; eu, Amelinha, com um LSD colado na parede da minha humilde sala, vejam lá bem!
domingo, 24 de Janeiro de 2010
privações II
Bem, mas como este tipo de alimentação serve um nobilíssimo objectivo, eu aguento-me. Oh se me aguento, senhores.
Ora mas o que eu queria mesmo, era que os meus queridos vizinhos blogobairrenses me facultassem receitas de refeições pouco calóricas, daquelas simples, fazíveis e sobretudo, atenção, sobretudo muito saborosas. E sobremesas também.
Essa é que é essa!
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sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
crónicas de graça # 8
Isto de se ser pontual, não será uma tarefa fácil de se cumprir. Porque pontualidade no verdadeiro sentido pouco se pratica. Na maior parte dos casos, ou se chega antes, ou depois.
Pode-se rapidamente fazer o perfil dos atrasado-compulsivos. São quase sempre pessoas descontraídas, flexíveis com o factor tempo, parecem a todo o tempo bem dispostas e têm por lema, a vida são dois dias e xô stress. Não esquecer, que chegam sempre com um enorme e irresistível sorriso de anjo na cara, acessório imprescindível à desculpa do atraso. E se ainda repararem bem, têm um letreiro na testa dizendo, eu tenho cá uma lata!
Adoptei há muitos anos, a estratégia de me encontrar com eles - esses amigos perfeitamente identificados - em esplanadas a apanhar sol, já sentadinha no restaurante a petiscar, ou em casa. Nunca na rua especada, feito estátua nervosa presa ao pedestal.
Há o outro lado deles, que me aterroriza. Têm regularmente mil tarefas em mãos, as quais não conseguem cumprir, deixam muita coisa para trás e para depois, falham constantemente compromissos que vão desde uma importantíssima reunião de negócios, à festa da escola dos filhos. São incapazes de fazer escolhas entre um assunto que requeira prioridade, e outro supérfluo. Dizem que sim a tudo, nunca há impedimentos para nada, alguma coisa se há-de desenrascar. Aquela velha história, de que o ovo estará eternamente na galinha...
Ora, este é o oposto do comportamento dos adiantados. Organizados, metódicos, previdentes. Também temos o lado negro claro, não somos perfeitos: ansiosos, impacientes, apressados, exigentes.
Um dia, assisti a uma peça no Teatro Tivoli, "Sete Minutos", um monólogo com o brilhante António Fagundes. O actor avisou em entrevistas televisivas e reportagens, de que as portas encerravam impreterivelmente às 20.45h. Nem mais uma alminha lusa entrava naquela sala, nem sequer valiam a pena, as desculpas de maremotos, morte da mãe ou uma unha encravada. Nada, nada, nada.O público português ria é claro, achavam graça, comentavam o impraticável atrevimento, não acreditavam na sua concretização. Dito e feito. Ficaram cinco ou seis pessoas na rua e o caso foi tão insólito neste país de atrasados, que até deu em notícia de jornal.
Infelizmente, a exequível ideia ficou-se por ali. Devia haver normas mais severas de cumprimento de horários, especialmente nos locais públicos, onde os demais são prejudicados pela classe dos atrasados crónicos. Cinema, teatro, concertos, conferências e afins.
Lá vêm eles, à média luz, sempre com aquele enervante arzinho pateta, quase dócil, praticamente de gatas, a passarem entre as cadeiras aos tropeções e de nariz no chão, cheios de com licenças e desculpe, desculpe, desculpe, que só me apetece empurrá-los por ali abaixo (a privação de açucares deixa-me assim, colérica).
Pronto, já desabafei!
E o Carlos? Por favor não me dê um desgosto, dizendo que é um desses! Bom, desconfio que não.
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quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
ares da minha graça II
O tempo a fazer das dele, usando um relógio muito mais rápido do que o meu; ou com mais ponteiros...
Mais um ano de muito escrevinhar. Ensaios centrados num registo mais próximo de mim. E assim nasceram as personagens reais que se cruzam comigo na rua, no supermercado, na praia, na esplanada, no consultório, com vidas fantasiadas que lhes crio no papel; a utopia de biografias que me surgem ao observar uma imagem; um confessionário sem genuflexório ou contrições, mas vital e professor depois dos quarenta; três parcerias-Amigas que me preenchem folhas e folhas a letra miúda, me dão um sincero prazer e que espero corresponder de todas as vezes, sobretudo aos meus três cúmplices; um alter-ego surpreendente, onde carrego baterias, onde me farto de rir com o incauto, me comovo com a genuinidade de pessoas assim, dando-me de texto em texto a absoluta convicção, de que um dia vou encontrá-la, a ela, a minha Amelinha, numa rua da Graça, Patti, sou eu filha! A tua Amelinha, já não me conheces rapariga?
Mais um ano de muitas e distintas leituras, visitas fiéis, amigos, companheiros, presenças, comentários cá e lá, encontros além-fronteiras e sem muros, novos e velhos vizinhos de um blogobairro que um dia imaginei.
Mais uma ano sob a descoberta lenta e comedida, de que a escrita não pode ser só o alinhamento de palavras que se ajeitam entre elas, de uma forma que ninguém se tinha ainda lembrado de as colocar. Será mais. Será talvez, tudo o resto que falta. De que ainda pouco sei. Muito além do que trazemos no pensamento. É físico, corpóreo, terreno e no final, paradoxalmente diáfano. Com cheiro, textura, colírio para os olhos. E que se escuta.
Aquela ideia constante de que o que se escreve, só está verdadeiramente escrito e concluído, depois de ser lido pelos outros.
A mim basta-me um lápis.
terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
privações I
E já lá vai uma semana de celibato no mantimento.
Que saudades eu tenho disto.
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quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
ai o amor, o amor ...
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tags carta de namorados
quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
sopas de letras portuguesas # 2
Mas sei agora. Que morri. Morto e matado de todo.
O tema é mórbido, bem sei, mas é que se passam tantas, mas tantas cenas depois de um homem estar morto, que nem sei por onde começar. O positivo da questão, é que agora tenho a morte toda pela frente.
Primeiro, quero já aqui esclarecer e acabar com boatos e injúrias, sobre as larvas serem nojentas. Nada mais falso, caros vivos da silva. São os bicharocos mais simpáticos que existem à face da terra, ou melhor nas suas profundezas. Vermes companheiros e sempre muito presentes, quer na limpeza das minhas unhas dos pés, no vazamento do pó dos meus ouvidos, enroscadas em sonecas profundas na dobra dos meus joelhos, ou a petiscarem os restos gástricos do meu estômago.
Portanto, temos criaturinhas que comparecem com frequência, na solidão desta minha vida, perdão, morte.
Aqui nas catacumbas deste cemitério de província, onde agora habito, a animação é grande. Não fora alguns ossos já se terem desfeito e posteriormente levados pelas larvas, impedindo-me grandes movimentos ao esqueleto, diria mesmo que por aqui, no reino dos mortos, abunda o reboliço, a agitação e o alvoroço.
Forneço-vos para vos elucidar, uma breve listagem dos nossos afazeres diários:
- Observação e contagem das noites estreladas. Vocês sabem lá os milhares de estrelas que existem no firmamento. Eu estou em quarto lugar nesta prova. É o concurso mais popular do cemitério. É claro, que posição de barriga para cima como nos colocam, também ajuda muito.
- Semanas temáticas: a escassez de visitas ao cemitério; as doenças mortais; a morte-santa; o halloween; a fauna necrófoba; como evitar a pá dos coveiros; os benefícios de uma saudável putrefacção; as vantagens e desvantagens da iluminação das morgues; o peso e o cheiro das coroas de flores; a qualidade duvidosa da madeira utilizada nos esquifes; o péssimo aquecimento na ala das autópsias; cinema de terror.
Mas gostar mesmo, mesmo, é da semana de beleza e dos cuidados com o envelhecimento da imagem: como manter esbelto o seu cadáver.
Aprendi conselhos utilíssimos e cá vão eles: esfoliação das peles mortas, com o ancinho do jardineiro, dez vezes ao dia; evitar a absorvência das flores apodrecidas do funeral, combatendo assim um crónico e fedorento perfume em todo o corpo, ou melhor, do que resta dele; reciclar a argila contida na terra que nos sobrecarga, para a tonificação da ossatura existente; aproveitar e extrair das longas raízes das hortas vizinhas, que por nós se emaranham, as suas propriedades anti-oxidantes, tão benéficas ao combate dos danos provocados pelos radicais livres.
E agora, aproveitando a oportunidade desta minha crónica no mundo dos vivos, pedia-vos encarecidamente que se nesta moda dos referendos, não podiam fazer mais um sobre a prática recorrente das etiquetas no dedo gordo do pé, tão em voga nas morgues dos hospitais.Eu e a minha letal vizinhança, votamos contra! Aquilo dá um raio de uma comichão.
E tu minha Gi, como te safaste com mais estas letras portuguesas?
segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
meu o início, vosso o final #2
Asneiras saborosas, excessos nutritivos e pecados calóricos serão esquecidos durante alguns meses. Deixarão assim de ter lugar no meu prato.
Mas sabem tão bem...o que me custa, sabem lá vocês.
Bom, reza a lenda das dietas, que sempre que alguém decide retomar o saudável caminho da contenção nutritiva, muitos hidratos de carbono sofrem verdadeiros percalços nas suas excessivas vidas.
Soube em tempos de um suculento bife do lombo com ovo a cavalo, ser rejeitado numa mesa durante um almoço de amigos, por se apresentar demasiado gordo. Ora acontece, que nessa mesma tarde o suculento naco, finalmente decidira pedir em casamento a mão da bela sericaia com calda de ameixas. Assim, a sua não admissão à mesa dos convivas revelou-se num real desastre amoroso.
O bife não mais admirou a sua sericaia. Os seus olhares não se trocaram. Os seus pratos nem se roçaram. E os seus aromas sequer se misturaram. Uma tragédia quase fatal, aquela refeição.
Não fora o inestimável préstimo da sua companheira e amiga de tantos anos, a batata frita caseira às rodelas, mais o tinto da casa e a airosa broa de milho, que logo se dispuseram a encontrar solução para o funesto desencontro, jamais os dois amantes se voltariam a refeiçar.
Vai daí, resolveram...
...e agora, caros leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.
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sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
crónicas de graça # 7
Olhe, esse já deixou a outra e agora anda metido com essa pirosa. Tem idade para ser mãe dele. E ainda dizem que o sujeito não ficou por aí! Anda a catrapiscar a outra fulana, aquela loura, da SIC sabe qual é?
Mas a minha cabeleireira continua: aquela, a loura do programa de sábado a seguir ao almoço. A que se divorciou do outro estupor, que agora anda aos caídos. Essa agora está grávida de outro. Então ainda não leu?
Aceno com a cabeça. Faz de conta que sei.
E lá vem ela: é como o casal BradJolie; aquilo para mim está nas últimas e não é de agora. O desgraçado do rapaz nem deve conseguir dormir, com tanto filho aos gritos pela noite adentro. Olhe, se quer que lhe diga, também é muito bem feito! Ninguém o mandou trair a Jennifer. Tão linda que ela é. Aqueles cabelos perfeitos. Lindos, lindos, sempre arranjadinhos, brilhantes. Aquilo não é dela, só pode ser coisa de um bom cabeleireiro, ah porque disso entendo eu, muito bem, não acha?
Bom, isto não é todas as semanas assim, mas se ela me vê pegar na revista cor-de-rosa lá do salão, estou feita.
Na verdade, existem poucas coisas tão tontas com as revistas cor-de-rosa. Tontas porque alimentam cabecinhas ainda mais tontas, crentes de que a realidade é mesmo assim: tonta de todo. E talvez seja, para os tontos que não fazem mais nada, senão correr para a frente dos fotógrafos.
Revistas tontas pelo desfile de disparates que por lá se lêem: o não sei quantos é o grande amor da minha vida (namoram há duas semanas); sei que quero ficar com ele até ao fim dos meus dias (conheceu-o ontem); sempre quis ser actriz (e diz prontos); nunca fiz dietas, já nasci assim (e já fez para cima de não sei quantas plásticas); não resisto a uma carteira Hermés (e compra imitações na feira).
A tonteira maior não vem das verdadeiras figuras públicas, os actores, músicos, pintores, estilistas, designers, mas dos outros, dos profissionais da coisa cor-de-rosa.
Recentemente fui convidada para um grande lançamento. Coisa que merecia a pena sair de casa, numa noite chuvosa de inverno. E valeu sim senhora.
Mas o desfile de figurinhas e figurões que por lá se passearam, foi de bradar aos céus. Se eu estivesse pelos azeites, tinha escrito um livro de personagens logo ali.
As máquinas fotográficas têm um telescópio agarrado, em vez de uma lente. De verdade. Enfiam-no na cara daquelas criaturas ávidas de social e disparam, disparam, disparam até à morte.
Andam atrás de umas, para ficarem na fotografia ao lado das outras. Sempre as mesmas, os mesmos nomes, as mesmas caras, os mesmos sorrisos. E elas lá vão. Uma, e outra e mais outra vez. Clique, clique, clique, é o som mais escutado. Esse e o dos copos a encherem. Mas desse barulho também eu gosto...
E depois vêm as televisões e os seus programas, de fim-de-semana a seguir do almoço. Daqueles que a minha cabeleireira falou. Ele é meninas apresentadoras, sorridentes e simpáticas, colocando questões tolas; ele é câmaras com focos de luz, capazes de iluminar estádios de futebol; ele é encontrões e pisadelas para se aparecer ao lado do entrevistado, assim como quem não quer a coisa; ele é uma verdadeira antologia de como se sobrevive em ambientes cor-de-rosa. Há cenas de susto. Acreditem-me.
Claro que na semana seguinte, lá estava eu no cabeleireiro a cuscar a revista do salão. Quatro páginas. Mas quatro páginas de quê? Desta, daquela, da outra e daqueloutra. Mas do lançamento propriamente dito, do tema da festa, do acontecimento que nos levou ali...nada. Só o título da reportagem. Mal se fala do conteúdo, só da forma e isso é o que torna este tipo de reportagens sem qualquer valor jornalístico.
Mas o pior das revistas cor-de-rosa não são as vertigens sociais que se acometem em alguns, mas sim a parte perversa da questão. A exposição desmedida. A invenção de factos. A ausência de privacidade. A perseguição. A invasão. A quase impossibilidade de livre movimento. O lavar de roupa suja. O sururu. A falsa adulação. A maledicência. A galopante subida aos píncaros. O não apareces, logo não existes. A morte súbita.

Ah, também lá esteve? E não aparece nunca em nenhuma destas fotografias? Que pena, assim nem valeu a pena ter ido, não é?
Disse-me a minha cabeleireira muito chocada.
E o Carlos, não me diga que já foi capa de alguma revista cor-de-rosa?
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quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
acordada
Um deles, espero concretizá-lo antes do meio do ano e tenho quase a certeza que me irá fazer um bem enorme à alma; se é que ela existe mesmo.
E o outro - sonho recente ainda, coisa com um ano de criação - ando a dormi-lo todas as noites, mas espero despertá-lo aos poucos, num vagaroso trabalho de concentração e esforço durante todo este ano.
Decidi não dormir mais com eles. Vou acordá-los.
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quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
parasimpattias #3
Exercício: descrever de forma intensa, a primeira experiência que a memória registou da cor vermelha.Houve um tempo em que ainda existiam baloiços de madeira, pendurados em ruidosas correntes enferrujadas e see saws aparelhados em cabeças de cavalo, onde apertávamos as mãos pequenas até ficarem vermelhas. Com calos vermilhões, de verdadeiro vermelho dor.
Havia espaço para se avermelharem joelhos e cotovelos, partir cabeças rosadas, narizes e queixos rubros. Uma época em que exibíamos aos amigos orgulhosas cicatrizes, pontos costurados a sangue frio e hematomas coloridos de vermelhaço-vermelhante.
Era a nossa primeira experiência em vermelhoso vivo. O vermelho líquido e quente, espesso e de sabor acre, que jorrávamos a rodos de dentro de nós.
Também foi assim comigo, quando caí do velho see saw de madeira lascada e já sem cor. Pintei-o a jacto de tinta, directamente do meu queixo, com um vermelho vivo e intenso. Lindo. É até hoje, o meu vermelho preferido.
Aquele encarnado.
domingo, 3 de Janeiro de 2010
quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
crónicas de graça # 6
Pois é, eu sou das tais que vivem esta época intensamente; com uma grande alegria. Apesar da falta que o meu Alfredo me faz, já o sabem. Excepto com aqueles que por razão de força maior, como a experiência de uma fatalidade, não vivem bem esta quadra, não tenho a mínima pachorra para os abutres do Natal. Credo! Fechem-se em casa.
Ora embirram com as compras, ora com os doces, ora com a música, ora com as luzes, ora com o trânsito, ora com o pai natal, ora com os frutos secos, ora com o bolo rainha. Livra!
Oh minha gente, embirrem lá mais para o início de Janeiro, que até é um mês estúpido e tudo, e deixem o Natal sossegado. Oh valha-me Deus.
Que há muita desgraça no mundo, muitas crianças com fome, muitas famílias sem tecto, muitas pessoas sozinhas, muitas guerras sem fim. Pois há. Aqui no bairro também, mas não aparecem só no Natal, estão por cá todo o ano. E quanto a mudar o mundo, nada posso fazer. Posso e devo consertar o que me rodeia, na esperança que se repercuta nos outros e assim por diante. Tipo efeito dominó. Se todos plantarmos uma flor no quintal, o vizinho imita-nos e todos os quintais ficarão mais bonitos. Agora, aquela maniazinha de virem só nesta época, chamar a atenção para os problemas do planeta, encanita-me. Mas os problemas não duram todo o ano? Pois se não estão satisfeitos, tentem mudar as coisas, ou não é?
Bom, adiante.A minha azáfama começa logo em finais de Outubro. A família espalhada pelos quatro cantos do país, aterra toda aqui no bairro a partir do dia 22, e há que acomodar esta catrefada de gente na minha casa. Fazer camas, baixar divãs, pedir colchões emprestados, escolher toalhas, cobertores e lençóis. Enfim, um cansaço mas que muito me agrada, não fosse esta a festa da família.
São os meus pais de Mirandela, mais os meus irmãos e as mulheres e a filharada toda, que vêm de lá com o cabrito, o pão, as nabiças e o melhor azeite do mundo; os primos de Gouveia que me trazem as perdizes à moda lá da terra, mais as trutas abafadas; a minha cunhada de Porto Santo, com o bolo de mel, o licor de amoras e os fartos de batata-doce; os meus tios de Serpa, carregando cabazes de papos-de-anjo, a encharcada, a garoupa para a canja, o tinto alentejano e as azeitonas; e finalmente os meus compadres marafados, com o rico polvo, duas caixas de lingueirão e o folar doce do Natal. Aqui a Amelinha, contribui com o bacalhau da rua do Arsenal. Não falho um ano.
Depois, há que dar uma mãozinha ao padre Hipólito, no auxílio às famílias mais pobres do bairro, que em regra têm também muitas crianças. Este ano, calhou-me a partilha da minha ceia de Natal com a família Pereira. Têm cinco filhos, o pai está desempregado e a mãe faz limpezas aqui pelo bairro. Muito humildes, mas gente muito honrada. Portanto, mais pessoal para sentar à mesa. A Zeneide manicure, aquela rapariga moderna que me elucidou acerca dos sonhos góticos, é que me deu a ideia de eu fazer um jantar rolante ou volante, ou andante, ou lá como aquilo se chama. Girante, é isso: um jantar girante. Chic, não acham?
Também adoro aquela parte dos presentes. Não posso gastar muito, já se vê, mas de um giro pelas lojas da baixa, é que eu não abro mão. Era só o que me faltava, falhar com as compras de Natal.
E para quem não anda muito abonado como eu, aconselho ali o território que vai dos Fanqueiros ao Martim Moniz. E não se ponham com caganças de lojas finas, porque a zona de que vos falo é muito catita. Ele é pijamas de seda indiana, dez pares de peúgas a 5€, guarda-chuvas coloridos, caixas de jóias chinesas pintadas à mão, com desenhos de pagodes dourados, despertadores com a música do Pingo-Doce, televisões, rádios, leitores de dvd e consolas, de uma marca muito boa, mas que agora não me lembro o nome porque está em chinês, carteiras de marca, porta-chaves de pele genuína, pauzinhos de incenso e fatos de treino de nylon, muito jeitosos.
E finalmente, os fritos. Os famosos fritos de Natal, pelos quais sou afamada aqui e nos arredores. Todos os anos despacho para fora, quilos e quilos de encomendas que me começam a chegar logo em Novembro.São os sonhos de abóbora, de cenoura, de maçã, de gila e este ano inovei com os de banana: um sucesso! Sou também a melhor nas fatias douradas, pois faço-as com o pão que o meu rico pai me envia lá de Trás-os-Montes. Ficam assim ensopadinhas, ensopadinhas. E os coscorões? Querem lá ver coscorões mais amarelos e estaladiços que os meus? Isso é que era bom. Até o Onofre, o padeiro esquisitinho, mos encomendou este ano porque os dele tinham a textura de trapo. Só vos digo que não há azevias de grão como aqui as da Amelinha. Grão-de-bico! Do bom e verdadeiro, que na comida eu não sou cá mulher de fazer poupanças.
E é tudo amassadinho com as mãos. E não se me estala o verniz, não senhora. Horas e horas de vira e revira, amassa, esmurra, bate, volta e torna a voltar. Quero cá essas modernices de Bimbes e máquinas de pão e mainãoseioquê!
E também não me venham cá com conversas de comer com moderação, um bocadinho ali e um bocadinho aqui, e mais o cuidado com a linha, e mais a boca cosida, e mais a figura e o raio das dietas. Querem lá ver coisa mais disparatada que esta, de fazer restrições na alimentação durante o Natal? É com cada moda que inventam hoje em dia.
Bem, deixa-me lá ir. Ainda tenho duas mantinhas para acabar de tricotar e levar ao gatil, três dúzias de filhoses de abóbora, encomendadas pela Lurdinhas da mercearia, não posso faltar à missa das nove, levar dois aquecedores a óleo ao lar da paróquia, ajudar a vizinha do segundo direito a colocar a estrela no topo do pinheiro e ainda, dar um saltinho à loja do chinês para comprar mais papel de embrulho. Tanta coisa ainda para aprontar.
Mas que o meu jantar girante, vai fazer furor no Natal cá do bairro, ai isso vai.
E o senhor Carlos, o que me diz desta época?
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
no confessionário aos 40 #5
Também por lá paravam o sol obra-prima, aquele sol branco-inverno, picante e fundo, acalentador da nossa pele, nutriente; as ondas-mulher que barafustavam altas e espumosas, desde o fundo do horizonte prata até à praia, onde decidiram estalar o seu sal na areia amarelo-palha; aves marinhas de bico cor-de-laranja e corpo preto, riscado de branco meigo; duas dezenas de apaixonados da água gélida, pontinhos negros, formigas laboriosas, barbatanas de tubarão, que saltavam para o corpo das pranchas, dançando sobre elas sem parar, enquanto houvesse pista para andar.
O mar nunca é tão mar, como quando se funde com o sol do frio-norte.
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sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
sopas de letras portuguesas # 1
Do que me pedes, baixinho
"Não venhas tarde!",
E eu peço a Deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.
Que eu vou p'ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
"Meu amor, não venhas tarde!"
E blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.
Quando era miúda, este fado do Carlos Ramos ouvia-se muito na rádio - ou melhor, na telefonia.
Sempre gostei de fado, é a música da minha terra, mas a este detestava-o - e sigo a detestar.
Primeiro e antes de compreender alguma parte da letra, era a voz do homem que me incomodava: arrastada, falsa melosa, quase suplicante.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Depois, na idade da compreensão passei a antipatizar com o protagonista da história: mas ele tem uma amante? e é casado? e vai ter com outra na cara da legítima? e ainda diz que ela sofre de ciúmes?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
E finalmente, a raiva a esta letra personificou-se na traída: mas a parva ainda lhe diz para ele não vir tarde? e com carinho? sem fazer alarde? sem azedume? e ainda se vai despedir à janela? oh mãe, mas como é que a mulher atura um marido daqueles?
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Mas, coitada da desgraçada. Só alguns anos mais tarde entendi que era uma situação comum à época. De educação. De formação. De lei, até. Mulheres em casa com os filhos. Cumpridoras e pacatas. Eles na rua e onde bem lhes apetecesse. Cumpridores também. Mas já não tão pacatos.
Depois, a minha mãe, que felizmente sempre foi muito acima do seu tempo, contou-me que só em 1966, é que a mulher casada teve autorização do marido, para exercer uma profissão liberal ou na função pública. A palavra autorização, é fantástica, não é? Mas alto lá, ele ainda tinha o privilégio de poder denunciar o contrato de trabalho da mulher.
Nesse mesmo ano, a mulher casada alcançou também o direito de ser detentora de património próprio e de poder movimentar contas bancárias. Uma sortuda, já podia ter mealheiro e tudo!
Só em 1969 é permitido à mulher, viajar sem autorização do marido. Influências da ida à lua, só pode!
Até 1975, era multado aquele marido que assassinasse a sua mulher por razões de adultério. Ela ia presa. E upa, upa!
Em 1976, o marido perde o direito de violar a correspondência da mulher. As despesas da capelista, da mercearia e a conta mensal do talho...
Só em 1978, o marido perde o título de "chefe de família".
E eu de boca aberta com o nonsense da coisa.
A minha mãe olhava para o meu pai e riam-se.
Assim, não é de estranhar que este detestável fado, tenha sido à época, cantado e recantado vezes sem fim.
Oh Gi, mulher laboriosa com as letras, tu reescreve-me aí estes execráveis versos e desencanita-me o fado, menina!
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terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
aqui vou eu # 2
P'ra lá...
e p'ra cá
E no dia 10, vou estar aqui e ali.
sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
crónicas de graça # 5
Alface vem do árabe e foram os nossos avós mouros, os responsáveis pelo cultivo da planta quando da sua ocupação da Península Ibérica - Al-Hassa.
Há quem fale também de um cerco que a cidade sofreu e que mais não havia para comer, do que alfaces.
Dizia também, Oliveira Marques, que a Lisboa burguesa de finais do século XIX, tinha o costume de nas domingueiras tardes de calor citadino, se reunir em grandes almoçaradas pelas muitas hortas dos arredores de Lisboa. O típico peixe frito era acompanhado, ao que parece, com astronómicas quantidades de salada de alface. Quem vinha de fora, achava tudo aquilo tão pitoresco, que passou de uma moda estranhada a caricaturada.
Eu sou alfacinha de gema. Ali do meu Chiado, logo na sua primeira esquina, a da rua Serpa Pinto.
Os alfacinhas, como tudo na cidade, vêm sofrendo transformações. Não pretendo nenhum relatório, vou falar apenas dos que me lembro; dos do meu tempo, seja ele qual for.
Recordo-me de muitos géneros de alfacinhas. Não havia somente o alfacinha típico, que a maioria fala e conhece a fama.
Aquele bairrista que esfregava o olho mais rápido que o diabo, encostado estrategicamente nas esquinas da avenida, donde atirava piropos às criadas fardadas que passeavam os meninos das casas ricas. Os empolgados aficionados, organizadores dos bailes dos santos populares, com manjericos, flores de papel com quadras populares, alcachofras queimadas à janela, molhos de alfazema e rouxinóis de barro que apitavam na boca das crianças por esta altura, em toda a cidade. Os alfacinhas que discutiam com a varina, o preço do goraz, da posta de pescada e da petinga para o gato. Os que enfeitavam as varandas com vasos cheirosos de sardinheiras encarnadas, que estendiam os tapetes a arejar nos varandins de ferro, que penduravam a gaiola do canário no exterior, que traziam o grelhador para a rua e assavam a sardinha, o bacalhau e o frango assado. O alfacinha malandro e estroina, biscateiro e calão que trazia sempre uma história nova, para enganar o primeiro que encontrasse ao caminho. O fadista marialva e boémio. O alfacinha que se não fosse benfiquista, não era bom chefe de família.
Recordo também muitos outros alfacinhas.
Na entrada do ano, estes alfacinhas compravam o Borda de Água a fim de consultar as festas, os dias dos santos e os feriados sem domingo. Passeavam no Campo Grande, onde se alugavam barcos e bicicletas. Desciam a Avenida em família. Paravam nos Restaurados à conversa. As salas de espectáculos esgotavam e usava-se a palavra matiné para o cinema, o teatro e tardes de dança.
Alfacinhas que lanchavam na concorrida Baixa e faziam refeições tardias, nos muitos restaurantes e cervejarias abertas até desoras. Sem problemas.
Cruzavam-se alfacinhas anónimos, com alfacinhas poetas alfacinhas músicos, alfacinhas actores, alfacinhas atletas, alfacinhas escritores. E acenava-se com a cabeça, num cumprimento educado.
Alfacinhas que enchiam espaços tão distintos como os cafés e esplanadas, livrarias, retrosarias, casas de discos, padarias, jardins, drogarias, hortos, mercearias, jardim zoológico, miradouros, o castelo. Esgotavam-se as ruas.
As alfacinhas e as filhas iam à modista, à capelista e subiam aos grandes armazéns do Chiado e eles, engraxavam os sapatos sussurrando politiquices baixinho.
As empregadas das lojas tinham nome próprio, as vizinhas raminhos de salsa e as caras dos motoristas de táxi, não nos eram estranhas de todo.
Lisboeta. Lisboano. Lisboês. Lisbonense. Lisbonês. Olisiponense. Lisiponense. Lisbonino. Alfacinha.
Alfacinha consagrado por Garrett nas suas Viagens, capítulo VII: "Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare".
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quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
parasimpattias #2

Exercício: Um objecto acompanha desde o início do casamento, a vida conjugal de um casal.
Esta é a sua visão da história.
Acabadinho de sair do forno, fui comprado ainda cachorro por um casalinho de apaixonados, recém-casados. Ai amorzinho que peça mais linda! Ai que ficava tão bem na nossa entrada! Ai que brilha como os teus olhos! Ai que me fazia tão feliz se o levássemos! Ai mais não sei o quê! Ai mais não sei que mais.
Eram assim, a Mariline e o Ismael. Amorzinhos, beijinhos, festinhas, meiguices, pieguices, lambuzices e outras parvoíces. Fiquei um pouco enjoado, confesso. Até para mim, um cachorrinho que adora lambidelas, aquela peganhice toda me parecia um exagero. Mas lá fui. Confiante que de tanto carinho, algum haveria de sobrar para mim. E não me enganei.
Fui colocado no hall, defronte para a porta da entrada, logo ao lado de um belo móvel sapateira, de carvalho polido e ferragens douradas, que faziam clara concorrência ao meu brilho natural.
A minha enigmática postura, impunha-se naquele hall, como um general na frente das suas tropas e espalhava-se por toda a casa. Ninguém me ficava indiferente. Era carismático e possuía uma imagem envolvente, como o amor daqueles dois.
Eu sou um dálmata de nível, sóbrio e com um certo pudor, por isso não me vou pôr aqui a relatar a intimidade dos meus donos. Mas que subiam paredes, ai isso subiam!
Pronto, já que insistem, eu desbronco-me um pouco. Mas só um bocadinho.
Não estou a cometer nenhuma inconfidência - os vizinhos do prédio são testemunhas - se vos disser que havia festa todos os dias. E noites.
Ele era caixas de bombons e ramos de flores exóticas, às sextas; técnicas acrobático-sexuais aos sábados; reflexões tântricas aos domingos e ramboiada da grossa, às segundas e quartas. Nas terças e quintas, jantares românticos em trajes sadomaso e desenvolvimento do léxico amoroso do casal: pombinha, fofinha, pote de mel, arrufada, patanisca, aboborinha e meu rabanete.
Mas não se esqueciam de mim. Era tratado imaculadamente. Davam graxa ao amor deles e puxavam-me o brilho com sonasol verde. Estudavam-se um ao outro e limpavam-me o pó com minúcia. Mergulhavam horas em perfumados banhos de espuma e colocavam-me no buraco que tenho na base, um perfumado sabonete de alfazema.
Todo eu rutilava e o meu corpo mais não era, do que um espelho reflector da feliz vida de casados da Mariline e do Ismael: plena de atenções, excitações, miminhos e beijinhos.
Mas não há fome que não dê em fartura. Com o tempo, fartaram-se da marmelada. Foram escasseando os bombons e as flores. Os dias marcados para as suas loucuras, também sumiram do calendário. Eu ali no meio do hall, já numa posição meio enviesada, como a relação dos meus donos. A cabeça virada para a porta da cozinha. O pó acumulara-se no meu corpo, os ácaros faziam pouco de mim, o brilho da minha louça, outrora o centro nevrálgico daquela decoração, esbateu-se-me, ganhando uma película baça, levemente gordurenta.
Depois começaram a gritar um com o outro, a arremessaram objectos: a colecção das caixas de bombons, os ramos de flores secas, os cintos de ligas, o chicote e as algemas. Esgotadas as peças do seu amor, depressa se voltaram para algo mais prosaico: frigideiras, jarras e comandos de televisão.
Fiquei sem uma orelha, ganhei um buraco no lombo, perdi um olho e esfolei o focinho, ficando marcado para o fim dos meus dias.
Hoje em dia, não me fazem caso. Já não me limpam o pó, ignoram-me a perda do viço, não me lavam e esqueceram-se do último sabonete de alfazema dentro de mim, só resta o invólucro vazio. Arrasaram como o meu orgulho de dálmata autóctone, fazendo-me reduzir a um vulgar enfeite. Um bibelô inútil, sem salvação.
Que saudades dos meus colegas da loja de decoração. Onde estarão todos vocês? Que donos lhes coube? Que vidas presenciaram? A fonte de pedra com o menino a jorrar água pelo cântaro; a sevilhana orgulhosa disposta em cima da cama lacada; os pratos de louça azul, com provérbios e ditos populares; os sofás de veludo verde, em capitonê; os centros de mesa com frutas plásticas. O quadro do menino da lágrima.
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quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
meu o início, vosso o final #1
...e agora, caros leitores do meu blogobairro, continuam vocês a história. Aqui ou no vosso blog.
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terça-feira, 24 de Novembro de 2009
complicadas, nós? #3
Assim, muito seria poupado se tomassem em atenção simples frases, proferidas em tom escarninho como: Esquece! Não tenho nada! Deixa que eu faço! Obrigada, eu resolvo!
Queridos homens, desatenções fatais como estas, leva-vos irremediavelmente a escutarem a frase das frases: Precisamos de ter uma conversa!
E neste tipo de conversas, já sabem quem é que ganha sempre...
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segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
exercício #2: suspense?
Retirou do suporte uma faca afiada, daquelas de lâmina luzidia e reflectora, que fazem suster a respiração se empunhadas com destreza. Pôs-se a observá-la com cuidado, subindo-lhe à ponta dos dedos uma tensão nervosa, rogando-lhe que a usasse.
Lapidou a fruta tímida e descolorada, primeiro de forma subtil e delicada, mas à medida que a acústica do silêncio fazia ouvir os silvos do facalhão na bancada de aço inoxidável, fazendo clara concorrência com as estridentes buzinas dos carros, lá fora no vendaval da noite, ele entusiasmou-se e em três golpadas certeiras, desfez carrascamente o aflito fruto em pedaços, provocando-lhe um desmaiar fatal de sumo escorregadio.
A inexperiência fê-lo falhar o último golpe. E no chão de mármore branco impoluto, misturaram-se numa dança lenta, a espessidão encarnada do sangue fresco da sua mão, com a seiva doce da vítima.
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sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
crónicas de graça # 4
São inofensivos. Mas muito felizes, já o testemunhei. Acho-lhes um piadão e por vezes junto-me: também tenho uma t-shirt branca com o I Love NY, caramba!
O verdadeiro turista almoça e janta nos restaurantes de junk food, parece maluquinho na conquista da foto da praxe, com o monumento mastodonte bem ao centro e a sua figurinha de sorriso imbecil lá pespegada, cheia de malas à tiracolo e ainda o saco plástico do duty free.
A sua maior ambição, é portarem-se como um japonês na Europa: aglomerações de gente pequenininha e morena, sempre a sorrir e de passinhos apressados. Pessoinhas miudinhas, que se nos atravessam na frente da lente, quando finalmente conseguimos focar a imagem ideal. E nem dão conta do estrago, seguem em frente, sôfregos, proferindo um encadeamento de frases totalmente onomatopaicas, ditas em tom samurai. Sem pausas para respiração.
São os melhores clientes das excursões organizadas; carregam três ou mais gadgets ao pescoço; observam tudo de corrida e de esguelha com o olhar mais vivo que já vi; acenam com a cabeça a cada explicação e clicam dez fotos da mesma imagem.
Ora bem, eu também turisto alguma coisa, principalmente se não conheço o sítio. Não dou é muito nas vistas, apesar de ter tiques parolos, isto é: se eu vou a um local que nunca visitei, cá ou lá fora, eu quero saber de tudo: vejo e revejo blogs de viagens, google maps, sites oficiais, links vários. Vou do consulado à junta de freguesia; já para não dizer que fico íntima de todos onde busco informações. A páginas tantas, já sou eu a dar dicas aos turistas: uma perfeita parola, portanto.
Há um senão, raramente me meto em excursões cheias de gente. Depois é assim tudo muito à vontade, levamos encontrões, sentam-se quase ao nosso colo, oferecem-nos pastéis de bacalhau, dançam o fandango, beba lá uma pinga oh vizinha... e eu que não gosto nada de vinho de garrafão. Manias.
Outra característica do verdadeiro turista, são as compras. Aí, alto lá: sou imbatível. A rainha das parolas. Não há loja que me escape: da boutique à livraria, do mercado à feira de rua, das lojas de chocolates e compotas, às de chás e cafés, passando pelas lojas de souvenirs dos museus e fundações. E as papelarias e artigos de escrita? Oh senhores, entro em ebulição.
E postais? O que eu trago de postais? Mas Patti, já tiraste duas mil fotografias, para que queres tu tantos postais?
Não percebem nada.
Tem lá algum jeito uma pessoa turistar e não tirar um dia inteirinho para as compras? Um dia e meio, vá. Na pior das hipóteses.
Até ficava maldisposta, poderia dar-me uma apoplexia, uma crise de identidade, uma fraqueza no meu Eu: não saber quem era, perder o rumo, assim, no meio do estrangeiro!
E depois, a segunda mala que levo sempre comigo quase vazia, tornava à pátria cheia de quê? De ar? Que desperdício.
E não preciso de companhia, nem incomodo ninguém. Vou muito bem sozinha.
Mudando o tom para algo mais repousante e antes que ao meu querido parceiro, lhe dê uma travadinha depois de ler o que escrevi acima, direi que viajar, é outra coisa caros leitores.
Eu viajo por defeito, isto é, passeio-me sem rumo, calcorreando ruas e passeios, praças e jardins. Faço-o por costume. Veio-me no adn.
Gosto de olhar para cima; do meio para cima. Observar os traços dos prédios e das casas, as águas furtadas, ver onde chega e bate a copa das árvores, espreitar as cortinas das janelas mais altas, ver quem lá mora e que vigia os que passam em baixo, sem saber que também é notado.
Os espelhos da luz. A diferença dos efeitos que ela provoca. As fugas das gelosias.
Este meu viajar-passear-desfrutar sem norte, é feito de forma mais descontraída, sobretudo nos locais que já conheço. Nos sítios de que mais gosto e onde posso vaguear e me perder, na expectativa semi-secreta de encontrar alguma coisa que ainda desconhecia e que me tenha escapado de outras viagens. E quase sempre encontro. É o usufruir sem compromisso que me atrai, o inusitado da surpresa, o prazer do destapar ainda mais.
Viajar assim, é um estado de zona de conforto, de quase repetição mas com mais bagagem para ir enchendo a memória. Será isso, talvez: um exercício de memória que carrego sempre para onde vou. Sinto muitas vezes que sou o que sou, pela memória que trago.
E depois cair no lugar comum das recordações. Lembrar os locais, os cheiros, as pessoas, a comida, a temperatura, o chão, as vozes. Os pormenores. Falar de como foi a vida, vivida noutro tempo. Noutro lado. Mesmo que esses tempo e lado, tenham sabido e durado pouco.
Mais um pedaço para a memória, registado no meu terceiro braço: a máquina fotográfica.
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quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
exercício #1: afrodisíaco?
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terça-feira, 17 de Novembro de 2009
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
no confessionário aos 40 #4
Poderá ser esse um dos mistérios da palavra escrita.
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
[17] boa semana
De capote, samarra, camisa de quadrados, chapéu e botas altas. Castanhas e água-pé.
É a estreia da Beatriz no Largo do Arneiro, na capital portuguesa do cavalo, numa apresentação de éguas afilhadas da ilha Terceira e num carrossel de quatro elementos. Espécie protegida. Raça Pónei da Terceira.
E a excitação é grande. Ao rubro.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
crónicas de graça #3
São palavras de admiração que há muito se impunham. Para mais agora, que ALA comemora os 30 anos da publicação dos seus dois primeiros livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas.
Vendo bem, este será até um post muito curto, pois a sua vida é a sua obra, e a sua obra a sua vida. E milhares de horas, foram aquelas que passou a escrever. E que ainda passa. Não cabe tudo aqui. Seria mesmo impossível.
Este texto não tem qualquer pretensão, a não ser o enorme prazer que me deu fazê-lo, assim tanto, como tenho em estudar, ler e ouvir António Lobo Antunes; mesmo quando ele diz que só fala banalidades: "Tenho a sensação de que só digo banalidades. Eu sou um homem banal. Um amigo meu dizia-me que penso como um génio, escrevo como um bom escritor e falo como um débil mental".
Setembro de 2009).
(cartas de angola 1971)
...
Havia um livro muito comprido que praticamente era o embrião de todos os que foram publicados. Escrevi-o enquanto estive na guerra, e muito antes disso, para aí durante sete ou oito anos.
(entrevista a mário ventura, 1981)
Acho que as miúdas têm um. Esse romance era enorme - três vezes o Fado Alexandrino -, porque na guerra eu escrevia todos os dias para mim e isso ajudou-me muito. (...) Eu lembro-me que mandava bocados - era tudo uma merda - e a Zé achava aquilo uma maravilha, para altos voos. Às vezes, eu acreditava, mas na maior parte das vezes não. Estava consciente de que não prestava e que não era o que eu queria fazer.
DEPOIS DE JÚLIA: título do calhamaço que se seguirá ao Voo, que eu acho porreiríssimo. Diz o que pensas. Entretanto a carroça pôs-se a andar outra vez. (...) E logo a seguir, depois de um intervalo para respirar, começo esse tal Depois de Júlia (que queres, adoro este título) de que tenho a ideia. Gostas do nome? (...) Gostas de Depois de Júlia, não gostas?
(cartas de angola 1971)
(entrevista a mário ventura, 1981)
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
Lendo as suas cartas de guerra, sente-se de imediato, já nesta altura com vinte e alguns anos, a presença constante do cruzamento da angústia-prazer, assomando-lhe à mão que desenha as letras, e à cabeça que vela por essa mão.
(cartas de angola 1971)
...
Faz trinta anos que o António foi publicado pela primeira vez. É impressionante que o Memória de Elefante e Os Cus de Judas, continuem a vender-se tão bem como em 1979. São best-sellers, os leitores gostam muito destes dois livros. São uma referência na sua obra.Por outro lado, há todo o problema da escrita, que são muitos anos de escrita, hesitações, de dúvidas, de reescrever, muitos anos à procura de uma forma. Acontece que, pela primeira vez com este livro, eu senti que tinha encontrado uma maneira pessoal de dizer as coisas.
(entrevista a rodrigues da silva, 1979)
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Escrevia há muitos anos, mas nunca tinha pensado em termos de publicação. Os meus amigos nem sequer sabiam que eu escrevia, nunca pensei em fazer uma carreira literária. Por razões várias mostrei Os Cus de Judas a um amigo, um médico, o Daniel Sampaio, que não tinha nada a ver com o meio das letras. Só que ele impressionou-se e tratou de tudo, levou o original ao editor, etc. (...) Memória de Elefante foi o primeiro a sair. Era, no entanto, um livro em que ninguém acreditava, saiu nas férias, em Julho. Quando vim, em finais de Setembro, a primeira edição estava a esgotar-se. Achei estranho, o livro fora lançado por uma pequena editora (...). Foi tudo de facto muito surpreendente pela forma como aconteceu. Depois as edições começaram a sair umas atrás das outras.
Os Cus de Judas, apareceram depois. Se não fosse o Daniel nunca teria publicado nada, teria continuado a escrever como até então, nem sequer para as gavetas, porque não tenho gavetas a não ser as da roupa. Rasgava o que ia fazendo, nem sei, afinal porquê.
(entrevista a fernando dacosta, 1982)
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Sim, ninguém me queria, mas eu não estava preocupado porque escrevia sem ter pensado em publicar. E achavam que aquilo não era um livro, que era uma coisa muito estranha!
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Se eu fosse reescrever o Memória de Elefante! Não o posso fazer porque é um livro de um outro, eu já não sou aquele homem, aquele rapaz.
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Levei anos a levar pancada das pessoas que escreviam nos jornais, dos críticos, disso tudo, e nunca percebi porquê. Mas era pancada, pancada mesmo, porque não me aceitavam. Agora compreendo, pois vendo as coisas no contexto da época, o Memória de Elefante era algo completamente novo numa altura (pós-25 de Abril) em que toda a gente esperava obras-primas que estavam nas gavetas e nada foi publicado.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
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(...) E agora olhando para aquilo, porra, eu escrevia aquilo tudo outra vez ou deitava fora, nem publicava. E espanta-me, pois o livro fez agora nova edição de bolso, e continua a vender. É estranho... O que eu vou deixar é isto. Palavras ...
Um autor que ninguém sabia quem era! Lembro-me de ele (o editor) dizer: É melhor tirarmos o Antunes, Antunes é muito feio. Fica só António Lobo.
(...) O sofrimento não sei de onde ele vem. Lembro-me sempre da minha mãe dizer: "Não percebo porque é que estás sempre triste. Nasceste com tudo". A relação comigo próprio é muito conflituosa, é mesmo conflituosa!
(...) E é tudo tão breve que não temos o direito de ser tristes, porque é uma honra estar vivo. Senti isso depois da operação, quando pensava "afinal respiro" e comecei a tirar prazer das coisas: de estar sentado, de andar e inclusive de respirar, porque antes custava-me cada vez que tossia. (...) É tão bom respirar, e estar vivo é um privilégio.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
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(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)
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Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria e também sofrimento, mas é a minha sina.
(entrevista a carlos vaz marques, 2008)
(entrevista a ana sousa dias, 1992)
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(...) Estou todo o tempo com o livro.
Sou uma pessoa muito fechada, tímida, com poucos amigos, não sou muito sociável, não vou a bares, nem a lançamentos. Nunca tive grandes relações com pessoas do meio literário e, normalmente, não vou nessas excursões.
(entrevista a sara bello luís, 2001)
...
Eu sempre fui assim, a minha mãe diz que eu sempre brinquei sozinho e , no entanto, tenho a felicidade de ter bons amigos. Eu gosto de estar sozinho.
A sua obra estabeleceu rupturas com o romanesco do século XIX, renovando-o, impondo-lhe um novo género; a sua técnica narrativa, é um dos seus maiores encantos e consiste num desafio constante às nossas expectativas e à literatura actual: as micro-narrativas, as vozes, o exercício constante da memória. O kitsch; o seu apurado kitsch. Esse silêncio que tenta trazer para a escrita, a sua obsessão na procura de uma obra perfeita...E ainda assim insatisfeito, António?
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
Já justifiquei a minha vida por ter escrito meia dúzia de livros assim e devia sentir-me satisfeito com isso, mas penso que poderia ter feito mais...
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
Vamos lá a ver se ainda sou capaz de fazer alguma coisa de jeito.
É um medo. É um medo, João.
...
Mas queria ir mais fundo neste livro (Arquipélago da Insónia). Isso quero sempre, aproximar-me, sabendo que nunca vou chegar.
Sabe António, vejo a sua obra como um tratado de Portugal, dos portugueses, da nossa forma de ser, viver e sentir. Penso sempre que se um estrangeiro quiser entender esta gente lusa, deveria pegar nos seus livros. Como outros pegaram em Camões, Eça e Pessoa.
Escreve-nos por dentro, sabe-nos da alma. Conhece-nos os silêncios.
(entrevista a baptista-bastos, 1985)
(...) penso que não seria capaz de viver sem a língua portuguesa, sem ouvir falar português. A minha escrita está muito enraizada aqui, nestas gentes, neste país.
Percebo muito bem que os emigrantes só pensem em regressar, mesmo que seja para fazer casas de azulejo: há um charme lento neste país que é irresistível.
(entrevista a miguel sousa tavares, 1988)
...
Das pessoas, da língua, da cor do ar. A gente só se lembra disto quando está no estrangeiro. Pensamos que não temos sentimentos patrióticos, mas temos. E são muitos claros no estrangeiro.
(entrevista a luísa jeremias, 2001)
...
Eu tenho muito orgulho do meu país, muito, e cada vez gosto mais do meu país, cada vez gosto mais dos portugueses e cada vez mais sinto que é para os portugueses que eu escrevo. Gosto de Portugal, gosto dos seres da minha terra, gosto do clima, gosto da luz da nossa terra e cada vez mais sinto que é aqui que eu pertenço. Tenho este orgulho! E quando dizem que Portugal é um país pequeno e periférico, fico furioso, porque para mim é grande e chega-me perfeitamente, não preciso de mais terra.
(uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...), isto é a minha terra e cada vez estou mais preso a ela.
(entrevista a luís almeida martins, 1988)
...
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2007)
...
(...) porque cada vez mais penso que - às vezes passa-me isto pela cabeça - uma pessoa nasceu com um determinado número de livros e, acabando isso, a sensação é de medo de estar a rapar o fundo do tacho. De não ter mais nada, ou de começar a imitar-me. A fazer uma espécie de paródia de mim mesmo.
( uma longa viagem com ala, de joão céu e silva, 2008)
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quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
[3] dizer bem
Existem já alguns milhares de voluntários para a concretização desta acção, mas serão precisos muitos mais.
O dia escolhido será o dia 20 de Março de 2010.
Sempre vi na blogosfera e aqui no meu blogobairro, variadíssimos posts e também comentários de bloggers, preocupados com o que está a acontecer ao meio ambiente e ao nosso planeta.
Ora têm aqui a vossa oportunidade, para que todos possam fazer alguma coisa. E é em Portugal. E basta arregaçar as nossas próprias mangas. E pormo-nos ao trabalho. Pais, filhos maridos e mulheres, primos, tios e avós. Uma tarefa exemplar para os nossos filhos.
Vamos divulgar este projecto, consultar o site oficial aqui e fazer o registo aqui.
E increvermo-nos também.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
é o jornal a Bola, s.f.f. #2
Todos esses objectos estão onde sempre estiveram. No mesmo lugar de sempre. Geralmente em frente dos vossos lindos olhos. Ao alcance fácil de um estender do braço. Ali a olharem para vocês. À mãozinha de semear.
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segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
parasimpattias #1
Há uns dias que reparo nele. Olhos entusiasmados - que desejo sinceramente, já tenham tido um destino feminino de rosto meigo. Hoje procuram fixar-se num ponto, num sentido, em algo que não surge. E pela tristeza que pariu este dia, desconfio que não surgirá.
Vem lá do fundo da minha rua, alheio aos primeiros chuviscos, num passo leve mas pesado, como se sentisse profundo o resto do tempo que ainda lhe falta existir. Todos os dias traz a bengala consigo - pega de marfim, cabeça-de-leão - mas não se apoia nela; afasta os empecilhos do caminho com o extremo pontiagudo de aço frio, desviando com a destreza de um profissional de hóquei, todos os estorvos e obstáculos que o impeçam de chegar à baliza: aquela vulgar paragem do autocarro. Igual a tantas outras.
Eu, do outro lado do passeio, sentada na esplanada observo-o no cumprimento de um bom-dia a todos, de sorriso na cara.
Tenho-o como educado, pois repete teimosamente o ritual daquela saudação - em desuso - e parece não se importar com a ausência de resposta. Nem o cão vadio lhe sacode a cauda; só pensa em dormir o pobre animal, exausto da procura da noite: vasculhar no lixo dos outros, o luxo de uma refeição decente.
O meu velho, aconchega a ruça flanela axadrezada ao pescoço sulcado de passado e esfrega as mãos, termometrando o frio que já vem chegando mais áspero, nestes primeiros bateres de outono. Leva a mão ao bolso do casaco e ...
E depois vem aquela parte que me intriga, que me faz esperar pela sua chegada estes dias, que me espevita a curiosidade; que quase me envergonha, a mim mais a esta minha observância invasiva. Estranho. Não sou nada de meter o nariz na vida dos outros. Acho que simplesmente só gosto de pessoas, de reparar no que os outros não vêem, de imaginar o que há para além do óbvio. Do pormenor. Até a palavra pormenor é bonita: p-o-r-m-e-n-o-r.
Retira o folheto do fundo do forro. A folha do costume; gasta, vincada nas dobras brancas, já sem tinta. Afina o aparelho na orelha. Lê e relê aquele papel. Vira-o e revira-o. Cheira, afaga, sente-o junto do ouvido.
Não distingo nem letras, nem figuras, muito menos o assunto, mas é de certeza o mesmo folheto que lhe tem despertado a atenção todas as manhãs. Também não será hoje que descubro do que se trata, mas aquele seu aproximar da folha do ouvido para lhe saber o som, mexeu comigo.
É então que decido presumir e ponho-me a fantasiar!
Trata-se de uma pauta de música. Está resolvido. Com o seu peculiar traçado, desenhado com bailadores símbolos pretos, de perninhas, rabinhos e cabecinhas ágeis pintadas nos extremos, que executando passos de dança, cantam uma toada alegre. Uma marcha musical com mais de cento e cinquenta anos. E eis que o meu velho ergue a bengala como uma batuta, iniciando a direcção de uma orquestra obtida nos sons da manhã.
Coloca-se na frente da paragem de autocarro e vai por ali afora, de bastão com cabo de marfim no ar, regendo a parada na execução da sua peça musical. Persegue-o de imediato o rafeiro, animado com aquele sopro de vida, soltando latidos num ritmo cadenciado, e logo dobra a esquina juntando-se a eles, um jovem de iPod, que desperto do marasmo habitual, marca o compasso num puxa e escorrega, com o auxílio dos jeans descaídos, atrás de si surge a secretária de salto agulha, batucando a biqueira sensual no empedrado e abanando os ombros deliciada, depois vem de lá a cabeleireira do salão Peruca Jovem, tesourando o ar com um tac-tac alegre e sonorizado, aparece a mulher da limpeza do armazém dos congelados, empunhando a esfregona e dedilhando nas suas cordas brancas de franjas húmidas, notas de pura sintonia, e os carros apitam, e a menina da farda cinzenta que vai para o colégio dança, as árvores ávidas de pássaros calam-se e escutam-no e até eu, embasbacada com aquela marcha de comemoração, tilinto a colher na chávena do meu café, provocando acústica no copo de água e rumores na lona do guarda-sol, que ainda há instantes, me protegia do ruído amotinado da rua. Do silêncio ensurdecedor da vida.
domingo, 1 de Novembro de 2009
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
aqui pelo meu bairro #5
Não me venham cá com coisas, mas o futebol é do povo e o povo é do Benfica, caramba! Na minha rua, do lindo bairro Estrela D'ouro, somos só gente humilde, gente modesta, do tempo do omo lava mais branco e do juá, da medicinal couto e da binaca, da mini, das gasosas e dos pirolitos, do romance do tide na telefonia, da farinha amparo e do grandella. Do pé direito do nosso pantera negra.
Pois como eu ia dizendo, esta coisa de muito golo, muito golo, muito golo é uma grande alegria, mas até me faz impressão. Uns dizem que é por agora termos um treinador ressuscitado, mas de quem eu gostava mesmo muito, era do Dom Quique. Ai minha Santa Teresa de Ávila, meu Santo Ildefonso de Toledo, meu São Diogo de Alcalá, aqueles olhos verdes, o cabelo azeitona, a pele morena, aquele ar de quem pega de caras, mãos fortes de matador sangrento, ai olé touro, olé e valham-me as castanholas e o meu leque para os calores.
Bom, mas isto dos golos, cá para mim são aqueles senhores do estrangeiro, os fifas, que mandam nestas coisas da bola, que fizeram algumas alterações e toca de mandarem alargar as balizas. Eles é que têm essas manias esquisitas, de se porem com novidades no futebol, não é? O meu Alfredo dizia que era para ver se intelectualizavam as massas.
Por exemplo, agora os rapazes se despirem as camisolas para festejarem um golo, levam logo com o cartão. Está mal, ora bolas. Então isso faz-se? A rapaziada precisa de se libertar.
No meu tempo era uma satisfação, a gente a admirar aqueles corpos transpirados e másculos, cabeludos como o diabo gosta, vigorosos, enérgicos, robustos e - ai que me sobem os vigores - assim todos jeitosos de peitaça ao sol e à chuva, como o Zé Augusto, o Costa Pereira, o Águas, o Coluna, e porque não o Chalana, o Alves, o Toni, o Bento... aquelas bigodaças farfalhudas, os cabelos compridos, as pernas peludas...
Agora é tudo muito penteadinho, muito brinquinho, muita badoletezinha, muito fiozinho, muita pulseirinha, muita trancinha, muito magrinho, muito justinho, muito rapadinho.
Ai que rapazes tão jeitosos, eram os jogadores da bola o meu Benfica de antigamente.
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terça-feira, 27 de Outubro de 2009
[16] boa semana
Eram cartas escritas para dizer que estava vivo, precisava de fazê-lo, de escrever todos os dias para saber que tinha sobrevivido mais uma vez; não podíamos sequer colocar o nome da terra onde estávamos para não dar a conhecer aos do outro lado a nossa localização.(uma longa viagem com ALA, de joão céu e silva, 09)
Eu sei, já tem quatro anos, mas tem-me valido nalgumas noites brancas de insónia. Apesar da sensação de intenso voyeurismo que sempre me invade, quando o folheio com um imenso pudor.
No mínimo comovente. No limite perturbante. E no íntimo tem muito do António de hoje, mesmo que ele o negue.
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
dormir ao contrário
foto the red threadA insónia não passa de uma armadilha de desespero, com cara de falsa calma branca, iludindo-nos nos seus primeiros momentos numa espécie de sugestão à meditação. Leva-nos ao despertar total, forçando-nos a colorir o sono que não vem, com as tonalidades que nos esquecemos de pintar a vida durante o dia. Perdemo-nos em pensamentos, criamos olheiras lívidas e pregas fundas em lençóis de angústia acordada.
Fecho os olhos com força para não despegarem, na esperança vã de guardarem o sono lá dentro. Aferrolhado, preso no intrincado curvo das minhas pestanas, cosido na linha escura da noite. Mas não há forma, a insónia é matreira como aqueles livros maus de capa bonita, que nos forçam a ficar agarrados até à ultima página, numa interrogação aflita de sabermos quando vamos finalmente começar a sonhar.
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sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
crónicas de graça #2
E não, o meu mundo dos 60's e 70's, tinha muito pouco de cor-de-rosa, engana-se quem assim o julga. Na Europa imperavam ditaduras obsoletas, o mundo vivendo uma coexistência pacífica durante uma guerra fria, receava um terceiro grande conflito mundial, conservava-se a espada de Hiroshima sobre as nossas cabeças, desconhecia-se o avanço do poder nuclear, mas aqui e ali ouvia-se falar de experiências atómicas no pacífico, praticavam-se diferentes regras sociais entre pretos e brancos e o apartheid, era aceite como algo absolutamente normal. As duas super potências, estendiam viscosamente os seus longos tentáculos até ao fundo da litosfera, dominando, ora disfarçada, ora abertamente, o mundo de então.
Com 19/20 anos nada podíamos fazer, mas tínhamos fé, usávamos a voz, o corpo, a nossa imagem. Possuíamos uma fome intelectual insaciável, acreditávamos na força da música, na palavra dos poetas, na realização de sonhos e exigíamos um futuro diferente.Verdade será também, que vivíamos existências por vezes psicadélicas, praticávamos actos de loucura inconsequente, tínhamos visões utópicas para o futuro e defendíamos anarquismos impraticáveis. Mas sempre fomos participantes, poucos se demitiam do seu papel de cidadãos do mundo, abraçávamos as causas do nosso tempo, criámos um símbolo da paz, contestámos os valores tradicionais da nossa sociedade, fizemos frente ao poder económico, militar e político. Vivemos de forma intensa aquele tempo, que era o nosso. Peace and Love. Make Love not War. Flower Power.
Depois fui assentando, casei com um homem quimérico igual a mim e tive um filho, que entreguei aos 80's.
No meu tempo fui yuppie. Depois da licenciatura e da pós-graduação numa universidade impactante, acreditava na bandeira hasteada do sucesso da carreira, na ambição profissional para escalar o organograma empresarial, na competitividade das corporações, no rápido enriquecimento e quem sabe, usufruir alguma vantagem dando um saltinho pela política. No meu special way of life, havia espaço para toda uma parafernália de prazeres materiais que me atribuíam status pessoal. Fato no alfaiate, monograma na camisa, botões de punho, o aparato do primeiro telemóvel, um carro deixando lastro à sua passagem, apartamento design, a ostentação das marcas na roupa casual. O golfe, o squash, o clube, o sushi, o bar da moda, a assinatura anual de uma importante revista empresarial estrangeira.
Não foi fácil. Tivemos de escalar bastante nesta busca desmesurada para alcançar o sucesso, lutar contra aquelas ideias tontas do saber, da ética e dos valores retrógrados. Insanidades ultrapassadas, de que os fins não justificam os meios e ingénuos delírios de que bastava ser e não parecer. Absorver ao limite todas aquelas normas de conduta na sociedade, invisíveis e em nenhum lado escritas, mas onde não se permitiam falhas, percalços ou um ínfimo deslize.É um facto de que envelheci cedo, o tempo contado ao segundo, o stress causado por esta forma de manutenção da vida, o cansaço mental e físico para manter este estatuto a funcionar, sem intervalos ou descanso. A família onde não investi.
Depois fui assentando, casei com uma mulher carreirista igual a mim e tive uma filha, que entreguei ao segundo milénio.
No meu tempo não sei o que sou. Sinto muito poucas certezas, possuo uma infinidade de questões e dezenas de dúvidas. Não tenho por que lutar, não vejo por onde seguir ou para quê me esforçar.
Tenho avós que transportam em si histórias devaneadoras e uns pais, que me impressionam de sucesso e dinheiro. A avó, diz que hoje não sabemos como se sonha, o pai pensa que somos uns desinteressados e eu, que vivemos desapaixonados.
O ambiente existente é contraditório. Tanto se fala do facilitismo presente, como de um futuro sombrio, que todos os jovens são admitidos na faculdade, mas que só poucos conseguem um emprego promissor, que hoje temos acesso a toda a informação, à internet e ao mundo, bastando tocar numa mera tecla, mas mesmo assim seguimos indolentes e insatisfeitos.
O pai oferece-me mais um gadget e que falamos mais tarde, o que nunca acontece. A avó zanga-se comigo, dizendo que provavelmente a culpa não será toda nossa e que somos uma geração que podia ter o mundo nas mãos, mas que desperdiça um tempo precioso no vazio. Enfiamos a cabeça na areia que tem aspecto de ecrã. Ecrã de televisão, de computador, de consola, de telemóvel. Não entende a nossa apatia, diante este presente tão cheio de problemas como as questões ambientais, a fome no mundo, o envelhecimento da população, a crise geral; esta chata palavra crise; palavra curta mas que repetida até ao infinito se alonga, e alonga, e alonga pelos meus dias.Parecemos fingir que tudo está no bom caminho, apesar de o sabermos falso, e podemos por vezes parecer ignorantes, mas não o somos. Todos nós escutamos palavras-chave como endividamento, desemprego e despedimentos em massa, falências, corrupção, pobreza crescente, pensões miseráveis, infindáveis listas de espera nos hospitais, medicamentos caros, políticos pouco credíveis...
Talvez um dia eu assente e case com alguém desmotivado igual a mim, mas não sei se terei filhos. Para os entregar a quê?
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tags hippies e yuppies
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
e veio finalmente
E o rumor que chega das árvores? Foi num dia de outono, que as árvores aprenderam a falar.
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tags só meu-outono
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
[35] há coisas fantásticas, não há?
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tags piano na escadaria
segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
quem é amiga, quem é? #4
Deixem os vossos resultados na caixa dos comentários.
'Bora, é só clicarem na foto.
sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
vírus* num blog sério e familiar #8
(Quietas. Tirem os dedos, ele é mesmo assim; despenteado.)
* alguém me vê uns sais de frutos, é que com este calor...
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tags raoul bova
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
blog action day
A Blog Action Day é uma iniciativa em toda a blogosfera, que pretende alertar para os problemas ambientais e a minha contribuição, muito insignificantezinha eu sei, é o seguinte truque. Nem sempre as descargas que fazemos no nosso autoclismo, são as necessárias, desperdiçam-se muitos litros de água. Às vezes, só por causa de uma bolinha de algodão, lá descem 5L.
Experimentem colocar no reservatório de água do vosso autoclismo, uma garrafa plástica de 1,5L de um refrigerante, que para fazer peso e assim reduzir o espaço, deve estar cheia de água.
Ao diminuirmos a capacidade de armazenamento de água no depósito, poupamos por ano uns bons litros ao planeta azul.
Ah e as descargas dos futuros jactos de água, continuarão a ser mais do que suficientes, para que tudo siga ligeiro e flua pelo cano abaixo, se é que me entendem...
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tags poupar água
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
no confessionário aos 40 #3
Refrescos de capilé e groselha, carcaças com açúcar e manteiga, papas de banana com bolacha maria e sumo de laranja, bigodes de leite.
Comida de mãe e colo de avós.
Bonecas e bebés-chorões, panelinhas de alumínio e jantarinhos com massa estrelinha, que obrigava o meu pai a comer. Os pais homens gostam muito de ser pais de filhas cor-de-rosa nuvem, amarelo pintainho, branco piquê e azul xadrezinho. São pais que lhes nascem punhos de renda, logo a seguir aos pulsos fortes.
A eu já adulta, agradece à eu criança a fortuna herdada. Que nunca terá preço.
domingo, 11 de Outubro de 2009
aqui pelo meu bairro #4
Lembro-me como se fosse hoje, aquela tarde no jardim do Torel onde me pediste em casamento, roubando uma rosa amarela ao canteiro e o velho jardineiro furioso, a ameaçar-te com o cabo da enxada e gritando, fora daqui rapaziada danada.
Alugámos esta casinha na Graça, porque tu disseste que a varanda das traseiras era uma maravilha. Podíamos acender um fogareiro à vontadinha e fazer umas belas sardinhadas no verão, febras e entremeadas e assar pimentos para a salada.
Ai Alfredo, e quando tu encheste a parede da varanda, com aquelas andorinhas de louça preta? Toda a vizinhança nos imitou, não podem ver nada que logo se põem com ideias e ainda hoje são assim. Ele há coisas que nunca mudam.
E a decoração da nossa casinha, lembras-te homem? As nossas idas e vindas ao braz e braz e à polux, eram uma grande alegria que me davas. Gasta à tua vontade Amélia, escolhe o que quiseres, para a nossa casa só do bom e do melhor, minha rainha.
E lá seguia eu orgulhosa, elevador acima, elevador abaixo, sobre escada, desce escada, carregada com o serviço de pirex, novidade daquele tempo, branco com florinhas azuis. Ainda me restam dois pratos de sopa, tenho-os ali debaixo dos vasos das sardinheiras, na marquise das traseiras.
Recordo-me tão bem das panelas de esmalte turquesa com riscas coloridas e até me fizeste um escaparate de madeira, para eu as expor na cozinha. O que a Otília do talho se roía de inveja, como o meu moderno trem de cozinha.
A nossa sala também era muito jeitosinha; os sofás de madeira forrados de napa bric, naperons cremes que a tua tia Carmélia nos ofereceu, alinhados na cabeceira e nos braços para os proteger do desgaste, o luxuoso desfile de tapetes, tapetinhos e tapetões floreados de verde pinheiro, para lá de sete ou oito, que mais pareciam uma colecção de selos e que se espalhavam até à passadeira do corredor, os pretos da Guiné que trouxeste da guerra, os meus livros da Modesto e o Pantagruel da minha madrinha, as crónicas femininas na cestinha de verga, sempre à mão, a tua colecção de pacotes de açúcar, canetas bic e caixas de fósforos, tudo alinhadinho dentro da cristaleira e protegido do pó, junto dos cálices de bagaço da Marinha Grande, o cão de louça branca, o quadro de perfil da senhora de vestido cor-de-laranja, a ler um livrinho ...
E a mobília do quarto, Alfredo? Madeira lacada e luzidia, último grito dos Armazéns Peixoto, com as mesinhas-de-cabeceira embutidas? Um luxo.
Lá continua, o nosso leito, sentindo todas as noites a falta de ti, homem. Quando ao anoitecer retiro a sevilhana do centro da cama e puxo a colcha de cetim branco-noiva para trás, aquela grande cheia de folhos farfalhudos que comprámos na lua-de-mel em Badajoz, dizia eu, que quando abro a cama Alfredo, e vejo as nossas duas fronhas juntas, juntinhas, até as bolinhas pretas do vestido da espanhola empalidecem, e o meu coração solitário rasga-se ao meio, saltando-me de lá, sobrecarregada de espinhos sofridos, a rosa amarela do Torel, murcha, murchinha ... a pobrezinha.
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sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
crónicas de graça #1
Diz o Tejo, que antes enterrava-se ali muito mais feliz, sem pó nem cascalho, estaleiros, guindastes e contentores, sem homens de costas interminavelmente voltadas para si. Já não sente a mesma vontade de se amadurecer, espalhando-se pelo mar da palha; queixa-se que lhe tirámos os peixes, os golfinhos, até as aves e que em troca o sujamos, o sovamos, o esquecemos.
Eu vou-o escutando, os velhos precisam de investir as memórias em nós, os que ficamos a assistir ao que vai sobrando.
Diz que à noite tem chorado pela mãe, Albarracín.
Sente falta das brincadeiras infantis, quando descia a serra materna a toda a brida, pulando em sulcos e fendas, em desníveis de relevo, levando atrás de si calcário, margas e arenitos que se soltavam com a sua força.
Lembra-se saudoso do encontro com o seu primo direito, Hoz Seca, o primeiro parente a afluentá-lo na sua foz, que o abraça com um emocionado caudal, maior que o próprio Tejo. Nisto, obriga-o a descer na galga, por pronunciadas gargantas encravadas na paisagem órfã de gente. Ao fundo, ainda consegue vislumbrar Guadalajara que lhe acena abalada com a violência do seu percurso; é natural, quase que o viu nascer.
Ali perto, sente-se protegido, valorizado pelas margens bordadas de uma flora rica em pisos bioclimáticos, pelos pinheiros, azinheiras, carvalhos-portugueses e juniperus.
Mais abaixo, quando gira bruscamente, outros rios-primos se aproximam e o afluem, elevando-lhe a altitude orgulhosa. E ufano, gargalha para mim.
Não se incomoda nada de derrapar nas mãos-cheias de barragens, que lhe peiam o caminho e lhe diminuem a cota, pois está a chegar a Aranjuez! Visita o Palácio Real e não se cansa do o fazer de todas as vezes. Repousa o leito estraçoado das linhas do caminho, numa albufeira seiscentista e empurra o caudal para os campos, para as culturas; oferece-se ao povo que o recolhe. No final do dia, o vaidoso, ornamenta em silêncio vegetal as magnólias dos Jardins de Aranjuez. E adormece, verde-claro, com a cadência mágica do pulso allegro e adagio, de Rodrigo na guitarra.
O sol já vai alto e núbio, quando o Tejo parte. Deixa-se levar pela corrente fluvial, pois há que beijar ainda a visigótica Toledo e numa postura monumental, atravessar-lhe as pontes. Diz-me que rio sem pontes, não chega nunca ao mar.
E já segue o meu Tejo a caminho da maioridade, ora girando para oeste, ora para este, recolhendo à esquerda e à direita outros rios que o inclinam, que lhe alteram a direcção, que lhe indicam o rumo, virando-lhe o sentido agora novamente para oeste; rios grandes e pequenos que lhe vão incrementando o caudal e aliviando o peso, às vésperas de inaugurar a estremadura caceriana e os descendentes de Moctezuma.
E lá vem ele, desarvorado por ali afora, para junto de nós povo luso, já de cota baixa, baixa ...
Passa pela velha de Rodão e inclina-se paralelo à beira mais baixa, seguindo para Belver onde a barragem o trava pela enésima vez. Em Abrantes saboreia a palha doce que lhe adoça o meandro em volta da colina da cidade, aguardando o Torto que se lhe junta pela esquerda.
Revela-me que ama profundamente, do fundo das suas águas sombrias, o seu primo Zêzere, grande contador de estórias e aventuras viriáticas. Pândego rio aquele, que o acompanha em noites de insónia; dois velhos que se apoiam um no outro, naquelas horas que já dispensam ao sono. Por isso, vê-se e deseja-se por chegar a Constância, ansioso pelo reencontro. O abraço é indefinível e sentido na pintura de Malhoa.
Juntos partem para as muralhas medievais de Almourol, onde o cruel D. Ramiro foi alcaide. Depois de Aranjuez, é aqui onde o Tejo mais almeja repousar. Ignora a maldição do lugar e assiste nas noites de S. João, ao reaparecimento do abraço enamorado do mouro com D. Beatriz, no alto da torre do castelo. Trata-se de um romântico incurável, este rio.
Torna-se apaixonadamente raso, flutuante; mais parece uma ribeira-criança onde rãs se escondem nas pedras e pulgas de água saltitam, deixando para trás perfeitos círculos desenhados sem o auxílio equidistante do compasso. É o meu Tejo perfeito, aquele ali azul-claro, que se queda rente às minhas mãos.
Gosta de se anoitecer em águas de Santarém, prefere lá chegar de noite para assistir à festa dos toiros; é um aficionado, pois então!
Os últimos momentos de prazer vive-os em Alcochete, onde exibe com orgulho um estuário protegido legalmente, repleto de zonas húmidas, ilhotas, lodo, salinas e terrenos agrícolas. Banha-o num cumprimento emotivo, o último. Depois dá-se Lisboa e a conversão em rio-mar.
Mas Tejo, digo-lhe eu admirada, desconhecia esta tua agonia em desaguar na capital.
Baixa-me os olhos de espuma, no momento que atravessa a ponte de Abril e em tom salobre revela-me, são as gentes que se alteraram, já pouco falam ou riem, não se acometem ou arriscam sequer. Sinto falta daqueles outros homens, do audacioso e jovem Vasco, do João, dos Pedros e do Henrique sonhador. Já são muitos séculos a observar este povo que não se chega à margem; à minha, à deles. A nenhuma.
Ou então é de mim, nostalgia minha, já não sei ... pensava ser solamente del salero y de luces, mas não, não sou.
Sou do fado...
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quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #3
Vocês tomaram atenção nisto, não sei quê, não sei quê de um grande evento no meu blogobairro? E depois nisto, a dizer que algumas sextas-feiras vão ser diferentes, de novo no meu blogobairro? E agora isto, zappings e blogocomandos?Mas o que é que ele anda a tramar para as sextas? Não me digam que o senhor CBO quer fazer concorrência aos magníficos vírus quinzenais, aqui do meu Ares!
Eu sou a PresidentA deste blogobairro e não fui tida nem achada. Isto não fica assim e os meus impostos, o iva, o irc, as gorjetas, as luvas e o meu saquinho azul, como é que é, oh senhor Rochedo? Vamos lá a ver, vamos lá a ver...
Blogobairrenses, todos em estado de alerta nesta sexta! Estais avisados.
Ass: A PresidentA
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terça-feira, 6 de Outubro de 2009
no confessionário aos 40 #2
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quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #2
Basta um só telefonema; simples, rápido, sem mais nada e 0.60€+iva, revertem para ajudar centenas de animais doentes, abandonados, mal-tratados, desprezados e escorraçados por nós.
É um palco de cenas, na maior parte, tristes, indignas, revoltantes e ao Homem, tem-lhe cabido quase sempre, o papel de um dos protagonistas da história, o do mau da fita. Tantos, mas tantos casos de negligência extrema. Chocante.
Temos agora todos a oportunidade de fazermos de bons, proporcionando-lhes cuidados veterinários, melhores condições de alojamento, esterilização, alimentação.
Uma sociedade também se mede, pela forma como trata os mais fracos e desprotegidos.
Divulguem e telefonem: 760 50 10 15.
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quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
complicadas, nós? #2
Queridos homens, um minuto, só será na realidade um minuto, quando elas vos derem esse mesmo minuto, para que expliquem porque chegaram atrasados a um encontro e não à hora exacta que elas marcaram.
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terça-feira, 29 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #3
Bom, já estão a ver onde é que isto vai dar, não estão? Eu dou mais um exemplo.
Noutro dia, encontrei-o na lavagem de carros, ele mais o seu veículo imaculado, um morris marina cor-de-laranja todo jeitoso. Bem educada como sou e com o recato que me é próprio, fui cumprimentá-lo e lá começou ele com o chorrilho de insinuações libidinosas, todo folgazão para cima de mim. Ai dona Amelinha não se chegue tanto ao pára-brisas que me borra o vidro com batom, ai dona Amelinha, não fique assim tão perto da minha cara que me perdigota as faces, ai dona Amelinha, não se enrosque na chapa que me arranha a tinta, ai dona Amelinha, tire lá a mãozinha do manípulo que me destrava a viatura.
O Onofre da padaria, tem ou não tem uma valente tara por mim?
Eu sei, sempre fui assim, tenho este efeito arrebatador nos homens.
segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
opressão torácica
Este homem ontem à noite, soltou finalmente a Besta.
O tom eversivo deste homem meteu-me medo.
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
é o jornal a Bola, s.f.f. #1
Na idade média, a meu ver, a coisa ficou bem pior. Fossas expostas à vista de todos e esgotos inexistentes; carreiros escorregadios se formavam. Mas quem sabe, estas condições precárias e deslizantes tenham estado na origem, involuntária obviamente, de algumas modalidades desportivas do nosso tempo, como a patinagem artística, o snowboard, a ginástica acrobática, o salto em comprimento e para os mais porcalhões, o lançamento do peso; ah não, o peso não, esqueçam, esse veio da Grécia.
Bom, eu não faço ideia há quanto tempo o Homem usufrui das benditas sanitas; branquinhas, redondinhas, baixinhas, limpinhas, lisinhas, ainda para mais ultra sofisticadas, pois acompanham-se sempre de um acessório fantástico e indispensável: a tampa.
Grande, larga, resistente, um pouco sonora quando bate, com duas dobradiças que obrigam a dois movimentos repetitivos do ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar, ora levantar, ora baixar e assim pela vida fora até gastar.
Queridos homens, eu soletro: T-A-M-P-A!
Ora L-E-V-A-N-T-A-R, Ora B-A-I-X-A-R.
Eu repito para os mais distraídos: B-A-I-X-A-R!
Estamos entendidos?
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quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
complicadas, nós? #1
Assim, perante uma feminina questão frontal, olhos nos olhos, sobrolho assumidamente carregado, numa postura de ameaçadora inquisição como, gostas do meu novo corte de cabelo, o top fica-me bem, estes jeans fazem-me as pernas mais altas, o cor-de-laranja do vestido realça-me o bronze, ou a questão das questões, achas que estou mais gorda, o que devem eles obrigatoriamente responder?
Queridos homens, nestas ocasiões, nunca, mas é que nunca mesmo, sejam verdadeiramente sinceros.
Lamento, não estamos de todo interessadas.
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terça-feira, 22 de Setembro de 2009
vim só num instante aqui dizer que ...
domingo, 20 de Setembro de 2009
[15] boa semana
Como tantos outros milhões pelo mundo fora, fiquei fã de Lisbeth Salander, a protagonista, excêntrica, anti-social, dotada de um QI capaz de arrumar em três tempos qualquer membro da Mensa.
Junto com um jornalista de topo, Mikael Blomkvist, viciam o leitor nas 600 e muitas páginas de cada volume e nem sequer sentimos o peso do calhamaço, tal é a dependência e o modo como nos deixamos prender à história com grilhões. Eu até as chaves das algemas deitei fora; enquanto não acabo de ler um, não respiro de alívio e nem sequer reclamo da comida da cadeia.
Comprei o terceiro e, infelizmente, último volume no sábado e até amanhã tenho de o desbravar; os outros livros que fiquem sossegadinhos nas prateleiras, tenham lá paciência, mas há prioridades pois então.
É certo que este fenómeno editorial, se deve em parte ao seu autor, Stieg Larsson, ter morrido pouco tempo após ter entregue os três volumes na editora e não ter usufruído do sucesso estrondoso da sua obra. Esse facto mexe connosco, cria-nos uma empatia, é verdade, mas não é de todo a razão principal do seu sucesso. O ritmo da narrativa torna-se galopante, à medida que o enredo se desenvolve e num instante já estamos no fim da história, desejosos de começar a ler o próximo volume. Queremos conhecer Lisbeth, dizer que estamos com ela, que é a maior e levá-la em ombros; sabendo claro que nos arriscávamos a ser imediatamente desterrados, se nos atravessemos a tais confianças. É tão antipática, fria e distante, bruta que nem uma porta, que se torna adoravelmente cativante, despertando no leitor um instinto protector.
A trilogia está nos tops de todo o mundo e é com todas as letras, um best-seller sim senhora e merecido, mas nada de comparações com os Dan Browns e as Stephenie Meyers desta vida. É tirar daí a ideia. Ah, e tem um tema central que me é muitíssimo caro, a violência contra as mulheres.
Como disse Vargas Llosa, Lisbeth Salander, deve viver.
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #2
Uma pessoa fica assim meio assarapantada com estes sobressaltos nocturnos e não é para menos, pois as novidades não terminam somente nos fanicos, ah pois não.
Então cá vai: ele é o Clooney que me surge no horizonte a servir-me um tofina numa caneca do Bordalo; ele é o Pitt de cabelos ao vento, montado num Mustang gritando na pradaria, anda cá minha poldra, deixa-me pôr-te as rédeas; ele é aquele senhor já de idade, meio careca, que já foi um Bond a oferecer-me um scotch on the rocks no cume das highlands; ele é o Cruise, ai coisa mai linda, com os seus raiban verdes a mostrar-me as potencialidades do F-14, ou 15 ou lá que número tinha a avioneta do rapaz; ele é, vejam bem, aquele mocinho grandalhão que tinha um carro preto que falava com ele e que ultimamente corria pelas praias da América, com uma bóia cor-de-laranja nas mãos e salvava os incautos de afogamentos, lembram-se? Um rapagão de olhos claros, assim corpulento, com uns braços musculados, e umas mãos poderosas, umas pernas torneadas, fazendo-me boca-a-boca o grande calmeirão ... ai nossa Senhora, vou engolir mais umas quantas pedras de gelo.
Bom, adiante. A Lurdinhas da mercearia disse-me em segredo, que estes sonhos eram próprios da idade e absolutamente normais, para uma pessoa na minha condição de viúva: o meu Alfredo já se foi vai para seis anos; descanse em paz.
Elucidou-me também, que os meus vigores nocturnos tinham até um nome científico; chamavam-se de góticos: sonhos góticos. Que dantes eram só as desavergonhadas e as que não iam à missa que os tinham, mas que agora, segundo ela lera numa revista lá na Zeneide manicure, fizeram-se estudos muito rigorosos que comprovam o contrário: qualquer senhora séria também tem destas coisas; podemos espraiar-nos à vontade, darmos largas à imaginação, estarmos possuídas de emoções marginais e até termos sonhos góticos tal qual os homens, ou lá como é que a Lurdinhas lhes chamou.
Fiquei tão mais leve com a inocência dos meus sintomas, que hoje até fui ao chinês comprar um baibidól mais aliviadinho, daqueles cor-de-rosa porno que eles lá têm com uma etiqueta muito engraçada, que diz em estrangeiro, shake it out baby, 瘋狂瘋狂.
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
y volver
Tornei a guardar por dentro a memória das fachadas dos edifícios, que me fixam os olhos sempre para o alto das varandas e balaustradas, para o ritmo das gelosias com carrego de cores sonoras; o encarnado, o baunilha, o cinzento, o branco e o terracota.
Alegrei os pés exaustos pelas ruas sombrias do bairro Gótico da velha Barcino, agarrado ao velho e novo Born onde de novo me extasiei com o jovem Picasso; e que bom voltar a almoçar pelas quatro da tarde e correr para a Bubó antes que me levassem os macarones de sabor a violeta. Únicos.
Ah e chegar à Barceloneta ao crepúsculo, estafada e já quase sem vida para molhar os pés na sauna que é aquele mar que escalda?
E tornar a ver o Gaudi? O que eu morro de amores pela Batló, pelo chão da Gràcia, pelo tracadís do Guel, pelo ferro e pelas chaminés guardiãs da Pedrera. Trouxe-o comigo na bagagem, em formato de mil marcadores de livros, cadernos de páginas incólumes, azulejos de tracadís, curvas em movimento, cristal translúcido e pedaços escorregadios de animalesco ferro torneado.
Antes do voo, ainda corri para ver de perto a resposta que o Domènech deu à Sagrada Família e espirrei três vezes, na esperança de ser atendida neste palácio-hospital. Quis rebentar com a acústica do Palau, mas nem a Montserrat conseguiu. Y por la calle el Domènech de nuevo...
E fiz tanto, tanto, mas tanto mais, só que há sítios que não cabem noutro lado a não ser no seu próprio local. Ou então eu não sei escrevê-los.
Regresso sempre mais velha das viagens de sonho; uma espécie de sobrecarrego aliviado de ter provado muito em tão pouco tempo. E não acredito nada naquela do não voltarmos nunca mais ao local onde fomos felizes.
Tretas, lérias, falácias: eu volto sempre.
sábado, 5 de Setembro de 2009
adiós guapos
El Passeig de Gràcia.
Besitos; me voy por la calle de compras, de juerga y de copas y de tapas.
Hasta luego.
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
junta de freguesia do blogobairro #1
E eu sou a PresidentA desta gente toda, ora pois!
Não houve eleições, sei bem, nem haverá. Tomei posse, assim por dá cá aquela palha e aqui estou firme no meu palanque, a vigiar o blogobairro, gerindo e administrando, cumprindo à risca todas as burocracias que uma responsabilidade deste gabarito acarreta e principalmente, tomando conta das finanças e dos impostos que infligo aos meus condóminos, quando eles saem da casca com postagens e fotos onde não abundam a moral, os bons costumes e sobretudo, onde a pudicícia, a honra e a castidade desta família blogobairrense é posta em causa.
Mas sou uma PresidentA muito compreensiva, generosa, trabalhadora e quase não tenho dias de férias, tal é a minha dedicação a esta gente postadora. Como qualquer moura de trabalho, não chego a todos os cantos e por vezes, necessito de pedir uma ajuda, quase inútil é um facto, a outro elemento do blogobairro; a minha assitentA. E também tenho os serviços de uma advogadA, ena, ena!
'Taditas, elas até se esforçam; são vigilante na captura atenta de indecências como esta e que me vão enchendo o saco azul, que tenho só e unicamente para as minhas obras de caridade, como é do conhecimento público.
Por vezes, há uns elementos do blogobairro, por coincidência são quase sempre os mesmos, que se distraem e postam imagens de pouca vergonha como esta mocinha toda encardida ou estas que se puseram ao fresco. E depois têm o despautério, o atrevimento de me caluniar, como aqui. Resultado: 500€ de coima valente. Pimba.
Como já viram, sou um exemplo de PresidentA, um SIS da net, uma câmara vigilante e atenta que zela pela vossa saúde emocional. E se tinham dúvidas no modo como foi feita a minha eleição, deixaram com certeza de as ter, perante esta modesta e humilde demonstração de capacidades acima da média que aufiro.
E como não sou PresidentA de sentimentos mesquinhos, ressentimentos devoradores ou sequer defensora de um regime ditatorial, desde que seja sempre eu a mandar obviamente, peço-vos que hoje, ide todos dar os parabéns a um dos condóminos mais antigos do blogobairro.
Ide, ide lá que há festa seguramente. E dupla.
Mas não vos esqueceis de observar tudinho com olhos de lince e se por um acaso, repararem em algo insólito como um mocho de nome Sebastião a fumar erva, uma tal de Brites amalucada em monoquini, cenas tristes com um taxista alcoolizado, umas moças descascadas, um papalagui fala-barato e sobretudo um dialecto visigótico totalmente em desuso e proibido nos dicionários civilizados e contemporâneos, avisai-me de imediato meu blogobairro querido, que eu entrarei de rompante na festarola com o meu kit de cobranças.
Correi, apressai-vos e festejai com ele.
p.s. ah, vá lá, façam o favor de deixarem pelo menos um eurito no saquito azul. Sim, esse mesmo aí do lado
.quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
no confessionário aos 40 #1

Quando esta manhã acordei, reparo de imediato que aquela ruga ontem não estava ali. Delgada, é um facto, mas verdade seja dita, era mesmo o meu mais recente vinco de vida. Encolhi os ombros resignada e apresentei-a a outra que me nasceu há seis meses e a mais duas do ano passado. E pronto, ao todo tenho quatro; não me posso queixar.
Parece que a criatura gostou do tratamento honorífico e referiu que talvez estivesse ali para ficar.
Bom, por mim tudo bem rapariga, instala-te lá onde te der mais jeito, mas nada de te esticares ou de me sulcares a existência. Literalmente.
Espero que me tenha feito entender.
terça-feira, 1 de Setembro de 2009
aqui pelo meu bairro #1
Penso eu, que deve até já ter topado que a sirigaita de carrapito do 4º esquerdo é um pouco para o porca-relaxada; já eu, de desmazelada nada tenho e o sujeito de mim não tem como falar. Aliás, se for homem atento ao que deitamos fora, reparou de certeza que eu passo sempre por água todas as embalagens antes de as colocar no amarelo. E faço o mesmo com os vidros.
Até posso descer à rua de roupão florido de flanela, rolos na cabeça e com o meu salsicha pela trela, mas sempre, sempre de unha arranjada e mais: recolho todos os extras do canito do passeio, naqueles saquinhos que a câmara fornece.
De suja não tenho nada, sou mulher de muito asseio. Ouviste bem, oh flausina?
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segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
artefactos II
Mas gosto da sensação emocional da praia; de chegar e perceber no ar o doce dos cremes, de cheirar o sabor salgado das rochas, de dizer bom dia ao sol, de seguir o trilho deixado pelas gaivotas na areia seca, de prestar atenção ao esmorecer da espuma nos pés. Mas principalmente gosto de decifrar laivos da personalidade de cada um, por exemplo, pela opção que fizeram na escolha do seu guarda-sol.
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sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
vírus* num blog sério e familiar #7
(agradeço que se controlem e nada de esgravatarem o rapaz)
* ai que saudades de uma boa virose; qual gripe A, qual quê!
quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
arbutus unedo
Cheirinho a medronho, diga-se. Copo fino de pé alto, café bem quente e uma medida de aguardente de medronho. No topo, pairava um castelo espumante de natas batidas, com as muralhas e as seteiras e ameias salpicadas pela canela moída no momento.
Só vos digo que espanta o frio do barlavento para bem longe; do outro lado do oceano, lá para os lados da vizinha mourama onde lhes refresca o tórrido dos dias.
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terça-feira, 25 de Agosto de 2009
uns tristes
Ora, eu queria perguntar a esses perdidos, a essas almas descrentes no vaguear do espírito, a esses entes que julgam que sonham, quem seria aquele ser voante senão o próprio do Fernão Capelo, a Gaivota que antes das nove da manhã do dia 20 de Julho, já planava em voos rasantes e demorados, quase mortais, sobre a minha esplanada edificada no penhasco da praia da D. Ana?
Adenda: música de fundo "ouvida" pela Si.
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sábado, 22 de Agosto de 2009
artefactos I
Eu, uma observadora nata, praticamente uma profissional do ramo, sempre muito atenta e curiosa ao que ao meu redor se passa, confesso que perante aquilo que emerge das profundezas de uma XL geleira de praia, serei tão somente uma reles amadora, ainda com muito para aprender sobre os da minha espécie.
Iniciemos então este périplo pelas bebidas: latas de cerveja e água fresca serão imprescindíveis, obviamente, aliás geleira sem elas não será uma geleira capaz; sumos, suminhos e sumóis e espantem-se as gentes: caprisones! Alguém sabia que ainda havia caprisones? Não? Pois se usassem geleias a valer, saberiam.
E o sanduichal que para lá cabe? É que não estão bem a ver: ele é sanduíches de queijo, fiambre, mistas, atum, frango, salsichas, presunto, panado de peru, carne assada, disto, daquilo e daqueloutro. Noutro dia até houve uma criancinha que gritava, oh mããããe, ainda há pão com tulicreme? E não é que havia mesmo. Querem lá ver vocês parelha mais catita, do que caprisone com tulicreme?
Sanduíches de salmão fumado, lamento informá-lo caro Pedro, mas é que nem vê-las. Talvez demasiado sensíveis para estas geleiras. Não sei, digo eu.
Depois vem o frutame: uva branca, preta, verde, encarnada e às risquinhas, melancia cortadinha sem pevides e arranjadinha comme il faut, suculentas talhadas de melão a pingar tal e qual o protocolo de Agosto, ameixas gordas, nêsperas da cor do sol e pêssegos hidratados como veludo cristal.
A hora do lanche é também um manancial informativo, no que toca a iogurtes. Cá em casa ninguém gosta de iogurtes, por isso é corredor de supermercado que não frequento, nem lá passo, nem lá espreito, nem lá gasto. Trata-se de uma aversão: leite é leite e é para ser bebido às litradas, se o coalharmos dá em queijo e se formos aplicados e virtuosos resulta em natas ou manteiga para barrar no pão. E pronto.
Tenham lá paciência, mas iogurte é pieguice, coisa de meninos com bibe de xadrez miudinho e um bocado nhonhonhó.
Por isso, é na praia junto de algum vizinho apetrechado de uma generosa geleira familiar, que eu me inteiro das novidades da estação iogurteira. É a bem da verdade, o meu momento "Geleira happy-hour".
Há-os de mil frutos inteiros (caroços e tudo, imagino eu), aos pedaços, esmigalhados, líquidos, em puré, espapaçados e cremosos, vejam só. Os que levam smarties, de apple pie, biscuit, os cheese-cake, os de bolacha maria, de arroz doce, os limpa-intestinos preguiçosos, os da Fátima Lopes e uns mini-potinhos coloridos, que vêm todos agarradinhos para serem engolidos em duas ou três colheradas. Ah, e todos eles existem em versão light e também não. Desculpem lá, mas estão a gozar comigo não estão? É fantástica a capacidade inventiva do homem.
Mas onde é que param os gordos boiões de vidro grosso e pesado, de conteúdo ora branco, ora cor-de-rosa? Não, não é desses que para aí há, de vidro coitadinho que só faz tlim-tlim. Falo daqueles potes obesos e fortes, que falavam e tudo, dizendo-me no final do lanche na pastelaria da esquina, agora Patti, é aquela parte em que podes rapar fundo e fazeres o barulho que quiseres com a colher. E eu fazia, claro está, ignorando os olhares com que a minha mãe me perscrutava.
Bom, deixemos a iogurtada e regressemos à capacidade logística das geleiras de praia, pois foi esse o post que me trouxe de volta ao meu Ares.
Dizia eu, que lá cabe de tudo e pelo que testemunhei pela família da fotografia, até no fim do dia quando a gentes regressam dos últimos banhos e se enrolam nas toalhas ensopadas, o responsável pela geleira ainda consegue para lá desencantar, entre as placas de gelo já mornas e as caixas plásticas multicolor, uma sandes de chouriço amachucada, três ameixas frouxas e quatro infelizes pastéis de bacalhau.
E eu, invejosa e ao mesmo tempo abismada com o repasto da vizinhança, que durante todo o santo dia desfilou perante os meus olhos incrédulos, engulo a minha última bolacha de água e sal, esmigalhada no fundo da cesta e penso, será que já inventaram Morgado de Amêndoa, Queijo de Figo ou Tarte de Alfarroba em versão iogurte?
Nessa altura, talvez me renda à mariquice e ainda me vão ver de potinho e de colherzinha em riste.
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sexta-feira, 10 de Julho de 2009
'tou no ir ... de férias II
O sítio é o mesmo do costume, barlavento, Lagos-Sagres, junto com passeios imprevistos de descoberta, subindo até Aljezur.
Umas óptimas férias para todos, bem gozadas e principalmente descansadas.
:-)
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quinta-feira, 9 de Julho de 2009
do terceiro grau
Tardes de mistério em que algo se propaga pelo ar, mas que na verdade só os animais pressentem e serão muito poucos os humanos, a gozarem o privilégio de o testemunhar.
Aconteceu comigo; encontrei uma alma gémea suspensa no alto da colina, a conversar com o céu. Quando me viu, pediu por favor que apenas registasse o seu lado direito. Foi o que fiz, fotografei-o mil vezes e nunca se mexeu; nem um pêlo da crina se levantou, uma orelha estremeceu, a cauda se agitou ou a narina resfolegou.
Creio mesmo que ainda lá está, ao pé da urze que se torcia debaixo dos seus cascos, escutando a música no cimo do altar, que escolheu para me encontrar.





































































