sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

crónicas de graça # 5

O Alfacinha

Parece que o único registo existente para a origem da palavra alfacinha, que designa há muito os lisboetas, tem explicação nas colinas da Lisboa primitiva onde abundavam "plantas hortenses utilizadas na culinária, na perfumaria e na medicina": as alfaces.
Alface vem do árabe e foram os nossos avós mouros, os responsáveis pelo cultivo da planta quando da sua ocupação da Península Ibérica - Al-Hassa.
Há quem fale também de um cerco que a cidade sofreu e que mais não havia para comer, do que alfaces.
Dizia também, Oliveira Marques, que a Lisboa burguesa de finais do século XIX, tinha o costume de nas domingueiras tardes de calor citadino, se reunir em grandes almoçaradas pelas muitas hortas dos arredores de Lisboa. O típico peixe frito era acompanhado, ao que parece, com astronómicas quantidades de salada de alface. Quem vinha de fora, achava tudo aquilo tão pitoresco, que passou de uma moda estranhada a caricaturada.
Eu sou alfacinha de gema. Ali do meu Chiado, logo na sua primeira esquina, a da rua Serpa Pinto.
Os alfacinhas, como tudo na cidade, vêm sofrendo transformações. Não pretendo nenhum relatório, vou falar apenas dos que me lembro; dos do meu tempo, seja ele qual for.
Recordo-me de muitos géneros de alfacinhas. Não havia somente o alfacinha típico, que a maioria fala e conhece a fama.
Aquele bairrista que esfregava o olho mais rápido que o diabo, encostado estrategicamente nas esquinas da avenida, donde atirava piropos às criadas fardadas que passeavam os meninos das casas ricas. Os empolgados aficionados, organizadores dos bailes dos santos populares, com manjericos, flores de papel com quadras populares, alcachofras queimadas à janela, molhos de alfazema e rouxinóis de barro que apitavam na boca das crianças por esta altura, em toda a cidade. Os alfacinhas que discutiam com a varina, o preço do goraz, da posta de pescada e da petinga para o gato. Os que enfeitavam as varandas com vasos cheirosos de sardinheiras encarnadas, que estendiam os tapetes a arejar nos varandins de ferro, que penduravam a gaiola do canário no exterior, que traziam o grelhador para a rua e assavam a sardinha, o bacalhau e o frango assado. O alfacinha malandro e estroina, biscateiro e calão que trazia sempre uma história nova, para enganar o primeiro que encontrasse ao caminho. O fadista marialva e boémio. O alfacinha que se não fosse benfiquista, não era bom chefe de família.

bairro estrella d'ouro - graça, foto minha

Recordo também muitos outros alfacinhas.
Na entrada do ano, estes alfacinhas compravam o Borda de Água a fim de consultar as festas, os dias dos santos e os feriados sem domingo. Passeavam no Campo Grande, onde se alugavam barcos e bicicletas. Desciam a Avenida em família. Paravam nos Restaurados à conversa. As salas de espectáculos esgotavam e usava-se a palavra matiné para o cinema, o teatro e tardes de dança.
Alfacinhas que lanchavam na concorrida Baixa e faziam refeições tardias, nos muitos restaurantes e cervejarias abertas até desoras. Sem problemas.
Cruzavam-se alfacinhas anónimos, com alfacinhas poetas alfacinhas músicos, alfacinhas actores, alfacinhas atletas, alfacinhas escritores. E acenava-se com a cabeça, num cumprimento educado.
Alfacinhas que enchiam espaços tão distintos como os cafés e esplanadas, livrarias, retrosarias, casas de discos, padarias, jardins, drogarias, hortos, mercearias, jardim zoológico, miradouros, o castelo. Esgotavam-se as ruas.
As alfacinhas e as filhas iam à modista, à capelista e subiam aos grandes armazéns do Chiado e eles, engraxavam os sapatos sussurrando politiquices baixinho.
As empregadas das lojas tinham nome próprio, as vizinhas raminhos de salsa e as caras dos motoristas de táxi, não nos eram estranhas de todo.
Lisboeta. Lisboano. Lisboês. Lisbonense. Lisbonês. Olisiponense. Lisiponense. Lisbonino. Alfacinha.

Alfacinha consagrado por Garrett nas suas Viagens, capítulo VII: "Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare".


almeida garrett-avenida da liberdade, foto minha


E o tripeiro, meu parceiro, é mesmo verdade que o nome oficial nasce de uma revista editada em 1908, ou tem a ver com a gastronomia, ou ainda com aquela história das invasões napoleónicas?

Crónicas de Graça #1, #2, #3, #4

31 comentários:

Si disse...

Pois eu estou como o Beto.
Alfacinhas só mesmo temperadinhas com sal grosso, uma golada de azeite, uns borrifos de vinagre e, pronto, concedo lá o costume mouro de lhes avivar o paladar com uma manadita de orégãos.

Mas, ó Patti, hoje em dia ainda se poderá chamar de alfacinhas a alguém, sendo que a população de Lisboa, no presente, é tão diversa e derenraizada?

salvoconduto disse...

Eu hoje até bou ser polido, carago. Como diz o Beto, alface é p'rós grilos.

Patti disse...

Si:
Obviamente que sim. Desenraizadas são todas as cidades, como a sua também o é. Até as aldeias hoje em dia o são. Lisboa não é excepção e se a tradição do alfacinha não se perdeu desde a mourama, acredito que não se perderá, pois Lisboa é única.

Patti disse...

Salvo:
Ainda bem que decidiste ser polido. Agradeço. E grilos era coisa que nós alfacinhas comprávamos na Praça da Ribeira e alimentáva-mos a alface. Que saudades eu tenho!
Se há coisa que detesto mesmo, é esta estúpida rivalidade Porto-Lisboa que acaba sempre em ofensas desnecessárias, raivas incompreensíveis e ódios de morte.
Despiques são normais entre cidades, agora o que presenciamos actualmente envergonha-me e não pactuo de todo. Nem em anedotas ou brincadeirinhas.

pedro oliveira disse...

Confesso que gostos de todas as grandes cidades e Lisboa é uma delas.Gosto do Porto,mas Lisboa tem o seu "quê" de especial, por mais que se diga está lá tudo da capital do império.Adoro andar nas ruas de Lisboa, pena é que todos se juntem no colombo,vasco da gama e agora do dolce vita tejo.A baixa pombalina e azona de Belém ,não ficam a dever nada ás outras cidades da europa,menos numa coisa: Pessoas
Falta movimento de pessoas apé de um lado para o outro, a ver, a brincar, a petiscar, a fazer barulho de rua,falta confusão humana.
Um provinciano, é o que sou, com muito gosto,lol.
bjs e bom fds

Laura disse...

Pois como eu sou tripeira explico que tem a ver com as invasões napoleónicas. Se quiserem saber mais eu posso explicar! Um beijo, Patti.

Si disse...

Será assim, talvez, em todas as cidades, noto-a mais em Lisboa - onde vou com frequência - porque fervilha de mais gente, vinda de todos os lados, atraída pela concentração de oportunidades.
Diferente do Porto, onde o centro está asfixiado e nele só resistem os que ainda descendem dos 'tripeiros de gema', como o 'Beto'.
Quanto às rivalidades, desde que civilizadas e enaltecidas em puras brincadeiras visigótico-moiras, até dão mais cor a este cinzento país...

Patti disse...

Si:
Lisboa é a primeira cidade do país e não tem com quem rivalizar, como acontece em muitas cidades da Europa e aqui já ao lado na vizinha Espanha, entre Madrid e Barcelona.
Quanto aos bairrismos de origem, é tudo muito bonito e típico e fica muito bem nos postais; deviam era também evoluir e deixar para trás os provincianismos.
Foi claro para mim, que quando escrevi este post sobre os alfacinhas, não estava a entrar em comparação com nada, nem com ninguém. E é assim que quero manter a minha postura.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Respondendo à sua pergunta, querida parceira, digo-lhe que são várias as explicações para a origem do tripeiro, mas nenhuma delas tem consistência histórica inabalável.
A explicação que dou no meu post é, porventura, das menos conhecidas, por isso a escolhi.
A única certeza que lhe posso dar é que a revista a que se refere é consequência e não origem do nome.
Creio que a rivalidade entre tripeiros e alfacinhas já pertence mais ao mundo da ficção do que à realidade ( embora ainda existam muitos Betos).
Como escrevi já por várias lá no CR, o bairrismo exacerbado é uma das características que me desgosta, mas se ele existe é porque na realidade o Porto, sendo uma grande cidade que rivaliza com Lisboa e a quem se deve em muitos momentos da nossa História a coesão nacional ( ainda no 25 de Novembro de 1975, parte do governo e os líderes partidários se refugiaram no Porto, com medo que o PCP fundasse a Comuna de Lisboa..) tem sido maltratada pelo poder central.
Recentemente o MEC escrevia um artigo, em defesa do Norte, com uma enorme lucidez, onde salientava este aspecto.

Patti disse...

Carlos:
É isso que me desgosta! Em nenhuma linha do meu post eu falei no Porto, na rivalidade, na comparação, no bairrismo, seja no que for. O meu post é claro: os alfacinhas.
Mas porque raio têm sempre de surgir estes confrontos.
Eu fiz um post muito claro. Até agora ninguém o comentou!

Dulce disse...

Patti
Aqui do outro lado do mar, lembro com saudades dos alfacinhas e de sua linda Lisboa, dos tripeiros e de sua acolhedora cidade do Porto.
Nas duas estive, pelas duas me apaixonei. Lisboa me encantou pela modernidade, pela agitação que não esperava, já que a conhecia pela pena do Eça e a esperava mais tranquila.
O Porto fez-me sentir em casa, pois lembrava-me a São Paulo de minha infância e juventude. Alfacinhas e tripeiros acolheram-me, igualmente.
Essa disputa lembra-me muito a "questão" entre o Rio e São Paulo, cariocas e paulistas... rs...
Parabéns pelo lindo texto e por permitir que eu visitasse a Lisboa de antigamente.
Beijos

PS - Deixo ao Carlos o mesmo que deixo aqui e a ambos o mesmo carinho e amizade.

Patti disse...

Dulce:
Obrigada por o meu texto a ter feito ver Lisboa e aos que lá pertencem. Muitos já não fisicamente, porque os arredores se estenderam, mas sempre, sempre com o coração.

Si disse...

Pois comente-se o post:
Não há, em nenhuma linha, qualquer dúvida sobre o amor que rende a Lisboa, Patti. Um amor já várias vezes demonstrado e exaltado no Ares.
De monumentos imponentes e pessoas de carne e osso, alfacinhas, ou como lá os quiserem chamar, orgulhosos da terra em que nasceram e das suas tradições e costumes, algumas das quais tiveram evoluções surpreendentes, como é o caso do fado e das novas vozes que o levam além-fronteiras.
Ou da revista, que mesmo de morte anunciada, teima em resistir.
Uma Lisboa, enfim, que talvez precisasse de melhores portugueses à frente dos seus destinos e dos do resto do país.

paulofski disse...

A história das cidades é feita de gentes, das que lá nasceram e das que lá entraram e ficaram. As características culturais, sociais e humanas são o coração e o sentimento profundo de um povo. Os meus pais são oriundos de terras durienses, de trás-os-montes, e como muitos outros quando vieram para o Porto, estudar, trabalhar e viver, trouxeram consigo as tradições e traços das suas terras e gentes. As populações saloias, alentejanas e de muitos outros lugares deste Portugal emigraram para a capital e da mesma forma carregaram nas bagagens a sua cultura e esperanças de uma vida melhor. Se tantos são os meios de comunicação social, televisão, rádios, jornais, sediados na capital a verdadeira cultura alfacinha foi sendo semeada pela força do cinema, da música e colhida pelo país, por esse mundo fora. Do pátio alfacinha, do fado, da poesia, do ser português, até do Benfica (cof, cof), muitas almas lusas aprenderam a admirar, ficaram a gostar e a transportar no coração. Quanto a bairrismos, provincianismos ou centralismos eu voto no regionalismo. O país não é só uma região, não deveria ser tudo para uns e pouco para outros. É certo que as diferenças de investimento e progresso estão a diminuir, lentamente, mas ainda há tiques de centralidade que me custa a entender em algumas políticas e políticos. Desculpa a frontalidade do meu comentário Patti, sei que fugi ao cerne da tua crónica e o meu comentário no Rochedo não foi mais do que uma brincadeira, uma forma de ser sincero.

Parabéns pelo texto.

Lúcia disse...

Patti - o texto é excelente, na dscrição. De facto, não conhecia a razão de serem alfacinhas, os lisboetas. Na minha ideia, que, mesmo depois de ler o texto, continua a mesma, alfacinhas são os da Mouraria, Bairro Alto, etc...com pregões à mistura, que penduram a roupa nas cordas da janela em roupão; que s emetem nas conversas dos turistas de forma aberta e simpática e tudo o mais que foi muito bem descrito por si.
De facto, como a Si notou, Lisboa está uma cidade com imensa gente de fora. Mas, conseguem-se distinguir bem os alfacinhas dos restantes:)

E vou-lhe ainda dizer oq ue não disse ao seu parceiro no outro lado porque me esqueci: Porto e Lisboa são duas cidades que eu amo de paixão, carago! Não consigo escolher a preferida.

Patti disse...

Paulo:
Não entendo o porquê de me pedires desculpa pela frontalidade do comentário. Assim como não entendo toda a necessidade da razão do mesmo. Mas deve ser de mim: tenho alguma dificuldade em perceber porque certos temas, levam logo a outros que para o caso não foram chamados. Como foi o caso do meu post, aliás fiz questão disso, e pensei ser nítido.

Lúcia:
Conseguiu tirar a limpo a pinta do alfacinha. Essa do estender a roupa em roupão, é excelente. Só faltaram os rolos na cabeça!

Luísa disse...

Patti, também sou alfacinha de gema, mas não tenho as mesmas memórias da Patti, porque era muito míope, não me atrevia a pôr os óculos na rua e só aderi às lentes de contacto com a maioridade. Para mim, o alfacinha é o sujeito mais ou menos civilizado que calcorreia a Rua Garrett – embora, há dias, numa breve incursão pelos becos de Alfama, tenha entrevisto outros sujeitos alfacinhas e apanhado uns sustos. ;-D

paulofski disse...

Talvez por achar que somos tão iguais no modo de vida, de falar, de rir, também não entendo e talvez por isso procure encontrar uma razão para isso, talvez por ouvir amiúde comentários depreciativos em relação, ao alentejano, ao tripeiro, ao alfacinha, talvez por tudo ou por nada. Se há povo com o coração na boca e de portas abertas é o português, ora essa!

Patti disse...

Luísa:
E os espécimes que se vêem na altura dos santos populares? Ui! São de fugir.

Blondewithaphd disse...

Ooooh, adorei ler!!! Encontrei primeiro os alfacinhas nos escritos do Eça e cheguei aqui e dei com eles! Gostei!

Filoxera disse...

Lembro-me de quando´nós, os que vivíamos nos arredores, tínhamos de ir à baixa lisboeta se queríamos comprar artigos de desporto: rumávamos à Sport Dagio (seria assim ou escrevia-se doutra forma???).
Beijos.

BlueVelvet disse...

Embora não tenha o amor que tens por Lisboa, concordo que a descreveste maravilhosamente.
Há certas coisas que deves ter pesquisado, já que não são do teu tempo nem do meu, mas está quase uma Crónica de Costumes.
Adorei.
Beijinhos

Ps: esqueceste-te das coimas do post do vizinho!!!

cristina ribeiro disse...

Da alfacinha terra trouxe quadros de beleza - o céu muito azul, as ruas ensolaradas, o mar -, mas também a tristeza de não ser uma terrinha pequena como a minha: as pessoas eram indiferentes, mas isso espalhou-se entretanto...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu conheci a Lisboa que descreve e foi por ela que me apaixonei, como em tempos escrevi no Rochedo. Os passeios de barco e de bicicleta no Campo Grande, por exemplo, eram obrigatórios ao fim de semana, quando eu para cá vinha de férias, muito antes de viver em Lisboa. E havia as luzes do Parque Mayer com as suas Revistas, as casas de fado, os lanches na Bénard ou na Garrett... Depois, tudo mudou muito rapidamente, mas ficaram ainda alguns sinais desses hábitos dos alfacinhas que ainda guardo na memória.

Mike disse...

Eu não sou alfacinha mas simpatizo com as alfacinhas (de gema ou não). ;D

Violeta disse...

Gosto deste deambular de palavras, histórias e sentires entre os vizinhos tripeiros e alfacinhas...

Marta disse...

gostei muito, Patti.

crónicas de graça, aqui e no Rochedo, a não perder, sem dúvida.

sempre a aprender convosco.

Gi disse...

Eu não nasci em Lisboa, nem sequer em Portugal Continental. Quis o destino que para os arredores de Lisboa viesse viver e Lisboa ser a cidade pólo.
Gostei imenso de ler a tua crónica e só vejo aqui amor pela cidade que te viu nascer (até poderia ser aldeia, vila) e o relato histórico e, igualmente, contemporâneo que nos ajuda, aos outros que de cá não são, a ter uma cultura adquirida.
Rivalidades? Não são, de facto e neste post, para aqui chamadas. :)

papoila disse...

Eu acho Lisboa LINDA!
Sou transmontana, adoro o Norte, mas isso não quer dizer que não possa gostar de mais trezentas cidades :)
Ao ler o seu post só me apetecia cantar "A menina das tranças pretas"!
Moro nos arredores e lembro-me que quando tinha que ir a Lisboa, a minha mãe preocupava-se muito com a roupa.... lembro-me dos piropos!!!
Enfim, gostei deste passeio pelo passado e agradeço-lhe porque mais uma vez aprendi. Não sabia a origem dos "alfacinhas".
xx

Justine disse...

Ternura viva a escorrer de cada linha do teu texto, alfcinha! Encantou-me tudo -com especial relevo para o gato à janela no Bairro Estrela d'Ouro, que eu tão bem conheço:))
Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Uma boa caracterização dos alfacinhas!
Eu não o sou e compro sempre o Borda D´Água que os meus avós também compravam, aqui pelas serras e planaltos do PNSAC, que ainda o não era.
E o gato também é alfacinha?
Tem ar disso, o gato à sua janela...

Abraço