quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

parasimpattias #2


Exercício: Um objecto acompanha desde o início do casamento, a vida conjugal de um casal.
Esta é a sua visão da história.

Sou um garboso dálmata de louça luzidia. Imponente e majestático. De porte altivo, ocupando um lugar de destaque na residência dos meus donos, embora os tempos áureos do meu passado, nada tenham a ver com a situação que vivo presentemente.
Acabadinho de sair do forno, fui comprado ainda cachorro por um casalinho de apaixonados, recém-casados. Ai amorzinho que peça mais linda! Ai que ficava tão bem na nossa entrada! Ai que brilha como os teus olhos! Ai que me fazia tão feliz se o levássemos! Ai mais não sei o quê! Ai mais não sei que mais.
Eram assim, a Mariline e o Ismael. Amorzinhos, beijinhos, festinhas, meiguices, pieguices, lambuzices e outras parvoíces. Fiquei um pouco enjoado, confesso. Até para mim, um cachorrinho que adora lambidelas, aquela peganhice toda me parecia um exagero. Mas lá fui. Confiante que de tanto carinho, algum haveria de sobrar para mim. E não me enganei.
Fui colocado no hall, defronte para a porta da entrada, logo ao lado de um belo móvel sapateira, de carvalho polido e ferragens douradas, que faziam clara concorrência ao meu brilho natural.
A minha enigmática postura, impunha-se naquele hall, como um general na frente das suas tropas e espalhava-se por toda a casa. Ninguém me ficava indiferente. Era carismático e possuía uma imagem envolvente, como o amor daqueles dois.
Eu sou um dálmata de nível, sóbrio e com um certo pudor, por isso não me vou pôr aqui a relatar a intimidade dos meus donos. Mas que subiam paredes, ai isso subiam!
Pronto, já que insistem, eu desbronco-me um pouco. Mas só um bocadinho.
Não estou a cometer nenhuma inconfidência - os vizinhos do prédio são testemunhas - se vos disser que havia festa todos os dias. E noites.
Ele era caixas de bombons e ramos de flores exóticas, às sextas; técnicas acrobático-sexuais aos sábados; reflexões tântricas aos domingos e ramboiada da grossa, às segundas e quartas. Nas terças e quintas, jantares românticos em trajes sadomaso e desenvolvimento do léxico amoroso do casal: pombinha, fofinha, pote de mel, arrufada, patanisca, aboborinha e meu rabanete.
Mas não se esqueciam de mim. Era tratado imaculadamente. Davam graxa ao amor deles e puxavam-me o brilho com sonasol verde. Estudavam-se um ao outro e limpavam-me o pó com minúcia. Mergulhavam horas em perfumados banhos de espuma e colocavam-me no buraco que tenho na base, um perfumado sabonete de alfazema.
Todo eu rutilava e o meu corpo mais não era, do que um espelho reflector da feliz vida de casados da Mariline e do Ismael: plena de atenções, excitações, miminhos e beijinhos.
Mas não há fome que não dê em fartura. Com o tempo, fartaram-se da marmelada. Foram escasseando os bombons e as flores. Os dias marcados para as suas loucuras, também sumiram do calendário. Eu ali no meio do hall, já numa posição meio enviesada, como a relação dos meus donos. A cabeça virada para a porta da cozinha. O pó acumulara-se no meu corpo, os ácaros faziam pouco de mim, o brilho da minha louça, outrora o centro nevrálgico daquela decoração, esbateu-se-me, ganhando uma película baça, levemente gordurenta.
Depois começaram a gritar um com o outro, a arremessaram objectos: a colecção das caixas de bombons, os ramos de flores secas, os cintos de ligas, o chicote e as algemas. Esgotadas as peças do seu amor, depressa se voltaram para algo mais prosaico: frigideiras, jarras e comandos de televisão.
Fiquei sem uma orelha, ganhei um buraco no lombo, perdi um olho e esfolei o focinho, ficando marcado para o fim dos meus dias.
Hoje em dia, não me fazem caso. Já não me limpam o pó, ignoram-me a perda do viço, não me lavam e esqueceram-se do último sabonete de alfazema dentro de mim, só resta o invólucro vazio. Arrasaram como o meu orgulho de dálmata autóctone, fazendo-me reduzir a um vulgar enfeite. Um bibelô inútil, sem salvação.
Que saudades dos meus colegas da loja de decoração. Onde estarão todos vocês? Que donos lhes coube? Que vidas presenciaram? A fonte de pedra com o menino a jorrar água pelo cântaro; a sevilhana orgulhosa disposta em cima da cama lacada; os pratos de louça azul, com provérbios e ditos populares; os sofás de veludo verde, em capitonê; os centros de mesa com frutas plásticas. O quadro do menino da lágrima.

E a menina, que nos conta você querida almofada?

19 comentários:

salvoconduto disse...

Prontus, deu no que deu, um dálmata todo lambuzado! Desde que acabaram com a respeitosa figura do "chefe de família" é vê-las. Até um dálmata de louça levam para o hall da casa. Esta gente está toda abichanada e amaricada. Onde está o leão de antigamente? Cadê o altar com as taças e as medalhas e bem no centro o leão imponente símbolo do glorioso?! Maldita a hora em que alinhei nestas coisas da dita democracia. Nunca esperei que fossem tão longe. Um cão de louça que ainda por cima é "espreita"! Balhame Nossa Senhora d'Agrela, ao quisto chegou!

Pitanga Doce disse...

Arre que o casalinho tinha uma semana cheia! Quanto ao cãozinho acho que só lhe resta deitar a cabeça na almofada que a "menina" tem lá em sua casa e chorarem juntos os dois.

Dulce disse...

Patti, acho que a Pitanga encontrou a solução para os dois pobres que estão sem rumo, perdidinhos na indiferença de sonhos desfeitos, de amores desgastados pela rotina, pelo cansaço de vidas desencontradas.
É juntar, pois, o cãozinho e a almofada e dar-lhes o alento de um canto tranquilo, onde possam repousar da dura vida que viveram...
beijos e um bom dia

Gi disse...

Enquanto o dálmata existir mais as suas manchinhas e continuar a contar-nos histórias é sinal que o casal ainda existe como casale ainda poderá haver redenção.
No dia em que a relação se escaqueirar de vez, também o dálmata de louça ficará em cacos e não entrará nas partilhas.

Pitanga Doce disse...

Ó Gi, não há mais redenção para o casal. Não viste que a Mariline jogou pela janela o comando da televisão? Onde é que o Ismael vê agora o Porto ser campeão outra vez?

Si disse...

Ó meu Deus, Bobi!
Não te rales, cachorrinho da minha alma, que a tua sorte foi não teres servido também como arma de arremesso ou outras coisas piores!
Queres um chazinho de sumaúma, para te aliviar os ocos da porcelana??

Ass: Tua Almofada

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Esse dálmata é um voyeur, faz-me lembrar aqueles "funcionários" do palácio de Buckingham que um dia decidem escrever um livro ou dar uma entrevista a um jornal, contando as coscuvilhices da família real.
Agora que se acabou a festança e o casal se entregou a actividades mais salutares, como ver televisão, o canito rebelou-se. Quando é que vai escrever umn livro? Tem de se apressar, caso contrário, vai acabar escaqueirado, como arma de arremesso de um dos cônjuges desavindos.

Rosa dos Ventos disse...

Estava a pensar dar um dálmata desses a um jovem casal amigo cuja componente feminina perdeu há uns tempos um cão que a acompanhou 20 anos...
E como o género masculino não suporta animais tive essa ideia peregrina.
Vou desistir depois desta triste história!

Abraço

Luísa disse...

É por estas e outras, Patti, que cortei com «bibelots». Nunca fiando! E a seguir marcham as almofadas. ;-D

pedro oliveira disse...

Dálmatas de louça só do rouxinol faduncho,lol.

Não fartura que não dê em fome.
bjs e boa semana

BlueVelvet disse...

Já reclamei com a almofada da outra e agora reclamo aqui: quem me paga o transporte de Lisboa/Porto/ Lisboa a toda a hora?
Ainda por cima não sei se a PresidentA sabe que a Sedona Si me aplicou uma coima na sua ausência por causa de um anúncio do Vaticano que publiquei só a título informativo.
Enfim, não sei onde vão vocês buscar estes nomes próprios do mais pífio que há. Têm um dicionário só vosso? Mariline e Ismael??? Balha-me Deus, como diria a outra.
Enfim, com estes nomes e um Dálmata de loiça é óbvio que este casamento estava condenado.
Deixo-te um saquinho de pot-pourri natalício para pôres no buraco do desgraçado bibelot.
Ai Deuses! Nem acredito que escrevi bibelot.
E gostas da minha fatiota natalícia? Cá para mim acho que estou com ar de Mariline:)
Bjs

de dentro pra fora.... disse...

Então os amigos não foram todos para aquela expo-não-sei-quê que havia para reciclar estas coisinhas que foram resistindo aos arrufos de muitos outros casais, sim porque eu acho que a Merilin e o Ismael não são os únicos a sofrer deste mal...
Coitado do bichinho, que triste ficou sem o belo do sabonete lá no buraquito!!

Mike disse...

É o que acontece a quem nasce bibelot... ;)
(Muito bom, Patti). :)

Filoxera disse...

Mais uma vez, adorei ler-te.
Não consigo é compatibilizar o ritmo diário com a criatividade, pelo que a continuação do teu conto anterior vai ficando a marinar...
:-(
Beijos.

Justine disse...

A tua ironia elegante e inteligente retrata soberbamente este casal-tipo e o seu ambiente caseiro! Muito bom:))

Turmalina disse...

Amei...e o quadro do menino da lágrima eu sei aonde está, pertence a um vizinho nosso!!!
Este seu texto dá um belo curta metragem, pelos olhos do garboso dálmata.

paulofski disse...

Pois, davam-te brilho porque não tinham de te levar à rua, não alçavas a pata ao móvel sapateira e sobretudo não ladravas a ninguém as aventuras do casal de pombinhos. Uma boa super-cola 3 resolveria a tua falta de pêlo e até, quem sabe, poderias continuar a tua vida de bibelõt noutro hall familiar estruturado. Sôra PresidentA, faxabôre apele à Associação Protectora dos Animais de Louça para doar o canito à adopção!

Laura disse...

Gostei imenso. Sabes que eu escrevi um dia um conto em que uma aranha me espreitava do tecto do meu quarto?

Lúcia disse...

Provavelmente, se estivesse na loja, estaria cheio de pó, junto do quadro do menino que chora. Acho que já ninguém os compraria.
E muita sorte tem em ainda estar lá... com a violência e frustrações que andam à por ái solta...