segunda-feira, 24 de outubro de 2011

segunda pessoa do singular


A minha avó passajava.
Da capoeira - pensava eu - trazia o maior e mais claro ovo, o mais liso e bonito das galinhas ruivas e esquecia-se dos dias, em tardes de chuva envidraçada ou de sol severo, na salinha da costura, a dispor como novas as meias do avô.
- Oh 'vó, como é que tu nunca partes o ovo?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
A minha avó pregava.
Fixava o botão no tecido e deslizava a linha na ponta da língua, enfiando-a na agulha com jeito e à primeira. O nó firme era dado numa única extremidade, e a outra ficava mais curta e solta. Não se pregavam botões à preguiçosa; com duas linhas unidas!
- Oh 'vó como é que fazes para a linha não fugir?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
A minha avó crocheava.
Pegas de caleidoscópio com cores das romaria de verão, que ela fazia nascer naquele instante. Magistrais pedaços de croché em formas perfeitas de losangos, hexágonos e circunferências, de fazer inveja a qualquer catedrático da disciplina.
Pegas perfeitas e rígidas, que não me deixam queimar nunca e que guardo, ali no canto secreto da cómoda que tem bicho.
- Oh 'vó, que nome dás a essas cores todas?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
Na salinha da costura, onde a chuva estalava nas portadas e o sol, invejoso das cores e do brilho daquelas linhas, a agredia queimando-lhe as costas já curvadas, a minha avó passajava, pregava e crocheava ... e sorria.
E eu tratava-a por tu.

10 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

As minhas avós também o faziam assim como a minha mãe!
À sua maneira eram umas artistas na arte da recuperação de roupa, na combinação de cores nas pegas...que ainda uso, os meus panos de cozinha têm as minhas iniciais feitas a ponto cruz pela minha avó paterna!
A minha mãe punha joelheiras aos quadrados e às flores nas calças dos quatro netos. Qualquer estilista de agora acharia uma ideia interessante! :-))
Lindo o teu texto que leio com a chuva a bater na vidraça!
A mim a chuva trouxe-me outras memórias!

Abraço

CNS disse...

Não conheci nenhuma das minhas avós. Mas seria pela segunda pessoa do singular que as trataria. Gostei muito, Patti.

paulofski disse...

Lindo. Fez-me recordar um texto que bordei a carinho para a avó Nanda, a minha querida mamã.

annie hall disse...

Nós não nos tratavamos por tu , mas foi a relação mais intima que alguma vez tive .
A minha avó bordava ,agora não conheco ninguem que o faça .

Pitanga Doce disse...

...e se ela sorria, é porque, lá no fundo, gostava.

Bom dia, Patti. Aqui, Primavera plena.

Lucia Luz disse...

Que lindo!
Não puder curtir minhas avós. Mas hoje curto os bordados de minha mãe. Lindos.
Hoje quem sorricom as lembranças é você não amiga?
Beijo e ótima semana

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

E a neta aprendeu bem a costurar as palavras...
PS: Não pago a multa que me aplicou. Desobediência civil é agora o meu lema, PresidentA.:-)

fugidia disse...

E lembrei-me da minha avó, tão igual...

f@ disse...

Muitos Kms de fios e cor...

sempre beijinhossssssssssssssssss

f@ disse...

Que lindo Patty.... e que lindos novelos, sabes como gosto da cor das tuas histórias... beijinhos