quinta-feira, 20 de maio de 2010

corredor

Como todos os que conheço, aquele era um corredor esquecido e desprezado, por quem habitava o velho andar da Sidónio Pais.
Tomado unicamente por um local de passagem, de acesso às outras divisões, era desprovido de qualquer tipo de interesse. A excepção era feita por antigas molduras, que revelavam fotografias de antepassados, exibindo nelas trajes de folhos, largos chapéus, cartolas luzidias, fardas militares, bigodaças farfalhudas e espampanantes penteados, armados em cima de pescoços enforcados em intermináveis fiadas de pérolas brancas ou laços de borboleta.
A pouca atenção dada ao corredor, seguia com a fraca escolha de luz, tornando tudo ainda mais taciturno.
No escuro da noite, ou mesmo na melancolia que é aquele período da tarde que nos empurra à sesta, os antepassados encaixilhados nas paredes, encetavam velhas quezílias familiares. Confrontavam-se entre si e discutiam o património mal dividido, heranças, partilhas, casamentos, adultérios, crimes, segredos e mistérios, apelidos familiares e outras tantas questões pertencentes a um pretérito muito antigo.
O peso das sombras, a presença de espíritos diáfanos, a solidão de um corredor sem vida e talvez também a solidão de quem o percorria todos os dias, enchia de um vazio cinzento, o velho andar da Sidónio Pais.

10 comentários:

Poetic GIRL disse...

Sempre me assustou corredores esses onde os olhares dos quadros parece que nos lêem a alma. Caminha-se por eles e sente-se o olhar sobre nós, é de facto arrepiante... bjs

Luísa disse...

Já não se fazem corredores assim, Patti, o que, por um lado, é uma pena. As casas podiam não ter mais do que duas ou três assoalhadas de cada lado. Mas o corredor não tinha fim e o apartamento, graças a ele, parecia um palácio. E que alegria para a criançada! Foi num corredor desses e sobre um tapete parecido, mas de Arraiolos - dos que ondulam - que parti a cabeça pela primeira vez. ;-D

paulofski disse...

Um corredor! Precisamente no que me transformei após as "necessárias" mudanças para outro gabinete, o que me obriga a idas e voltas num corredor sem fim!

Pitanga Doce disse...

Patti, ao olhar a foto veio à cabeça beijos roubados ou combinados a uma determinada hora. Respiração ofegante dos amantes que sabem que tudo a que terão direito será o beijo e nada mais.

Bom dia em céu Outonal.

Gi disse...

Era um corropio nesse corredor ... corria o pio quando os vivos, morriam em sonhos.

PAS[Ç]SOS disse...

Um deserto onde florescem árvores que sustentam estórias, de onde partem ramos testemunhas de inúmeros segredos, solo pisado por tantos passos a caminho dum fim que se transforma em constantes inícios.

Justine disse...

Reflexões cheias de nostalgia, que nos evocam um passado romântico, dramático, triste.
Que bem soubeste criar o ambiente que se exigia à reflexão:)))

papoila disse...

Patti,

Eu fiquei a pensar no corredor da casa da minha avó. Era enorme e como durante anos fui a mais nova da família, mandavam-me para a cama e lá ia eu cheia de medo desse corredor enorme....

salvoconduto disse...

Faz lembrar os corredores do poder. Pelo menos é essa a ideia que faço deles.

Si disse...

Pois eu tenho boas recordações de corredores. É um assim parecido que existe na casa dos meus pais, onde aprendi a andar, e que foi calcorreado vezes sem conta com a alegria de ir abrir a porta aos amigos que nos visitavam.
O mesmo, que, mais tarde, veria os primeiros passos da minha filha... Talvez se este corredor tivesse estas lembranças, conseguisse envolver com mais afago quem o percorre tão solitário.