quinta-feira, 27 de maio de 2010

quando a hora avança II


Noctívago atraía a si todo o tipo de noites: as escuras de segredos calados, as estreladas de juras íntimas, as de lua cheia e lobisomens, as longas de inverno e as frescas de primavera. Dependendo do grau de escuridão, Noctívago vagueava seguro entre a insónia e o sonambulismo, encoberto do risco da luz.
A si vinham sem receio das revelações do clarão, as trevas rasteiras, o piar dos mochos, as almas sem cama e sem sonho, os vaga-lumes, o ciciar dos grilos, os poetas sofredores.
Mas uma noite houve, em que Noctívago esquecendo-se de ler a história para adormecer antes que fosse dia, amanheceu sem que desse por isso.
Sentiu-se perdido, cego. Não conhecia nada do que via à luz. Aterrorizou-se.
Nisto, efervescendo das últimas sombras de noite, rasgava-se do fundo da terra um estado de incandescência fantasma de que a lua já lhe havia falado. Uma tal de estrela amarela que por meio do seu poder luminoso, desvendava sem permissão a segurança da escuridão de Noctívago, expondo à luz do dia os seus becos e segredos mais opacos.

8 comentários:

Justine disse...

Há mesmo quem não aguente a claridade, a transparência, a luz. O teu texto, contudo, para além de muito bem escrito, é cristalino!

Alis disse...

Entre a insónia e o sono desperta o sonho todas as noites
... mesmo as frias abrigadas na fogueira das pa lavras segredadas naquela claridade rara que s o l ta purpurinas incensadas
...
0lhar de pirilampos em noite de memórias

bjnhos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já tinha saudades destes seus textos, parceira. Profundos, mas cristalinos

Mike disse...

Creio que só uma mulher escreveria este texto. Mas teria que ser uma mulher que escrevesse muito bem. Gostei.

Rosa dos Ventos disse...

Um excelente texto!
Parabéns...

Abraço

Edgar Semedo disse...

As noites de segredos calados são as maiores.

Tudo de bom,

E.

Gi disse...

Quando os noctívagos passam a sofrer de insónias diurnas,deixam de ser noctívagos.

paulofski disse...

E de noite todos os gatos são pardos.

Belo o texto.