terça-feira, 12 de maio de 2009

e fui mesmo

foto minha, parque eduardo vii

De todos os livros que comprei ontem, quatro encheram-me as medidas.

"O Meu Amigo Eça"- António dos Reis Ribeiro,
edição 1946
/ 5€

...
Um pequeno livro, comprado num pavilhão alfarrabista, que conta passagens maravilhosas e reveladoras da vida de Eça, como esta, numa carta que Eça escreve, já doente, a Oliveira Martins:
"A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um dêsses sujeitos, que, no tempo de Molière, freqüentavam a sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom - tão bom, que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me ser um mendigo da ignorância".

"Correspondência de Mário de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa (1912-1914)" - Relógio D'Água / 5€.
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Estas cartas, são qualquer coisa de fantástico. Deixo-vos duas passagens.
"Paris, 25 de Março 1913
Meu querido Fernando Pessoa,
Recebi hoje a sua carta que muito e muito agradeço. Eu não sei mesmo como agradecer-lhe todas as suas gentilezas. Percorrendo a sua carta eis o que tenho a dizer-lhe sobre cada um dos seus parágrafos:
- É muito verdadeiro e lúcido o que você diz acerca do cubismo. Plenamente de acordo. Desse Amadeu Cardoso tenho ouvido falar muito elogiosamente e vi uns quadros dele, sem importância e disparatados, no Salão de Outono. Tratava-se duma turbamulta de bonecos - era um inferno, um purgatório ou qualquer coisa assim. Sei que é um tipo blagueur, snob, vaidoso, intolerável, etc, etc.
Parece que não se pode ser cubista sem se ser impertinente e
blagueur".
E diz ainda Mário de Sá-Carneiro, sobre a Ode de Álvaro de Campos:
"Meu querido Fernando Pessoa,
Não sei em verdade como dizer-lhe todo o meu entusiasmo pela ode do Álvaro de Campos que ontem recebi. É uma coisa enorme, genial, das maiores entre a sua obra - deixe-me dizer-lhe imodesta mas muito sinceramente: do alto do meu orgulho, esses versos, são daqueles que me indicam bem a distância que, em todo o caso, há entre mim e você.
(...) Não tenho dúvida em assegurá-lo meu Amigo, você acaba de escrever a obra-prima do Futurismo. (...) Depois de escrita a sua ode, meu querido Fernando Pessoa, eu creio que nada mais de novo se pode escrever para cantar a nossa época - serão tudo (...) em suma: variações sobre o mesmo tema".

"Entrevistas com António Lobo Antunes (1979-2007)" - Almedina / 20€
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Entrevista conduzida por Batista-Bastos, em 1985:
"ALA: Na última vez que estive fora, na Finlândia, dei por mim a ter enormes saudades de Portugal. O primeiro ameaço desta 'doença' foi na RDA. E eu, cuja família vem do Brasil, descobri-me, de repente, tão lisboeta, que me custa, agora, estar muito tempo fora de Lisboa."
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Entrevista conduzida por Francisco José Viegas, em 1997:
"ALA: (...) Nunca tive muitos amigos, de resto. E amigos íntimos, quem tenho eu? O Ernesto Melo Antunes, o Zé Cardoso Pires, o Daniel Sampaio, não tenho mais... Há, é claro, pessoas que eu estimo, de quem eu sou amigo, mas não com esse lado de intimidade.
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Entrevista conduzida por Maria Augusta Silva, em 2003:
"ALA: Não sou grande fã do Camilo. (...). E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. (...) Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente.
Tem esses desplantes, coisa que seriam um erro num principiante. Por exemplo: "Eu possuo preciosamente um amigo", uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto".
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Entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, em 2006:
"ALA: Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém nunca me vê nos sítios".

"Os Alfacinhas" - Alfredo de Mesquita,
edição 1910 /
7€

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"Há janelas em Lisboa que são jardins, outras que são quintais, com árvores de fruto e seu pedaço de horta. A nespereira, por exemplo, dá-se excelentemente nas janelas de sacada, bem como a couve galega, criada em caixotes com adubo de gato. O vaso de manjerico, tão cheiroso, e tão igual no viço da folha miudinha, é ornamento modesto das de peitoril. À hora da rega, quem tem a sorte de passar por baixo, salta do passeio para o meio da rua mais fresco que uma alface em manhã de orvalho. As ceroulas, as fraldas, até os lençóis que se lavam em casa e se estendem a enxugar à janela, perfazem-lhe a paisagem peculiar."

Boas leituras; eu hoje não durmo.

30 comentários:

salvoconduto disse...

Nem sopa de letras nem açorda de papel, um mar delas. Mergulha, mergulha fundo!

Dia 28 será o início da feira aqui, liberta do espartilho do Palácio, há quem lhe chame Pavilhão Rosa Mota. Até morrer hei-de chamar-lhe sempre Palácio.

Retorna à Avenida dos Aliados de onde nunca devia ter saído. Nesse dia, a cumprir-se a tradição, choverá certamente, quanto mais não seja, letras.

Luísa disse...

Patti, já me despertou aí duas vivas curiosidades. Vou pôr-me em campo. ;-)

BlueVelvet disse...

As entrevistas do Lobo Antunes já tenho e volta e meia vou reler esta ou aquela.
Os outros, são excelentes dicas.
Então BOA NOITE.

Pitanga Doce disse...

Ó mulher, pressinto que durante algum tempo não contamos com posts nem vírus semanais nem qualquer outra coisa que não sejam livros. Se ainda não usas óculos, vais usá-los agora. hehehe

Boa noite e olha, os Anjos andam a me provocar!

once disse...

encantada eu :) A ver se deixou por lá algo para mim no próximo Sábado (risos) :))

Boas leituras Patti *

Patti disse...

Vizinhança:
Ainda ficaram lá muitos e a preços excelentes. A feira está muito boa este ano.

Luísa:
Eu até adivinho quais são: O Eça e os Alfacinahs; acertei?

Gi disse...

E somos duas que lá fomos.
E há livros para todos os gostos, para todos os preços, para todas as bolsas, sacos e mochilas.
Até há livros em "vending machines", pomos uma moedinha e, pronto, lá sai um livro como se fosse um chocloate.
Leya ... que faz bem à saude (da aorta ao intestino passando pelo cérebro).

PAS[Ç]SOS disse...

E por aqui fico preso a mais algumas sugestões de leitura:
1. deliciosa a desesperada procura de Eça por um verdadeiro clínico, mesmo hoje, que a medicina está incomparavelmente mais desenvolvida ,receio que ainda haja quem incorra na confusão entre alguns… órgãos.
2. fantástica a eterna humildade dos génios. Só quem realmente o é, não tem a convicção de que o é. … e muito menos a tentação de o pretender ser!
3. ALA… pois sou muito, mas mesmo muito, relutante em aderir à sua escrita. Acho que criei uma aversão crónica, pelo senhor ou pela sua escrita. E admito que a incapacidade seja minha. Mas também reconheço que, ultimamente, tenho lido pequenos excertos fascinantes. Aqui estão mais quatro deles. Talvez, eu, deva ler ALA aos ‘bochechos’…
4. Lisboa… tem tanto para escrever sobre ela… só que não serão todos que têm essa capacidade…
Se me permite, vejo que comprou duas obras do Robert Wilson. Já as li. Não têm a genialidade nem a ‘poesia’ revelada nos excertos que por aqui nos deixou, mas, para quem gosta de policiais, acho fantásticos. Imperdíveis. Sou fã deles e dele.
E, para terminar, uma outra sugestão para quem ainda não o leu. No domingo comprei Lisbon Song, do António Mega Ferreira, uma pequena história de amor contada em pequenas, curtas e resumidas histórias que se ouvem como uma canção. De que se gosta… de quem se gosta…

Patti disse...

Passos:
Isso é que é ler um post com dedicação!
Estes quatro livros são mesmo fascinantes e todos por razões diferentes.

O do Eça, uma relíquia. As cartas do Mário de Sá-Carneiro, comoventes. Os Alfacinhas, uma descoberta deliciosa da minha querida Lisboa.

Quanto ao ALA, já leu “Os Cus de Judas”? Os Livros de Crónicas são muito, muito bons. Este que comprei de entrevistas tem 590 páginas fantásticas. Eu gosto muito dele, sou suspeita.

O Robert Wilson, foi-me aconselhado o livro "O Cego de Sevilha”, mas estavam todos a 10€ e não resisti em trazer outro!

E sim, gosto muito de policiais; de bons policiais. É um género com o qual discordo inteiramente que seja menor! Há personagens nestes livros extraordinárias, detectives que são criados pelos seus autores de forma brilhante, como o fantástico Nero Wolfe e o seu assistente Archie Goodwin, do autor Rex Stout, de quem ontem comprei 4 livros a 1€!!

Se tiver oportunidade, não deixe de ir. Há muita escolha, a preços tentadores.

PAS[Ç]SOS disse...

Patti,

Já lá fui no domingo. Foi lá que comprei o Mega.

Do Robert Wilson também já li 'O Último Acto em Lisboa'. É delicioso ver as 'nossas ruas' serem cenário das suas histórias.

Patti disse...

Passos:
Não tinha percebido que tinha sido lá que comprou o seu Mega, que já agora vou seguir o conselho e sondar.

Pepper disse...

Estás a aguçar-me a curiosidade...

Se bem que ontem fui à Bulhosa e encomendei um livrinho do José Manuel Saraiva que deve ser bem bom.

Beijocas

maria inês disse...

Tu vieste com isso tudo ás costas???? E vais ter tempo para os ler? (cada vez tenho mais vergonha de não ler)

Pitanga Doce disse...

Patti disse...
Vizinhança:
Ainda ficaram lá muitos e a preços excelentes. A feira está muito boa este ano
Olha que boa ideia me deste para um passeio "hoje á tarde"! Só me avisa se chove para eu ir prevenida. hehehe

bom dia Patti

1/4 de Fada disse...

Fiz uma autêntica viagem no tempo. Ao tempo em que ia à feira quase diariamente nem que fosse só para ver e aos meus tempos de faculdade. O meu primeiro trabalho importante e "a sério" foi um levantamento exaustivo da correspondência entre Eça e os seus contemporâneos. Passei dias enfiada na Biblioteca Nacional e consultei arquivos que na altura não estavam abertos ao público. Fiquei absolutamente fascinada e ainda gosto mais desta faceta do Eça do que como romancista. O homem era um génio. Já estás acordada?

paulofski disse...

Pelos vistos a sôdona PresidentA saiu da feira bem abastada de livros, terá leituras para uns... dois, três dias!

Si disse...

E assim se delapidam os já pobres cofres da Presidência e POC, nem vê-lo....;)

Agora a sério:
Fiquei com uma curiosidade imensa sobre esse livro do Eça, que, como sabe, também é o meu favorito de sempre.
Abriu-me o apetite para o redescobrir.
Quanto a policiais, estou plenamente de acordo consigo e disso darei prova num próximo post, sobre uma óptima sugestão de um blogger nosso conhecido, que resolvi seguir, juntamente com a família.
Beijinhos e boas leituras

cristina ribeiro disse...

Saudades da Feira do Livro de Lisboa, eu. A última vez que fui, terá sido há uns cinco anos. Sempre foi uma festa. Só de ver a tristeza da de Braga, mais aumentam as saudades. A ver se a do Porto salva a honra do convento...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Boas escolhas, Patti. Desses, só não li o primeiro.
Ao ler o post deu-me vontade de reler "Os Alfacinhas". uma pérola

Luísa disse...

:-D
(Dizem que a transparência é uma grande qualidade).

Rosa dos Ventos disse...

Já vi e li que valeu a pena!

Abraço

Teresa Durães disse...

não li aindanenhum desses apesar de, ensaios, só históricos ou antropológicos

de dentro pra fora.... disse...

Eu estou á espera que chegue cá(a feira)lá mais para o final do mês, já falta pouco...

Laura disse...

Ena... que inveja.
De poder ler e não dormir....

Mike disse...

Não dorme... pff! Que exagerada. ;)
Grato pelas dicas, Patti. :)

Violeta disse...

e olha para mim verde de inveja... nem tmepo para ler, a pilha aumentar , livros novos a sair e eu aqui...
está mal, muito mal.

bacouca disse...

Patti,
Mesmo com chuva valeria sempre a pena ir pela "amostra" que deixa antever. O Eça apaixona-me pois como é possível continuar a ser tão actual o que ele escreveu, sem falar do seu mordaz sentido de humor.
Que bom não dormir pois queremos chegar ao fim...

Filoxera disse...

Hmmmmm...
Que bom comprar livros!
Agora, estou na fase de acabar de arrumá-los.
Muita confusão ainda na nova casa, mas amanhã já conto ter internet e voltar a saborear a blogosfera.
Beijos.

Sunshine disse...

Gosto muito das tuas sugestões. Estou a ler deliciada o "Jogo do Anjo" que comprei depois de ler um post teu.
beijinhos com raios de sol

Nina disse...

Adorei as cartas Patti! deve ter somente coisas bacanas ali heim?

Que bom é comprar livros...