quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

parasimpattias #3

Exercício: descrever de forma intensa, a primeira experiência que a memória registou da cor vermelha.

Houve um tempo em que ainda existiam baloiços de madeira, pendurados em ruidosas correntes enferrujadas e see saws aparelhados em cabeças de cavalo, onde apertávamos as mãos pequenas até ficarem vermelhas. Com calos vermilhões, de verdadeiro vermelho dor.

Um tempo em que o chão dos parques infantis, era de pedra dura e incerta, com desenhos avermelhado escuro. Sangue alegre das brincadeiras.
Havia espaço para se avermelharem joelhos e cotovelos, partir cabeças rosadas, narizes e queixos rubros. Uma época em que exibíamos aos amigos orgulhosas cicatrizes, pontos costurados a sangue frio e hematomas coloridos de vermelhaço-vermelhante.
Era a nossa primeira experiência em vermelhoso vivo. O vermelho líquido e quente, espesso e de sabor acre, que jorrávamos a rodos de dentro de nós.
Também foi assim comigo, quando caí do velho see saw de madeira lascada e já sem cor. Pintei-o a jacto de tinta, directamente do meu queixo, com um vermelho vivo e intenso. Lindo. É até hoje, o meu vermelho preferido.
Aquele encarnado.

E a SInhora, de que cor se lembra primeiro?

20 comentários:

pedro oliveira disse...

Este vosso exercicio é complicado,mas ao mesmo tempo entusiasmante.gostei.vou fazer o mesmo exercicio mental.
bjs

Isabel Mota disse...

Olá Patti
Também fiquei uma vez presa num "barca" que fazia parte de um parque infantil... era vermelha. Para mim talvez a cor de que me recordo mais seja o branco. O branco que todas as casas tinham... da farinha com que a minha mãe polvilhava a massa das filhós... a roupa branca que punha a corar quando eu a acompanhava e a ouvia cantar histórias... sim, o branco. E, apesar de não ser a minha cor preferida, que é o amarelo, é talvez a segunda cor preferida. Bom exercício... vou partilha-lo e por alguns amigos a pensar em cores. Muito bom! Beijinhos, Isabel Mota

Si disse...

Só faltou aqui o vermelho-paixão. Aquele com que todas as crianças abraçam a vida enquanto a branca inocência existe na sua alma e que os transformará em adultos de muito boa índole...
Gostei imenso.
Beijinhos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Só podia ser vermelho, não é? Apesar da bela moldura com que justificou a escolha, não me convence... as minhas memórias são mais azuis. Do clube do coração, do céu e do mar.E foi mesmo do céu azul que me lembrei quando li o tema do exercício.

Reflexos disse...

Pois...em muito 'vermelho' resultaram as brincadeiras de infância nos parques infantis.
As crianças de agoras sõa uns 'lordes'...
Parabéns e bom ano.
Bjinhos

Luísa disse...

A minha primeira cor favorita também foi essa. Era por ela que muitos dos meus «bens» se distinguiam dos da minha irmã (cuja cor era o amarelo). Só não sei se o gosto nasceu do sangue que perdi com as quedas aparatosas que, várias vezes por ano, me pintalgavam a cara e os joelhos de mercurocromo. Belas recordações, Patti. :-)

Tite disse...

Eram outros tempos de facto.
As brincadeiras eram tão intensas e os espaços por onde andávamos tão alargados que tudo poderia acontecer que levasse a que nos pintassem dessa cor, quer porque nos feríamos quer porque nos desinfectavam largamente com o vermelhusco mercúrio-cromo.
Não era a minha cor favorita mas... lá que andava sempre pintada dessa cor, lá isso andava. Cavalona que eu era, messssmo rsrsrsrs.
Gostei da tua memória Patti, como deve ter transparecido pelo meu comentário.

Paula Alcântara disse...

ó pá!! Que pena não ter estado a ouvir esta leitura! Uma delícia... e tantas vezes também pintei assim com esses jactos de tinta vindos de dentro! Até deu saudades! E a nova banda sonora? Mais uma delícia!

paulofski disse...

O azul é a minha cor, misturada com o branco da paz, com o amarelo do sol, com o verde da natureza, com o vermelho do calor, com o brilho dos olhos. O meu corpo é um mapa de cicatrizes, cada qual com a sua história. Todas elas vermelharam de dor, todas elas foram cosidas pelas mãos sábias da minha mãe e sararam por amor.

cristina ribeiro disse...

Fez-me pensar em coisas vermelhas de que gosto, Patti: um vestido, um casaco de malha, cerejas, o sol poente no Verão...

Mike disse...

Vermelho? só consigo lembrar-me de coisas de rapazes, tipo o carro de bombeiros. Patty, a presindentA escreveu lindamente!

josé luís disse...

não me lembro da nenhuma cor especial associada a feridas, joelhos esfolados, fracturas e outras mazelas mas, agora que penso nisso, recordo um gosto muito particular que me vinha à boca quando caía, um gosto vagamente metálico (provavelmente a sangue... vermelho)

Justine disse...

Fizeste-me recuar uns 50 anos, com este teu delicioso texto!

claudia disse...

...se me lembro???? acho que foi a dor mais aguda que tive qd num celebre dia me lembrei de descer um escorrega de barriga e cabeça para baixo! julguei que me tinha partido toda! ...mas continuo inteirinha...ahahah

Dulce disse...

Não consigo saber qual a cor que por primeiro marcou minha lembrança, mas vermelho está sempre presente na vida de qualquer pessoa, seja em forma de boas (um lindo vestido usado numa tarde de verão) ou más (o sangue escorrendo do dedo num corte feito pelo descuido do momento)lembranças. Além de ser a cor da paixão, dos sentimentos intensos...
Mas sei que agora, nesta fase de minha vida, o suave lilás acalma minha alma...
beijos

Lúcia disse...

Lembrou-me a Fafá:
'A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...'

Giro - Veio-me à memória os 2 pontos que levei na cabeça quando, andando de baloiço desses que faziam imenso barulho do enferrujado, e estando esse baloiço num parque com tecto (hoje a ASAE dáva-lhes), bati com a cabeça no dito(pois o objectivo era fazer andar o baloiço tão alto qtº possível). Não dei conta de que bati. Só sei que os meus colegas me avisaram 'tens sangue'. Olhei para o rapazinho de 8 anos que tentava impressionar e ele virou a cara 'ai, sangue...'.
E lá fui levar dois pontinhos á cabeça, pela mão da freira que regia aquela espelunca:))
Tão bom, lembrar estas coisinhas de nada!:)

BlueVelvet disse...

Pelos vistos a tua paixão pelo vermelho vem de longe.
Escusava era de ter começado de forma tão dorida:)
Adorei o texto. Ainda me lembro desses baloiços.

Gi disse...

Vermelho-encarnado Benfiiiiiiiiiiicaaaaaaa!

Rosa dos Ventos disse...

Gostei do teu vermelho assim como do branco da Si!
As meninas são umas artistas! :-))

Abraço

Laura disse...

Sabes que fiz este exercicio, há uns dias, no meu curso de escrita criativa?