terça-feira, 9 de junho de 2009

coisas de miúdos


Pisos anti-choque com sistema de amortecimento de quedas, materiais sintéticos, vedações, capacetes ergonómicos, cotoveleiras, joelheiras, caneleiras. Não existem joelhos arranhados e pinturas tribais desenhadas a mercurocromo, já ninguém parte a cabeça, esfola o queixo, raspa os cotovelos, exibe lindas e coloridas nódoas negras ou tem galos na testa. Raramente se vêem pensos rápidos, ou se ouvem gabarolices de pontos cosidos a frio.
Uma monotonia.
Agora já não há baloiços de madeira pendurados em elos de metal ferrugento, rangendo de sofrimento num ritmo exacto, que nos conduziam direitos ao céu e nos devolviam de regresso à terra. Deixavam-nos as palmas das mãos cor-de-laranja de ferrugem e cheias de calos orgulhosos.
Baloiçávamo-nos num tal para cima e para baixo, em velocidades galopantes que exigiam gritos estridentes de prazer, onde era tão fácil imaginar que seria mesmo possível voar. Bastava soltar as mãos das correias, lançarmo-nos para a frente, acreditar, conceber e sobretudo sonhar.
Não voaram tantas vezes assim?
Que pena aos nossos filhos já não nascerem asas.

33 comentários:

CNS disse...

Gostei muito Patti. Muito, deste texto que deixou os olhos cheios de saudade cor de laranja. E a olhar de soslaio as redomas onde todos os dias vejo entrar as nossas crianças.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pena não nascerem com asas, é verdade, mas felizmente têm mais espaço para sonhar do que eu tive na minha infância, porque o mundo em que cresci era cinzento e acanhado. Hoje, felizmente, é a cores e com horizontes muito mais largos.

Isabel Mota disse...

temos mesmo que nos conhecer, pessoalmente... os meus filhos continuam a ter galochas e a fazer saltos nas poças comigo.
talvez um dia possas vir ate ca, num dia meio quente de chuva e de galochas, com a tua familia...

um grande beijinho e boa semana de descanso ou de... o que for.

boa musica!

Desculpa a falta de pontuaçao mas na falta do meu pc, tive que recorrer ao magalhaes do meu filho...

Mike disse...

Eu voei. Muitas vezes. Parti a cabeça, o queixo e fui cozido tantas vezes quantas as que me lembro de ter voado. E hoje? Hoje sou olhado de soslaio, como um pai irresponsável que deixa o caçula brincar em cima do muro, de onde já caiu, ou andar de bicicleta sem joelheiras ou luvas. E mesmo o capacete... (shiiuuu... é para não arranjar problemas com a mãe... Patti, por favor, conto com a sua discrição.) ;D
Gostei muito deste texto. Mas muito mesmo. (risos)

annie hall disse...

Bem vinda !
Por aqui os miudos continuam a crescer correndo os riscos da liberdade....sobem arvores,saltam do baloiço , entram em tuneis das lebres e têm locais onde se escondem e sonham.
Vou parar com o meu outsider , por agora , por um tempo...nem sei se volto , é muito pouco provavel
.Na verdade quando penso nisso , acho que após o falecimento do meu Athilla ,o autor das crónicas, não saberia nunca como iniciar.
Vou vir mais vezes .Ana

Pepper disse...

Eu tinha esses baloiços no jardim em frente à minha casa.
Era tão bom voar até lá acima... :)

Luísa disse...

Minha querida Patti, resta saber se, por detrás de todo esse aparato de segurança, não existe uma fragilidade invisível que aumenta significativamente os riscos. No nosso tempo, lidávamos com ferrugem, mas havendo ferrugem, havia ferro. Hoje há o quê? Plástico? Esferovite? :-)

Gi disse...

Os meus filhos ainda andaram de baloiço.

Pitanga Doce disse...

Não Patti. Agora eles brincam no ar condicionado dos shoppings e gastam o dinheiro dos pais naqueles brinquedos ridículos onde saem tirinhas de papel que depois eles trocam por um lápis com uma pluma na ponta ou uma pulseira colorida de plástico.

As asas? Já não vendem mais.

Mas eu ainda procuro os balanços com ferrugem.

bom dia e quanto aos comentários lá em casa: tá quieta rapariga!

Marta disse...

Que delícia, Patti!

Tb me veio à memória o baloiço do quintal da casa dos meus pais e o da minha escola...

Gosto de andar de baloiço :)

Que BOM, este teu regresso.

pedro oliveira disse...

Pois minha cara, pena que nós os Pais lhas cortamos todos os dias sem dar conta.
Bom FDS

salvoconduto disse...

Até que não era má ideia e dar umas cabeçadas, cotoveladas, joelhadas e acima de tudo umas caneladas...

Só tenho que procurar em quem porque estou sempre a bater no mesmo.

Laura disse...

E lembras-te de por toalhas na cabeça para fingir que eram cabelos compridos? Gostei muito.
Às vezes ainda me apetece andar de baloiço...

Justine disse...

Que texto magnífico de nostalgia poética! Que saudades me acordou!

mjf disse...

Olá!
Eu e o meu irmão caímos tantas vezes fizemos tantas feridas...e a minha Mãe nunca foi a correr connosco para um Hospital:=)
Hoje uma criança bate com um dedo numa mesa...e lá vão a correr para as urg~encias do hospital mais perto, sem sequer olharem e mobilizarem o dedo do miudo...
Sinais dos tempos....

Beijocas

maria inês disse...

Acho que sempre voei demais! Era fã desses baloiços!

de dentro pra fora.... disse...

Que saudades...quantas vezes eu voei bem alto, acho que já vos contei...
Mas sabes os meus filhos ainda voam, é que tenho a sorte de morar no campo, ou pelo menos no que restou e espaço não falta, tal como não falta o baloiço.
Até eu as vezes me sinto tentada...(fosse eu mais leve...)

Luz disse...

Me embalei no balanço desse texto e cheguei as nuvens.
Solta e na maior liberdade.
Obrigada

f@ disse...

Patty... nem me faças lembrar das nódoas negras nem das queda as que ainda hoje existem...


de ir ás nuvens e aterrar na areia a uma velocidade que não tinha dó nem seguro para os joelhos...
nem me faças lembrar mas motoretas... nem dos muros altos ...... que isto de ter sido Maria Rapaz deixa marcas sempre ... e tantas alegrias...

boas lembranças....

imenso beijinho

Nina disse...

Eu fico pensando se há alguém nesse mundo adulto que sente mais do que eu essas tristezas de nao ver seus filhos tendo as mesmas alegrias que nós tivemos na infância... eu sinto tanto, mesmo sabendo que é outra época e que nao há o que se discutir :(

Bjs Patti, aaah, adorei a foto e a legenda ali embaixo,rs.

claudia disse...

Lembro-me perfeitamente dos baloiços, dos escorregas...eram diversoes bastante mais sas.

paulofski disse...

Este magnífico texto fez-me recordar todos aqueles momentos de um tempo de infância vivida intensamente, os quais ficaram bem cicratizes gravadas no corpo. Se hoje são radicais naquele tempo eramos completamente loucos.

Gasolina disse...

Quedas, todas as que tive direito, sem direito a sarar os esfolões que fazíam de cama aos próximos.

Mas ganhei a noção da dor, do risco, do perigo. Das consequências.

E agora?
Se não sabem voar como reconhecer as asas?



Beijo

Raquel disse...

olá!
Os meus filhos, por acaso, são dessas "aves já raras", que ainda brincam ao ar livre e fazem nódoas negras e calos nas mãos e em casa dos avós andam num baloiço de madeira com pegas de corda. As joelheiras e as cotoveleiras "não dão jeito nenhum" ( estão guardadas no armário) e os capacetes nunca lhes serviram bem ( estão também no armário), por isso são uma espécie de selvagens que brincam como nós brincávamos. Nenhum deles gosta de centros comerciais e também, mesmo que gostassem, não tinham grandes hipóteses de dar passeios por lá, porque os pais são alérgicos.
Mas temos que admitir que isto é raro e até pode ser mal visto (principalmente a parte das cotoveleiras, joelheiras e capacete). Nós estamos muito bem assim. Somos felizes.

Carla Sousa disse...

Adorei o texto, Patti! Nostálgico e cheio de emoção, tal como os momentos que vivemos "sem rede". Eu experienciei tudo isso... andava descalça, esfolava os pés (sobretudo os dedos), brincava em plena rua até tarde naquelas lindas noites de Verão, até que já não se escutassem mais vozes. Agora são tantos os obstáculos, que, no lugar das vozes das pessoas, escutam-se carros e barulhos que nada têm a ver com aqueles que ouvíamos outrora. Saudades!

Obrigada pelas memórias...

Beijinhos*

O2 disse...

Cara amiga lora, já tinha saudades de te ler assim, desta forma tão certa e intensa... qt ás asas, tem calm, tem calma que chegamos lá!

:)

besos de Barcolena, sim, estou pertinho de ti!

Violeta disse...

linda forma de ver a realidade...
Bom fim de semana, com asas...

cristina ribeiro disse...

Lembro-me bem desses voos fantásticos que, por vezes, acabam com um grande " galo " na testa, a não ser quando a queda era na areia. Nada que um bocado de papel de cartuxo de mercearia, embebido em água fria não resolvesse, e no dia seguinte estávamos prontos para outra. Lembrança boa...

Pitanga Doce disse...

Vais no brigadeiro ou cajuzinho??? É hoje, pá!

Sofá Amarelo disse...

«Asas são para voar...» mas há quem voe sem asas... infelizmente há cada vez menos que o conseguem fazer...

Filoxera disse...

Cabe-nos a nós fazer com que lhes nasçam asas. Internas.
Beijos.

Patti disse...

Raquel, Carla e Sofá Amarelo:
Muito bem vindas ao Ares. :-)

Rita disse...

Sempre adorei andar de baloiço, o escorrega e o balancé nunca me despertaram o interesse. Quando íamos de férias para a "terra" passava um mês inteirinho a andar de baloiço. Ainda hoje sempre que posso e não está ninguém a ver, não resisto...
Jokas