segunda-feira, 22 de junho de 2009

verão em lisboa I

foto luís ponte

Em Junho, quando terminavam as aulas, por vezes não tomávamos o pequeno-almoço em casa e de mãos dadas combinadas com muita conversa, estórias de pai que entravam nos meus ouvidos para nunca mais saírem e porquês cheios de curiosidade, descíamos a pé a Avenida pelo passeio do Tivoli. Momentos antes cumprimentávamos o Garrett e o meu pai dizia, um dia vais saber tudo das viagens da terra dele. Adivinhou.
A meio caminho, atravessávamos para o outro lado e quando chegávamos perto da Praça da Alegria, aqui foi...já sei pai, foi onde conheceste a mãe e depois passeavam no Jardim Botânico.
Baptizávamos os patos, dávamos pão seco aos pombos e eu contava pelos dedos da mão, a quantidade de pessoas a quem ele dizia bom-dia, até chegarmos ao Rossio.
Comíamos na esplanada da Suíça; torradas aparadas, chá fresco com limão e café de saco para ele. No fim, o prémio incongruente do qual trago o sabor na boca até hoje, impróprio para uma mãe, mas digno de um pai que se preze: um gelado de máquina, morango e baunilha, que descia numa perfeita espiral dançante até ao cone fino de bolacha estaladiça, terminando numa ponta finíssima em caracol. Lembram-se?
Depois de almoço posso comer o de chocolate? Claro que podia!
E as perfumadas velhas da mesa ao lado, com cabelos enlacados de um encantador branco-lilás, olhavam-no de lado e escondendo-se atrás de leques rendados, com desenhos de sevilhanas vestidas de bolinhas pretas, cochichavam entre si, parece impossível!
Ele ria-se, piscando-me o olho; rasgava-me as 7 Diferenças do jornal e voltava à leitura do seu Diário Popular, enquanto lhe engraxavam os sapatos.
Eram os melhores pequenos-almoços do mundo, tinham o gosto do proibido e um toque de segredo totalmente interdito de ser revelado, nunca digas à mãe que comes gelados ao pequeno-almoço.
Prometo.
E até hoje nunca disse.

24 comentários:

Alecrim disse...

Instalou-se na alma uma tristeza inveja por nunca ter tido um pai assim. Não é bonito mas é verdade.
Um beijo, Patti.

Patti disse...

Alecrim:
Há quanto tempo!
Mas terás tido outras tantas coisas e pessoas na tua vida, de certeza.
Beijinho.

salvoconduto disse...

As perfumadas velhas encontrava-as eu à tarde, num salão de chá, ali perto, junto ao elevador de Santa Justa, a beberem branco em chávenas de chá...

Mike disse...

Uff! Patti, este seu (encantador) texto ajudou a tirar-me um peso da consciência. É que aqui para estes lados são os gelados e as guloseimas. Acho que vou começar a pedir aos mais novos para não dizerem nada à mãe. ;D

Pitanga Doce disse...

Viste? Um segredo de família. Não é só a Familia Real que os têm.

bom dia Patti e lindo o Verão em Lisboa!

Este fim de semana andei com imgens do Verão em Coimbra a dançar na minha cabeça o tempo todo. Uma provocação!

PAS[Ç]SOS disse...



As reticências querem dizer silêncio. O de quem se comoveu a ler, o de quem se deliciou a imaginar. De hoje em diante, ao satisfazer os pequenos pecados dos meus filhos, vou aliviar a minha ‘culpa’ de pensar estar a não cuidar da sua educação, de julgar que lhes estou a comprar a companhia, pois, quando me lembrar destas linhas aqui lidas, vou ter uma certeza: estou a comprar, para eles, uma pequena fatia de felicidade!

Isabel Mota disse...

Olá Patti

Que grande herança! Também eu tive um pai parecido. Hoje, continua com algumas excêntricidades, e um imenso Amor que, pessoalmente, considero ser a maior herança que um pai pode deixar a um filho.
Uma boa semana para todos.
Isabel Mota

Nina disse...

Que belo relato Patti. Que belo! Tive poucos momentos com meu pai (minha mae se separou dele quando eu ainda tinha 5 ou 6 anos, paoai nao era fácil!) mas tbm guardo boas lembrancas, tao boas que me fazem esquecer as ruins.

Estou lendo um livro que fala mt disso, da relacao que os pais tem com os filhos, do quanto ter um bom relacionamento pai e filhos pode ser altamente bom pra o futuro da crianca. Impressionante as coisas que podem mudar qd a crianca tem um pai presente. Algumas coisas, segundo o livro, parecem ser mais marcantes até mesmo que as relacoes que o filhos tem com as maes...

Um beijo

fugidia disse...

Hum.... gelados!
(adoro gelados e nestes dias as filhotas - e eu, verdade seja dita! - temos atacado, sem vergonha, as dezenas de Olás que recheiam o congelador: está muito calor para subir/descer avenidas...)

Uma boa semana :-)

pedro oliveira disse...

Os Pais são uns babados com as suas princesas e eu que o diga...
Tmabém já tive dessa , "mas não digas nada à tua mãe"....
boa semana
bjs

annie hall disse...

Estas são as melhores heranças quer recebemos ,não é?

de dentro pra fora.... disse...

Olha vê lá se a mãe não dá aí uma espreitadela e fica a conhecer o vosso delicioso segredo...
Sabe tão bem recordar :)

Álex disse...

que sorte! (vou pensar se eu tive alguma assim...uhmmm nãããã...)

R.Rosmaninho disse...

Também guardo recordações bonitas da infância, de brincadeiras e cumplicidades com o meu pai e com a minha mãe. Cada um soube (e sabe ainda)estar comigo de uma maneira diferente, demonstrar carinho de forma diferente. É muito bom pensar nisso.
Obrigada

liamaral disse...

Linda a história e mais bela a forma como contas! Também tenho a sorte de ter um Pai que me contava histórias e que hoje relembramos com saudade mas também com imensa alegria!
:) Beijinho

errosmeus disse...

Patti
ficou desvendado de onde te vem a inspiração para a escrita...
Não é preciso perguntar porque de certeza sabes da importância de ter tido um pai assim.
bjs

f@ disse...

Patti....

Para sempre... essa magia... de ter o quente gelado dos pequenos almoços em cumplicidade e carinho tão ....
únicos...

imeso beijinho

Rita Vasconcellos disse...

... é lindo o texto sobre o seu pai bj Rita

Rosa dos Ventos disse...

Terno registo familiar!

Abraço

Luísa disse...

Patti, eu que detesto o Verão, é do Verão que me recordo quando penso na infância. E também aparecem gelados, não os da Suíça – de que tenho uma vaga ideia, sim – mas os do Santini, que tinha, então, estabelecimento aberto em Lisboa, no prédio ao lado do nosso. Um texto muito bonito, Patti, que me lembrou dos longos passeios pela Avenida que o meu Pai fazia, não comigo, mas com a neta. Saudades! :-)

Filoxera disse...

Que bom, relembrar essa cumplicidade entre pai e filha.
;-)

Gi disse...

Com o meu pai tive imensas cumplicidades, mas como vivia num país sempre quente, ao pequeno-almoço era mesmo sumo gelado, chá gelado, leite gelado.

E o pai da Beatriz também lhe dá gelados ao pequeno-almoço?
Se calhar diz-lhe vai dizer à tua mãe!

Fatima disse...

Que bom é ter estas "rotinas" em criança!
Também tive as minhas, e os meus filhos não fugiram à regra.
Obrigada Patti por este bocadinho delicioso.
Eu não conto a ninguém que comias os tais gelados de manhã....

paulofski disse...

Que bem me sabia um de baunilha tirada na hora da máquina de gelados que havia na gelataria no passeio junto à praia. Mas para ter esse prazer tinha de ser bem comportado, esperar pela hora certa e pedir 50 escudos ao meu pai.