quarta-feira, 17 de junho de 2009

biografias # 4


Aurélio Madeira ganhou o vício do palitamento em equilíbrio na beiça grossa, com o pai taberneiro e desde o primeiro momento em que este o autorizou a colocar estrategicamente o dito ao canto da boca, Aurélio Madeira nunca mais o largou.
A tradição era já ancestral; sempre conhecera o seu pai no domínio perfeito da técnica da palitagem, tinha ainda vagas memórias fumarentas da boca do avô, onde palito e cigarros enrolados, conviviam primorosamente controlados com perícia e sabia de cor a árvore genealógica, com mais de 180 anos, da arte de palitar dos Madeira.
Quando chegou o seu grande dia, anda cá Aurélio, toma lá o teu primeiro palito e estima-o como a um filho, disse-lhe o pai comovido, ainda com as palavras do seu próprio pai presentes na memória: tens de morrer com um palito na boca!
Apesar de vários anos de observação meticulosa, a coisa não foi assim tão fácil como parecera. Primeiro teve de sofrer um pouco, até conseguir acamar o palito e reservar-lhe lugar numa fenda da gengiva. Demorou uns tempos para vincar essa brecha sangrenta, mas finalmente fixou o palito na abertura da pele, no canto extremo direito da boca.
Depois deste saber o seu lugar, foi a vez de aprender a manusear o fiambre, isto é a língua.
É que aquilo não era só chegar ali, fixar o pedaço de madeira e vamos embora com a dança. Nada disso, um verdadeiro expert do palitamento teria de aparentar uma certa descontracção no seu manejo; enquanto comia; nas conversas; durante uma bebida; a dormir, até! O segredo estava na manobra da língua, era ela a ágil alavanca, a grande aliada de todo o processo de palitagem na família Madeira.
O mais complicado para Aurélio, foi mesmo dominar a técnica da conversa e em simultâneo, prender o palito ao canto da boca, sem que este nunca se desviasse da fenda gengival, conseguida à custa de muito sacrifício, dores e cicatrizes. Mas uma vez conseguido, não fosse ele um Madeira legítimo, tudo iria correr sem percalços. E foi o que aconteceu.
Com os anos, o branco da boca passou a amarelo tabaco, as gengivas escureceram, exibindo várias tonalidades do espectro, que iam do violácea ao cinza escuro, passando pelo laranja ocre, e um hálito poderoso já há muito se entranhara nas paredes da taberna, deixando Aurélio Madeira rejubilando de orgulho.
Era uma questão de imagem, de honra familiar, de dignidade histórica! Todos os Madeira morreram fétidos e contaminados pela lei do palitar e ele não seria diferente.
Aliás, até desconfiava que um nível de putrefacção como o dele, nenhum antepassado tinha atingido.
E soube que tudo correria bem e que a sua hora se aproximava em glória, quando vieram as cáries nascidas dos petiscos da taberna; as lascas dos pastéis de bacalhau ficavam presas nos entremeios do esmalte da dentadura e aí apodreciam; pequenos fragmentos de casca de azeitona verde, aninhavam-se nos buracos da dentina exposta e por lá fossilizavam; minúsculos ossinhos, quase microscópicos, de passarinhos mortos com a pressão de ar, esventravam a fenda da gengiva descendo até à raiz; pedaços de suculento torresmo mal mastigado, acamavam e abcessavam virulentos; gordurinha excedente das moelas e dos pipis, iam preenchendo os espaços livres deixados por dentes em falta, originando em toda a placa bolinhas de matéria purulenta, pequenos quistos ensanguentados e uma ou outra larva mais atrevida e perdurável.


biografia #1, biografia #2, biografia #3

30 comentários:

salvoconduto disse...

Eita, tens mesmo que ser assim? Agora durante um mês não vou poder comer bolinhos de bacalhau!

Nem as moelas, nem os pipis poupaste!

Luz disse...

É encantador ler suas perfeitas descrições de um ato como o palitar!
A família Madeira deve estar orgulhosa!
Beijim

Pitanga Doce disse...

Ó Patti, minha pequena, acho tomaste Sol a mais no post abaixo! hehehe

boa noite

Palitos... hic!

Gi disse...

Tu tens uma fixação por palitos, pá(tti).;)

Este Aurélio Madeira é muito parecido com o Silvester Stalone (vidé foto)

Patti disse...

GHi:
Não percebi a fixação...

annie hall disse...

Bem , confesso que apenas por ser uma sua leitora fiel li tudo até ao fim.
Acabei mesmo enjoada ...mas li tudo :))))
Bj ana

Patti disse...

Aniie:
Hahahahahaha; a ideia é essa: resistir até ao fim! :)
A última parte também me custou a escrever, mas deu-me foi para rir.

PAS[Ç]SOS disse...

iac! Cheguei ao fim a sentir um tal odor nauseabundo… que perante tão minuciosa e proficiente descrição questiono-me onde termina a imaginação e começa a… experiência :)

Patti disse...

Passos:
Tudo imaginação, menos a parte das larvas, pois até acho que são uns bicharocos queridos :-)

mike disse...

Aromática, Patti? Com muito boa vontade, eu diria. Continua cítrica, mas a escrever lindamente. :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Conheci alguns membros da família Trunqueira que tinham como matriz a arte do empalitanço.
Quanto a palitanços só conheço casos isolados, como o do sr. Artur, taberneiro, que por detrás do balcão vai servindo aos camionistas de passagem "copos de três" e "penalties", aromatizados com o suor que lhe escorre do sovaco.
Tem uma particularidade, o sr. Artur... o seu palito é multifunções. Tão depressa está nas cavidades dentais,cumprindo a sua nobre missão, como serve de pente para alisar os pelos que se lhe escapam da t-shirt de alças.

pedro oliveira disse...

Ó melher já vi(mais ou menos que ando com o olho empanado)que regerssaste cheia de pica.
bjs

Pepper disse...

Que post fantástico Patti! Foi muito bom e agradável de ler.
E eu que odeio ver pessoas com palitos na boca. :D

maria inês disse...

Credo moça, palito no dente???

Violeta disse...

Oh! vizinha Patti
tu andas inspirada.
Fozeste-me lembrar um taberneiro lá da aldeia que tinah sempr eos cantos d aboca rebentados. A minha mãe mandava-me chamar o meu pai á taberna, quando o jantar estava pronto e eu ia cheia de nojo daquele homem.
A mulher uma verdadeira senhora - filha da professora da única primária - deve-se ter arrependido amargamente do dia em que se prendeu de amores por ele. Sem que a mãe desse conta ele roubo-a, mais tarde pôs mão á fortuna dela e maltratava-a. Diziam as más linguas da aldeia que tinha sido praga que a mãe lhe lançara...
pronto já escrevi o meu post de hoje.
bjs

james stuart disse...

Foi muito bom voltar a visitar o "ares". Por falta de oportunidade não tenho cá vindo ultimamente.
Até senti inveja pela qualidade de alguns textos que li!
Bem haja

Patti disse...

Mike:
Pronto, ria-se lá agora um bocadinho para passar o aroma cítrico.

Carlos:
Até que enfim, alguém que entende o espírito do meu post!

Violeta:
Tu és a prova provada de que eu falo verdade neste post!

James:
Seja bem-vindo, há quanto tempo, é verdade! E obrigada pelas palavras.

mike disse...

(gargalhada sem fim)
Patti, muitíssimo obrigado. :)
Já ri e brinquei e fartei-me de fazer cócegas. (E a minha mais velha quer que lhe reenvie o link). Passou o aroma cítrico. :D

Pitanga Doce disse...

Ó carago agora é que ri a valer com o comentário do Carlos a somar ao teu post. Vocês dois deveriam ser internados!!!hehehehehehehehehehehehehehehehehhe

E a troca de letras (sem querer) da Violeta também está demais! Fozeste-me lembrar????? hahahahahahahahahaahahahahahahahah

Filoxera disse...

Excelente! Tanto o texto como a imaginação que o gerou.
Beijos.

Violeta disse...

Oh querida pitanga agora é que vi os erros.
Pois é, escrevo rápido e como se vê não volto atrás a ler.
Que me sirva de lição... Por um pouco não escrevo um palavrão e lá a patti tinha que escrever piiiiiiiiiiiii.
Desculpa Patti e aos restantes leitores também
;)

Pitanga Doce disse...

Violeta, falo por mim (que sou leitora) não tens que pedir desculpas que ficou muuito engraçado.

Desculpa o pitaco, Patti.
Este post está o máximo pra rir (e eu precisando tanto!)

beijos meninas

Rosa dos Ventos disse...

O apelido é por causa do palito ou o contrário?!
Que capacidade de observação para descrever este tipo de português nada suave! :-))

Abraço

R.Rosmaninho disse...

Bem, este texto é de cortar...o apetite!
Muito bom. Estes pormenores descritivos não são para quem quer, mas para quem pode.
Que tal um livro com todos estes textos fantásticos?

Patti disse...

Violeta:
No problem, a menina Pitanga é que é uma brincalhona.

Rosa dos Ventos:
o Madeira foi pensado, sim.

bacouca disse...

Patti,
Comecei novamente a vir ao seu "ar de graça" (mas tão sério!) depois de um interregno que fiz com o computador. Vou hoje comentar o último.
Tinha acabado de jantar e confesso que fui logo lavar os dentes e usar o fio dental!
"Madeiras" e "Trancosos" sabemos que para eles o palito é uma "ferramenta" fundamental, mas agora os "outros" que até têm acesso a ambientes ditos civilizados onde se "poliram" no manusear dos talheres, na escolha dos vinhos, nos comentários a algum concerto ou livro e depois de uma requintada refeição poêm a mão à frente da boca e ... palitam os dentes? Que venha o diabo e escolha!
Um beijo

Luísa disse...

De facto, Patti, este seu «post», de associação com o comentário do Carlos, está demais! Mas rir, como me apetece rir, só depois de ir ali um instantinho fazer a mais enérgica lavagem aos dentes de sempre (incluindo o fio dental e o escovilhão cónico). ;-D

Patti disse...

Luísa:
Ainda bem que também entendeu a comicidade do meu post, mesmo que só depois da sua lavagem a rigor.

Sunshine disse...

O teu texto está fantástico!
Nunca imaginei que técnica da palitagem fosse assim tão difícil;)
beijinhso com raios de sol

Ada disse...

O ar da tua graça é sempre uma graça! Lembrei-me das vezes em que usei palito e, por alguns instantes, na intimidade da rede de dormir cochilos da sesta, o fiz rolar entre os lábios, e girar como o descreves o do Madeira... O que!?Você nunca palitou seus dentes? Aliás, descreves tão perfeitamente a técnica que são duas lições: como usar e porque não usar. Me diverti imensamente! Me identifico muito contigo nas tuas sensíveis observações da vida. Parabéns pelo belíssimo e bem escrito texto!