quinta-feira, 19 de março de 2009

biografias #2


Maria Apolónia nasceu do outro lado do mundo, em Melbourne. Filha de emigrantes portugueses na Austrália que para lá partiram atrás da vã fortuna, mas deixando em Lisboa o coração.
Quando o marido morreu, a mãe resolveu pegar na trouxa e nos filhos, regressando à pátria no primeiro barco.
Maria Apolónia tinha somente a instrução primária, mas como dominava a língua inglesa, arranjou facilmente emprego como mulher a dias na casa de um poeta, que vivera muitos anos na África do Sul e que engraçou com o sotaque dela.
Gostava muito do seu novo trabalho, o patrão pouco mais lhe exigia do que manter a casa limpa e a roupa devidamente tratada. Com as refeições não se preocupasse, pois ele comia quase sempre fora de casa. Só lhe impunha uma rigorosa e única condição; que não tocasse nunca nas centenas de papéis que tinha espalhados pela casa. Era uma espécie de biografia dele, e de um tal de Bernardo e não podia perder nem uma folha.
Credo Sr. Pessoa, Deus que me livre tocar nessa papelada toda cheia de letrinhas inclinadas! Nem eu saberia dar ordem a tanta folha e depois, ainda ficava para aqui com o coração num Desassossego!
Maria Apolónia tinha o patrão como um homem muito educado e calado, tímido até, mas quando recebia os amigos e se fechavam todos no escritório, aquilo eram discussões de meia-noite, vozes alteradas, discursos inflamados, declamações poéticas, enfim, um ror de conversas exaltadas. Como é que um homem tão pacato, se identificava com amigos tão barulhentos e contraditórios?
Muitas vezes diziam palavras e frases que ela não entendia, pois nunca as tinha ouvido na vida, como metafísica, filosofia, engrenagem, via láctea, infausta esfinge, embalsamar ou subjectividade objectiva. Mas noutras alturas, Maria Apolónia compreendia tudinho e até apontava na lista de compras de tão bonitas que eram as expressões que escutava; querer mais é perder isto, Tejo e tudo, todos os sonhos do mundo, verdes campos, os paquetes que entram de manhã na barra, coroai-me de rosas e de folhas breves, a natureza é partes sem um todo e o menino Jesus adormece nos meus braços.
Nunca vira os amigos do senhor Pessoa, quando ela pegava ao serviço eles já lá estavam trancados no escritório com o patrão. Mas sabia identificar cada um deles com todos os pormenores, como se lhes tivesse posto a vista em cima, com os dois que a terra haveria de lhe comer.
O senhor Álvaro era o mais exaltado e parecia-lhe que nunca se sentia bem em lado nenhum, tanta era a refilice. No entanto, achava-lhe alguma piada porque ele dizia muitas palavras em inglês que mexiam com as suas memórias. Passeava-se bastante pela capital, Lisboa Revisited, como ele gostava de repetir sem se cansar e fregueses como ele, também devia haver muito poucos, pois gastava sempre, sempre na mesma Tabacaria.
Era um pouco cínico e até houve aquela vez, que troçou das cartas de amor que o senhor Pessoa escrevia à sua amada, a menina Ofélia, chamando-lhes de Ridículas! Mas se o patrão não se ralava, também não era ela que se ia incomodar com o assunto.
Ao médico, o senhor Ricardo, achava-o muito gentil e tinha a certeza que ele sentia uma enorme paixão pela botânica, pois falava muito de flores, grinaldas, folhas, primavera, magnólias e a sua voz enchia-se sempre que falava de rosas. Ou se calhar, arranjara um namorico com alguma vendedeira da ribeira. Fosse o que fosse, os outros chamavam-lhe de bucólico e quem era ela para os contradizer.
Mudou-se para o Brasil, que aquilo de repúblicas não era nada com ele. Nunca, mas nunca mais soube nada do senhor doutor, nem sequer quando morreu.
E o senhor Alberto?
Ai o senhor Alberto... que criatura encantadora! O que Maria Apolónia o venerava.
Via-se logo que era um homem simples, mas todos lhe tinham grande respeito, ah pois! Mal ele começava com aquelas poesias sobre os pastorinhos e os rebanhos, fazia-se um silêncio profundo naquela casa e as suas palavras ecoavam por todo o bairro. Maria Apolónia é que não era mulher dada a ocultismos e astrologias como o senhor Pessoa, senão, até podia jurar que aqueles versos iriam voar através dos tempos.
Conseguia imaginar a cara de espanto daqueles amigos, fechados no escritório e deliciados a escutar tamanha beleza.
Era um Mestre o senhor Alberto, oh se era!


28 comentários:

Pitanga Doce disse...

Como consegues isto, Patti? Prendes a nossa atenção até ao fim e ainda "juntas tantos poetas" ao mesmo tempo, num só escritório?

Seja por qual motivo a tua breve ausência, fez-te muito bem!

boa noite, menina

de dentro pra fora.... disse...

Por momentos lembrei-me de mim...não nada disso não sou poeta nem coisa que o pareça, mas as vezes também tenho os meus 'debates' comigo mesma.
Belo texto, sim senhora :)

Beijinho

once disse...

e podia ter sido tudo verdade .. assim tal e qual.

Muito bom Patti, o encadear do lógico sobre a ficção em que chegamos ao fim se saber muito bem se de facto, não terá sido tal e qual.

:)

Patti disse...

Once:
É verdade e porque não?

Luz disse...

Belíssimo e gostoso texto.
Parabéns minha amiga.
beijo

R.Rosmaninho disse...

Genial. Parabéns!!!

Teresa Durães disse...

há certas pessoas que têm esse dom: de silenciar uma sala

Gi disse...

Fónix!
Eu não digo!
E não é que as mágicas blogalógicas existem?!!!!
Olha lá ela chama-se Apolónia porque a mãe a teve no meiode uma grande dor de ..... dentes?

pedro oliveira disse...

A presidentA está autorizada pelos prevaricadores a ausentar-se sempre que quiser, tem é uma obrigação, sempre que regressar tem de produzir "textos" deste calibre!Este jogo de palvras e esta facilidade de escrever não está ao alcance de todos.Ser PresidentA ,não é para quem quer...

Si disse...

Ó Patti, estes escritores ainda se vão revoltar um dia....onde é que já se viu, tantos anos depois, verem a vidinha deles toda ao léu??
(Isto foi o que me chegou aos ouvidos, sobre uma possível teoria da conspiração entre Camões, Pessoa, Bernardo, Álvaro, Ricardo e Alberto....)

Luísa disse...

É muito interessante esta sua deambulação biográfica, Patti (na continuação da «lírica»). Pela imaginação que põe no detalhe e pela satisfação que temos na identificação dos detalhes.
P.S.: É engraçado que as áreas mais desarrumadas das casas sejam, geralmente, os escritórios, os ateliers ou as bibliotecas, precisamente aquelas em que as empregadas são invariavelmente proibidas de entrar. Mas para quem conhece a ordem na desordem, não há pior do que a desordem de uma nova ordem. ;-D

1/4 de Fada disse...

Não me custa nada a crer que fosse assim... em grande, Patti!

f@ disse...

Oh Patti... Sublime....

Ainda vai que lhe arranjas-te uma empregada... mas porque não lhe chamas-te antes A u r o r a...

beijinhos

Violeta disse...

Patti
muito bonito e bem "urdido".
estás de parabéns.
violeta

paulofski disse...

Agora que a minha mãe lê blogues vou referênciar-lhe este Ares, ai vou, vou!

salvoconduto disse...

Ainda cheguei a dizer para os meus botões: não me digam que a Maria Apolónia ainda vai entrar pelo escritório adentro para tentar por cobro a tamanha algazarra. Felizmente contiveste-te.

Rosa dos Ventos disse...

Um mimo esta tua apresentação da heteronímia do Sr. Pessoa através do olhar da Maria Apolónia, sua empregada!

Abraço

Mike disse...

Eu venho aqui, leio os seus posts e fico sem saber o que dizer, quanto mais comentar, Patti. E a f@ chamou a este post sublime. Pronto, até o único comentário que pensava fazer me foi roubado. ;)

ematejoca disse...

Que o nosso Pessoa tivesse posses para ter uma empregada doméstica é uma novidade para mim.
Este texto, Patti, é um tesouro, um dos tesouros para ficar para sempre na nossa memória.

What the Robin Told

The wind told the grasses
And the grasses told the trees.
The trees told the bushes,
And the bushes told the bees.
The bees told the robin,
And the robin sang out clear:
Wake up! Wake up! Spring is here!
~ author unknown

Um beijinho primaveril para ti, Patti, da Teresa de longe!

Nina disse...

Com um texto bom desses fica facinho facinho viajar pelas tua letras, Patti!

Incrivel, a sensacao que tenho te lendo, é como ondas, sabe? ondas tranquilas que vem e vao...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ontem tinha deixado aqui um comentário que dizia o seguinte:
Agora já percebo a razão do nome de um apeadeiro que existe algures em Lisboa. Na verdade a Maria Apolónia só podia ser Santa!
Querem ver que o Papa ficou encanitado com o meu post dos preservativos e agora anda a boicotar-me a caixa de comentários?

Rita disse...

Até consigo ver a D.Apolónia a limpar a salinha enquanto pela porta do escritório saiem as vozes de que ela tanto gosta...
Jokas

Patti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patti disse...

Eu chamar-lhe-ia privilegiada, mas se entendeu assim...
Não podemos gostar todos dos mesmos poetas.

bacouca disse...

Patti,
Não posso estar alguns dias sem vir aqui pois senão os meus neurónios ficam aos saltos com tanta realidade misturada com pinceladas de imaginação!!!
Que dizer? Ora bolas, uma vez mais parabéns!(nem me dá hipótese de ser um pouquinho original no comentário, caraças!)

cristal disse...

Só hoje ao fim do dia tive tempo para ler com atenção. Que maravilha de texto! Obrigada

Tite disse...

Adorei!!!

Que bonita mistura de ficção com a realidade.

Ou talvez não...

tu és a verdadeira Maria Apolónia que viveu na geração de Pessoa e contas-nos como foi, simplesmente.

josé luís disse...

maria apolónia,
trate sempre bem o senhor pessoa e, na medida do possível, das suas visitas. a senhora não sabe mas tem o privilégio de privar com alguém muito raro e precioso. um dia, maria apolónia, apenas por ter tratado da casa do senhor pessoa e das suas visitas, um dia ainda vai ser famosa, a senhora vai ver, ainda vai ser inventada por alguém que gosta muito de ler o que o senhor pessoa escreveu e que vai descrever maravilhosamente o que era a sua vida aí em casa, acredite no que lhe digo, maria apolónia.
(adorei)