terça-feira, 17 de março de 2009

rosa

foto fanciful twist

Há muitos anos que não vejo telejornais e se eles, matreiros, me apanham distraída e se intrometem no meu caminho, troco-lhes as voltas, tiro-lhes o som, ponho alto um cd, mudo de canal, desligo a televisão.
Esta minha negação assumida, de impedir que a realidade me entre pela vida adentro a toda a hora e sempre que lhe apetece, faz-me recordar a Rosa das saias de folhos.
Era uma 'maluquinha' que durante muitos anos passava à porta da nossa casa, rindo sempre alto, tinha conversas desconexas consigo mesma, criava vozes, respondia-se, dançava à volta das crianças, abraçava os animais, nunca fez mal a uma mosca.
Vestia sempre compridas e rodadas saias de folhos, lenços no cabelo, colares de mil voltas e pulseiras barulhentas. Toda ela era uma festa.
Nunca ninguém a evitou, teve medo dela, enxotou ou sequer lamentou. Rosa era quase igual a todos que morávamos naquela rua, com a única diferença de que era mais feliz que nós. Mas pouco ou nada a entendíamos.
Um dia regressou de um dos seus habituais períodos de internamento, totalmente diferente.
Depois de uma crise mais forte que o habitual, teve de ser medicada com uma dose de peso. Passeava agora na nossa rua de cabeça sempre baixa, roupa discreta e sem folhos, rezava baixinho, não nos conhecia, não brincava com as crianças e fugia dos cães.
Às vezes levantava a cabeça para o céu, andava à roda sem parar e dizia a chorar, ai mundo que não gosto nada de ti desta maneira.
Foi essa a única vez que a percebemos e tivemos pena dela.
E penso que de nós também.

26 comentários:

ematejoca disse...

As tuas histórias, Patti, tem nível literário, são, porém, muito tristes e acabo sempre por me comover.

Não queres levar o novo prémio/selinho? Está à tua espera!

Para ti uma semana muito alegre!

BlueVelvet disse...

Este teu magnífico texto, ( que nem imaginas como vem a propósito)fez-me lembrar uma das frases de que mais gosto de Fernando Pessoa:
“ Em todos os manicómios há doidos, malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho certeza nenhuma, sou certo, ou menos certo?”*.
Bjs

Nina disse...

Isso foi mt bonito Patti. A conexão que vc fez com o mundo à volta cheio de mazelas e o mundo da Rosa, foi interessantíssimo.

Deu certa dó ao vê-la perder suas cores...
Lindo post, Patti.

once disse...

todos precisamos de uma dose de solipsismo atrevo-me a afirmar .. e sem saias de folhos também eu digo que não gosto nada deste mundo da maneira que está ..


(acredita que acabei de ler algo emocionada Patti, parabéns pelo sentimento que as letras conseguem incutir)

Teresa Durães disse...

É difícil entender a diferença daqueles que chamaste "maluquinha". Contudo, muitas vezes são iguais a qualquer outros, apenas vivem mais o mundo

claudia disse...

Será que se todos tivesemos um pouco de" maluquinhos" imaginariamos um mundo mais colorido? Será que seriamos mais amigos ds crianças, dos animais? Sorririamos mais vezes???
E se todos os dias vestissemos por um minuto a saia de folhos da Rosa???

bjos ( adorei o texto )

R.Rosmaninho disse...

Muito bonito.
Eu também gosto de impedir a realidade de me entrar pela vida adentro sempre que lhe apetece e faço-o principalmente nas férias e nos fins de semana fora de casa. Nessas alturas nunca há televisão, nem rádio, nem consolas, nem computador. Só é permitida a música, os livros ou qualquer entretenimento que dependa só de nós. Não fazer nada faz parte do entretenimento. Olhar para o tecto ou para o céu ou para onde quisermos e deixarmo-nos ficar assim, para o que vier. E só isso faz toda a diferença. São as poucas vezes no ano em que sinto que não estou a viver em contramão. Os meus filhos também gostam. Sinto-os sempre mais tranquilos nessas alturas. Claro!
Parabéns pelo blog.

CNS disse...

Como no faz falta os folhos no nosso olhar sobre o mundo...

parabéns pelo texto!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Consumo muita imprensa,mas reduzo os telejornais a 15/20 minutose vejo poucos programas de debate(?) televisivo. Não para fugir da realidade, mas porque prefiro ser informado pelos olhos de outros países.
Talvez seja por isso que,quando regreso a Portugal, depois de uns dias lá por fora, me sinto um pouco como a Rosa e fico sempre uns dias com os humores alterados.

Gi disse...

Eu se fosse a ti via telejornais, tu sabes lá quantos rosas, laranjas e outras cores encontravas a rodar a baiana. Devia ver este manicómio a céu aberto chamado Mundo enfiado num pequeno écrã.

1/4 de Fada disse...

Patti que tu tens um condão de me deixar sem palavras! Fizeste-me lembrar de um comentário que ouvi muitas vezes dito em relação a mim: "Não estou a gostar nada de ti hoje!"

pedro oliveira disse...

raramente os telejornais a não ser o da 2, masdá paar ver que o mundo se tornou num manicómio global.
Já estávamos com saudades!

Rosa dos Ventos disse...

Por aqui andava a Ti Maria das Flores que, além das braçadas de flores, se fazia acompanhar por um pato que umas vezes andava atrás dela como se fosse um cão, outras em cima da cabeça numa atitude de equilibrista.
Hoje lembraste-me a Ti Maria das Flores que não pedia nada a ninguém e ninguém sabia de onde surgia.
Como vinha, ia e um dia desapareceu!
Comoveu-me a tua Rosa!

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Quero acrescentar que também não suporto os noticiários, fazem-me mal, incomodam-me.
Tenho que os aguentar em determinados horários porque o meu compagnon de route não sobrevive sem eles, mas procuro abstrair-me...

Abraço

paulofski disse...

Linda era a Rosa, que de flor inocente e feliz lhe podaram as petálas que a encantavam e tornavam diferente por uma de estufa, sem perfume e sem espinhos.

Tão simples e no entanto tão igual a outras rosas de outros jardins.

Fatima disse...

Patti tenho andada preguiçosa nos comentários. As minhas desculpas! Também eu não vejo telejornais há muitos meses, anos, nem TV. Cansa tanta coisa má que por lá se vê. A violência das palavras, dos filmes, de tudo!
Sabes que quando eu era pequena havia em Algés uma personagem semelhante à tua, só que não se vestia com cores tão airosas...
Um grande abraço

Pitanga Doce disse...

Também acho que andamos a precisar de um tratamento mas ao contrário do da Rosa. Um que nos faça ver tudo mais colorido.

Amanhã deixo-o no ar.

beijos Patti

Violeta disse...

A tua história lembrou-me outra, tinha outro nome, nome de Oliva, mas tb teve folhos e... e tb terminou sedada.
fico-me por aqui, ainda não alcancei a estrutura para grandes emoções...
um bj

f@ disse...

Patti,
Parabéns pelo texto...

o MUNDO É O DA ROSA...
QUE TEM UM PERFUME ÚNICO... ESSÊNCIA...

Todos nós conhecemos alguém assim tão especial...
mtas vezes me lembro de pessoas únicas,... que foram os "loucos "daquela terra ou da rua... ou os loucos somos nós...
sempre tenho pena dos que sentem pena... compaixão... mas ás vezes tb não consigo evitar... o que quer dizer que sou digna de pena...
...
vamos lá entender o que sentimos e o que somos...

beijinhos

mariam disse...

Patti,

escusado será dizer que voltar aqui é um exercício incrível, um 'jogo de cintura' entre o chorar e o rir... poucos blogs me fazem sentir assim...... identifico-me com n coisas que escreves e sentes... olha, no Sábado passado, em Sintra, interrompi minha viagem, parei o carro e sentei-me junto a uma mulher 'a entrar na velhice', num banco-de-jardim à beira da estrada, sempre que lá passo e passo bastantes vezes a mesma mulher no mesmo banco-de-jardim, faça sol ou esteja frio... lábios muito (mal)pintados de encarnado vivo e unhas (grandes) cor-de-rosa ... e o sorriso desdentado, sempre a sorrir . cumprimentei e perguntei 'costuma estar sempre aqui...' "Sim, menina. sabe tenho que estar aqui!!!! não sabe? é p'ra tomar conta das ocorrências! sabe? ele não está bom-da-cabeça, quer que eu lhe dê uma menina! então não sabe que fiz operação de barriga aberta??, sabe menina, vou-me casar no próximo Sábado!" ... sorri-lhe, desejei-lhe boa sorte e perguntei se lhe podia tirar uma foto, respondeu, "Sim, menina, as que quiser! e pode vir ao meu casamento também!" , Patti, fui para o carro, caíu uma lagramita e custou-me a 'arrancar' ... lembrei ainda das pessoas que por ela passam olham-na mas nunca a vêem ... quando deixar de se sentar naquele banco-de-jardim ninguém saberá quem era nem porque insistia em se sentar ali... a frase provável será 'desapareceu a maluquinha... '

sorry o lençol... culpa tua!!!

deixo um raminho de frésias, um abraço e o meu sorriso :)
mariam

Luísa disse...

É complicado, Patti. A gente, se se alheia, é porque se alheia. Mas se não se alheia, tem de carregar um peso que não é leve. Eu acabo por dar alguma atenção ao exterior, incluindo telejornais, porque tudo me serve para não pensar demasiado em mim. Mas a realidade é muito dura e não há dúvida de que a comunicação social consegue torná-la também deprimente. Felizmente para mim, consigo sempre descobrir no meio dela uns palhaços que me vão fazendo rir.

cristina ribeiro disse...

Eu conheci, uma Rosa assim- só não me lembro do nome ( eu era muito pequena ) mas lembro que todos gostavam muito dela.

Filoxera disse...

Este texto, snetido, fez-me lembrar uma menina/mulher que está permanentemente na rua, na praceta onde vive a minha tia.
:-(((

Licas disse...

Será que gostavam da Rosa?
Ou ela fazia rir e alegrava os dias dos que com ela se cruzavam?

Só um dia, quando ela voltou, triste, só e sem rendas deram conta que realemente existia.

É assim ...
Enquanto fizermos rir, rir de nada e de tudo...
Enquanto isso
Somos

Mas depois vem a pena e nada mais a fazer.

Pobre Rosa(s)!!!

Obrigada por este momento de reflexão, brilhantemente acompanhado com este trecho musical.
Boa noite
Licas

Si disse...

Esta Rosa, de olhos puros, não tem olhos que consigam compreender o mundo. Quantos de nós não pensaram já em substituir as lentes por outras coloridas??

bacouca disse...

Texto magnifico!
Ao lê-lo lembrei-me de imediato de um filme que achei espantoso por ser tão real e cruel "Voando sobre um ninho de cucos".
Como se pode manipular as pessoas, a que se convencionou chamar de não normais, quando sendo inofensivas são tão felizes!
Um beijo