terça-feira, 3 de março de 2009

os descompensados

foto liberty blog

Até podia ter sido um dia perfeito, agasalhado de sol e de céu sem mancha, não fora a paisagem humana que resolveu toldar-me o mar.
Desfile antecipado de corpos incautos passeando pela esplanada, que sofismados pela chegada do verão em fevereiro, patenteavam pernas desbotadas, cambiadas aqui e ali com manchas avermelhadas de uma depilação histérica, executada com uma urgência caseira no duche daquela manhã.
Rabos descaídos de semblante triste, que pouco tonificados das escassas horas de ginásio, se lamentavam desconsolados por não caberem ainda na tanga brasileira do agosto decorrido. Bochechas flácidas, ainda ontem reprimidas, contudo protegidas pelo vigor da ganga, eram agora apanhadas de surpresa pelas picadas da areia e gritavam suplicantes, porquê, porquê; oh meu Deus porquê?
Infelizmente, também eu apavorada por me encontrar presente na primeira fila de um espectáculo para o qual não comprei bilhete, não lhes soube responder.
O estrado de madeira onde assenta esta minha esplanada favorita, foi sadicamente arranhado e marcado sem remorso, por calcanhares de escama grossa, que maturados e conservados durante mais ou menos cinco meses, dentro do calçado fungíco de inverno, se assemelhavam em cor e textura ao popular queijo parmesão.
Tops, vestidos de alças e biquínis nitidamente amarfanhados e com uma familiar fragrância, própria de quem esteve muitos meses em clausura no fundo de um qualquer armário, mal conseguiam dissimular o cruel castigo infligido às axilas, sofrivelmente depenadas.

Eu também vesti roupa mais fresca nesse sábado, usei chapéu, peguei no carrego de livros, no lápis e no bloco de linhas e saí de casa mais cedo, para aproveitar ao máximo o presente do bom tempo e esplanar até fartar. Mas toda a vida janeiro foi janeiro, fevereiro foi fevereiro e março foi março, mesmo que houvesse neles belíssimos dias de sol.
Há qualquer coisa de pré-histerismo, um início de propensão ao desequilíbrio, um desarranjo que começa a ser notório neste meu país.
As pessoas gritam por socorro, só que não se ouve.
Ou será que não? Que não gritam e que se estão nas tintas e que venha o que vier?

30 comentários:

Pitanga Doce disse...

Ai Patti, se era pra ficar sério não conseguiste, pelo menos pra mim. Eu ri. Porque estas primeiras discrições que fazes não existem aqui, e se é verdade que o povo quer antecipar o Verão e caber naquele biquini "à brasileira" tem que se comportar o ano todo à maneira. Por mais Inverno que esteja, não se depila as pernas nem axilas só no Verão ou a pele é quem vai pedir SOS. Lembro-me das primeiras vezes em que fui aí em agosto (faz teeeempo!) as cunhadas depilaram as axilas no dia anterior a ida à praia. Depois não havia creme Nívea que chegasse pra tamanha irritação. hehe

E por incrível que pareça quando passo aí o Inverno, de meias calçadas e afins é quando a minha pele fica como a de um bebê. Fina, clara e sensível.

É. Eu chamando o Outono e o povo gritando pelo Verão que ainda está longe. Hoje até nevou na Madeira!!!

Tens toda a razão: " janeiro foi janeiro, fevereiro foi fevereiro e março foi março, mesmo que houvesse neles belíssimos dias de sol".

boa noite Patti

Patti disse...

Pitanga:
Pois ri à vontade, deve ser mesmo o melhor a fazer.
Credo...anda tudo é doido por aqui. Diz que é a crise.

salvoconduto disse...

As mini férias fizeram-te bem! Vens revigorada da mente e atiras-te impiedosamente aos rabos caídos, aos cacanhares com textura de parmesão e às axilas depenadas, qual padeira de aljubarrora!

Oh mulher, atira-te a elas que elas merecem, só se perdem as que caem no chão. Crise? Qual crise?

E eu que estava de monco caído!...

Violeta disse...

Parabéns PAtti
Excelente psot com uma visão euma sensibilidade afinadas.
Boa noite

Luísa disse...

Não lhe chamaria descompensação, Patti. Descompensação é o que se vê em Londres, por exemplo, onde o Sol se faz, de facto, muito rogado. Mas entre nós a razão tem de ser outra. Já me explicaram que esta ânsia de exposição-exibição-bronzeamento fora de época é uma síndrome e até tem um nome (de que agora não me lembro). Mas, segundo percebi, é característica das pessoas que só se acham bonitas no Verão. :-)

BlueVelvet disse...

Sabes que ao contrário dos comentadores e vizinhos do andar de cima, não me ri nada.
Este texto é de um realismo deprimente.
Relata com requintes sangrentos a forma de estar de certa gente.
Um pouco como feios, porcos e maus.
E não tem a ver com a crise.
Bjs

Sónia disse...

Pois, os corpos não estão ainda preparados para o Verão. Também ri ao ler essas descrições, tão verdadeiras.

f@ disse...

Acho que gritam lenta mente, algumas…
Outras nem precisam gritar…

Bem viste que o grito silencioso lá na esplanada estremecia até as folhas do teu bloco…
Belo texto… é que não te escapa nada…

Beijinhos

once disse...

De facto Patti, há pouca coisa mais inestética que um "calcanhar de escama grossa" .. !
Cristo ..! e espelhos, onde?

Bom retrato este.

Luz disse...

Belíssimo post Patti.

Cerejinha disse...

Agora imagina isso aqui por baixo. O cenário é este:
- mal o sol desponta, ainda que arrefecido pelo ar gélido, já anda tudo de calção e com a mania que está calor
- as meias de leite e as chávenas de chá são imediatamente substituídas por gélidas imperiais
- os rostos são colocados ao sol à laia de bife na grelha


...é por estas e por outras que se pensa que no Algarve não se faz nada e se vive só da fotossíntese!!!

:-P

Pitanga Doce disse...

Sabes do que me lembrei agora? daquela música

"Eu Gosto é do Verão".

"No Inverno o Natal é baril.
No Inverno ando engripado e febril.
No Inverno é Verão no Brasil
E na Suécia suicidam-se aos mil

Eu gosto é do Verão
De passearmos de prancha na mão.
Saltarmos e rirmos na praia
De nadar e apanhar um escaldão.
E ao fim do dia, bem abraçados
A ver o pôr-do-Sol
Patrocinado por uma bebida qualquer."


Vai ver que é isso aí. hehehe

bom dia Patti

paulofski disse...

Ai que impacientes veraneantes de inverno que atropelam as estações, procuram os sopros de calor onde o frio não queima, reclamam lazer onde existe silêncio, oferecendo o corpo à recauchutagem de uma certa oportunidade, e por isso, crendo ser-lhes devida uma qualquer recompensa pela espera.

de dentro pra fora.... disse...

Eu adoro o calor, mas ir pra praia em Fevereiro ou Março não é para mim :), ele há gente muito apressada, balhamedeus :)

Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Este post reflecte o efeito benéfico de alguns dias de descanso.
Todos os anos essas cenas me encanitam, quando as observo na minha esplanada favorita ou em passeios à beira-mar, em busca da Primavera. Não tenho é o seu engenho e arte para as descrever.
Só não concordo com uma coisa. O grito é uma constante do povo português. Gosta de ser ouvido, tal como o bebé que a mãe abandonou por uns instantes. Já ninguém lhe liga ( ao povo) e ele sabe disso, mas continua a fazer de conta que um dia alguém o há-de ouvir.

Gi disse...

Apesar de tudo compreendo essa pessoa ávidas de um lugar aosol. ;)

Eu, vivendo perto do mar, tenho a sorte de ter uma casa com jardim; evito assim ir para junto da praia à hora que toda a gente vai (geralmente depois do almoço); ou vou de manhã cedo, ou fico em casa a ganhar cor no meu jardim. ;) Eu sei que não é para todos.

Si disse...

É um grito de alerta sim.
De quem está farto de chuva de água e de picaretas com que se malham as cabeças.
É o querer esquecer por algumas horas, arejando pelos olhos e pela pele, mesmo que para isso tenha de se mostrar os calcanhares parmesão e as axilas depenadas.
É o retemperar de forças para aguentar mais uma jornada, e não lembrar que durante o Inverno alguns tiveram de se esquecer de si próprios para enfrentar outras batalhas, escondendo-se em calçados fúngicos.
Está tudo doido, sim.
Há alturas em que não se aguenta a 'malhação'.

Mad disse...

Ai, já estou como a Bluevelvet, isto foi um bocadinho deprimente...

Patti disse...

Mad:
Deprimente foi pouco e eu que o diga.
Tal e qual como descrevi.

Luis Eme disse...

gritar?

não... preferem correr para o abismo, Patti.

Teresa Durães disse...

penso que se estão nas tintas enquanto não forem completamente pisadas

LeniB disse...

O que tenho sentido é que nestes últimos tempos a crise também deve ter afectado o sol. E, como somos um povo de sol e mar, recorremos a ele na esperança que qualquer espécie de nuvem desapareça. Tudo isto e muito mais associado leva a uma espécie de catarse massiva.
Resumindo: sempre fomos um país pequeno que sempre viveu à grande e grandes e exageradas são as acções e reacções do povo. Os gritos silênciosos de desespero transparecem nestas atitudes.
Concluindo: comparares calcanhares amarelentos e grossos a queijo parmesão...credo!!!

Filoxera disse...

Tens razão.
Mandei-te um convite para acederes ao EQ, viste?
Beijos.

annie hall disse...

As lindas cadeiras adirondack não estão realmente preparadas para esses desfiles :)
Uma deliciosa malícia a sua crónica.

JC disse...

Belo texto. Cheio de realismo.
As pssoas provavelmente estavam à espera dum pouco de sol para se poderem mostrar.

pedro oliveira disse...

As figurinhas que se fizeram com uns raios de sol neste fim de semana, mostram que os Tugas querem lá saber da crise.

Rosa dos Ventos disse...

O grito mais dilacerante é, por vezes, inaudível...

Abraço

bacouca disse...

Realmente e por estar tão bem escrito torna-se deprimente.É o País que somos: pobres, tristes e parolos com ataques de euforismo desmedido.Venha a Moledo e derá o mesmo.

claudia disse...

Adorei o texto Patti, cheio de descrições reais!
Talvez gritem por socorro...um socorro que tarda em chegar e por isso essa sensaçao de " deixa andar".
bjos

Precis Almana disse...

Ai pá, tu tens um dom. Ah tens, tens!