domingo, 11 de outubro de 2009

aqui pelo meu bairro #4


Quando chega a estação do outono, começo a ficar entristecida. Vêm-me à memória aqueles últimos dias ensolarados em que o meu Alfredo se foi de vez; ai homem, tanta falta que tu me tens feito. Fomos tão felizes, não fomos, filho?
Lembro-me como se fosse hoje, aquela tarde no jardim do Torel onde me pediste em casamento, roubando uma rosa amarela ao canteiro e o velho jardineiro furioso, a ameaçar-te com o cabo da enxada e gritando, fora daqui rapaziada danada.
Alugámos esta casinha na Graça, porque tu disseste que a varanda das traseiras era uma maravilha. Podíamos acender um fogareiro à vontadinha e fazer umas belas sardinhadas no verão, febras e entremeadas e assar pimentos para a salada.
Ai Alfredo, e quando tu encheste a parede da varanda, com aquelas andorinhas de louça preta? Toda a vizinhança nos imitou, não podem ver nada que logo se põem com ideias e ainda hoje são assim. Ele há coisas que nunca mudam.
E a decoração da nossa casinha, lembras-te homem? As nossas idas e vindas ao braz e braz e à polux, eram uma grande alegria que me davas. Gasta à tua vontade Amélia, escolhe o que quiseres, para a nossa casa só do bom e do melhor, minha rainha.
E lá seguia eu orgulhosa, elevador acima, elevador abaixo, sobre escada, desce escada, carregada com o serviço de pirex, novidade daquele tempo, branco com florinhas azuis. Ainda me restam dois pratos de sopa, tenho-os ali debaixo dos vasos das sardinheiras, na marquise das traseiras.
Recordo-me tão bem das panelas de esmalte turquesa com riscas coloridas e até me fizeste um escaparate de madeira, para eu as expor na cozinha. O que a Otília do talho se roía de inveja, como o meu moderno trem de cozinha.
A nossa sala também era muito jeitosinha; os sofás de madeira forrados de napa bric, naperons cremes que a tua tia Carmélia nos ofereceu, alinhados na cabeceira e nos braços para os proteger do desgaste, o luxuoso desfile de tapetes, tapetinhos e tapetões floreados de verde pinheiro, para lá de sete ou oito, que mais pareciam uma colecção de selos e que se espalhavam até à passadeira do corredor, os pretos da Guiné que trouxeste da guerra, os meus livros da Modesto e o Pantagruel da minha madrinha, as crónicas femininas na cestinha de verga, sempre à mão, a tua colecção de pacotes de açúcar, canetas bic e caixas de fósforos, tudo alinhadinho dentro da cristaleira e protegido do pó, junto dos cálices de bagaço da Marinha Grande, o cão de louça branca, o quadro de perfil da senhora de vestido cor-de-laranja, a ler um livrinho ...
E a mobília do quarto, Alfredo? Madeira lacada e luzidia, último grito dos Armazéns Peixoto, com as mesinhas-de-cabeceira embutidas? Um luxo.
Lá continua, o nosso leito, sentindo todas as noites a falta de ti, homem. Quando ao anoitecer retiro a sevilhana do centro da cama e puxo a colcha de cetim branco-noiva para trás, aquela grande cheia de folhos farfalhudos que comprámos na lua-de-mel em Badajoz, dizia eu, que quando abro a cama Alfredo, e vejo as nossas duas fronhas juntas, juntinhas, até as bolinhas pretas do vestido da espanhola empalidecem, e o meu coração solitário rasga-se ao meio, saltando-me de lá, sobrecarregada de espinhos sofridos, a rosa amarela do Torel, murcha, murchinha ... a pobrezinha.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)

21 comentários:

Dulce disse...

Patti

Não deu para não chorar. Via-me na Amelinha, nas suas lembranças, nas suas saudades, na visão dos travesseiros unidos sobre a cama... Faz (em dezembro) sete anos que perdi o meu "alfredo", que era Ubirajara, companheiro por mais de quarenta anos... Ficou um enorme vazio...
Muito linda essa crônica, essa história.

Mike disse...

Amílinha, a menina fique sabendo que sou muito chegado a estas suas crónicas. E deixe-me que lhe diga que uma mulher de tantas virtudes como a senhora devia começar a libertar-se da memória do seu Alfredo, ele que está em paz com o Senhor.

Justine disse...

Senhora Dona Amélinha, a senhora se calhar não sabe nem sonha que o seu desabafo é um verdadeiro tratado de sociologia! Que lhe fique ao menos esse consolo para a sua dor...

Gi disse...

Há coisas que nunca mudam ... e isso não é, necessariamente, mau. Mantém-te assim, Amélinha. :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Começo a sentir alguma terenura e compaixão pela Amelinha. Tão fogosa, mas tão murcha por dentro, como a rosa amarela...

pedro oliveira disse...

A Amelinha precisa de carinhos.
gostei dos cálices de bagaço da Marinha Grande.
bj e boa semana

Si disse...

Amélinha, filha, como eu te compreendo, criatura, vizinha da minha porta, tu que ouves sempre os meus desabafos, aqueles que só meu diário suportava, chegar aqui e ler isto é uma dor de alma...
Queres um cházinho de cidreira, para te acalmar as murchezas???
Assenta-te aí na cozinha, que eu vou buscar, mulher!

Ass: Maria Emília

Isabel Mota disse...

Olá querida Patti

Gosto tanto de te ler. Infelizmente nem sempre consigo deixar um comentário pois dá-me erro ao tentar e sou muito "naba" para perceber o porquê. Mas visito-te diariamente e gosto tanto, tanto, tanto de te ler.
Mil beijinhos, Isabel

BlueVelvet disse...

Este teu texto é um verdadeiro tratado de sociologia.
Aqui estão retratados os tiques e gostos de uma certa camada social.
Há pormenores verdadeiramente brilhantes: desde as andorinhas na varanda à sevilhana em cima da cama.
Este teu alter-ego é um achado.

APS disse...

Estão aqui retratados "velhos" hábitos de uma camada da nossa população em tempos recuados. As andorinhas, a sevilhana, os tapetinhos, as idas ao Brás & Brás e à Polux comprar "coizinhas" para a casa, podemos indicar sem muita margem de erro para os anos 50 e 60do século passado.
A recordação do Jardim do Torel, traz-me à mente o «CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA».
Belo, muito belo o seu texto!
Um abraço
APS

Pitanga Doce disse...

Ó Patti, filha, quando esta tua Amelinha "vem" tu deves escrever com um lencinho ao lado porque deves chorar de rir.

Será que se eu procurasse com muito jeitinho na loja dos chineses ainda encontrava essas andorinhas de louça preta? É que deviam ficar tãão giras na parede do prédio que é amarela!

cristina ribeiro disse...

Saudades de uma vida de-todos-os-dias. E alguém que dê outra rosa amarela à Amélinha?

Reflexos disse...

Nem de propósito, uma 'Amélinha' muito chegada a mim, viu partir hoje o seu 'Alfredo' depois de quatro dolorosos meses de sofrimento... a vida tem destas coicidências.

Bjinhos

Turmalina disse...

Amelinha querida...não sabia que a falta que o Alfredo lhe fazia era tanta.Afinal vc parece sempre tão bem...
Ouça um bom conselho...comece trocando a colcha da cama...
Bjos

Veroca disse...

Chego aqui de visitinha e encontro de cara seu alter ego Amelinha, que meiga! Quanta ternura cabe em uma saudade, não? Beijos do Brasil pra ti e seus alter egos, que suponho, muitos

Luísa disse...

Depois de conhecermos a casa, compreendemos melhor a pessoa. A Amelinha é… a Amelinha. Uma sensível e uma sentimental. Estou certa, por isso, de que, apesar destes ataques pontuais de nostalgia, sabe como reagir e saberá, em tempo oportuno, alegrar a sua viuvez ou mesmo abreviá-la. A vida é mesmo assim, dir-nos-á, recomposta, daqui a dias. ;-D

Rosa dos Ventos disse...

Esta Amelinha é um amor de criatura!
Que sentimentos!
Que capacidade para os exprimir!
Que mulher!
:-))

Abraço

Violeta disse...

A sevilhana no centro da cama acabou comigo. Desmanchei-me a rir...
bjs

Texto-Al disse...

;)

Patti disse...

Vizinhança:
Muito obrigada pelas palavras de conforto, queridos amigos, já me sinto mais animadita com o vosso cuidado. Deixem lá, isto são coisas que depois passam.

Ass: Amélinha

bacouca disse...

Amélinha, para "ajudar" a esquecer o seu "Alfredo" e o carinho e fino gosto com que decoraram esse vosso "lar, doce lar", julgo que seria importante fazer uma mudança na decoração. Se quizer posso indicar-lhe uma decoradora de interiores. Sei que hoje em dia os "biblots" são diferentes mas ela arranjaria sempre um cachorrinho de loiça que abana a cabeça ou um calice que parece cheio de aguardente, para não perder por completo esse seu cunho tão pessoal de decoração
Um beijo de outra fada do lar.