quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

tardes bem passadas

foto de christophe gilbert

Grandes comensais, gente exacerbada, convulsiva e barulhenta, que respira fritos, carnes vermelhas e bebidas gasosas pelos olhos. Gente que se move truculenta e pesada e gargalha sem parar, sempre que apalpa com o pensamento meninas do liceu, carregadas com tamanhos xs de berskas, pulles e stradivarius, que por muito que forcem o poliéster, jamais lhes caberá a preceito no corpo novo, mas já mole e indolente.
Entre a gordura das mesas, desfilam também balconistas engravatados em nós largos e de tonalidades recentes, cor-de-rosa menina e amarelo pintainho, bem ao jeito de um comercial que se preze. Abancam numa mesa já suja, por muitos outros alguéns e descansam os parcos minutos que o turno lhes concede, enquanto observam desgraças iguais às suas.
Depois do calórico repasto, lá vão as gentes vadiar em voltas circulares, lavando as vistas em vitrinas repetidas vezes sem fim e adiando por mais uns momentos, o declínio da tensão de um falso domingo, que também já se foi. Gente que há momentos atrás, gozava em convulsão física e hormonal o calor transpirado de outros milhares, mas que chora agora ao voltar a casa, com medo do silêncio mortal da família que há muito se instalou.

27 comentários:

salvoconduto disse...

Respirar fritos, tem lá paciência...
Gasosas pelos olhos, só de guarda chuva, logo eu que gosto pouco de centos comerciais muito menos aos domingos.

Eu sei lá se é silêncio mortal, sei que é bom. Bom...escusavas daquela coisa das meninas do liceu...no meu tempo era um problema, dava direito a ir ao reitor ou então estalada...tá bem tá!

Luísa disse...

Impressiona-me, Patti, que as pessoas não saibam gozar o refúgio e a intimidade das suas casas – o único lugar do mundo onde podem ser verdadeiramente livres. :-)

Si disse...

Acho que qualquer desculpa serve para manter esse silêncio. Afinal, são tão poucos os que abdicam dele e falam e se ouvem... Nem sei o que procuram: se vidas adiadas, se vidas fantasiadas ou apenas suspensas, até que os elos se quebrem, pelo peso do vazio.

pedro oliveira disse...

É o chamado passeio dos tristes.

Sónia disse...

Como diz a Luísa, é impressionante não se aproveitar o bom que é o refúgio de um lar. Infelizmente os valores familiares estão cada vez mais desgastados. Que pena...

once disse...

Safa ..!
Uma verdadeira critica social esta Patti .. e, não fazendo parte dessa excursão domingueira, ou em outro dia qualquer, acabo por não perceber que "diabo" faz tanta gente debaixo do mesmo tecto.. :)

f@ disse...

Silêncio afinal para escutar dentro de nós… para so®rir baixinho os abraços e outros afectos… mau que as pessoas se “esquecem” das pequenas grandes melodias da vida…
e, tornam o silêncio num sepulcro em vitrina gigante…

Bj das nuvens

f@ disse...

Patti, só mais uma coisita, se me dás licença vou link ar os teus Ares no meu Salp!car te

Bj de salp!icos

Gi disse...

É overdadeiro Passeio dos Alegres.

Teresa Durães disse...

credo! (bem ditas as minhas saladinhas!) e felizmente que não existe essa solidão lá por casa (nem o cão o permitiria)

ines disse...

O reflexo da sociedade em que vivemos. Que tristeza!

annie hall disse...

Assustador ......

Álex disse...

é verdade que há silêncios mortais, que pena... pois o silêncio pode ser tanta coisa boa...

Ka disse...

Realista esse teu passeio dos alegres...o problema não são os domingos, é mesmo o modo de vida onde o silêncio ganha terreno como uma parede de betão.

Borboleta disse...

Confesso que quando tenho que ir a locais semelhantes, vou a horas e dias que por norma quase ninguém vai...de resto prefiro evitar de ir e cultivar o diálogo e a festa em casa ;o)

Tens um selo no meu blog

Beijos

1/4 de Fada disse...

Vou dar uma volta para arejar a roupa e os cabelos que ficaram a cheirar a fritos só de ler...

paulofski disse...

Se o Domingo é de chuva, é certo e sabidinho que não caberá mais um automóvel no parqueamento, não faltará quem se perca em exageros, e ao fim da tarde regressará a casa tão aborrecido como quando saiu.

BlueVelvet disse...

Até fiquei deprimida só de ler.
Mas é mesmo como descreves:uma tristeza de vida a dessas pessoas.

claudia disse...

É bem verdade, existe mta gente que nao consegue viver com o silencio e aconchego da familia, da sua casa...Estar com mta gente e movimento deve " esconder "o nao sentir nada por essa familia, nao achas?

Miguel Barroso disse...

Esses passeios deprimem-me


Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Está-se mesmo a ver que foram aos saldos e, quando chegaram a casa, perceberam que as suas vidas já tinham sido saldadas há muito.

fugidia disse...

Na mouche!
E se não aguentam o silêncio da casa, que vão apanhar sol, sal, vento, chuva...
Excelente, Patti :-)

TeddyLover disse...

Passeio dos alegres...ou dos tristes...
tens desafio no meu cantinho.
Jinhos

Si disse...

Regresso para informar que será uma das convidadas de honra de um evento organizado para amanhã, lá em casa...

Mike disse...

Um post fantástico!

APS disse...

Muito bem Patti...

Apesar de o silêncio ser de ouro, por vezes também incomoda.

LeniB disse...

São as "solidões" dos tempos modernos...será?