quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

dos sonhos


Existem sonhos escondidos sem querer, desprezados por muitas outras prioridades no correr da vida, olvidados a um canto escuro, deixados de lado, abandonados.

Numa casa muito antiga em frente ao mar, com portadas de madeira encarnada, viveu em tempos um sonho de cantora por realizar.
Um sonho chamado voz grave e penetrante, que durante muitos anos só foi ouvida por crianças em canções de embalar, por paredes silenciosas que não revelam nunca segredos íntimos e por uma árvore centenária nascida no jardim, que em dezenas de anos guardou as várias canções que fluíam pela janela da varanda central da casa antiga, aberta logo de manhã cedo, de par em par.
Um dia, o sonho de cantora de levar a sua voz para fora da casa antiga, realizou-se.
Devido a um fenómeno até então desconhecido, a folha persistente da árvore do jardim, absorveu nos seus veios, o som que aquela voz grave libertava pela janela e nas épocas de invernias, a árvore aproveitando-se das danças forçadas pela fúria da ventania, deixava escapar pelo ar, com longos silvos assobiados agudamente, as notas musicais armazenadas nas suas folhas.

E assim, melodias de um sonho de cantora por realizar, eram apanhados no céu pelo bico das gaivotas brancas e levadas em direcção da praia, onde barcos e homens, receosos da tormenta, as esperavam confiantes na crença do seu poder de salvamento.
Músicas então cantadas pelo timoneiro aos seus marinheiros, serviam-lhes de alento e prendiam-lhes o pensamento à terra, para que nunca se perdessem nas águas do mar.
Na casa antiga, a dona da voz grave nunca soube que as suas canções foram transformadas em sucessos marítimos em dias de tempestade. Eram escutadas pelos homens do mar durante momentos de Adamastor, quando a chuva e a água estalavam com força contra o corpo duro de marinheiros corajosos. Músicas salva-vidas, bóias, âncoras que os traziam, de todas as vezes, de volta à praia. Inteiros.

Em alturas de mar brando e inocente, sereias doces e filhos de Neptuno, ofertavam aos marinheiros tesouros naufragados, fantasias marinhas, segredos da Atlântida e sonhos enterrados na profundidade do mar.
De volta à praia, homens agradecidos e humildes, colocavam as relíquias no jardim da casa antiga, para que durante a noite a árvore centenária, as folhas persistentes, o vento e as gaivotas brancas, bordassem com elementos do mar, portas, janelas, pilares, varandas, cúpulas, balaústres, paredes e torres altas.
Cordas e nós, búzios, conchas, estrelas, peixes e algas, esferas armilares, âncoras, a cruz e por fim, cânticos de homens salgados, escritos em pautas de água brava que ali foram deixados como um obrigado, para adornar uma casa muito antiga em frente ao mar, com portadas de madeira encarnada, onde viveu em tempos um sonho de cantora por realizar, um sonho chamado de voz grave e penetrante que salvava vidas do mar, sem nunca se ter salvo a si mesma.

fotos minhas, casa abandonada na foz

26 comentários:

salvoconduto disse...

Parece que estou a ouvi-la naquela varanda. Hei-de passar por lá e confirmar..

pedro oliveira disse...

Casa bem linda,que merecia outra sorte.O meu sonho era ver estas e outras casa bem arranjadas.

1/4 de Fada disse...

Fiquei para aqui a pensar se terá sido esta a inspiração para a janela do Convento de Cristo que está a ficar arruinada sem que ninguém se lembre dela...
Que boa maneira de começar o dia, assim com a imaginação a correr!

Gi disse...

Este é o verdadeiro canto da sereia. Bem diziam os marinheiros que a sereia tinha um FOZeirão.

Ka disse...

O sonho realizou-se...apenas ela não o soube.

Quanto à casa, de cada vez que lá passo fico com uma pena enorme de a ver assim abandonada a esta sorte, ainda por cima no sítio que é!

Beijosss

Nina disse...

nossa Patti, que bonito o que vc escreveu. Menina, vc já pensou em colocar tais palavras num livro?

caramba, vc escreve com a alma. E isso é bonito demais...

Teresa Durães disse...

nunca conseguimos saber até onde nos levam as nossas acções

Si disse...

Fiquei aqui a pensar.
Li e reli este texto.
E continuo na dúvida.
Mas que palavras poderão comentar esta tempestade de sensações, tornado de substantivos em adjectivos, furacão de imagens submersas que disparam à tona???
Não sei. Sinceramente não sei.... a fasquia está definitivamente muito alta.

annie hall disse...

Bem parecia que aqueles cantares que ouvia quando passavam as gaivotas deviam vir assim de alguem que tanto sonhou ....tinha de ser :)
Bonito ,como sempre.

ematejoca disse...

Patti a sua resposta podia ser a minha. Em várias coisas temos a mesma maneira de ver as coisas. É por a Patti vir da minha querida cidade do Porto?
Sinto também muita tristeza por esta casa abandonada na foz. Eu amo a minha pátria recusei-me sempre a ser alema - e amo principalmente a cidade do Porto. Gostava, no entanto, que as pessoas aí agissem como as daqui. Assim essa casa nunca estaria abandonada, mas sim usada como museu ou coisa semelhante.

Saudacoes de um país afundado em neve!

Patti disse...

Ematejoca:
Por muito que goste do Porto, não sou de lá, sou lisboeta do mais puro.
No entanto é com tristeza que vejo uma casa destas completamente ao abandono, numa avenida linda como a da Foz Não deixou por isso de ser inspiradora para mim.
A beleza está naquilo que os nossos olhos querem ver.

annie hall disse...

Por vezes olho para a minha casa e pergunto-me que lhe irá acontecer , um dia ...será que vai ficar sozinha? que a vão trocar por outra , que lhe fazem tantas mudanças que lhe tirm a alma ? Pateta que pareça e seja , já tenho conversado com ela mas não me responde como o fazem as arvores do meu campo , e isto tem criado entre nós um leve afastamento , assim como na realidade não sejamos uma unidade como eu gostaria e ela , a minha casa altiva e distante ,apesar de acolhedora ,me dizer em silencio que estou apenas de passagem.....

paulofski disse...

Parafraseando a Si, não encontro palavras que poderei acrescentar a este oceano de sonhos.

Algumas casas permanecem exactamente as mesmas, velhas e arruinadas, porque se esquece rápido o tempo e abandonam riquezas? Não encontro palavras porque me toca, porque é assim a minha aldeia.

Monique Lôbo disse...

Oi Patti, primeiro você escreve divinamente!!
E que sonho mais lindo! Os sonhos nunca deviam ser esquecidos, deviam estar guardados no coração sempre ao alcance, para serem relembrados com frequencia e serem sentidos sempre!
E ainda mais um sonho tão doce quanto o de voz grave e penetrante, que eu acho que de alguma maneira foi realizado quando salvou vidas e acompanhou os marinheiros!
Lindo texto!!!

Bjãoo

Luis Eme disse...

uma história à medida da casa.

abraço Patti

Fatima disse...

Patti pena é que as tuas sentidas palavras não cheguem a quem deveria tratar do património.
Pode ser que cheguem!
Temos é que "os" fazer vir aqui ler isto!

ines disse...

Detesto quando tento salvar um comentário e dá erro! Ca raiva!

Deixo a ultima frase que escrevi " O sonho comanda a vida"

f@ disse...

Repenicado o sonho agora e para sempre na “paisagem” e aqui na tua veneração …
Até que o vento empurre o sol e os seus raios toquem a casa en cantada…

Belíssimo teu texto mesmo da cor do sonho…


Beijinhos das nuvens

Pitanga Doce disse...

Andavas com o bloquinho na bolsa e escrevestes "in loco" ou foi depois ao olhar a foto?

Adorei os "momentos de Adamastor".

beijos e vim de comprar o material escolar da Julinha. Ó CÉUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Filoxera disse...

Voas com a imaginação. E nós, voamos contigo.
Beijos.

Precis Almana disse...

O sonho de escritora com letras não graves, mas GRANDES, realiza-se aqui todos os dias. Não é, Patti?
E aqui consegue-se uma coisa que só vi uma vez ser vendida: um livro + música (supostamente ideal) para ouvir enquanto se lê (Maria João Pires e não me lembro do nome do livro neste momento, mas há-de aparecer). É que aqui acontece o mesmo.

PDuarte disse...

o manuelino.
irei falar disso em breve, mas à minha maneira.
só para apreciadores.
bjs madrinha.

bacouca disse...

A ver se é desta que consigo comentar...! Já o fiz uma vez por atrevimento para lhe dar os parabens pelos textos, fotografia, música e como não levou a mal venho sempre aqui quando faço a ronda dos blogs e não consigo deixar o meu comntário:)
Diz-se"dá Deus nozes a quem não tem dentes".
Um País com tanto património e não liga nada. Na América até a casa do Cassius Clay é património(nem 8 nem 80:).
Continue a escrever fantasiando,(e pondo-nos a pensar) para nossa delícia! Pode ser que alguém do IGPAR um dia também leia!!!

BlueVelvet disse...

Já aqui tinha estado mas fui dar uma voltinha e voltei. É claro que gostei muito do que escreveste.Mas fiquei na dúvida do que tinha gostado mais e já me decidi:foi da história que a tua imaginação criou.
É isso. Tu és uma maravilhosa contadora de histórias.
Bjs

Laura disse...

Lindo, gostei imenso!

Luísa disse...

Se a riqueza da imaginação salvasse casas e património histórico, tinha aqui uma listazinha de «temas» para lhe propor, Patti. Gostei muito. :-)