segunda-feira, 24 de março de 2008

the pursuit of happyness


foto de rudolf henning

Parece que a felicidade está dentro de nós, alojada no cantinho do órgão-rei. Diz-se que não deve ser procurada lá fora, onde residem as tradicionais definições de felicidade como o poder, o prestígio, o dinheiro, a beleza, os bens materiais.

Bom, deve ser complicado quando diariamente perdemos 2 horas em transportes públicos, quando trabalhamos a recibos verdes, quando temos filhos e não os vemos nunca acordados, porque os levamos de madrugada para a ama e os trazemos à noite, já em pijama e prontos para irem para a cama, quando temos empregos frustrantes, quando perdemos 3 horas à espera de uma consulta da caixa e o patrão nos desconta no fim do mês, quando passeamos carrinhos abarrotados, com cara de zombies, em hipermercados, quando . . .

Dificuldades e apertos todos temos. Mas é preciso encontrar lá pelo meio dos apuros diários, algo que nos espevite, procurar fazenda para fazer o fato. Não devíamos ruir antes mesmo de desmoronar, fracassar antes do baque final. Muitos de nós desistimos de viver antes mesmo do tempo. Renunciamos a nós próprios, em prol dos outros, do marido/mulher, do filho, do pai, da mãe, do emprego ou, ao contrário, desterramos os outros através do nosso egoísmo, não nos dedicamos. Queixamo-nos por princípio, por ponto de hora, lamentamo-nos por vício, mandamos vir por tudo e nada mas poucas vezes reagimos, enfrentamos ou procuramos soluções e alternativas. E, quando olhamos à volta, damos conta que passaram 30, 40 anos da nossa vida e já só falta outra metade. Tão pouco!

Como ouvi recentemente, perdemos a vida antes de morrer. É preciso atrevimento para certas mudanças na vida, concordo, até porque algumas delas implicam riscos. Mas é sempre pior, arrependermo-nos daquilo que não fizemos ou nem sequer tentámos fazer. Podemos sempre começar pelas transformações mais simples.
A lei da compensação(*) dá sempre uma ajuda.

Quantas vezes não aproveitamos a candura de coisas tão simples como cheirar a pele de um bebé, almoçar no jardim ao lado do escritório, reparar nos desenhos das nuvens, andar sem rumo quando faz sol, perder mais dez minutos de sono para ir “visitar” os filhos ao quarto, gozar do luar quando passeamos o cão, rir de nós próprios, desfrutar dos primeiros salpicos de chuva, passear na areia molhada da praia no Inverno, olhar para o lado e reparar que há sempre realidades piores que a nossa. Parece parvoíce? Mas não é.

A felicidade não se encontra só nos grandes momentos da nossa vida, mas nos pequenos segundos, nos breves instantes do tempo, como aqui. Os pessimismos e os queixumes gratuitos e fáceis, fazem-me confusão. A falta de visão para aproveitar e discernir o que temos de bom no dia a dia, por mais pequeno que seja, incomoda-me.

E depois como será . . .?

. . . quando formos despedidos?

. . . quando partirem os amigos?

. . . quando a nossa mãe morrer?

. . . quando o nosso filho tiver um acidente de carro?

. . . quando tivermos uma doença incurável?


(*) Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem as suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.

5 comentários:

Alecrim disse...

É um blogue muito interessante...
Eu é que não sou nada corajosa.

Ev@ disse...

Porque há dias maus em que tudo parece desabar, então eu faço o seguinte exercicio: penso durante uns segundos em momentos, pessoas, lugares que me trazem ou trouxeram felicidade e resulta. É engraçado, o meu pensamento foge sempre para as coisas simples da vida.

"A Felicidade exige valentia...Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

egodependente disse...

este texto veio mesmo a calhar.

(obrigada)

Patti disse...

Que bom, ego.

Se já serviu para uma única pessoa então já cumpri o meu propósito.

LeniB disse...

Correm-se sempre riscos quando nos arriscamos a mudar. Mas o pior risco de todos é nunca nos atrevermos a mudar.