terça-feira, 19 de agosto de 2008

ventos da minha graça


Gosto destes dias de praia. Quando a Brisa, amiga de todos estes anos e sempre constante, vem para ficar toda a amanhã, tornando o mês bem mais suportável. Não me despenteia, dá passeios comigo pela beira do mar, impede o sol de me aborrecer as costas e nem sequer chega a levantar areia.

É calma.

Suave. E fresca.

Sei que à tarde, o namorado da Brisa, o Nortada, instala-se na Meia Praia com a arrogância e o à vontade que já todos lhe conhecemos e não arreda pé. Tem a mania!

Chega sem sequer cumprimentar, é antipático e sofre de excesso de confiança. Enfia os dedos no meu cabelo e mistura-me as madeixas. Fico num desalinho. Mas como a minha cabeleira é rebelde por natureza, até nem me importo.

Agora …, que me vire as toalhas ao contrário, que me atire com a areia fininha, que mais parece alfinetes, que arranque com insolência o guarda-sol da areia e o faça voar a caminho do mar, como se fosse uma asa delta, é que já passa dos limites!

Ouve lá, oh marafado! ‘Má que jête é este de tratares os moços e as moças, quase todas as tardes desta forma ‘ventanosa’? És mesmo um desassossego! Porque é que não te mantens mais tranquilo, como a tua namorada Brisa?

Calma.

Suave. E fresca.

Será que não enxergas a razia que fazes à Meia Praia, desde Lagos até ao Alvor? É que nem à ‘ababuja’ consigo estar sem me incomodares.

Assoprou com tal força, que até levantei voo.

Olha a fina da moça! Até parece que não me conheces há anos.

Ah, ‘na ‘tás satisfeita com o clima? ‘Atão abala daqui.

‘Na te agrada o desassossego? Tens bom remédio, avia-te para outro lado, põe-te a mexer para o meio da populaça e das multidões. Começas lá para os lados de Portimão e acabas em Monte Gordo e encaixa para lá o teu guarda-sol nos 10cm de areia que conseguires encontrar.

‘Na te esqueças é de por protector solar ainda no estacionamento, porque já sabes que tens pelo menos quinze minutos a pé, para calcorreares na terra vermelha e poeirenta, até chegares ao teu carro-frigideira.

Ah e só mais uma coisinha; quando jantares fora, saboreia bem a dourada de viveiro que vem escalada para o prato ainda a nadar, mas em molho de manteiga. Já sabes, faz parte da imagem de marca dos restaurantes da marabunta, que ‘na sabem o ofício de assar o peixe inteiro. ‘Na têm tempo, nem paciência. É sempre a despachar.

Estupor! Como é que ele sabe que eu odeio o peixe escalado?

O Nortada, já adivinhava que com este discurso caótico eu me ia calar. É verdade, eu falo de barriga cheia. Não troco o barlavento por mais nenhum Algarve. Nem por Vale de Lobo.

Quando o vento Norte, chega a Lagos, são quatro ou cinco dias de pouca praia à tarde, é certo, mas é isso ou o outro Algarve. O da carneirada de turistas, o dos estrangeiros cor de salmão com sandálias e peúgas turcas brancas, o da praia das verdadeiras peladas de futebol de onze no areal, o das famílias inteiras que invadem territórios e assentam arraiais com enormes cadeiras e geleiras fluorescentes, maiores que o meu frigorífico de casa, o dos restaurantes de gente cheia de areia misturada com creme solar, que se contenta com sardinha seca e o restante peixinho todo escaladinho, borrifado de molhos infelizes e gordurentos.

Oh meu Deus, como eu odeio peixe escalado!

Cala-te boca e levanta as mãos para o céu, digo de mim, para mim. Bendito barlavento. Ventoso, agreste, de águas frias, costa rochosa, marina sossegada e anti jet-set. O meu Algarve é este, o do casario pequeno, de centro histórico e de ruas sinuosas, onde me perco todos os anos em lojas, bares e restaurantes castiços. Sem peixe escalado.

Aqui encontro sargo pescado à cana, por pescadores pacientes, nos penedos monstruosos da vizinha Sagres. Sagres que se mantém quase igual à de quarenta anos atrás. Salvé vizinha! E não reveles a ninguém, o nome das tuas magníficas praias, quase desertas.

Para o ano, vou tentar não refilar com o vento Norte. Quando ele chegar, vou passear para a Serra de Monchique ou dedicar-me à pesca submarina, apanhar sol no veleiro ou ainda inscrever-me nas aulas de windsurf e assim voo perdida com ele, até Sagres.

E quando me encontrarem, três dias mais tarde, lá para os lados onde o Infante Henrique sonhou um dia conhecer outros mundos, já cá estará de volta à Meia Praia, a minha Brisa, amiga de todos os Verões.

Calma.

Suave. E fresca.

fotos minhas

Lagos, 30 de Julho 08

17 comentários:

SONY disse...

Patti,
fizeste-me rir com este post!

Se fosse a ti aturava o namorado da "brisa", olha que ele tem razão!

Quanto não vale um peixinho na brasa.

E no outro "Algarve" não poderias ler!!!

Fizeste-me lembrar o ALLGARVE!!!

Bonitas as fotos que nos "emprestas" aqui por momentos de frescura...ha é verdade e aqui não há ventos fortes só Brisas calmas:-)

gostei...

Um beijo,
Sony

Sunshine disse...

Excelentes fotos!
As manhãs deste mês de Agosto na praia têm sido fantásticas...iguais às que descreves! Pela tarde não tenho dado pela presença do Nortada.
Beijinhos com raios de Sol

f@ disse...

A caminhada corajosa das palavras ao vento… a convivência com esse mar e céu … e areias… de promessas… e coisas vindas do mar…
Beijinhos das nuvens

salvoconduto disse...

Abaixo o peixe escalado, abaixo a marabunta, viva o vento que é do Norte, carago!

Fatima disse...

Hoje comecei o meu dia com uma excelente leitura.
Obrigada Patti.

claudia disse...

Patti, nao há duvida que ainda vens mais inspirada das ferias...GOSTEI!

Tb detesto enchentes nas praias.

bjos

1/4 de Fada disse...

Estas memórias de férias estão a ser um encanto. Gostei particularmente do pormenor do peixe escalado.

Sorrisos em Alta disse...

Fantástica descrição de um normal dia de praia!
Gente de bom gosto devia ter direito a uma praia só para si. Ok, para si e para o(a) Nortada, mas sem os emplastros que a praia acarreta.

Continuação de boas férias.

Bjoquinha

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto, é como se lá estivessemos todos.
Agora não percebo porque não gostas do peixe escalado.Eu adoro!

Pedro Oliveira
vilaforte

carlota disse...

Que lindo texto, reconheci muito daquilo que falas.
No "meu" Algarve tambem existe Nortada e aparece sempre durante a tarde...este ano foi demais, veio cedo demais, e parece que para ficar.
Mar encarneirado, impossiblidade de dormitar ao Sol sem ser inundado por areia, não, eu não preciso de exfoliações gratuitas.
Resta mesmo ao final do dia rumar a Monchique ir ao “Varela” comprar uns melões e melancias e depois ir comer um presuntinho curado na serra, cortado no momento e um franguinho assado que coloca os da Guia no chinelo. Para quem gosta, pode sempre terminar a refeição com um cálice de medronho que cada vez mais rareia por aquelas Serras.
A água de Monchique é que não me convidem para beber, sei que tem propriedades muito boas e inclusive umas termas...mas para mim não dá, por mais que beba não passa a sede.
Este ano senti saudades do "Levante", raramente apareceu e por isso as águas andam tão frias. Os pescadores bem lançam as suas canas e lamentam a falta do Levante e da vaga alta que trás junto alguns limos e bela da Dourada para a nossa costa.
Do levante só não estou saudosa da humidade e névoa que trás, de resto sinto que a falta dele descaracteriza o “meu” Algarve de sempre...faz parte.
Resta-me portanto consolar-me com umas belas ameijoas da Ria do Alvor porque as da Ria formosa estão completamente descaracterizadas, dai o preço ser muito mais acessivel. As condelipas este ano tambem fizeram greve no Algarve e as que vendem são do Atlântico nordeste. Santa paciência, que eu nem sou tendenciosa nestas coisas mas nada como o sabor da nossa Condelipa do Algarve...este ano ainda nem comi um xerenzinho.
Até as cigarras decidiram não cantar...será que fizeram greve? Ou andam baralhadas com o tempo?
Se elas andam baralhadas ou não, não sei...mas eu ando baralhada de todo com o tempo este Verão...já para não falar na preia-mar desta noite que invadiu a praia sem dó nem piedade deixando um tapete de areia húmida para estender a toalha...acho que até as máres vivas se adiantaram...os antigos dizem que foi devido á Lua cheia, eles lá sabem!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Como já tive oortunidade de comentar, gosto muito dessa zona onde tenho amigo e já fui muito feliz. Mas no outro extremo algarvio, perto de Tavira, também há praias com alguma qualidade de vida ( ou havia....)
Também não vou à bola com peixe escalado, mas as suas fotos encantam-me.

Patti disse...

Pedro:
Vou brincar consigo, mas peixe grelhado escalado é coisa para meninos.
Peixinho dividido ao meio, espinhazinha retirada e pele afastada?
Isso não é coisa séria.
Há lá maior prazer, do que arranjarmos o nosso próprio sargo, salmonete ou até uma bela dourada do mar?
E dizem os entendidos da grelha, que assa assim é para despachar e não sabe assar com tempo e calma.

Coisas dos homens do mar.

Coragem disse...

Patti, mais um texto fabuloso.
Hoje foi o maroto do Nortada que falou contigo, e que hajam nortadas na nossa vida que nos vão chamando a razão :)))))

Nunc apreciei o Algarve, duas ou tres vezes, bastou, para não voltar.
Ficam as aguas mornas do mar e pouco mais na memória.
Gosto de paz, lugares que me trasmitam calma, e não foi no Algarve que encontrei.

Beijo e obrigada pela tua opinião no meu post.

Rosa dos Ventos disse...

O teu texto trouxe-me deliciosas recordações, quando os miúdos eram pequenos e corríamos atrás do guarda-sol na Meia-Praia ou quando íamos de manhã para a Praia do Camilo e almoçávamos cá em cima num restaurantezinho que tinha um peixe maravilhoso...

Abraço

BlueVelvet disse...

Diálogo delicioso.
Repetir que viéste inspirada? Viéste sim senhora.
Também detesto vento e areia na praia, por isso quando vem o tal, fujo para a D.Ana, que nessa estou sempre abrigadinha.
Peixe escalado? Odeio. Até perde o sabor a mar.
Beijinhos

João Videira Santos disse...

Diria que é quase uma crónica. Tem bons "condimentos" e, francamente, a descrição do seu Algarve tem muito a ver com o "meu".

Cecília disse...

Tantas palavras, todas tão bem arrumadinhas, todas tão bem colocadas no seu lugar, que a gente lê, quase num fôlego só, com medo de perder o gozo das que vêm a seguir... Adorei!!