quinta-feira, 16 de abril de 2009

incumbências

foto dezeen

Costumava pontapear, literalmente, com a ponta dos pés as sombras que se atravessavam no seu passeio e que podiam manchar-lhe o polido da calçada.
Incomodavam-na como poucas coisas na vida, as silhuetas que se interpunham entre ela e a luz, que se recusavam a avançar e que subsistiam à custa do que alguém, piedosamente deixava sobrar para elas.
Mas não nasceu assim, resistente. Fez-se desta forma por opção.
Tudo o queria era ser diferente das outras, daquelas que em tempos sonharam ... e muito.
Mas a razão porque sonhavam, foi a mesma que as impediu de o fazer; o precisar, numa dada altura da vida permanecerem mais presas ao chão.

E com os anos, a desilusão de não viverem os seus sonhos fez com que parassem de os sonhar.
Faltou-lhes a inconsciência dos loucos, o atrevimento dos ousados, a agonia dos génios e a bravura dos intrépidos.
A vida, que as continuou a enredar com baraços de açoites e insistia em vigiá-las de longe, foram-na elas logrando com atitudes terrenas de delírio consciente, tresvarios, exaltações e vibrares de coração.
E disfarçavam para os outros e para si próprias, momentos de felicidade.
Tudo menos sonhar.

Poucas vezes souberam, que há instantes onde da troca de palavras, do cruzar de olhares, da descoberta de cumplicidades, de apertos de mão com um estranho, de encontros breves de almas gémeas e de se fazer o que se diz, se lucram os dias da vida toda!
E que esses dias podem marcar anos. E esses minutos durar horas. E serem únicos. E os melhores de todos.
Momentos que se guardam em segredo e se colocam numa pausa sem limites e sem medidas. E que se pode começar outra vez.
Muitas vezes. Tantas. As que se quiser.

Assustadora sina aquela, de terem ido contra o que mais desejaram, contra aquilo que lhes gritou para irem.
Para irem ...

22 comentários:

BlueVelvet disse...

E muitas vezes assim se estraga uma vida inteira.
Tão verdade o que escreveste.
Excelente.
Bjs

once disse...

.. alguém me disse há uns anos largos .. "enquanto acreditares que consegues, vais conseguindo um pouco, todos os dias .. todas as horas" .. não é bem fazer de conta, mas quase.

"disfarçar momentos de felicidade" .. pano para mangas compridas este (mais um) profundíssimo texto Patti.

*

Nina disse...

Existem mesmo minutos, segundos às vezes, que se pode ganhar mt. Estar atento aos ruidos do mundo, aos olhares, nos faz mais atento a esses ganhos, ou perdas.

como sempre Patti, me ensinando português :)

f@ disse...

Sem limites sem medidas para o sonho...
que agiganta o coração e alimenta de cor e sabor a existência...
nas asas do sonho beijinhos

Teresa Durães disse...

acredito que nesses pequenos momentos, nesses minutos, é onde reside a vida

Gi disse...

As incumbências podem ser, de facto,uma pedra no noss sapato, um calo, um joanete e, mais que umas silhuetas, umas verdadeira assombrações entre nós e a luz que queremos deixar entrar nas nossas vidas.
Temos que saber negociar: umas vezes incumbimos, outras vezes somos incumbidos e, só assim, nos permitimos continuar a incubar o sonho.

Marta disse...

verdadeiro e deliciosamente escrito, Patti!
é dificíl, neste teu blog, dizer-se o que se gosta mais. mas este texto tocou-me especialmente!


[desabafo: ontem, tentei 12 vezes comentar o post a baixo!!!!! Sem sucesso! Vou tentar, agora, novamente!]

CNS disse...

O medo dos sonhos. De acreditar.

Muito bom, Patti.

R.Rosmaninho disse...

Ai, tanta verdade que está neste texto!
Muito bonito.

Si disse...

Hoje estou eu com dificuldades em comentar este texto....
Dizer qualquer coisa que acrescente ao que foi escrito é demasiado.
Só dá para ler, reler e reflectir. E muito.

nocas verde disse...

"Faltou-lhes a inconsciência dos loucos, o atrevimento dos ousados, a agonia dos génios E a bravura dos intrépidos"

Que dizer, amiga?
aqui tem, vizinha, com todo o carinho
http://imagecache.allposters.com/images/pic/FRL/A101055~Italian-Parsley-Posters.jpg

Patti disse...

Nocas:
Eu poucas vezes respondo nos comments, por falta de tempo e tenho pena, mas quero agradecer-lhe este ramo de salsa.
Estava a ver que não tinha, para a massa dos pastéis de bacalhau.

O2 disse...

Caneco... como daqui deste prisma pode parecer tudo tão simples... eu que estou numa fase de unhas vermelhas assustei-me com esta realidade... mas afinal alguém me explica o que é isso de não se lutar pelo sonho? Quem não sonha vive? e qd o nosso sonho destroi o sonho de quem amamos? e a felicidade? saberemos nós de que matéria é feita? sei lá, olha, danço!

:)

Adorei o texto.

Beijinho grande.

nocas verde disse...

primeiro: muito e muito obrigada pela resposta - já que é tão raro

segundo: nada a agradecer... é fresquinha

terceiro: não responda a este... o F. diz que a massa dos pastéis dá muito trabalho e demora muito tempo. O cheirinho do arroz de feijão também é muito agradável, sim senhora! :)

Luísa disse...

É verdade, Patti, que quem muito sonha tem de saber que há um sonho que se sonha para sonhar, e um sonho que se sonha para viver. O primeiro será a fantasia do que nunca acontece, mas teria graça que acontecesse. O segundo será o plano, por cuja concretização se tem, realmente, de lutar. E também é verdade - pelo menos tem-no sido nalguns casos que conheço - que os que não lutam para concretizar os seus sonhos-plano, perdem muitas vezes a capacidade de se entreter com os seus sonhos-fantasia.

claudia disse...

Adorei o texto e todo esse sentimento transmitido.Há momentos em que pequenos gestos sabem tao bem...
bjos

fred disse...

Belo texto

pedro oliveira disse...

tantas vezes que somos cagarolas, e depois queixamo-nos da vida.Boa PresidentA.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Li este texto duas vezes. Não queria estragá-lo com o meu comentário, mas não resisto a escrever que o pior medo que frquentemente nos assalta é o medo de (não) ser feliz.

Mike disse...

"E que se pode começar as vezes que se quiser". Gosto muito disso, tanto como gostei deste texto sublime.

Filoxera disse...

Entendo bem demais...Já reparáste na música no meu blogocanto?
Beijos.

ana v. disse...

Com o medo de que não seja eterno, perde-se tantas vezes a beleza e o gozo do efémero...

(o medo de arriscar é dos piores dramas que pode acontecer-nos, tens razão)