sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

tesouros


Ainda me lembro do tempo, em que sentada naquela cama enorme, os meus pés não chegavam ao chão. Acordava-se ao som do galo ou ao cheiro forte do café, que se espalhava pela casa.
O pequeno-almoço era tomado na cozinha e a mesa estava cheia de vários tipos de pão e sempre broa de milho. Bebia-se o leite em copos altos de vidro muito grosso. O açúcar era sempre, sempre amarelo escuro.
Depois, depois era a brincadeira por aqueles campos afora. Gritava pelos amigos e íamos subir às figueiras, apanhar os ouriços caídos dos castanheiros, "roubar" uvas à vinha que ficava mesmo atrás do moinho do moleiro, lá bem no alto do monte, saltar muros, colher amoras pretas, enormes e doces, apanhar papoilas e malmequeres brancos e secar as pétalas dentro dos livros, livrarmo-nos dos picos das silvas para conseguirmos chegar aos caracóis, chupar azedas, fazer pontaria às garrafas de vidro com as pedras do caminho, rebolar nos montes...
Depois os almoços. Ai aqueles almoços! Canja da galinha gorda, tirada à vida logo pela manhã, arroz de coelho soltinho, pataniscas de bacalhau, peixinhos da horta (que saudades dos peixinhos da horta!), costeletas de porco salteadas em banha com batatas fritas às rodelas.
Havia quase sempre uma prima, uma sobrinha, uma tia, um parente qualquer naquela mesa do almoço. Comia-se na sala e tínhamos todos lugares marcados. Eu ficava sempre ao lado do avô que costumava dizer enquanto enrolava em bolinhas o miolo do pão, o avô nunca vai morrer, porque Nosso Senhor sabe que ainda cá faço muita falta. E eu acreditava, com um sorriso, naquelas frases sábias. De outras vezes dizia, ouve o que te digo, temos de ter muita cabecinha, porque o dia de amanhã ninguém o viu, nunca mais me esqueci e foi sempre a minha frase de eleição.
Na hora da sesta ouvia-se o romance do Tide. Eu também, que apesar de não perceber patavina daquilo, (só anos mais tarde é que me explicaram o que era o romance do Tide) ouvia tudinho até ao final, que deixava todos no maior suspense para o episódio do outro dia. Desligava-se a telefonia e ia tudo descansar. E que descansos aqueles em que a avó falava do passado de quando trabalhava na casa do Dr. Vilela a tomar conta dos meninos, ela e mais duas irmãs, a Carola e a Kitas, e conheceu o avô que se metia com ela na rua e dizia, que raio comerá esta rapariga para ser tão magra? O que ela lhe respondia eu não vou dizer aqui.

Contava histórias da infância, eram ao todo 6 ou 7 filhos da bisavó Joana, "ebrincavam muito uns com os outros, 'vó? Oh filha, naquela altura não se brincava nem havia brinquedos, ajudava-se a mãe em casa e os rapazes iam pró campo com o pai. Coitadinha da avó! Dizia-me sempre que lá ia nas férias, já sabes que está ali na gaveta de cima, a caixa com a roupa que eu quero levar quando morrer.
Dizia-me aquilo a mim, uma miúda pequena, porque falar da vida e da morte era coisa natural. Nunca te esqueças, está ali.
E infelizmente não me esqueci.
A seguir à sesta, outra vez mais brincadeira, mas mais perto da casa.
Andávamos de bicicleta, de triciclo com atrelado, fazíamos corridas de caracoletas, jogávamos ao berlinde com os bichinhos de conta, saltávamos à corda, jogávamos à malha, à macaca, à cabra cega, às cinco pedrinhas, à mensagem, à mamã dá licença, às estátuas, aos festivais da canção, jogávamos ao loto com feijão frade, à bisca e ao burro em pé. Adorava ajudar"o avô antes do jantar, a limpar as capoeiras, tirando a palha suja e pondo nova, a colher os ovos das galinhas e dos pombos, a cortar erva p'rós coelhos com as navalhas próprias que ele afiava numa lixa, a separar os pintos mais pequenos dos que já eram frangos, a dar de comer ao Dog e as pescadinhas aos gatos e à mais importante deles, a Lita, a apanhar a roupa cheirosa de Clarim, estendida no varal de arame que a Nia tinha lavado no tanque cinzento.

E ele contava histórias de outros tempos, de rapaz novo, como quando era sapateiro, mas aquilo não era sustento p'ra ninguém filha, e então comecei no negócio do azeite.
Contava, como daquela vez que encontrou uma grande cobra pelo caminho e a corajosa Soraia a matou, de como os gatos já sabiam que ele vinha a subir a ladeira e estavam sempre à espera dele, todos os dias aquela hora certa, dos pardais caídos dos ninhos que ele encontrava pelo caminho e que voltava a devolvê-los à mãe, de quando o meu pai era pequeno e das brincadeiras dele com o meu tio, de quando ele lançava foguetes lá do alto do castelo, sempre que o meu pai era campeão nacional, de 100m, pelo seu Benfica. E fui lá sete vezes.

Noutro dia ouvi uma frase que não se encaixa em mim, "nós não somos o nosso passado". Talvez sirva para aqueles que passaram por muito sofrimento, por carências, por abusos e que têm de tentar ultrapassar, de esquecer, de começar de novo e deixar o passado para trás, escondido, enterrado, morto.
Para mim não serve.
Quase todos os dias me lembro deles, foram momentos inesquecíveis passados com pessoas iluminadas.

É no futuro que vou passar o resto dos meus dias, mas é o passado que vou levar comigo.

E hoje não sei porquê, acordei assim.

9 comentários:

Ba disse...

Afinal...n foi só o Marley & Eu que me fez chorar! ;)

Ev@ disse...

Hummmm!!!Estas saudades que se guardam da meninice, são tão saborosas de recordar.

Débora disse...

Patti,
Cheguei ao seu blog através da Mô Gribel.
Que post mais refrescante este das suas memórias de infância! Apesar de eu ter crescido no Brasil certos sentimentos são universais, bem como as saudades dos avós! Obrigada por trazer os ares daqueles tempos de volta! E que foto maravilhosa esta das papoulas com outras flores. Dá até pra sentir o cheirinho da grama!
Um abraço e bom final de semana!
Débora.
(Brasil Below Zero)

Alecrim disse...

Somos passado, futuro, presente. Somos. E este texto é delicioso.

PaulaVH disse...

Olá !

Ao ler este post, foi impossivel nao recordar também eu, os meus tempos de infância em casa da Vó Nita e do Vô Chico, com os meus primos favoritos...
Momentos únicos que deixam saudades todos os dias.

Jinhos

Claudia disse...

Amei! O que me apetecia ler nesta tarde...fez-me recordar um dia mais os meus queridos avós e todo o carinho que sempre me deram.
Estarao sempre presentes no meu coraçao.
bjos

Anónimo disse...

Fizeste-me recordar, com saudade,grandes momentos...obrigada

Helena Bernardo disse...

Só conheci a minha avó paterna, e dela, muitas saudades tenho. Fica-me um consolo: saber que os meus filhos têm uns avós fantásticos (os meus pais!!!) e que um dia recordarão, tal como tu, momentos inesquecíveis de ternura, de alegria, de verdadeiro e partilhado amor...

paulofski disse...

Oh Patti, Sempre se arranja um tempinho, e paciência então tenho paletes, para ler as tuas recordações. Pois vou voltar a contar mais histórias dos meus momentos vividos nas aldeias dos meus avós. Me aguarde...