sábado, 10 de junho de 2017

hoje


... vim com saudades do piano que aqui toca



terça-feira, 13 de maio de 2014

quarto com vista sobre...


O senhor do segundo esquerdo tem uma caspa belicosa, daquela que dá luta acérrima, salpicando gordurosa os ombros do blazer azul. Se resulta para o Ronaldo, resultará para ele, afinal lá no escritório também lhe depositam o salário no BES.
A mulher de cabelo liso e saudável, fácil de desembaraçar, não usa creme. Nem nada. Como tem pouco brilho, tenta agora as gotas que lhe falou a cabeleireira do shopping. A ver vamos. Se não resultar, também não se rala. Está mais preocupada com os valores desacertados que lhe apareceram no último hemograma.

No segundo direito é tudo a meias. Opta-se pela marca branca. Divide-se o champô, o gel e a gilete, até a esponja amarela. São já alguns anos de Lidl, que lhes ensinaram a poupar; quanto maior o frasco, maior o aforro. 
A filha é que não vai nisso; coisas de velhos. O canto esquerdo é dela: champô de morango, creme de leite de aveia para alisar o eriçado dos caracóis e gel de corpo com purpurinas. Agora que vem o verão, tempo de shorts, tops, pops e mini saias, é vê-la desfilar brilhosa e de poros exalantes, entre os corredores dos pavilhões da secundária.

A viúva é do primeiro esquerdo e traz das excursões as amostras desapaixonadas, contendo líquidos apáticos, isentos de um cheiro que as distinga das restantes. Como as viagens que faz. Sempre é melhor do que ficar em casa a sacudir os naperons do sofá, diz no café.
Quando foi a Paris é que as trouxe bonitas. Frasquinhos gordos com rótulos vintage - dissera a companheira de quarto - aromatizados com cheiros da infância, de quando brincava lá na terra, nos campos floridos da casa grande.
Ainda hoje os guarda. Intactos. Abre as mini rolhas de cortiça e inspira de tempos a tempos, para não se esquecer não sabe bem do quê.

When people run in circles, it's a very, very mad world, canta frouxa no duche a inquilina do primeiro direito. Arraigada a um namoro arruinado lá nos 80's de que nunca sarou, tem à vista do olhar o último frasco baço do Eau Jeune de limão e o Tokalon cor-de rosa.
Distraída há muito num novo século, compra indiferente no supermercado os pantene, os nívea e os élseve desta vida. Nem dos cupões se serve.
Amaria antes conseguir cantar o You shoot me down, but I won't fall, I am titanium.
Mas não consegue.

Não tenho tempo de saber o que se passa no rés-do-chão. Fica para a próxima, saber o que mora no parapeito das janelinhas dessas casa-de banho.
Desta grande sala panorâmica, chamam o meu pai para a consulta e eu sigo-o, anestesiando atrás dele o seu Aramis de sempre.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

single lady


Uma das minhas meninas, está doente e não fala.
Não se queixa, não reclama, não diz onde lhe dói.
É da família, tanto como qualquer outra pessoa, porque uma adopção é um acto de amor e o amor tem de ser para a vida.
Os exames foram feitos, as despistagens também, a cirurgia foi ontem e o "bicho" seguiu para biopsia.
Está triste e de olhos infelizes, com ar de cão abandonado e sozinho que nunca perdeu.
Mas que nunca mais vai ser.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

diáfano


Amanheceu a chuva com firmeza.
Vem fazer a lavagem das escamas deixadas pelo tempo seco.
E justifica o seu surgir repentino, com a vontade de asseio dos espíritos ressequidos pelo fastio de outros fenómenos caloríficos.
A mim agrada-me esta lavaria, desde que não se demore e entardeça por aqui muitos dias.

sábado, 21 de setembro de 2013

luminância


São 6.45 e a lua ainda lá está, branca de fazer inveja às nuvens.
Há muito que o calor nasceu; vejo-lhe a cor no telhado das casa do outro lado do monte. Vai estar quente hoje. Despedidas do verão
Mesmo assim, insiste a lua em ficar pelo céu. Teimosias de um planeta secundário que foi cheia ontem e que não tolera o protagonismo a outras estrelas.
Por aqui, vamos até à praia. Para não esquecermos a areia nos pés e o burburinho da espuma, deixado pela última onda tranquila da estação.

domingo, 15 de setembro de 2013

precedência


O que eu gosto deste início dos soprares de setembro.
Diz que é o outono, que ainda lá vem longe, a contar-nos os seus primeiros segredos.

domingo, 10 de março de 2013

conclaves



Só tenho inveja de um tipo de gente; dos que têm fé.
Daquele tipo de fé sobre alguém que existe e nos transcende, que nos criou, nos protege e ora por nós.
Não me faz qualquer sentido. Não encontro maneira.
Era tão mais fácil. Tudo.
Mas tudo mesmo.

sábado, 24 de novembro de 2012

do que fica


O meu avô dizia que nunca ia morrer porque fazia falta a muita gente. E fez.
Faz.
Continua a olhar por mim, a contar-me histórias antigas antes de jantar, comprar-me bolachas de baunilha e rebuçados santo onofre, a dar-me notas de mil escudos ao domingo, passeios nas vinhas, roubar filhos às figueiras bravas e a ter olhos azuis e cabelo de papel branco.
Os nossos mortos nunca morrem.
Mas deixam estes túmulos dentro de nós.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

diz que...



... o Gabriel Garcia Marques não mais voltará a escrever. Perdeu a memória.
É triste. Muito mesmo.
Sem memória não somos. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

you've got the look


Do erro em que descambamos quando classificamos com distinta convicção, o interior de alguém que não conhecemos, nunca vimos senão aquela vez, nem sequer trocamos duas palavras, dissemos olá ou apertámos a mão.
E depois é ver, que no excêntrico dos outros se descobre o excepcional de que carece a nossa banalidade.

terça-feira, 24 de abril de 2012

será que é desta que conheço Almada?

(foto minha)

Eu nem sequer sabia o que era a outra banda. Só a praia da Riviera na Caparica e o Algarve, depois de fazermos muitas estradas para lá chegar, quando ouvi o António pela primeira vez.
Diziam na rádio, que ele era de lá; da outra margem. Eu, uma miúda, queria lá saber de onde ele era.
Ainda hoje, nunca subi ao Cristo rei.
Mas aquela voz; como quem escrevia em voz alta, de quem soletrava com convicção o evangelho para uma multidão de ateus. O arrastado completo das sílabas finais. A respiração pausada entre frases.
Os erres perfeitos.
Aqueles erres...



quarta-feira, 11 de abril de 2012

das leituras


Ontem li a palavra laranjada. Num daqueles livros, com as benditas crónicas deste Senhor.
Fui logo levada para a casa do meus avós, onde ela existia dentro de garrafinhas gordas de vidro baço. No verão bebíamos dezenas. E capilés.
Lanches de papo-secos barrados com manteiga e açúcar, talhadas de marmelada, pesadas cafeteiras de café preto, biscoitos de limão fritos em azeite quente, cavacas e ferraduras de erva doce, colares de pinhões, pevides e figos maduros trepados às árvores.
E avós.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

a ana carolina...


...que é maravilhosa, diz nesta música, que o amor a partiu em tantas pelo chão.
E eu, que só tenho tido tempo para viver e que não pego num lápis para escrever, vai para uma eternidade que me envergonha, embora tenha páginas e páginas - como sempre - registadas nesta minha cabeça, fico a pensar como é que se escrevem frases tão simples e ao mesmo tempo tão difíceis.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

azarujinha-cascais-azarujinha


Nas manhãs durante a semana é muito bom. Mesmo. Somos os do costume. Os que seguem pelo paredão concentrados no ritmo, inspirando aromas de algas e mares. Desfruta-se dos raios de sol que nos secam a pele, escuta-se a música do ipod - cantigas secretas que ninguém imagina que seleccionamos - soletramos baixinho e com o pensamento, escrevem-se frases longas; ininterruptas, sem pontuação.
Fazem-se genuínas promessas de vida e resolvemos ser felizes e sorrir sempre até ao fim dos dias.
É na consciência de curtos instantes de felicidade tola, que tomamos conhecimento que tudo isto é demasiado célere.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

so sorry

(foto minha: camden town-regente canal)

Ontem ouvi na rádio que Londres tinha sido coberta por fortes nevões. Mais de 200 voos cancelados. O caos nos aeroportos. Mais um ano passou - tão rápido - e tudo se repete.
Sorri. Discretamente. Não fosse algum passageiro, sem humor britânico, fulminar-me.
Mais uma vez e sempre, foi Londres no ano passado o meu destino. Mas pela primeira vez em muitas, no Natal. Sonho antigo. Coisas minhas.
Também eu fui vítima dos nevões, dos voos cancelados, dos nervos do check in, das filas no exterior do aeroporto.
Queria lá saber. Que nevasse! Que descesse a temperatura a negativos. Que o Holland Park já não fosse verde. Que acordasse às sete e flocos de espuma me batessem nas portadas. Que os ponteiros do Big Ben escorressem branco. Que desfilassem pelas ruas apinhadas, cachecóis gigantescos, gorros carnudos e botifarras de pêlo com gente lá dentro. Que o chocolate quente me aquecesse as luvas. Que enregelasse a ouvir os coros de Natal. Que houvesse sempre Chelsea e Kings Road. E Camden Town. Que almoçasse às quatro da tarde e já fosse noite. Que calcasse 4 pares de meias. Que fosse Inverno.
Que fosse eu.
Que fosse Londres.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

ele há coisas piores


Uma amiga morreu na praia, disse-me ela noutro dia. Fiquei com pena.
Depois pensei. E tenho andado a pensar. A moer a cabeça com isto da morte dos outros. Que com a minha não quero intimidades. E na praia. Que até nem gosto por aí além.
Ao contrário de outras expressões, inteiras de sensatez, não penso que esta tenha muita virtude.
O que terá assim de tão mau, morrer-se na praia? Não houve tempo para engelhar os pés na areia descalça? A água salgada não chegou a ferrar a pele? Faltou alcançar o barco?
Mas então e a praia?
Afinal ganhou-se a praia.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

folders


Penso que já se nasce assim. Com a cabeça dividida por sectores. Digo eu. Não sei.
A minha é. Ordenada. Com cores, etiquetas, formatos e texturas. Alguns com post-it para não esquecer. Clips presos, notas de rodapé, sublinhados a encarnado, rasuras violentas, papelinhos agrafados no canto.
Parece um arquivo com muitos ficheiros, daqueles metálicos que tinham umas pastinhas penduradas, que rangiam a cada safanão.
Agora preciso de arranjar um sector "miscelânea".
Atirar lá para dentro, à laia de não te rales, tudo o que já não me apetece, o que não vale a pena, aquilo que não penso perder sequer tempo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

segunda pessoa do singular


A minha avó passajava.
Da capoeira - pensava eu - trazia o maior e mais claro ovo, o mais liso e bonito das galinhas ruivas e esquecia-se dos dias, em tardes de chuva envidraçada ou de sol severo, na salinha da costura, a dispor como novas as meias do avô.
- Oh 'vó, como é que tu nunca partes o ovo?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
A minha avó pregava.
Fixava o botão no tecido e deslizava a linha na ponta da língua, enfiando-a na agulha com jeito e à primeira. O nó firme era dado numa única extremidade, e a outra ficava mais curta e solta. Não se pregavam botões à preguiçosa; com duas linhas unidas!
- Oh 'vó como é que fazes para a linha não fugir?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
A minha avó crocheava.
Pegas de caleidoscópio com cores das romaria de verão, que ela fazia nascer naquele instante. Magistrais pedaços de croché em formas perfeitas de losangos, hexágonos e circunferências, de fazer inveja a qualquer catedrático da disciplina.
Pegas perfeitas e rígidas, que não me deixam queimar nunca e que guardo, ali no canto secreto da cómoda que tem bicho.
- Oh 'vó, que nome dás a essas cores todas?
- As avós não se tratam por tu - e sorria.
Na salinha da costura, onde a chuva estalava nas portadas e o sol, invejoso das cores e do brilho daquelas linhas, a agredia queimando-lhe as costas já curvadas, a minha avó passajava, pregava e crocheava ... e sorria.
E eu tratava-a por tu.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

e depois eu


Há uns séculos, quando este blog fez um ano, escrevi ali do lado direito, que "às vezes só me faltava eu".
Das muitas vezes que deparei comigo, assim frente a frente, do outro lado do passeio, num cara com espelho, foi quando me iniciei, aqui, sem querer, a escrever.
Aquilo, de que nós somos muitos ao mesmo tempo, e que vamos renovando, alterando e mudando estes eus todos, sabendo de outros, descartando tantos mais; é tudo verdade.
Mas acontecem-nos no caminho, eus mais atinados do que outros. Os eus em que estamos só nós...e eles.
Já alcancei, entretanto, mais um ou outro.
Mas um dos meus eus mais acertados, é este.
Tentar escrever. Só eu.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

em estado de...


...regresso.