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terça-feira, 29 de setembro de 2009

aqui pelo meu bairro #3


O Onofre, o padeiro cá do bairro é um bocadinho para o picuinhas, mas não deixa de ser um grandessíssimo sonso, o atrevido. Ai dona Amelinha, não se atire assim para dentro do estabelecimento e limpe os pés antes de entrar, ai dona Amelinha, vá lá trocar o baibidól por uma roupa de jeito, que isso não são modos de uma mulher séria se mostrar na padaria, ai dona Amelinha, não respire dessa forma ávida para cima do balcão que me embacia a vitrina, ai dona Amelinha, não se perfume tanto que se me enjoa a doçaria caseira, ai dona Amelinha, não esbugalhe tanto os olhos que ainda deixa cair pestanas no pão mistura e nas broas de centeio, ai dona Amelinha mainãoseioquêmainãoseiquemais.
Bom, já estão a ver onde é que isto vai dar, não estão? Eu dou mais um exemplo.
Noutro dia, encontrei-o na lavagem de carros, ele mais o seu veículo imaculado, um morris marina cor-de-laranja todo jeitoso. Bem educada como sou e com o recato que me é próprio, fui cumprimentá-lo e lá começou ele com o chorrilho de insinuações libidinosas, todo folgazão para cima de mim. Ai dona Amelinha não se chegue tanto ao pára-brisas que me borra o vidro com batom, ai dona Amelinha, não fique assim tão perto da minha cara que me perdigota as faces, ai dona Amelinha, não se enrosque na chapa que me arranha a tinta, ai dona Amelinha, tire lá a mãozinha do manípulo que me destrava a viatura.
O Onofre da padaria, tem ou não tem uma valente tara por mim?
Eu sei, sempre fui assim, tenho este efeito arrebatador nos homens.

Ass: Amelinha (o meu alter-ego)